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CAPÍTULO I MUNDO DO TRABALHO E IMPLICAÇÕES DECORRENTES

1.1 Contexto das Transformações no Mundo do Trabalho

A sociedade de um modo geral é perpassada por valores e ideias seculares, que por muito tempo deram à humanidade um sentido de orientação e verdade. Na atualidade, porém, devido às inúmeras transformações ocorridas – gnosiológicas,

epistemológicas, tecnológicas – tais princípios vêm sendo constantemente questionados, desconstruídos. Isso tudo ocasionou uma ruptura nos paradigmas estabelecidos desestabilizando as formas tradicionais de vida, com graves consequências sociais e culturais que afetaram principalmente o mundo do trabalho e a forma como os sujeitos se percebem, sua identidade. Nesse sentido, cabe problematizar a forma como isto vem acontecendo, visando criar formas de inclusão social nesse novo cenário social.

Pensar na questão do trabalho nos remete a fazer uma breve definição do termo e análise de como ele tem se apresentado ao longo da história da humanidade. Contextualizar isso parece ser importante, pois os sujeitos que tomo como objeto de estudo – os catadores- são considerados excluídos, justamente pelo tipo de trabalho que desenvolvem. No imaginário social ser um catador, embora este também seja um trabalhador, é ser um excluído.

Lessa (2002, p. 27) amaparado na visão ontológica de Lukács define trabalho como uma categoria social, fundante do mundo dos seres humanos. O trabalho é “a atividade humana que transforma a natureza nos bens necessários à reprodução social”. Conforme Suzana Albornoz (1986, p. 10) a palavra trabalho, deriva do latim, tripalium que significa um “instrumento feito de três paus aguçados, algumas vezes ainda munidos de pontas de ferro, no qual os agricultores bateriam o trigo, as espigas de milho, o linho para rasgá-los e esfiapá-los”. E diz, ainda que em alguns dicionários apresenta-se como tripaliare, significando, tortura.

Segundo Carmo (1997, p.15), "podemos definir trabalho como toda atividade realizada pelo homem civilizado que transforma a natureza pela inteligência. Há mediação entre o homem e a natureza: domando-a ele o seu desejo, visa a extrair dela sua subsistência". O ser humano, por este conceito, é o agente da transformação e o trabalho é a sua obra, a fim de garantir a subsistência. E em Carmo (Ibid., p. 16) encontramos a mesma definição de Albornoz (1986) acerca da origem da palavra trabalho: tripalium.

Desde a Grécia antiga o tipo de trabalho ligado à atividade física era exercido por mulheres e escravos, pois tanto este tipo de trabalho quanto as pessoas que o desempenhavam eram consideradas inferiores. Apenas o ócio, trabalho intelectual, a contemplação através da filosofia eram considerados dignos dos homens livres - cidadãos. “O ideal do homem livre, do homem ativo, aparece na

Grécia como sendo antes o do usuário que o do produtor” (ALBORNOZ, 1986, p. 47). Os cidadãos, a elite grega, podiam dedicar seu tempo “à cidade, aos prazeres do corpo ou à investigação e à contemplação das coisas eternas do espírito”, pois o trabalho era realizado pelos escravos (CARMO, 1997, p. 17).

Andando um pouco mais à frente, chegando à Idade Média, em que o pensamento cristão era a idéia dominante da época, o “trabalho era visto como punição para o pecado, que também servia aos fins (...) da caridade, para a saúde do corpo e da alma, (...) afastar os maus pensamentos provocados pela preguiça e a ociosidade” (Ibid., p. 51). O termo ócio (otium) aparece nas sociedades medievais associado ao não trabalho, “livre da necessidade de estar ocupado”. Desta forma, o estar ocupado significa, ao contrário, negar o ócio (nec-otium), termo que conhecemos hoje por negócio. (Ibid., p. 19).

A austera disciplina da vida nos mosteiros era predominantemente voltada a momentos de orações e introspecção. Entretanto, os monges dedicavam algumas horas diárias aos trabalhos manuais, conforme Carmo (1997, p. 24), independente da necessidade material de trabalhar. Surge aí a obrigatoriedade moral do trabalho para ocupação da mente, uma vez que a desocupação é inimiga da alma. Já, com a reforma protestante, o trabalho toma outra concepção: "Há uma ênfase de que a fé deve ser reforçada pelo trabalho. (...) Toda hora desperdiçada redunda em uma perda de tempo que poderia ser empregada no trabalho, assegurando, assim, a glorificação divina”. Neste período o trabalho tem como finalidade, além de expiar os pecados da carne, exaltar a dedicação ao trabalho e o esforço pessoal de cada um. O que influenciava indiretamente o acúmulo de capital, devido ao estimulo em poupar o excedente de capital obtido, uma vez que o desfrute de bens era uma prática condenável. (Ibid., p. 27).

Na modernidade, difundiu-se a ideia do trabalho mediado pela teoria e a ciência. Os iluministas acreditavam que “o homem se afirma por dois caminhos – teórico e prático – que se uniriam na técnica” (Ibid., p. 60). Porém, em Rousseau, Albornoz (1986, p. 60-61) encontra uma afirmação contraria a vários pensadores iluministas, pois para ele a atividade social que transforma a realidade natural e humana – trabalho, técnica, arte e política – servia apenas para “degradar e aviltar o homem”. Pensamento que encontra complementaridade em Arendt (2007, p. 12) para quem “A era moderna trouxe consigo a glorificação teórica do trabalho, e

resultou na transformação efetiva de toda a sociedade em uma sociedade operária”. A ideia de que “o homem se faz a si mesmo e se eleva como ser humano justamente através e sua atividade prática, com seu trabalho, transformando o mundo material, é uma idéia moderna, alheia ao pensamento antigo”. (Ibid., p. 50).

A idade moderna propicia o surgimento de uma revolução industrial, em que o trabalho adota um caráter mais pragmático, operando uma transformação sem precedentes, na vida das pessoas, na forma de apropriação e acumulação de riquezas e no sistema de produção. Diante da necessidade de trabalhadores para operarem as máquinas, que poderiam produzir em maior escala os produtos industrializados, também as relações de produção tomam nova forma, provocando mudanças na vida social.

Com tais modificações os aspectos imediatamente observados foram a dissolução quase total do artesanato e da manufatura, uma massiva migração de pessoas do campo para as cidades, intensa urbanização, novas formas de vida (fim da servidão e da família patriarcal), transformação da atividade artesanal para manufatureira e depois fabril, desemprego e pobreza, exploração dos trabalhadores. Todas estas manifestações afetam diretamente a vida familiar, afastando as pessoas do convívio íntimo diário, em que a vida vai se tornando destituída de sentido. A vida do indivíduo perde a sua autonomia, pois passa a ser determinada por um ritmo e um tempo industrial15.

Na visão de Albornoz (1986, p. 39-40) no mundo industrial o trabalho se transformou numa “espécie de negativo daquele artesanal, ou o seu oposto (...) falta o vínculo entre o trabalho e o resto da vida. (...) se separa totalmente trabalho de lazer, de prazer, de cultura, de renovação das forças anímicas, que deverão ser buscadas no tempo que sobrar do trabalho”.

A revolução industrial devido a produção em larga escala popularizou muitos produtos propiciando que uma parcela maior da população tivesse acesso a bens e produtos que antes eram restritos às elites. Por outro lado, devido a crescente oferta de novos produtos, cria-se uma necessidade maior de consumo, o que leva a obrigatoriedade do trabalho por parte das pessoas, a fim de poderem acessar os produtos oferecidos. Segundo Albornoz (2000, p. 81), "as pessoas trabalham antes para poder consumir do que propriamente para produzir alguma coisa". Esta

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obstinação pelo consumo influenciou e influencia fortemente na atualidade a relações indivíduo-trabalho

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Chegando aos dias de hoje, o que observamos é que o trabalho se apresenta na forma de submissão ao capital, atendendo aos interesses dos capitalistas e dos proprietários e os trabalhadores são vistos, apenas, como uma força de trabalho, como uma mercadoria, “como alegres robôs que não têm efetivo poder de decisão sobre o mundo em que trabalham” (Ibid., p. 41).

O desenvolvimento da tecnologia também proporcionou significativas mudanças e embora ela tenha avançado bastante os que possuem emprego, por saber lidar com ela, trabalham cada vez mais. Costa (1997, p. 301) afirma que o processo de industrialização que possibilitou a mecanização do processo produtivo assumiu uma amplitude nunca vista, devido ao desenvolvimento da robótica. Porém, observa que as fábricas empregam cada vez mais um contingente menor de pessoas, ocasionando “o desemprego estrutural, diminuição constante e irreversível dos cargos nas empresas, colocando em disponibilidade uma parcela cada vez maior da população”. A sociedade capitalista, conforme Vita (2003, p. 17), se apresenta” (...) como um mundo em que o modo de explorar os recursos naturais e as relações que os homens estabelecem entre si são governados pela produção de objetos para a troca – mercadorias – e pela busca sistemática do lucro”.

Numa sociedade em constantes mudanças somos confrontados diariamente por situações complexas que desafiam as nossas capacidades humanas. Nesta aldeia global onde os acontecimentos passam a ser encarados em escala planetária, aumentam os riscos e também as possibilidades dos diversos fenômenos sociais que anteriormente eram vivenciados mais em nível local. Émile Durkheim (2010, p. 108-109) já refletiu sobre isso ao analisar que a sociedade passou de uma organização baseada na solidariedade mecânica para outra de solidariedade orgânica. Na primeira, a vida das pessoas era organizada em função da família e de acontecimentos locais, regras, costumes, tradições, princípios religiosos, laços de parentesco, os quais contribuíam para a formação de uma consciência coletiva que propiciava um sentimento de pertencimento ao grupo e mantinha a coesão social. Na segunda, com o advento da industrialização das sociedades as cidades tornaram-se maiores, as pessoas foram migrando para vários lados, as relações sociais foram se tornando mais complexas e a coesão social passa a ser mantida,

não mais pelos costumes locais e tradições familiares, religiosas, mas pela divisão social do trabalho.

Tais transformações, fruto direto das novas conquistas científicas, dentre as quais, a Revolução Industrial, vão dando centralidade ao trabalho, acarretando uma série de modificações com conseqüências bastante significativas, inclusive negativas, para a organização da vida social e para a subjetividade das pessoas. Karl Marx, em O Capital (2002, p. 524-525), assim descreve as consequências deste processo:

Com o desenvolvimento do sistema fabril e com a transformação da agricultura que o acompanha, não só se estende a escala da produção nos demais ramos de atividades, mas também muda o seu caráter. Torna-se por toda a parte uma diretiva dominante o princípio da indústria mecanizada, de decompor o processo de produção em suas fases constitutivas e de resolver os problemas daí resultantes (...). A maquinaria vai penetrando progressivamente nos processos parciais das manufaturas. A organização rígida e cristalizada destas, baseada na velha divisão do trabalho, dissolve- se, dando lugar a transformações constantes. Além disso, transforma-se radicalmente a composição do trabalhador coletivo, das pessoas que trabalham em combinação. Em contraste com o período manufatureiro, o plano da divisão do trabalho baseia-se no emprego de mulheres, de crianças de todas as idades, de trabalhadores sem habilitação, sempre que possível; enfim, na mão-de-obra barata (...). Isto se aplica não só à produção organizada em grande escala (...), mas também à indústria a domicílio (...) que se converteu hoje na seção externa da fábrica, da manufatura ou do estabelecimento comercial.

Na antiga divisão do trabalho manual as relações de produção, baseadas na solidariedade e cooperação, possibilitavam ao trabalhador a autonomia sobre a organização do seu trabalho com o qual supria as necessidades básicas suas e de sua família. Agora, na moderna divisão do trabalho, o trabalhador perde a autonomia sobre seu espaço e seu tempo de trabalho. Nessa transição para a manufatura moderna, a nova organização do trabalho na sociedade capitalista vai se solidificando e experimentando formas, cada vez mais, concentradas de aproveitamento dos espaços e dos tempos, a fim de melhor explorar a força de trabalho para aumentar a capacidade de produção e obtenção dos lucros.

Oriundos do início do século XX o taylorismo (controle do tempo) e o

fordismo (produção em série) são exemplos emblemáticos disto; ambos marcaram

gerações de trabalhadores que em seu fazer desenvolviam apenas conhecimentos e habilidades parciais, ocasionando a exploração da força de trabalho e a alienação do trabalhador. Como consequências tem-se o aumento das desigualdades sociais – pobreza e desemprego – pois, como já analisava Weber (2003, p. 54) “um excesso

de mão-de-obra que possa ser empregada a baixo preço no mercado de trabalho é uma necessidade para o desenvolvimento do capitalismo”.

Após um longo período, marcado pela organização da sociedade industrial, que fez com que estas mudanças fossem assimiladas e vivenciadas de forma alienante, uma nova configuração global do trabalho muda novamente a forma de relação com o trabalho e a produção. Na década de 1980, profundas transformações, no contexto da emergente globalização, afetam o mundo do trabalho, provocando uma nova forma de inserção produtiva. Tais mudanças ocorreram devido a um salto tecnológico no universo fabril - automação, robótica, microeletrônica – consequência de experiências como a Terceira Itália, Vale do Silício, inovações na indústria alemã e japonesa (ANTUNES, 1995).

A revolução industrial exigia um trabalhador mais técnico e a globalização exige o trabalhador mais criativo, pois o “cronômetro” e a ”produção em série” são substituídos pela flexibilização da produção – especialização flexível (ANTUNES, 1995, p. 15-16). Surgida entre o período pós-Segunda Guerra e a década de 1970 essa nova forma de organização da produção denominada de Toyotismo descarta a acumulação de produtos e matérias-prima e produz conforme a demanda.

O trabalhador, nesta nova configuração do mundo do trabalho, tem o desafio de acompanhar as mudanças, as novas tecnologias e de saber agir diante das constantes transformações. Exige-se um trabalhador que não mais desenvolva apenas uma etapa do trabalho, mas que além de desenvolver as habilidades necessárias ao bom desempenho de suas funções, precisa também tomar como seus os objetivos da empresa e prepara-se para isso, pois esse será um diferencial que poderá mantê-lo empregado. Um profissional que invista nele mesmo para ser mais polivalente, criativo, e comprometido com as necessidades do mercado. Embora a sociedade se torne cada vez mais individualizada há uma valorização do trabalho em equipe e da polivalência. Sobre isso Antunes (2005, p. 53) escreve:

Hoje, muito mais que durante a fase de hegemonia taylorista/fordista, o trabalhador é instigado a se autocontrolar, a auto-recriminar-se e, até mesmo, auto punir-se quando a produção não atinge a meta desejada (chegando até mesmo, em situações extremas como o desemprego e o fechamento de empresas, ao suicídio a partir do fracasso no trabalho). Ou se recrimina e se penitencia quando não se atinge a chamada “qualidade total”, típica da fase da superfluidade, do caráter involucral e descartável das mercadorias, com suas marcas e signos (...).

A partir do que diz Antunes (2005), se pensarmos que esse trabalhador polivalente, dotado de conhecimentos e qualificações diversas, se auto-pune, se auto-recrimina, não é difícil compreender a situação conflitiva vivida pelos trabalhadores que sobrevivem da catação. Além do trabalho que na maioria dos casos ainda é desenvolvido de forma precária, convive ainda diariamente com a desvalorização social como trabalhador, devido ao tipo de trabalho que desenvolve, e como pessoa, pela falta de qualificações, conhecimentos exigidos na atualidade.

A fragmentação e desestabilização das relações de produção têm provocado tensionamentos que descambam em lutas anticapitalistas. Curiosamente, entretanto, os trabalhadores que mais apresentam uma propensão para rebelar-se contra essa situação de precariedade são os trabalhadores mais marginalizados, uma vez que “não tem nada a perder”. Embora os trabalhadores mais qualificados e intelectualizados fossem os que teriam maior capacidade de entender o processo de exploração, por exercerem um papel central no processo de criação de valores e trocas, são os mais facilmente cooptáveis e sucessíveis ao neocorporativismo (Ibid., p. 60). Esta constatação já se fazia presente em Mejía (1996, p. 57-58), quando afirmou que “a classe trabalhadora (...) não tem condições e nem parece estar interessada em acabar com o capitalismo para não ter de perder parte do que conseguiu nesses duros tempos de desemprego e subemprego (...).

Na compreensão de Pinto (2010, p. 83-84) a crise do taylorismo/fordismo, em relação ao avanço das organizações flexíveis, como o toyotismo, deve ser entendida como um processo resultante da introdução das políticas neoliberais na esfera estatal, cujo efeito tem sido “a renuncia a compensações sociais e à coletivização de direitos à totalidade da classe trabalhadora, nos contratos firmados com o empresariado”. No entendimento de Manfredo (1998), a humanidade, atualmente, vive uma época marcada pela crise. Desenvolve-se a consciência de que o mundo prático-sensível está sendo invadido por uma avalanche de novas representações, conceitos, estilos de vida etc. Todas as esferas passam por mudanças e é como se o mundo passasse a existir a partir de agora, dado o tamanho das mudanças, em que tudo é novo. Já está legitimada a idéia de que o capitalismo deve ser vivido como um sistema gerador de desemprego e de explorações, em que o mercado livre e a globalização são a referência em um mundo pós-moderno.

Na atualidade, a Sociologia inclui em seus estudos sobre o trabalho, também a discussão do trabalho não-remunerado, como é o caso do trabalho doméstico, os setores de serviços e as empresas terceirizadas. Bila Sorj (2000, p. 25-26) enfatiza que a Sociologia do Trabalho perdeu um pouco a importância, adquirida nas décadas de 40 a 60. A ideia de que o trabalho constituía a centralidade da vida do homem, vem sendo amplamente discutida. Na atualidade destacam-se as “identidades”, “estilos de vida” e “movimentos sociais”: “o trabalho e a produção perderam sua capacidade de estruturar posições sociais, interesses, conflitos e padrões de mudança social”. Ela assinala que a Sociologia do Trabalho ficou acuada entre dois movimentos teóricos distintos e, segundo ela, insatisfatórios: o primeiro, ainda, baseado na explicação do modelo tradicional, da análise marxista; o segundo que pregava o “fim do trabalho”. No primeiro caso, Sorj diz que parece ser mais um saudosismo da época fordista e taylorista, e, sobre o “fim da história” ela argumenta que “o trabalho, na pluralidade de formas que tem assumido, continua a ser um dos mais importantes determinantes das condições de vida das pessoas. Isto porque “o sustento da maioria dos indivíduos continua a depender da venda do seu tempo e de suas habilidades de trabalho no mercado”. Complementa seu argumento dizendo que fica difícil definir as fronteiras do trabalho e do não-trabalho, devido a grande diversidade de formas como ele se apresenta.

O advento da Globalização, denominada também em seu aspecto econômico de Neoliberalismo, embora tenha proporcionado inúmeros avanços sociais, ocasionou também mudanças conjunturais e, principalmente, estruturais que afetaram substancialmente as relações de produção e, por conseqguinte, o mundo do trabalho. Surgida principalmente na década de 1990, no Ocidente, a Globalização, conecta o mundo todo através de redes de informação (internet, rádio, tv etc – fluxos de informações), vencendo distâncias geográficas - espaços e

tempos.

Para Castells (2003), num processo de transição para uma sociedade infornacional e uma economia global, as condições de trabalho e de vida tornam-se precarizadas para grande parte dos trabalhadores. Embora não se verifique o desemprego de forma direta, há um aumento nos empregos de baixa qualificação, aumentando a desigualdade, os subempregos. Os Negros, conforme Castells (2001), são os que mais ficam em desvantagem no mercado de trabalho diante

dessa nova economia da informação, que enfatiza a necessidades de educação, reduzindo os empregos estáveis que exijam habilidade manual. E esta situação pode ser verificada no caso dos catadores em que a maioria deles é de origem Negra.

Seguindo com Castells (1999), este afirma que, devido a revolução tecnológica da informação, a Crise do capitalismo e do socialismo, e sua reestruração e o Apogeu dos movimentos sociais emerge a Sociedade em Rede, caracterizada por uma Economia Informacional-Global e uma Cultura da

virtualidade. Nesse novo contexto do informacionalismo a geração de riqueza

(produção), o exercício de poder (poder) e a criação de códigos culturais (experiência) passaram a depender da capacidade tecnológica da sociedade e dos indivíduos, sendo a tecnologia da informação o elemento principal dessa capacidade. (Ibid.).

Para o autor surge uma nova sociedade quando há uma mudança estrutural em três esferas: Produção, Poder e Experiência. Na esfera das Relações de produção o Capitalismo infomacional-global está embasado na produtividade (inovação) e competitividade (flexibiliadade). Há uma redefinição da mão de obra: o trabalhador genérico, embora imprescindível ao processo produtivo, é individualmente dispensável e passa a ser substituído pelo autoprogramável, pessoas com habilidades e capacidades técnicas que aprendem por conta própria a dominarem as tecnologias, principalmente as da informação e comunicação. Diminuem as hierarquias, há uma maior flexibilização dos tempos e espaços do trabalho, valorização da educação, principalmente a profissional, em contraposição a rigidez dos processos fordistas-tayloristas (Ibid.).

No que tange às Relações de Poder, ocorre o fim do Estado de bem-estar- social e a autoridade do Estado é questionada. O fim do estado-nação gera um nova