Institucionalização Black box
4.1 CONTEXTO DO SETOR EDUCACIONAL DE ENSINO SUPERIOR INTERNACIONAL
Rámirez (2011) argumenta que o ensino superior está profundamente ligado ao conceito de uma nova realidade mundial, e suas instituições são objetos e agentes da globalização. Findaram-se os dias das torres de marfim e das universidades enclausuradas em seus domínios, já que as transformações mundiais estão afetando, cultural e economicamente, o panorama do ensino superior.
Porto e Régnier (2003) afirmam que é possível observar, no plano internacional, transformações que parecem provocar uma ampla reestruturação e reorganização da economia e das relações políticas mundiais. A nota dominante deste início de século é o acelerado e contraditório processo de globalização com integração econômica, formação de blocos e inovação tecnológica, que elevam o progresso material, mas ao mesmo tempo, desorganizam os sistemas de regulação comercial e acentuam as desigualdades sociais.
Estas tendências decorrem de um contexto histórico e estrutural por que passou o mundo desde a década de 70 do século XX. De acordo com Chaves (2010), desde o final dos anos de 1970, com a crise do sistema capitalista iniciada nos países centrais e estendida a toda periferia do sistema, nas décadas de 1980 e 1990, houve necessidade da adoção de uma série de reformas estruturais, cuja
centralidade residiu na desregulamentação dos mercados, na abertura comercial e financeira, na privatização do setor público e na redução do Estado.
O modelo de acumulação fordista e o Estado de bem-estar social entraram em crise com a transnacionalização da economia, o avanço tecnológico e a substituição de uma tecnologia rígida por uma mais flexível e informatizada, as mudanças na organização do trabalho, a crise fiscal e a incapacidade do fundo público de continuar financiando a acumulação do capital e a reprodução da força de trabalho. A saída foi a defesa da volta às leis do mercado, sem restrições, e a retirada do Estado da economia, com a diminuição dos gastos públicos e dos investimentos em políticas sociais (CHAVES, 2010).
Goergen (2010) aponta o Consenso de Washington em 1989 como o evento responsável por fornecer a diretriz para reduzir o papel do Estado e a entrega de muitas de suas funções à iniciativa privada. Isso possibilitaria ao Estado alcançar maior agilidade, eficiência e economia de recursos públicos. O Estado assim ficaria responsável pela Educação Básica, entregando parte da educação superior ao mercado.
Com isso, observou-se um movimento de reconfiguração das esferas pública e privada, afetando diretamente a educação, em geral, e a educação superior, em particular. Esse conjunto de fatos impõe uma ressignificação ao processo educativo, no campo das concepções e das políticas, cuja expressão maior, na América Latina, se concretizou nos anos de 1990, a partir de um movimento reformista, orientado pelos organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (CHAVES, 2010). Para o autor, as reformas educacionais exigidas desses países, em face de seus endividamentos externos, são orientadas em razão de financiamento. Como fontes de receita para superar o déficit público e estabilizar as convulsionadas economias da região, defendem a redução dos custos, o aumento da competitividade e a formação de recursos humanos mais produtivos.
Há assim uma correlação entre o ensino superior, os investimentos no setor e o crescimento e desenvolvimento econômico, esses últimos motivados por uma mudança fundamental na estrutura das economias nacionais. Os países desenvolvidos têm experimentado tal mudança econômica. O ensino superior assim passou a ter fundamental importância para desenvolver a capacidade de um país em participar de uma economia global baseada no conhecimento. Tal formação contribui para a construção de profissionais capacitados nos países de renda média,
o que, por sua vez, se traduz em desenvolvimento social e econômico (RÁMIREZ, 2011).
Para Rámirez (2011), a educação não é apenas um dos fatores mais importantes que contribuem para o desenvolvimento social e econômico das nações, como também um dos maiores setores da economia mundial. Com base em relatórios da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), o autor afirma que o mercado mundial da educação superou 2,7 trilhões de dólares em 2005. O ensino superior representou 900 bilhões de dólares, um aumento de 300 bilhões em relação a 1997.
Com a crescente demanda por vagas no ensino superior, os governos estão cada vez mais adaptando a legislação a fim de permitir e fomentar o funcionamento de universidades privadas. “O ensino superior privado em todo o mundo é o segmento com crescimento mais rápido. Investimentos privados tiveram forte crescimento com taxas significativamente maiores do que os investimentos públicos entre 2000 e 2007” (RÁMIREZ, 2011, p. 33).
O segmento de ensino superior privado é caracterizado pela diversidade institucional. Há muitas instituições de pequeno e médio porte, muitas vezes com metade ou um terço do tamanho de instituições públicas. Por exemplo, nos Estados Unidos, as instituições de ensino superior (IES) privadas representam 60% do total, mas têm apenas 25% das matrículas dos alunos. A diversidade também passa pela natureza jurídica das instituições, considerando aquelas com ou sem fins lucrativos.
Atraídos pelo potencial retorno financeiro, um número crescente de fornecedores opera como empresas (RÁMIREZ, 2011).
Internacionalização, empreendedorismo, diversificação, financiamento, empréstimos e bolsa de valores representam os novos rumos da educação superior que encontram abrigo em documentos de organizações internacionais, como a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a UNESCO, e se materializam na forma de acordos de livre comércio e convênios entre IES, colocando-as diante de novos objetivos e exigências, em termos de organização e estratégias (GOERGEN, 2010).
Para Porto e Régnier (2003), as IES, imersas em um contexto de transformações nas diversas instâncias de organização da sociedade e que atingem a todos os países, enfrentam um duplo desafio: por um lado atualizar-se e inserir-se nesta nova realidade, revendo suas formas de organização e de relacionamento
com seus atores-chaves e dando um novo sentido ao seu papel social, e de outro lado entender, interpretar e apontar soluções para os problemas que tais transformações colocam aos indivíduos, grupos sociais, sistemas produtivos e governos.
A demanda por ensino superior de qualidade é grande e crescente, impulsionada por fatores demográficos e sociais. A demanda, entretanto, não representa aumento correspondente na oferta e, portanto, obter um diploma universitário ainda continua a ser um privilégio para poucos (RÁMIREZ, 2011).
Em muitos países a demanda por educação superior excede em muito a capacidade de atendimento dos sistemas de ensino existentes. Na China, por exemplo, o sistema público de educação superior absorve em matrículas menos de 7% da população que se forma no ensino secundário (PORTO E RÉGNIER, 2003).
Muito embora o número de matrículas tenha sido três vezes maior do que a dos Estados Unidos (EUA), a participação internacional no ensino superior fica significativamente aquém da dos EUA e da Europa Ocidental, mesmo com os notáveis progressos em alguns países (RÁMIREZ, 2011).
Vale destacar as ações desenvolvidas pelo continente europeu com vistas a elevar a competitividade internacional do sistema europeu de ensino superior. Em 1999, por meio da Declaração de Bologna, os governos dos países membros comprometeram-se a reorganizar os sistemas de ensino superior de seus países de acordo com os princípios dela constantes (The Bologna Declaration, 1999).
A declaração marca uma mudança em relação às políticas ligadas ao ensino superior dos 29 países envolvidos que buscam obter maior aceitação mundial de forma a promover, entre outros objetivos, a empregabilidade e a competitividade internacional entre os seus cidadãos, a cooperação interinstitucional, o desenvolvimento curricular, a cooperação na avaliação da qualidade, o intercâmbio entre estudantes. Em suma, a declaração reconhece a importância da educação para o desenvolvimento sustentável das sociedades democráticas e, dessa forma, impulsiona o nível de matrículas no ensino superior (The Bologna Declaration, 1999).
Assim, a expansão do ensino superior provavelmente terá continuidade, e na maioria dos países a proporção de formados na população em geral deve aumentar e contribuir para o bem-estar e para o desenvolvimento social e econômico.
Algumas tendências que impulsionarão tal expansão em todo o mundo são: o
grande fluxo de potenciais alunos ao ensino superior; mais chances de ingresso no mercado de trabalho e na economia global; ensino superior como aumento de oportunidades no mercado de trabalho, de potencial de renda e conquista de bem-estar (RÁMIREZ, 2011).
Porto e Régnier (2003) apontam algumas tendências de transformação no cenário do setor educacional de ensino superior dignas de nota: a) quebra do monopólio regional ou local; reestruturação da educação superior, implicando no desaparecimento e fusão de universidades; aprendizagem assíncrona (qualquer tempo, qualquer lugar), quebrando as restrições de tempo e espaço para tornar as oportunidades de aprendizagem mais compatíveis às necessidades e estilos de vida das pessoas; evolução do atual modelo artesanal de execução das atividades acadêmicas por outro mais próximo da produção em massa; surgimento de novas formas de ensino mais interativas e suportadas por novas tecnologias; dentre outras.
Desvendando um cenário futuro, Rámirez (2011) fala de várias tendências para o ensino superior: as taxas de ingresso continuarão a crescer, sobretudo nos países em desenvolvimento; as mulheres serão maioria; o perfil de alunos será mais variado na medida em que mais adultos trabalhem e mais temporários e alunos internacionais tenham acesso ao sistema; a profissão acadêmica tende a ser mais internacionalmente orientada e flexível; o sistema de ensino superior se afastará aos poucos das expectativas das tradicionais comunidades escolares autônomas, autorreguladas, rumo a um modelo de maior responsabilidade pelos resultados; a tendência à inclusão continuará, permitindo que os menos privilegiados socialmente ingressem no ensino superior; a população terá uma proporção maior de diplomados com implicações positivas no desenvolvimento social e econômico.
A seguir apresenta-se o histórico, o contexto e as tendências para o ensino superior no Brasil.
4.2 CONTEXTO DO SETOR EDUCACIONAL DE ENSINO SUPERIOR PRIVADO