PARTE II – ESTUDO EMPÍRICO
1. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
1.2 Contexto do estudo
O processo de cuidar, quer seja de indivíduos, famílias ou grupos, representa uma extrema singularidade para a profissão de enfermagem, não apenas pelo facto das transacções dinâmicas de humano para humano, mas também, em virtude dos conhecimentos requeridos, empenho, valores humanos, compromisso pessoal, social e moral do enfermeiro, no espaço e no tempo. Assim e tendo em linha de conta a problemática da investigação, bem como, as questões orientadoras e respectivos objectivos, torna-se pertinente o contacto directo do investigador com a situação no contexto intra-hospitalar, permitindo-lhe uma proximidade com o contexto em estudo, colocando-o no centro da “cena” a ser investigada. O estudo de uma cultura exige do investigador um grau de intimidade com os participantes que dele fazem parte e no contexto natural. Compreendemos, pois, como referem Streubert & Carpenter “colocar-se fisicamente nos ambientes da cultura em estudo é uma característica fundamental de todo o trabalho etnográfico” (2002, p. 163). Nesta linha de pensamento, Triviños (1990) menciona que cada grupo de indivíduos que está junto, durante um determinado período de tempo, desenvolve o seu mundo cultural. Assim, e de acordo com o mesmo autor, o hospital afigura-se como uma cultura onde coexistem várias subculturas. Conciliando a informação, Cardoso (2005) menciona também a importância da reflexão acerca da enfermagem como uma cultura profissional, num contexto sociocultural que é o hospital, considerando um serviço de internamento como uma subcultura, conforme supra mencionado. Pelo presente motivo e no
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Os profissionais devem estar cientes que os comportamentos, derivados de experiências anteriores, e crenças culturais, podem ter um impacto significativo sobre o modo como os indivíduos respondem ao tratamento, bem como, à educação dos mesmos. Utilizando as directrizes do assessment, que foram discutidas, os profissionais de saúde podem proporcionar cuidados tanto de forma eficiente como eficaz. (Tradução da Autora).
contexto dos cuidados, existem três tipos de culturas envolvidas, nomeadamente, a cultura profissional dos enfermeiros, a cultura dos clientes e a cultura do próprio contexto onde a prestação de cuidados tem lugar (Holloway & Wheeler, 1996). É assim importante compreender o contexto local do serviço onde se realiza o estudo, de modo a poder-se interpretar melhor as características específicas dos clientes admitidos com diagnóstico de doença avançada sem possibilidade de cura. Então, o serviço pode ser apresentado de forma sucinta e não dando destaque a nenhuma estrutura em específico, pois, o estudo decorreu de forma aleatória nos quartos dos clientes e em algum momento específico na denominada sala de tratamentos do Serviço de Medicina III do Hospital do Divino Espírito Santo em Ponta Delgada. Assim, a compleição física do serviço assenta num corredor ao centro em que, do lado esquerdo se situam as áreas de serviço e do lado direito as unidades de internamento com as respectivas casas de banho. As unidades de internamento estão divididas nos quartos números um e dois, por unidades com três camas cada, uma casa de banho e um duche, destinadas a clientes do sexo feminino. Os quartos número três e número quatro são unidades com seis camas cada, uma casa de banho e um duche, sendo o quarto número três definido para clientes do sexo masculino e o quarto número quatro com o mesmo equipamento destinado a clientes do sexo feminino. Nos quartos seguintes, números cinco e seis repete-se a mesma tipologia dos quartos números um e dois e são destinados a clientes do sexo masculino. Os quartos números sete e oito estão equipados com unidades de uma única cama e casa de banho privativa, sendo muitas vezes utilizados para clientes em fase terminal, de forma a permitir um acompanhamento mais retirado e aproximado por parte dos familiares. São também utilizados em caso de infecção por microrganismo multi-resistente, de forma a proteger os outros clientes no serviço. Por fim, a faixa do lado direito termina com um gabinete que é utilizado pelos médicos e que também possui casa de banho incluída.
Quanto à faixa do lado esquerdo, logo após a entrada, existe um hall que é muitas vezes utilizado por familiares de clientes para aguardarem a visita do médico assistente e, de seguida, uma arrecadação destinada à zona limpa do serviço, onde são guardadas as roupas de cama, cobertores, toalhas, entre outras. Logo depois encontramos o denominado “banho assistido” que possui uma banheira, permitindo que aos clientes da especialidade “X” ou “Y” façam os banhos prescritos. No compartimento seguinte, encontramos a denominada sala de tratamentos onde está guardado o carro de urgência do serviço e algum material mais utilizado num armário. Está equipada com uma maca e com um lavatório. É comummente utilizada, no serviço em questão, para a realização de alguns exames pontuais e esporádicos que surgem no serviço. Na secção seguinte, localizamos a área reservada aos enfermeiros
com uma zona equipada: um balcão para preparação de terapêutica e um lavatório do lado esquerdo. Possui, também, um balcão voltado para o corredor onde normalmente os familiares solicitam a comparência do enfermeiro para terem o conhecimento de algumas informações. Na sala seguinte, pela qual existe uma passagem interna da sala anterior, localiza-se a sala dos enfermeiros preparada com uma mesa e algumas cadeiras para a passagem de turno, o quadro com a informação dos clientes, tendo também uma porta para o corredor central. Em seguida, encontramos o gabinete da enfermeira-chefe e, posteriormente, a casa de banho do pessoal de serviço. Nos dois compartimentos seguintes localizamos a denominada “zona dos sujos” que se encontra equipada com um lavatório e um pequeno balcão. Aí permanecem também os caixotes do lixo e local para colocação de líquidos biológicos. Esta secção apresenta também uma abertura interna para a passagem do material para a zona limpa. Por último, existe no fim do corredor, na antepenúltima porta à esquerda, a arrecadação, onde encontramos armazenado o grande stock de material do serviço. A última porta na faixa da esquerda corresponde à porta de saída de emergência do serviço.
Pela descrição pormenorizada, pretende-se verificar que, em contextos específicos, o investigador, ao colocar-se no centro do campo da investigação, encontre informação pertinente que lhe permita a reconstrução e compreensão, de forma detalhada do que ocorre numa situação micro social, onde se prestam os cuidados de enfermagem. Noutros momentos, pretende-se, também, que o investigador, embora sujeito activo da realidade investigada, reflicta sobre a informação recolhida, de modo a aprofundá-las e a consciencializá-las objectivamente no desenvolvimento do trabalho aplicado e a aplicar (Goetz & Lecompte, 1988). Esta dualidade, de se assumir tanto como investigador como participante nas actividades, apresenta oportunidades para potenciar compreensões derivadas dos dados obtidos, construídas através de relações activas e recíprocas e por processos dialécticos de interacção no contexto. Para que o processo seja desenvolvido, de forma contínua e deixe de ser considerado como um objectivo distante, é fundamental o desenvolvimento de competências no âmbito do contexto comunicacional e relacional enfermeiro/cliente. Talvez a distância se relacione com a saliente representatividade da doença terminal na esfera sentimental, emocional e relacional, pois, quando um diagnóstico de doença terminal ocorre, o cliente reage e sente que já nada é como antes, tornando-se difícil compreender o significado da mudança. A representação social da doença avançada tem vindo a ser associada e construída, tendo por base uma intensa e estigmatizante carga emocional, correlacionando-se intimamente com o sofrimento e a morte.
Conversas mantidas com clientes, enquanto enfermeira da prática, revelaram-nos que os confrontos com o diagnóstico, a progressiva dependência do hospital, a necessidade de vigilância, após efectuados tratamentos cada vez mais agressivos, são referidos como limitadores e insuportáveis. Todo a acomodação a uma situação que foge do controle acarreta um caos interior que requer intervenção por parte da enfermagem, para que, a partir do diagnóstico, seja minimizado ou tolerado o sofrimento vivido especialmente aquando do internamento.