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4.1 Resultados da Etapa I

4.1.1 Contexto da carreira de EPPGG

A carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental - EPPGG foi concebida em um período de redemocratização e mudanças no serviço público. Ela foi efetivamente criada em 1989, com a publicação do decreto n° 7.834; sendo alterada em 1998, pela Lei nº 9.625 e finalmente regulamentada em 2004, pelo decreto n° 5.176/2004. Atualmente, passa por um período de reestruturação que teve início efetivo em 2008. A carreira de EPPGG teve alguns períodos e momentos marcantes que foram caracterizados em três diferentes fases: 1) fase de concepção da carreira; 2) fase de crescimento e consolidação e 3) agora fase de reestruturação. Cada uma dessas fases será apresentada de forma sintética

110 com objetivo de contextualizar o estudo, mostrando o histórico de criação, mas também como ocorreu sua redefinição, consolidação e impacto no processo de capacitação.

A fase de concepção da carreira é antecedente à divulgação de sua lei de criação em 1989. A proposta e o projeto de concepção foram realmente iniciados em 1982, a partir de um estudo realizado pelo Embaixador Sérgio Paulo Rouanet, a pedido do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), órgão à época responsável pela organização e racionalização do serviço público.

O estudo do embaixador Rouanet, cujo objetivo era comparar a realidade brasileira com a situação de preparação e capacitação dos quadros da gestão pública européia, em especial da França – Escola Nacional de Administração - ENA, culminou em uma proposta para criação de uma Escola de Administração Pública no Brasil. O relatório que foi posteriormente denominado de Rouanet está estruturado em três partes. Na primeira parte do estudo relata-se o quadro brasileiro do sistema de ensino, detalhando as escolas vinculadas a algumas carreiras específicas, os centros de treinamentos de algumas empresas públicas, centros estaduais e ainda a análise de algumas Instituições Acadêmicas.

Na segunda parte do estudo, o Embaixador fez visitas a algumas escolas européias para avaliação de modelos externos. Visitou e conheceu de forma mais detalhada a ENA. No estudo, mostra-se a criação da escola, processo de preparação para os concursos da ENA, forma de ingresso, os sistemas de estágio, classificação e designação de alunos. Em suas conclusões demonstrou ser um modelo adequado de escola e que poderia ser adaptado para o Brasil. Fez análises também do modelo alemão, comparando-o com o francês, mas verificou que não seria recomendado implantar tal modelo, por ser uma estrutura muito descentralizada. Na terceira parte do relatório, Rouanet fez recomendações sobre a forma de organização de uma Escola de Administração Superior Pública e a inserção de alunos no aparelho do Estado. Sugere que esses alunos devem ser incluídos no corpo de altos funcionários da Administração Pública, detalhando forma de ingresso e formação desses profissionais. Na formação propõe a realização de curso inicial para ingresso na carreira em seis semestres.

Para a proposição desse modelo no Brasil, Rouanet fez algumas reflexões sobre o sistema de carreira e a forma de provimento desses profissionais no alto escalão do Governo. Sugere um sistema flexível, que considerasse também a indicação de outros profissionais, e a criação de uma carreira única. O relatório Rouanet sugere então a criação simultânea de uma

111 Escola Superior de Administração Pública e de uma carreira com profissionais altamente qualificados que seriam integrantes da alta direção.

Essas recomendações influenciaram a criação em 1986 da Escola Nacional de Administração Pública – ENAP e a elaboração em 1987 de Projeto de Lei n° 243/87 com a proposição de criação de 990 cargos de Técnicos em Políticas Públicas e Gestão Governamental. Durante a tramitação desse projeto, os cargos foram reduzidos para 960 e sua denominação foi alterada para Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental, voltados para exercício de atividades de formulação, implementação e avaliação de políticas públicas e de atividades de direção, assessoramento. O projeto encaminhado em 1987 teve longo percurso até ser efetivado em lei em 1989. Contudo, em 1988, a ENAP já havia recrutados candidatos e iniciado a formação desses profissionais, antes mesmo da criação da carreira ter sido efetivada em lei. Estes interessados tiveram atuação incisiva para a transformação do projeto de criação da carreira de EPPGG em lei (SANTOS, 1995).

A carreira foi então criada pela Lei n° 7.834 em 1989, mas até sua consolidação passou por diversas transformações e até extinção. Em 1990, foram publicados dois decretos que alteraram a atuação dos EPPGG para as áreas meio. Um ano após, uma lei transforma os cargos ocupados de EPPGG em cargos de Analistas de Orçamento e Planejamento, extinguindo os cargos não ocupados. Somente em 1992 a carreira e os cargos foram reconstituídos a sua forma original, em virtude de avaliação pelo Supremo Tribunal Federal da inconstitucionalidade da lei de alteração e extinção da carreira (SANTOS, 1995 e FERRAREZI e ZIMBRAO, 2006). Essa fase de extinção da carreira e de alteração das atribuições demonstra que a carreira de EPPGG desde sua criação lutou para manter-se na Administração Pública e exercer efetivamente seu papel.

No Governo Fernando Collor em 1990, os concursos públicos para entrada de servidores e preenchimento destes cargos não foram realizados. A retomada dos concursos para a carreira ocorreu no Governo FHC com a instituição pelo MARE de uma agenda de concursos para os 4 anos de mandato do governo. No segundo Governo de FHC, houve extinção do MARE e repasse de partes de suas atribuições para SEGES, e assim ocorreu mais um período de intervalos nos concursos, sendo retomados efetivamente em 2001, com a realização de mais dois concursos. No Governo Lula o ingresso de EPPGG também foi mantido e desde então houve uma agenda regular de concursos. Cada concurso e cada turma de formação foram etapas importantes para a consolidação da carreira ao longo do tempo como será detalhado na seção de capacitação.

112 A fase de consolidação da carreira de EPPGG ocorreu efetivamente com a regulamentação da carreira pelo Decreto nº 5.176/2004. No regulamento da carreira foram consolidados e estabelecidos o papel e atribuições do EPPGG, além de conceitos e definições importantes para o desenvolvimento na carreira. A regulamentação reafirmou a atribuição dos EPPGG voltada para gestão governamental nos aspectos de formulação, implementação e avaliação de políticas públicas, bem como direção e assessoramento em escalões superiores. O papel da carreira de EPPGG é definido no Art. 1 do decreto:

Art. 1º Aos titulares dos cargos de provimento efetivo da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental - EPPGG compete o exercício de atividades de gestão governamental nos aspectos técnicos relativos à formulação, implementação e avaliação de políticas públicas, bem assim de direção e assessoramento em escalões superiores da administração pública federal direta, autárquica e fundacional, em graus variados de complexidade, responsabilidade e autonomia (Decreto n° 5.176 de 10 de agosto de 2004).

A carreira está estruturada em classes e padrões. Classe representa as divisões da carreira, integradas por cargos de idêntica denominação, atribuição e requisitos de capacitação. E padrão seria a posição do servidor em uma escala de vencimentos (nível salarial). Foram definidas quatro classes A, B, C, S; e quatro padrões para cada classe, sendo iniciado pela classe A, padrão I; com exceção da última classe constituída de três padrões. Esses conceitos são a base para a definição da ascensão na carreira.

A entrada na carreira depende de nomeação após aprovação em concurso público de provas e títulos e subseqüente conclusão de curso de formação específico, identificado como a segunda etapa do concurso público. O curso de formação é definido em edital de seleção como etapa obrigatória do concurso, sendo sua estrutura de realização definida pela SEGES e pela ENAP, que realizam a coordenação e execução do Programa de Formação Inicial para a Carreira. Cada curso de formação é denominado por um número de Turma de Formação, sendo que no ano de 2009 finalizou-se a 14ª turma de formação.

O desenvolvimento do servidor na carreira de EPPGG pode ocorrer de duas formas: progressão funcional e promoção. A progressão funcional seria a passagem do servidor para o padrão de vencimento superior dentro da mesma classe, ou seja, passar do padrão I para o II dentro da mesma classe. A passagem de padrão depende de cumprimento de um período mínimo de permanência na classe e a habilitação em uma avaliação específica definida pelo Órgão Supervisor. A promoção, por outro lado, seria a passagem do servidor para as classes superiores. O cumprimento de período mínimo, no último padrão da classe e a habilitação em

113 avaliação específica são requisitos semelhantes à progressão, contudo, a promoção somente é efetivada após a realização de um Curso de Aperfeiçoamento.

Esse curso deve ser integrante do Programa Permanente de Desenvolvimento dos EPPGG – PROPEG. Os conteúdos devem relacionar-se às áreas de conhecimento necessárias para o exercício da gestão governamental, em termos de formulação, implementação e avaliação de políticas públicas e são executados pela ENAP. O regulamento do PROPEG prevê que o servidor para ser promovido deverá realizar 120 horas de atividades formativas oferecidas pela ENAP, acumuladas ao longo de três anos que antecedem o período da promoção. As atividades formativas incluem: disciplinas, oficinas, seminários, palestras, visitas técnicas e outras atividades decididas em conjunto com a SEGES e a ENAP (portaria n° 73 de 18 de agosto de 2006).

O EPPGG pode atuar na Administração Pública federal, direta, autárquica ou fundacional. Tem uma atuação descentralizada em diversos órgãos e entidades, mas possui uma vinculação com seu Órgão Supervisor que é o MP. Os órgãos ou entidades de exercício do EPPGG deverão desenvolver um plano de trabalho para o desenvolvimento e formação específica do servidor. Esse plano de trabalho deverá ser elaborado em conformidade com a metodologia estabelecida pelo Órgão Supervisor. O plano pode ser aprovado pelo Órgão Supervisor e a partir poderá integrar o PROPEG. Não foram localizadas referências destes planos de trabalho que estão previstos no decreto, nem a integração de formações específicas no PROPEG.

Ainda com relação à alocação dos EPPGG, o decreto definiu que o Órgão Supervisor coordenará a definição da unidade de exercício. Estabeleceu alguns critérios que devem ser observados: a) o interesse e necessidade dos órgãos e entidades; b) correlação entre as atividades a serem executadas e as competências e atribuições inerentes ao exercício do cargo de EPPGG. A mobilidade do EPPGG pode ocorrer somente após dois anos de efetivo exercício do servidor no órgão ou entidade, com a anuência destes. Existem alguns casos excepcionais à regra, tais como ocupação de DAS 4, 5, 6. Está prevista também a edição de um regulamento que deverá estabelecer mecanismos de acompanhamento das atividades do EPPGG nos órgãos, durante o período do estágio probatório, para melhor aproveitamento e adaptação. E mesmo após o período probatório, o decreto estabelece que o Órgão Supervisor deve definir critérios a serem observados pelos órgãos e entidades, para assegurar que o exercício dos EPPGG, sem cargos em comissão ou função de confiança, seja compatível com a experiência, qualificação e posição nas respectivas classes profissionais.

114 O decreto ainda prevê o funcionamento de um Comitê Consultivo. Esse comitê formado por seis integrantes da carreira tem por função assessorar o Órgão Supervisor em assuntos relativos à carreira, tais como recrutamento, formação, capacitação, avaliação de desempenho, desenvolvimento e exercício dos integrantes da carreira. Podendo participar da deliberação de outros assuntos, desde que julgados pertinentes pelo Órgão Supervisor.

O regulamentou fez previsão de dois dispositivos que deveriam ser criados para gerenciamento mais efetivo da carreira. O primeiro refere-se à implantação de sistema de acompanhamento profissional da carreira para registro e acompanhamento das necessidades dos órgãos e entidades e à disponibilidade de vagas destinadas aos EPPGG. E o segundo estabelece a realização de processo de mapeamento de competências para a carreira, prevendo nível de complexidade para cada classe, observando as atribuições de atuação. Estes dispositivos previstos no decreto estão em fase de realização e estão incluídos no processo de reestruturação da carreira.

Dessa forma, verifica-se que decreto introduziu mudanças importantes para a carreira no sentido de esclarecer e definir alguns assuntos e questões sobre a carreira e ainda estabelecer diretrizes importantes para o processo de reestruturação. Foi uma etapa importante para iniciar um processo de consolidação e desenvolvimento da carreira. A partir do estabelecimento de algumas diretrizes foi possível perceber que alguns pontos deveriam ser revistos e alguns projetos deveriam ser realizados, dando início à fase de reestruturação da carreira. Esse processo de reestruturação será tratado em seção distinta a fim de dar maior destaque às discussões e propostas que irão delinear a trajetória futura da carreira. A Figura 12 consolida alguns pontos de destaque nesse processo histórico do contexto da carreira.

115 Parte-se, dessa forma, para a próxima seção para apresentar o processo de capacitação voltado para a carreira de EPPGG, tentando apresentar um pouco essa perspectiva histórica e as mudanças advindas com o decreto regulamentar para, em seguida, relatar esse processo de reestruturação.