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2 O MOVIMENTO TRANSPESSOAL E A PERSPECTIVA INTEGRAL

4.1 VISLUMBRANDO O PARTO NOS QUADRANTES DO MODELO

Olhar o parto nos quatro quadrantes implica reconhecer esse evento nas perspectivas subjetiva, comportamental, cultural e social, tal como Wilber (2006) as define. Iremos nos referir aos quadrantes vistos na Figura 3 por meio de suas abreviações: SE, SD, IE e ID, para falar, respectivamente, das visões dos quadrantes Superior Esquerdo, Superior Direito, Inferior Esquerdo e Inferior Direito.

Na primeira destas perspectivas, localizada no SE, vamos identificar as percepções interiores do fenômeno, as vivências, a subjetividade implicada na experiência. Tanto a gestação quanto o parto/nascimento são, para a mulher, experiências que mobilizam diversas emoções, vários aspectos cognitivos (desde os perceptuais mais básicos até visões mais complexas da realidade), via de regra tornando-a mais sensível, e abrindo-a para dimensões mais profundas da existência, normalmente relacionadas a aspectos de seu desenvolvimento que ainda não foram transcendidos e integrados no Self. Assim, o parto e nascimento se colocam como oportunidades para o casal, e a mulher especialmente, realizar uma conexão mais profunda consigo, com os outros e com o Sagrado. Já para o feto, há uma gama de experiências subjetivas profundas que são por ele experimentadas, à luz do SE.

Da perspectiva comportamental do parto, situada no SD, vamos observar as manifestações físicas no corpo da mulher, as transformações que ocorrem no organismo feminino para gestar, parir e amamentar o novo ser que vem à luz. São mudanças hormonais, físicas, repercutindo no padrão alimentar, no ciclo de sono- vigília, na forma de se comportar e se relacionar frente aos demais membros de sua convivência. Por esta perspectiva pode-se olhar o comportamento da mulher no parto, sua busca instintiva por posições mais verticais e lugares menos iluminados para parir, os quais favorecem a secreção dos “hormônios do amor” (ODENT, 2000),

os quais favorecem o trabalho de parto e o próprio nascimento do bebê. Para este último, a visão do quadrante SD vai nos informar sobre os movimentos fetais e a complexidade de seus sentidos em processo de desenvolvimento; adentramos aqui o campo dos estudos do comportamento fetal, via ultrassonografia, observação de padrões de movimentos, expressões faciais e desenvolvimento neurológico etc. (GUIMARÃES FILHO et al., 2013).

Na perspectiva cultural do quadrante IE, vamos encontrar os modos histórico-culturais de concepção de parto e nascimento, as visões de mundo acerca desses eventos, os jogos simbólicos e as relações de poder envolvidas. Como exemplo, Davis-Floyd (2001) observa como a assistência proposta pelo modelo obstétrico atual, permeado pela visão tecnocrática, sobrevaloriza as tecnologias da assistência, enxergando a mulher como um corpo defeituoso que necessita da intervenção biomédica. Do mesmo modo, sob esta visão, o feto e o bebê são concebidos como corpo sem subjetividade, organismo ainda sem uma mente, e muito menos um espírito, minimamente constituídos. Por outro lado, pode-se enxergar o parto/nascimento pela visão humanística, e mesmo por uma visão holística (DAVIS-FLOYD, 2001) que inclui o espírito e os campos de energia, emitidos pelo ambiente no qual o fenômeno se dá. Sob a perspectiva do IE, situam- se as visões da chamada Medicina Baseada em Evidências, a perspectiva feminista de valorização da autonomia da mulher e a de movimentos ecológicos.

O parto visto sob a perspectiva do quadrante ID reflete-se nos aspectos institucionais, sociais, ambientais, relacionados ao fenômeno. Intimamente relacionada com o IE, por esta lente é possível observar as estruturas sociais que dão sustentação às visões de mundo, relacionadas a parto e nascimento. Assim, sustentando a visão tecnocrática, teremos um ambiente de parto impessoal, dominado pela tecnologia, sob o domínio médico, dentro de um sistema fortemente voltado para o lucro, enquanto na sustentação de uma visão mais humanizada do nascimento, teremos uma ambiência mais acolhedora, um “território de nascimento” protegido pelos agentes da parteria (FAHY; FOUREUR; HASTIE, 2008), o uso racional da tecnologia, amplamente voltada aos interesses e à autonomia da mulher e sua família.

Como já indicamos, nesta pesquisa focamos a espiritualidade enquanto experiências, crenças, atitudes frente ao mistério, ao sagrado ou a um sentido último, transcendente, da própria existência. Um sentido de transcendência de si,

rumo a modos de vida mais abrangentes, ou seja, aspecto impulsionador do desenvolvimento humano em sua integralidade. Neste contexto, situamos a perspectiva clínica de Stanislav Grof (2000), que vem estudando, há mais de 50 anos, a fenomenologia e o potencial dos estados incomuns de consciência para promover essa transcendência. O autor, juntamente com sua já falecida esposa, Christina Grof, considerou que o parto é um evento que pode desencadear o que eles chamaram de “emergência espiritual” (GROF; GROF, 1997).

Para Grof e Grof (1992), emergência espiritual poderia ser vista como um estado dissociativo temporário, podendo durar de algumas horas a vários meses, em que a pessoa imerge em profunda crise pessoal, da qual costuma resultar um senso amplamente renovado perante si mesmo e a existência humana. Dessa forma, o parto sendo um momento de grande intensidade experiencial, hormonal, com evidentes implicações familiares, sociais, econômicas etc., propicia a que a família, e especialmente a mulher, possa desdobrar potenciais de desenvolvimento até então adormecidos, olhando-se a partir do quadrante SE.

Como Nogueira (2013c) referiu, a mulher é capaz de viver neste período uma verdadeira alquimia interior, fazendo brotar uma identidade feminina largamente renovada, a partir deste processo de grande potencial transformador. Entretanto, a emergência dos estados incomuns de consciência que favorecem o processo do parto não parece se dar de forma “homogênea” dentre os contextos de parto da atualidade. O território de nascimento parece ter um impacto bastante relevante sobre a experiência (FAHY et al., 2011). Por esta razão, escolhemos nesta pesquisa tematizar espiritualidade em três cenários contemporâneos. Mas antes, vamos apresentar, em linhas gerais, de que se trata a teoria do território de nascimento.

4.2 TEORIA DO TERRITÓRIO DE NASCIMENTO: AMBIÊNCIA E PODER NA CENA DE PARTO

Esta teoria mostra-se importante neste trabalho por algumas razões. Apesar de ser um modelo explicativo para o desdobramento do processo de parto, visto tratar-se de uma teoria de parteria (midwifery), ela traz o elemento da espiritualidade como algo relacionado principalmente ao ambiente de nascimento. Para Fahy (2008) e Fahy et al. (2011), quanto mais este cenário oferecer condições para que a mulher, em processo de parto (especialmente se pela via natural), possa estar tranquila e

sentir-se segura, maiores serão as chances de ela conseguir se focar em seu interior, e assim poder perceber as mensagens que o corpo-mente-espírito lhe envia. Isto casa com o significado do espiritual como um estado ampliado de consciência (WILBER, 2006).

Além disso, a teoria do território de nascimento, sendo uma abordagem que leva em conta espiritualidade, mesclando 2ª e 3ª pessoas (WILBER, 2006), vem de certo modo preencher uma lacuna da literatura que, como veremos nos resultados de nossa pesquisa bibliográfica, tem enfocado bastante as perspectivas interpretativas. Ademais, a teoria valoriza aspectos interiores, notadamente o poder pessoal, acionado e potencializado pelos estados incomuns de consciência, que são concomitantes à fisiologia do trabalho de parto.

Tentando explicitar os elementos da teoria, de acordo com Fahy (2008) e Fahy et al. (2011), o território de nascimento é composto de um terreno ou espaço físico, onde a jurisdição ou o poder é reivindicado em prol do benefício da mulher. Este território é resultado de uma construção histórico-cultural, mediante o uso de poder disciplinar, envolvendo o imaginário social, por exemplo, de que as parteiras utilizavam meios duvidosos e até mágicos na assistência ao parto. Disto resultou uma crescente legitimação da figura do médico, associada ao uso de instrumentos, como o fórceps a partir do Século XVII, capazes de promover uma assistência considerada segura (FAHY, 2008; ODENT, 2008).

Neste sentido, a teoria do território de nascimento considera que os territórios afetam a maneira como as mulheres experienciam e se comportam durante o parto, podendo este ambiente variar em um contínuo que vai desde as respostas de medo e autopreservação até aquelas relacionadas ao sentir-se segura e amada. Do ponto de vista do terreno, significa uma variação desde um lugar assemelhado a uma sala de vigilância por um lado, até um santuário, por outro. Em razão de não ser um espaço neutro, relações de poder nele tomam lugar, existindo assim uma jurisdição, que é o controle de como o poder é exercido entre as pessoas que compõem o território. Assim, segundo Fahy (2008, p. 18, tradução nossa), o pressuposto básico é:

[...] Quanto mais uma sala de parto se desviar de um ‘sanctum’, mais provável será de a mulher nela sentir medo. Este desvio do ‘sanctum’, por sua vez, reduzirá a percepção de si desta mulher, o que se refletirá em um funcionamento fisiológico inibido, reduzido bem-estar emocional e possivelmente aflição emocional.

Além disso, esta perspectiva estabelece uma relação entre o poder que se espera e se estimula para que a mulher desenvolva, ou seja, o poder proveniente da instância que as teóricas do território de nascimento chamam de “si-mesmo interior19”, e alguns sinais de estados de consciência sob os quais as parturientes estão durante o processo de parto. Geralmente estes estados emergem quando a mulher está sendo conduzida por este si-mesmo interior, o que se reconhece quando a mulher está sonolentamente indefesa, silenciosa ou ruidosa, não tagarelando; amplamente inconsciente de tempo e espaço; despreocupada sobre como os outros a percebem; rendida ao controle do corpo e do ambiente; focada em seu interior, soltando a racionalidade e abraçando a emocionalidade; focada em sua experiência sem reclamar. Estes seriam, portanto, alguns sinais que indicariam estados favoráveis de que o si-mesmo interior estaria conduzindo o processo, trazendo à tona o poder interior (FAHY; HASTIE, 2008).

O impacto do ambiente ou território de nascimento também é observado ao se estudar os estados de estresse, vividos pelas parturientes, donde provém a ideia da chamada cascata-do-medo, cujo postulado é que quando a mulher está sozinha, desapoiada durante o trabalho de parto, torna-se ansiosa e dominada pelo medo. Em tal estado emocional, o sistema nervoso autônomo pode assumir o controle de muitas funções fisiológicas, como por exemplo inibir a liberação de ocitocina através da secreção de adrenalina, o que retarda ou mesmo interrompe o trabalho de parto (UVNÄS-MOBERG, 2003; ODENT, 2000; HASTIE, 2008).

A cascata-do-medo está relacionada ao comportamento básico da espécie de

lutar ou fugir, o qual se tenta evitar por ocasião do parto. O outro estado

psicofisiológico, e que é estimulado, é o de acalmar e conectar. Várias vantagens fisiológicas são identificadas quando o ambiente permite que a mulher esteja tranquila e conectada com a experiência, dentre elas estão: batimentos cardíacos e pressão arterial rebaixados, circulação e sensibilidade aumentadas, maior tolerância à dor das contrações, e maior liberação de ocitocina. (FOUREUR, 2008). Tais

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estados experienciados pelas mulheres seriam o reflexo do território de nascimento, conforme o postulado básico da teoria.

Tendo em vista que este território é fruto de uma construção sociocultural, a título de contextualização, vale relembrar o processo histórico pelo qual se passou da arte de partejar à ciência dos partos. De acordo com Barreto (2007),

[...] A história da obstetrícia tem sua origem por volta de 1750, quando a “arte de partejar”, pautada na tradição e na experiência da parteira, foi oficialmente convertida em categoria da cirurgia – ou seja, em “ciência do parto”, como anunciou Velpeau (1835) –, sob responsabilidade do cirurgião, treinado em obstetrícia. Daí por diante, o nascimento foi-se tornando um evento controlado pelos homens da ciência, até a conversão da obstetrícia em especialidade médica, em fins do século XIX. A sedimentação e a legitimação da obstetrícia percorreram lenta trajetória e apoiaram-se na mudança de atitudes em relação a certos tipos de cognição, operando transformações tanto na compreensão e avaliação do conhecimento, quanto no sujeito que acompanhava o parto.

[...] Nos anos 70 e 80 do século XX, a história das mulheres e, em especial, as análises feministas, ao tratarem da assistência ao parto, questionaram a imagem das parteiras, apresentadas como mulheres sujas, supersticiosas e de pouco ou nenhum saber. Tal discurso pejorativo foi elaborado pelos médicos e cirurgiões, no processo de afirmação da obstetrícia, respaldados nos conhecimentos da anatomia e da fisiologia. A eloquência dos médicos na desqualificação das parteiras – caracterizadas como mulheres ignorantes e cheias de crendices, cuja atividade punha em risco a vida da mulher e do bebê – ajudou os cirurgiões-parteiros na sedimentação e legitimação da própria profissão, rompendo, assim, a longa preponderância da autoridade das comadres no que se refere ao ato do nascimento. (BARRETO, 2007, p. 219-220).

Portanto, o território de nascimento é também uma construção sociocultural que faz parte da história, estando portanto em continuado processo de mudanças. Da mesma forma que os médicos foram sendo aos poucos legitimados a atuarem no processo parturitivo, chancelados pelas forças político-econômicas que deram e continuam dando sustentação ao modelo tecnocrático, outras forças políticas, como as do Movimento pela humanização da saúde no Brasil, vem tentando fazer frente ao modelo dominante. Neste sentido, uma das vertentes paradigmáticas da humanização é exatamente a que tem no domicílio seu lócus privilegiado.