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2 O MOVIMENTO TRANSPESSOAL E A PERSPECTIVA INTEGRAL

4.4 CONTEXTO DE PARTO: DOMICILIAR COM ENFERMEIRA(O)

Além da parteria tradicional, outro cenário que surge em oposição ao contexto hegemônico, é aquele nascido de dentro do próprio modelo biomédico, qual seja, composto sobretudo pelas atividades de obstetrizes, enfermeiras obstetras e doulas, cuja descrição do trabalho, tentaremos delinear de forma breve, bem como suas implicações para os processos de humanização e crescimento pessoal.

Existem na literatura referências importantes que estabelecem, com razoável grau de detalhamento, o processo histórico de emergência deste campo/paradigma da assistência ao parto, no confronto com o modelo hegemônico centrado na figura do médico e da instituição hospitalar. Ao leitor interessado no aprofundamento das questões sociohistóricas envolvendo a construção deste território de nascimento, sugerimos os trabalhos de Diniz (2001), Tornquist (2004), Fahy (2008), Rohden (2009) e Carneiro (2011).

Este contexto de parto apresenta bastante proximidade com um ideário geral de atenção ao parto, vinculado em nível sócio-institucional à política pública de humanização da saúde, a qual, dentre outros elementos, procura tratar essencialmente, seja de melhores condições de trabalho seja de formação adequada aos profissionais, visando à melhoria na qualidade da assistência aos usuários (TORNQUIST, 2002). Trata-se de uma política transversal formatada para atravessar todo o sistema de saúde (BRASIL, 2008). Portanto, apesar de ser aqui tematizada no contexto domiciliar, em termos do ideário, a luta pelo parto domiciliar está imersa neste cenário mais amplo da humanização da saúde no Brasil.

Apesar desta vinculação entre política de humanização em saúde e parto domiciliar, o mais próximo deste último que a política chegou a normatizar e a investir foram os Centros de Parto Normal (Portaria nº 985/GM, de 05/08/1999), fruto da iniciativa do médico sanitarista David Capristano da Costa Filho, que idealizou a construção de uma casa de parto com o atendimento por enfermeiras obstetras. Conforme indica Pereira (2007, p. 36, grifos nossos),

[...] Cabe ressaltar que na Portaria nº 985/99, a designação desta nova unidade de atendimento ao parto normal muda de casa de parto para centro de parto normal. A designação “casa de parto” traz uma concepção de assistência ao parto que procura resgatar a intimidade e a afetividade do lar, assim como a centralidade da família e a representação do parto como um evento natural fora do ambiente hospitalar. Embora tenhamos serviços de saúde denominados de Casa, como Casa de Saúde, por exemplo, supomos que a opção do Ministério da Saúde de denominar as casas de parto como centros de parto normal na Portaria GM nº 985/99 possa estar relacionado às resistências e severas críticas que David Capistrano vivenciou com a implantação da Casa de Parto Sapopemba, de forma isolada e comunitária [...].

Na realidade, até o advento da medicina moderna, as mulheres vinham gestando e parindo seus filhos em casa, e todos os eventos concernentes ao período do CGP eram significados a partir de uma cultura fundamentalmente feminina, que chegou mesmo a caminhar paralela ao olhar da medicina. A ocorrência de partos difíceis ainda mobilizava os laços de compadrio e amizade, e denotava uma participação comunitária, tão intensa quanto o grau de dificuldade do processo. Nos dizeres de Souza (2005, p. 21-22),

[...] Valendo-se de rezas e benzeduras, bem como de instrumentos do universo doméstico – como a tesoura para cortar o cordão umbilical, a bacia e a garrafa de cachaça para limpar a tesoura, o azeite, óleo ou banha para as massagens – o parto era um acontecimento que acionava a capacidade de solidariedade entre mulheres, que contavam com o auxílio de parteiras, chamadas também de “aparadeiras” ou “comadres” [...].

Porém, o domínio do território pelos “parteiros-cirurgiões”, e a consequente medicalização do parto, praticamente aboliu esta modalidade de cuidado. O excesso de intervenções, dentre outros elementos, produziram movimentos de oposição, particularmente após a segunda metade do Séc. XX. Diz-nos Souza (2005, p. 32),

Contudo, foi nos anos 70 que as discussões em torno do parto e do nascimento constituíram-se em um debate mundializado. Nos Estados Unidos, nesse período, diversos movimentos contraculturais aliaram-se ao movimento feminista em defesa do “parto natural”, do nascimento domiciliar e da proposta de estabelecimento de centros de nascimento desvinculados dos hospitais. Posteriormente, num contexto fortemente marcado por debates internos ao campo médico acerca da chamada “epidemia de cesáreas”, agências internacionais de desenvolvimento e saúde respaldadas em “evidências científicas”

que demonstravam os riscos associados à excessiva “tecnologização” e “cirurgificação” do parto, passaram a apoiar algumas das propostas defendidas por estes grupos, acolhendo críticas de pesquisadores, profissionais e ativistas sociais [...].

Ao introduzir o tema do parto domiciliar urbano, “natural e independente”, Souza (2005, p. 7-8) vai dizer que

[...] estamos diante de um fenômeno que, em larga medida, se articula com a emergência de novas formas de espiritualidade e de práticas terapêuticas não-convencionais que surgiram no final do milênio em vários países ocidentais. Caracterizada pela confluência de diferentes tradições esotéricas e místicas orientais e ocidentais e

por uma ampla variedade de disciplinas terapêuticas e

psicoterapêuticas, nutricionais, corporais e espirituais, esta reconfiguração do campo terapêutico e religioso surge no contexto brasileiro a partir da década de 80, nos grandes centros urbanos, principalmente entre camadas médias.

Neste ponto cabe uma distinção importante. No parto domiciliar urbano, ao que parece, somada à ideia do parto como algo “natural”, surge um sentido de independência, de autonomia, de direitos sobre o corpo; um sentido libertário e subversivo da ordem (RODRIGUES, 2015). No parto domiciliar das parteiras tradicionais, sobretudo as atuantes em áreas rurais com pouca cobertura de maternidade, parece emergir um sentido mais ligado ao aspecto religioso ou espiritual, em sentido mais amplo, normalmente integrado ao saber popular, a depender da maneira como esta dimensão é vivenciada em cada cultura local. De todo modo, em ambos os casos, a casa parece remeter a assistência à consideração de aspectos mais integrais, holísticos.

Neste sentido, ao retratar sucintamente a experiência de uma comunidade norte-americana, liderada pela midwife Ina May Gaskin, cujos partos estavam alinhados com um pensamento holístico, a pesquisa de Santos (2002, p. 179) informa que

Gaskin nos ensina que muitas sementes para futuras ações e relacionamentos são plantadas durante o parto e nascimento. Neste momento casamentos são desfeitos ou reforçados, as mulheres formam idéias duradouras sobre sua própria força ou fragilidade, sobre a força ou fragilidade de seus parceiros e impressões duradouras sobre a personalidade da criança que está nascendo. A mulher que é gentilmente acolhida por uma outra mulher, parteira ou enfermeira, aprende por “absorção” algumas das mais importantes

habilidades que ela necessitará como mãe. Quando ela é banhada com doçura e amor, ela estará mais apta a agir desta forma em situações onde sua paciência é testada.

Vale dizer que, no Brasil, as(os) profissionais que atuam de frente, na defesa deste modelo de assistência, são as(os) enfermeiras(os) obstetras e obstetrizes. As primeiras têm a sua formação através de graduação em enfermagem, mais uma especialização (tal como os médicos obstetras), enquanto as segundas são formadas “em graduação de entrada direta, [através do] curso de Obstetrícia oferecido pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) desde o ano de 2005”. (CASTRO et al., 2017, p. 314). Estas últimas profissionais também são regulamentadas pelo Conselho Federal de Enfermagem desde Abril/201323. Contudo, importa destacar que muitos(as) médicos(as) obstetras e neonatologistas já se mostram sensíveis a esta causa.

Outra classe de profissionais que se destacam neste cenário de humanização do parto e nascimento, mais particularmente no cenário domiciliar (embora possam e efetivamente atuem também em hospitais) são as doulas. A palavra doula vem do grego "mulher que serve". Em essência, trata-se de uma pessoa, quase sempre do sexo feminino, que promove um apoio psicofísico às mulheres antes, durante e após o parto. Seu trabalho não se confunde com o da equipe técnica (parteira, enfermeira(o), obstetriz ou médico(a)), nem substitui a presença dos familiares.

Segundo Paula (2018), uma das autoras do filme “O Renascimento do Parto” (2013),

A doula é uma profissional treinada para oferecer apoio físico e emocional para a parturiente no momento do parto, através de elogios, afirmações positivas, contato físico (se a gestante desejar), massagens e outras técnicas não farmacológicas de alivio da dor, explicações do que está acontecendo, sugestões de posições mais confortáveis, orientação de exercícios com finalidades específicas, respiração, ambientação (luzes, músicas, aromas, etc), etc. Antes do parto, a doula pode preparar a gestante para o parto normal através de exercícios, orientações, indicações de profissionais e maternidades mais adequadas às expectativas da gestante, terapias alternativas (se fizer parte de sua formação), empréstimo de livros e DVDs explicativos, etc. Existem também as doulas pós-parto, que irão auxiliar nos assuntos relativos à amamentação, maternidade e cuidados com o bebê.

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Vemos, portanto, neste universo de assistência ao parto, dentre os princípios e valores que norteiam suas práticas, a importância tanto do bem-estar quanto da autonomia da família, mas especialmente da mulher grávida ou parturiente, ao se garantir que possa escolher a maneira de parir, o que pode ficar consignado por escrito em um plano de parto. Assim, luta-se pelo protagonismo da mulher, pela garantia de seus direitos, tentando romper com o automatismo do modelo médico excessivamente intervencionista. Em razão de questionar a visão do paradigma hegemônico acerca do humano, podemos enxergar uma afinidade grande deste contexto de parto com o quadrante cultural do modelo de Wilber (2006).

Entretanto, cabe destacar que, em vista de garantir a autonomia da mulher, conforme assinala Bourguignon (2014), este contexto requer que ela obtenha a chancela biomédica de “gestante de risco habitual”, do contrário, será considerada de alto risco, e todo o investimento humanizante terá de ser realizado dentro do contexto hospitalar, levando em conta seus protocolos, suas relações de poder, e sua natureza centrada na noção de “risco”. O hospital em si não é tanto o problema, afinal, é onde se contam com os recursos tecnológicos mais avançados para tratar os problemas de saúde, o que pode ser muito útil e, em alguns casos, extremamente necessários, para se manter a vida nas dimensões objetivas da realidade. Como já dissemos, a questão são os excessos de intervenções, que ainda fazem parte, em grande medida, da própria educação dos profissionais formados no universo biomédico, muitos dos quais enxergam a humanização justamente como o direito de acesso aos recursos tecnológicos disponíveis, os quais são gerenciados usualmente pelo profissional de medicina.