CAPÍTULO III A ORGANIZAÇÃO DOS CATADORES
3.1 Sociedade de Consumo e Preservação Ambiental
Há muito já consensualizou a ideia de que vivemos um período denominado Sociedade do Consumo, na qual se evidencia de forma crescente o aumento do consumo e da abundância. Tal fato, na visão de Baudrillard (2014, p. 13), decorre da “multiplicação dos objetos, dos serviços, dos bens materiais, originando como que uma categoria de mutação fundamental na ecologia da espécie humana”. Isto pode ser observado na medida em “os homens da opulência não se encontram rodeados, como sempre acontecera, por outros homens, mas mais por objectos”. (Ibid.).
(...) O conjunto das suas relações sociais já não é tanto o laço com seus semelhantes quanto (...) a recepção e a manipulação de bens e de mensagens, desde a organização doméstica muito complexa e com suas dezenas de escravos técnicos até ao “mobiliário urbano” e toda a maquinaria material das comunicações e das actividades profissionais, até ao espetáculo permanente da celebração do objecto na publicidade e as centenas de mensagens diárias emitidas pelos mass media; desde o formigueiro mais reduzido de quinquilharias vagamente obsessivas até os psicodramas simbólicos alimentados pelos objectos nocturnos, que vêm invadir-nos nos próprios sonhos. (BAUDRILLARD, 2014, p. 13).
A criação dos objetos não seria problema em si, não fosse o descarte dos mesmos. A destruição destes é na visão de Baudrillard (2014, p. 46) uma das funções preponderantes da sociedade pós-industrial, uma vez que:
A sociedade do consumo precisa dos seus objetos para existir e sente sobretudo necessidade de os destruir. O “uso” dos objectos conduz apenas ao seu desgaste lento. O valor criado reveste-se de maior intensidade no desperdício violento. Por tal motivo, a destruição permanece como 32alternativa fundamental da produção: o consumo não passa de termo intermediário entre as duas. No consumo, existe a tendência profunda para se ultrapassar, para se transfigurar na destruição. Só assim adquire sentido.
Na obra Vidas Desperdiçadas de Zygmunt Bauman (2005), o autor inicia a Introdução contando a história de Ítalo Calvino em Cidades invisíveis (Aglaura e Leônia). Fazendo uma analogia com Leônia que não sabe mais para onde mandar tanto refugo, Bauman pretende mostrar que não se sabe mais o que fazer com o “refugo humano”: as pessoas sobrantes da sociedade do consumo, que não mais se encaixam, devido a falta de recursos para serem consumidores e que por este motivo tornaram-se os “consumidores falhos”. Mas, e a que o autor atribuiu isso? Vejamos:
A produção do “refugo humano”, ou, mais propriamente, de seres humanos refugados (os “excessivos” e “redundantes”, ou seja, os que não puderam ou não quiseram ser reconhecidos ou obter permissão para ficar), é um produto inevitável da modernização, e um acompanhante inseparável da modernidade. (BAUMAN, 2005, p. 12).
Baudrillard (2014, p. 40), outro estudioso da sociedade do consumo enfatiza que em todas as sociedades sempre foi possível observar o desperdício, a gastança e o consumo além do necessário, pois é “no consumo do excedente e do supérfluo que, tanto o indivíduo como a sociedade, se sentem não só existir, mas viver”. Na continuidade cita um trecho da obra de Shakespeare - Rei Lear:
Oh, não discutam a “necessidade”! O mais pobre dos mendigos possui ainda algo de supérfluo na mais miserável coisa. Reduzam a natureza às
necessidades da natureza e o homem ficará reduzido ao animal: a sua vida deixará de ter valor. Compreendes por acaso que necessitamos de um pequeno excesso para existir? (BAUDRILLARD, 2014, p. 41).
Embora o desperdício, o consumo, conforme apresenta Baudrillard (2014), apresente origens alhures, o fenômeno da globalização é apontado por Bauman (2005, p. 13) como o principal propulsor da atual sociedade de consumo, quando este diz que “a globalização se tornou (...) a “linha de produção” de refugo humano ou de pessoas refugadas (...).
Continuando a analogia, Bauman enfatiza: “O planeta está cheio”. E diz que esta é uma afirmação/preocupação muito mais política e social do que da geografia, física ou humana. À construção de uma ordem, fruto da modernidade, que segregou parcelas da população, deslocando-as, tornando-as inaptas e mesmo indesejáveis, somou-se o progresso econômico (que não pode ocorrer sem degradar e desvalorizar os modos anteriormente efetivos de “ganhar a vida” e que, portanto, não consegue senão privar seus praticantes dos meios de subsistência). (BAUMAN, 2005, p. 12).
Sintetizando, Bauman (2005, p. 14) afirma que o ambiente da vida contemporânea está fortemente marcado por dois fatores que pesam fortemente sobre a cultura consumista e individualizante, propiciadas pela globalização: “os problemas do refugo (humano) e da remoção do lixo (humano)”.
Eles saturam todos os setores mais importantes da vida social, tendem a dominar estratégias de vida e a revestir as atividades mais importantes da existência, estimulando-as a gerar seu próprio refugo sui generis: relacionamentos humanos natimortos, inadequados, inválidos ou inviáveis, nascidos com a marca do descarte iminente. (BAUMAN, 2005, p, 14-15).
Neste particular o pensamento de Beck (2003, p. 84) já endossava o de Bauman, ao entender que “o problema central talvez não seja a globalização, e sim a individualização”, que cria o auto-empresário (Beck cita Sennett), o qual, individualizado, “se converte na lata de lixo (...), a garbage can que dele fizeram, em um projeto criativo de si mesmo”. (Ibid., p. 73).
Pode-se depreender daí que é nesta vacância ocasionada pelo esvaziamento do coletivo que Bauman analisa o comportamento da denominada
Geração X. Nascida na década de 1970, esta é fortemente marcada por sintomas de
precedentes. As novas exigências feitas a estes sujeitos eram praticamente inexistentes às anteriores, como, por exemplo, a educação superior que se torna uma condição mínima de inclusão no mundo produtivo. Desaparece também a ideia de uma segurança ontológica, pois “para qualquer um que tenha sido excluído e marcado como refugo, não existem trilhas óbvias para retornar ao quadro dos integrantes. (BAUMAN, 2005, p. 25).
Desemprego, baixas expectativas de trabalho (...) as recomendações aos jovens é serem flexíveis e não muito seletivos, não esperarem demais de seus empregos, aceitá-los como são, sem fazer muitas perguntas, e tratá- los como uma oportunidade a ser usufruída de imediato, enquanto dure, e não como o capítulo introdutório de um “projeto de vida”, uma questão de auto-estima e autodefinição, ou uma garantia de segurança a longo prazo. (BAUMAN, 2005, p, 18).
Dessa forma, parece-nos pertinente o seguinte questionamento ao se pensar na situação dos catadores de materiais recicláveis: e os que já foram mandados embora, onde se encontram e como estão dando conta da vida? Com a
Geração X aparece a ideia de Redundância, de alguém desnecessário, sem
utilidade, que compartilha o espaço semântico “de ‘rejeitos’, ‘dejetos’, ‘restos’, ‘lixo’ – como refugo. O destino dos desempregados (...), o destino do refugo é o depósito de dejetos, o monte de lixo”. (Ibid.).
Bauman (2005, p. 39) enfatiza que neste contexto se forma uma “indústria de remoção do lixo”, ocasionando e, inclusive, exigindo uma destreza e uma proficiência na remoção do lixo.
Os coletores do lixo são os heróis não decantados da modernidade. Dia após dia, eles reavivam a linha de fronteira entre normalidade e patologia, saúde e doença, desejável e repulsivo, aceito e rejeitado, o dentro e o fora do universo humano (...)diferença entre o admitido e o rejeitado, o incluído e o excluído. (BAUMAN, 2005, p. 39).
Podemos entender como sugere Bauman que os catadores de materiais recicláveis constituem parte da “população excedente” (...), uma variedade de refugo humano, uma vez que, conforme o autor (2005, p. 53):
Numa sociedade de produtores, essas são as pessoas cuja mão-de-obra não pode ser empregada com utilidade, já que todos os bens que a demanda atual e futura é capaz de absorver podem ser produzidos – e produzidos com maior rapidez, maior lucratividade e de modo mais “econômico” – sem que elas sejam mantidas em seus empregos.
Seguindo o raciocínio de Bauman (2005, p. 53), “numa sociedade de consumidores os catadores de materiais recicláveis são os ‘consumidores falhos’ – pessoas carentes do dinheiro que lhes permitiria ampliar a capacidade do mercado consumidor”. No entanto, “os consumidores de uma sociedade de consumo (...) precisam de coletores de lixo, e muitos, e do tipo que não evitará tocar e manusear o que já foi destinado ao monte de dejetos”, uma vez que “os próprios consumidores não se dispõe a fazer o trabalho dos coletores”. (Ibid., p. 76):
Foram educados para se melindrar com o tédio, o trabalho penoso e os passatempos enfadonhos. Estavam sintonizados com o mundo prêt-à-porter e da satisfação instantânea. É nisso que consiste o consumismo – e ele decerto não inclui o desempenho de tarefas sujas, cansativas, aborrecidas ou apenas desinteressantes, “sem alegria”. A cada triunfo sucessivo do consumismo, cresce a necessidade de coletores de lixo, enquanto se reduz a oferta de pessoas dispostas a engordar suas fileiras.
Traçando um paralelo com as sociedades de castas, em que “somente os intocáveis podiam (e deviam) manusear coisas intocáveis”, Bauman (2005, p. 77) observa que no mundo contemporâneo da sociedade do consumo “as terras e a população foram arrumadas numa hierarquia de castas”. Embora não se tenha o intuito de aprofundar a questão neste estudo, pode-se perguntar: haja visto o “nojo” atribuído ao catador, devido ao trabalho que desenvolve, somente amenizado pelos ascéticos discursos ambientais, serão os catadores de materiais recicláveis os
intocáveis da civilização ocidental?
Para além da problemática enfatizada pela sociedade do consumo outros fenômenos que têm tomado proporções alargadas, influenciando discursos e práticas, são respectivamente o da crise e da conscientização ambiental.
O agravamento da crise ambiental se deve, em grande medida, ao crescente aumento dos processos de degradação ambiental, fruto direto também da sociedade do consumo, que necessita constantemente de matéria-prima para produzir seus artefatos a fim de manter girando as engrenagens que constituem o ciclo do consumo. Dessa forma, mais do que nunca se faz necessário questionar a racionalidade e os paradigmas que tem sustentado o crescimento econômico. (LEFF, 2012, p. 15). Tornada mais evidente a partir dos anos 1960, a crise ambiental, que refletiu os usos inadequados dos padrões de produção e consumo,
sentiu a necessidade de um amplo debate social – teórico e político – na busca por estratégias de desenvolvimento, baseadas na sustentabilidade.
O princípio de sustentabilidade surge no contexto da globalização como a marca de um limite e o sinal que orienta o processo civilizatório da humanidade. A crise ambiental veio questionar a racionalidade e os paradigmas teóricos que impulsionaram e legitimaram o crescimento econômico, negando a natureza. A sustentabilidade ecológica aparece assim como um critério normativo para a reconstrução da ordem econômica, como uma condição para a sobrevivência humana e um suporte para chegar a um desenvolvimento duradouro, questionando as próprias bases de produção. (...) a racionalidade econômica baniu a natureza da esfera da produção, gerando processos de destruição ecológica e destruição ambiental. (Ibid..).
De forma semelhante à devastação desencadeada nos sistemas ecológicos, ambientais, problematiza-se também a degradação dos diversos sistemas de vida, que tem afetado as formas tradicionais de vida, com profundos reflexos para a subjetividade das pessoas.
O “mundo civilizado” de hoje, no qual mais vale o ter, o desperdício e a ostentação do que a preservação, o uso adequado e racional das coisas da natureza e de nosso potencial mais genuinamente humano, está chegando ao limite máximo suportável para a população mundial. Perdemos a capacidade dialética da vivência da nossa pertinência e “ad-miração” da natureza. Perdemos a capacidade de nos indignarmos frente às injustiças e às destruições de todas as ordens e níveis. Perdemos, assim, nosso endereço vital. Precisamos ir à procura dele humanizando-nos. Esse mundo utópico não o encontramos, devemos estar muito consciente disso, no mundo do mercado, do neoliberalismo e da globalização, mas no mundo do cuidado e do amor para com todos os seres. (FREIRE, 2003, p. 15).
Neste sentido, há uma efervescência de discursos ambientais que se proliferam de forma onipresente, desde as rodas de conversas informais, a agendas políticas que culminam em campanhas de educação ambiental ou na proposição de leis que regulem a intervenção humana no meio ambiente. Nos encontros de catadores percebe-se uma politização do lugar e do sujeito catador quando estes entoam mantras como: “um, dois, três, quatro, cinco mil, estamos defendendo a
natureza no Brasil”48. Tanto as práticas como os discursos vão constituindo um
saber ambiental que tem suas raízes na organização ecossistêmica da natureza, incorporando também a subjetividade e a ordem cultural: “desta maneira, a natureza
48
Por ocasião do Seminário Reciclagem Popular na Garantia de Direitos, realizado em 31/03/2016, em Gravataí/RS.
como objeto de apropriação social é sempre uma natureza significada”. (LEFF, 2012, p. 192).
Entende Leff (2012) que o saber ambiental e o saber psicanalítico não avançam por fusão, mas por diferenciação, porque ambos desnaturalizam a natureza e se inscreverem na ordem do simbólico; ambos “combatem as postulações científicas (estruturalistas) que pretendem eliminar o sujeito numa crescente objetividade do conhecimento” (Ibid., p. 194).
Na emergência do saber ambiental podemos encontrar uma gênese similar ao advento do sujeito: num primeiro momento reconhece no reflexo imaginário do discurso ecologista seu corpo desmembrado e fracionado. Esse ambientalismo infantil busca recompor suas mutilações no olhar especular integrador que a teoria de sistemas, o pensamento da complexidade e os métodos da interdisciplinaridade oferecem. O ambientalismo entra em diálogo com os paradigmas estabelecidos, busca seus campos de complementaridade e, a ponto de identificar-se com seu outro dominador no discurso do desenvolvimento sustentável, descobre a força transformadora de seu saber, sua pulsão vital e seu desejo de emancipação; reconhece a falta de conhecimento que o impele a diferenciar-se e a não confundir-se com outros saberes. Por isso, o saber ambiental é a desconstrução dos saberes consabidos e construção, a partir de sua alteridade, de novos conhecimentos, de novas utopias, de novos direitos e novas identidades que impulsionam a história para frente. (Ibid., p. 193).
Tais discursos e práticas constituintes dos saberes ambientais, que a princípio poderiam denotar um aumento da conscientização ambiental, por parte da humanidade, revelam, na visão de Dufour (2005, p. 59), a busca por um Grande Outro. Na sociedade pós-moderna, diz o autor, houve um esvaziamento dessa figura de referência. Assim, a Natureza e o Mercado passam a preencher essa necessidade. Vejamos algumas passagens da obra de Dufour (2005) que ilustram esta situação:
Na Pós-modernidade não há mais Outro no sentido do Outro simbólico: nada mais virá nos salvar, não há mais na pós-modernidade narrativas soteriológicas (parte da teologia que trata da salvação do homem), enquanto a modernidade delas era farta. (...) Grandes narrativas: religiosas (um Deus que salva), Estado-nação (terra, sangue, pátria-mãe) e emancipação do povo trabalhador. A natureza candidata a grande Sujeito. (DUFOUR, 2005, p. 59).
A pós-modernidade não tem figuras apresentáveis de grande Sujeito a propor (...) o novo sujeito não é mais sujeito de Deus, do rei ou sujeito à República, mas sujeito dele mesmo. (Ibid., p. 71).
Se o Mercado aparece como o novo grande Sujeito, talvez seja apenas em razão de os grandes Sujeitos precedentes terem jogado a toalha, inclinando-se diante do novo mestre: o que era instituído como o guardião político da instância coletiva (a República) se põe a renunciar a seu papel de controle vigilância. (Ibid., 82-83).
Desta forma, é possível compreender como estes dois temas – o consumo e o ambiental – tornaram-se fenômenos tão presentes na atualidade, internalizados nos saberes, discursos e práticas, individuais e sociais. E o pensamento de Dufour (2005) parece estar sintetizado na seguinte afirmação de Leff (2012):
O saber ambiental olha assim a dispersão do discurso da sustentabilidade e das posições subjetivas que sustentam suas narrativas. Abre-se assim um campo de confronto de identidades, sentidos e práticas do ambientalismo. E ali se forjam novas identificações com o saber no campo acadêmico; fundam-se novas identidades culturais e se constituem novos atores sociais em relação com as significações diferenciadas dos discursos da sustentabilidade.
Conforme Dufour (2005, p. 107) “é no espaço vacante deixado por esta queda atual dos ideais do eu e do supereu em sua face simbólica que se entranha o Mercado”.
(...) O que o neoliberalismo quer é um sujeito dessimbolizado, que não esteja mais nem sujeito à culpabilidade, nem suscetível de constantemente jogar com um livre arbítrio crítico. Ele quer um sujeito incerto, privado de toda ligação simbólica; ele tende a instalar um sujeito unissex e ‘não- engendrado’, isto é, sem o arrimo de seu fundamento exclusivamente no real, o da diferença sexual e da diferença geracional. Sendo recusada toda referência simbólica suscetível de garantir as trocas humanas, há apenas mercadorias que são trocadas num fundo ambiente de venalidade e de niilismo generalizados no qual somos solicitados a tomar lugar. O neoliberalismo está realizando o velho sonho do capitalismo. Não apenas ele estende o território da mercadoria até os limites do mundo (o que está em curso sob o nome de mundialização), no qual tudo se tornou passível de ser mercadoria (a água, o genoma, o ar, as espécies vivas, a saúde, os órgãos, os museus nacionais, as crianças...). Ele também está recuperando velhas questões privadas, até agora deixadas à maneira de cada um (subjetivação, personação, sexuação) para fazê-las entrar na órbita da mercadoria. (DUFOUR, 2005, p. 208).
Para além das questões como o aumento da conscientização, no caso da natureza, e da alienação, no caso do consumo, o que está em jogo, ou o que comanda o jogo, é que ambos buscam personificar esse grande Sujeito, esse Outro. O que me leva a afirmar isso é o fato de perceber, por exemplo, que os discursos em favor do meio ambiente nem sempre são acompanhados de práticas sustentáveis. Basta observar o discurso dos catadores que muitas vezes dizem que estão limpando o planeta, mas em suas casas, ou mesmo na associação/cooperativa a que pertencem, há, literalmente, lixo espalhado. Em tese o que eles catam seriam, a princípio, materiais que podem ser novamente reutilizados
pela indústria, o que não justificaria a sujeira49, a falta de organização do ambiente. Isso por si só denota uma falta de consciência em relação ao que se propaga no discurso do “ambientalmente correto”: limpar o planeta começa por limpar o seu ambiente próximo. Porém, devo fazer aqui a ressalva de que a concepção de limpeza é ela própria uma questão cultural, portanto subjetiva.
Para não falar apenas dos catadores, que poderia inclusive ser tomado como uma “culpabilização” destes sujeitos, podemos nos tomar como objeto de estudo e perceber que nossa suposta consciência – porque estudiosos, pesquisadores - acerca dos princípios de sustentabilidade, não evitam que compremos, acumulemos, muitas vezes, por impulso. Basta pararmos diante dos nossos guarda-roupas para observarmos quantas das roupas e calçados realmente usamos, necessitamos. Descartar o suposto “supérfluo” é difícil porque mesmo estando ali na condição de objeto, mesmo sem valor de uso, estes parecem nos dar um pertencimento. Se isso for uma verdade mais facilmente observável às mulheres, olhemos então para a lixeira de nossas casas, nossos espaços de trabalho, mesmo quando temos por hábito fazer a separação entre sólidos e recicláveis. Enxergaremos ali a aplicação prática do princípio da suficiência50, que tanto discursamos?
Retomando a questão apontada por Dufour (2005) sobre a necessidade de ontológica de um grande Sujeito, é possível observar que o mundo do consumo materializou sua expressão maior na edificação do Shopping Center, o qual transformou-se no templo do consumo, como diz Frei Betto, na intenção de mostrar que estes presentificam o lugar que era anteriormente encerrado nas igrejas:
Essa apropriação religiosa do mercado é evidente nos shopping centers, tão bem criticados por José Saramago em "A Caverna". Quase todos possuem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas. São os templos do deus mercado. Neles não se entra com qualquer traje, e sim com roupa de missa de domingo. Percorrem-se os seus claustros marmorizados ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Ali dentro tudo evoca o paraíso: não há mendigos nem pivetes, pobreza ou miséria. Com olhar devoto, o consumidor contempla as capelas que ostentam, em ricos nichos, os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode pagar à vista se sente no céu; quem recorre ao
49
Esgoto correndo a céu aberto, restos de alimentos e de objetos, entre outros.
50
O princípio da suficiência refere-se a iniciativas que assegurem um desenvolvimento humano voltado a uma prática e uma economia de cooperação - caso da economia popular e solidária – em que prevaleça “a vivência de uma simplicidade voluntária assentada no princípio da suficiência e para iniciativas ambientais, que integrem a ecologia ambiental com a ecologia social”. (FIGUEIREDO, ANDRIOLI e FRANTZ, 2013, p. 103).
crediário, no purgatório; quem não dispõe de recurso, no inferno. Na saída, entretanto, todos se irmanam na mesa "eucarística" do McDonald's. (FREI BETTO, 2001).
Baudrillard (2014, p. 65) entende que este apelo ao sagrado, a busca da salvação por meio dos objetos, é imposta pela lógica de classe. Vejamos:
Ora, no consenso universal, a salvação pela graça avantaja-se sempre em valor à salvação pelas obras. É em parte ao que assistimos nas classes inferiores e médias, onde a “prova pelo objecto”, a salvação pelo consumo, se esfalfa por atingir um estatuto de graça pessoal, de dom e de