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O processo interpretativo na iminência do evento raro – 2006 a setembro de 2008

No documento Black box (páginas 166-174)

Institucionalização Black box

5. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

5.2 O EVENTO RARO – PROCESSO DE AQUISIÇÃO (INCORPORAÇÃO) DA ALFA PELA GAMA EDUCACIONAL S.A

5.2.1 O processo interpretativo na iminência do evento raro – 2006 a setembro de 2008

Entre meados de 2006 a agosto de 2008, a ALFA ficou sob a expectativa de uma mudança que poderia afetar os seus rumos. Havia especulações sobre a possibilidade da mantenedora das Instituições denominadas Gama, a Sociedade de Ensino Superior Gama (SESUG), abrir capital no mercado de ações. Para tanto, um dos primeiros indícios de que isso poderia acontecer foi a contratação de uma empresa multinacional chamada Price waterhouse Coopers (a PWC).

A PWC é uma empresa que presta serviços de auditoria, consultoria tributária e societária de negócios, com foco em segmentos econômicos específicos, em quatro áreas: Sustentabilidade financeira, gestão de riscos corporativos, reestruturações organizacionais, fusões, aquisições e recuperação de empresas e melhoria de processos e de desempenho, incluindo terceirização de funções contábeis e fiscais, entre outras (extraído do site da PWC – www.pwc.com.br, no dia 28/12/2011 às 17h16). A contratação da PWC é narrada pela gerente administrativo-financeiro:

Bem antes disso (da incorporação), houve todo um controle, tanto que contrataram a Price Waterhouse Coopers para fazer a controladoria da empresa, já preparando a empresa para um segundo momento (...) (E5 – gerente administrativo-financeiro).

Ainda nesse momento já existiam especulações de que o gerenciamento contábil pela PWC era uma condição para que a empresa posteriormente alterasse a sua natureza jurídica. Os colaboradores, especialmente do nível gerencial ficaram na expectativa de que esta modificação estaria relacionada à incorporação da ALFA à mantenedora SESUG e a consolidação de todas as instituições de ensino não SESUG sob uma única marca – a Gama. Esta condição era de certa forma bem vista entre os colaboradores pela satisfação de fazer parte de um grande grupo educacional. Hoje, porém, após tempo suficiente ter se passado para que os membros organizacionais pudessem fazer sentido dos eventos, verifica-se que a chegada da PWC era uma preparação para o ingresso das empresas ligadas à Gama no mercado de capitais.

As especulações surgiam principalmente por intermédio da direção geral da Faculdade que participava de encontros e reuniões na sede da UNIGA em Monte Verde e recebia os e-mails informativos acerca dos movimentos estratégicos da companhia. Decorrido algum tempo de registro contábil realizado pela PWC, os dirigentes de todas as mantenedoras e filiais da Gama foram informados de que a Gama ingressaria no mercado de Capitais e as mantenedoras não SESUG seriam todas incorporadas, o que confirmava os rumores anteriormente compartilhados.

A circunstância da transformação da SESUG e das demais mantenedoras independentes em instituições empresárias com fins lucrativos reforça as expectativas acerca do futuro da instituição na visão dos colaboradores e cria um

mosaico de significados sobre esse processo. Iniciou-se todo tipo de especulação sobre quais as consequências do ingresso da empresa no mercado de capitais para a instituição, para os seus colaboradores e para a educação ofertada aos alunos.

Esta situação demonstra a falta de experiência da organização sobre esse tipo de evento, o que fez com que os membros organizacionais buscassem compreendê-lo, criando interpretações e narrativas de forma a reduzir a equivocidade associada (BECK E PLOWMAN, 2009; ABMA, 2000).

Esta falta de experiência, especialmente relacionada aos membros organizacionais de nível gerencial, gerou um maior nível de equivocidade, pois a falta de experiência com este tipo de evento ensejava um menor número de regras para se chegar a uma interpretação, conforme demonstra o relato abaixo.

Algumas pessoas começaram a falar disso e o diretor, como ponto de diálogo, era quem sempre trazia a notícia e depois a gente tinha a gerente acadêmica que começou a conversar sobre isso, mas nunca sobre um processo específico... – Olha, a Gama vai mudar... parece que agora vai deixar de ser sociedade civil, vai ser limitada... vai ter um grande processo de mudança. (E2 – diretor geral da GAMA ALFA).

Verifica-se com a narrativa do atual diretor da instituição, mencionando os relatos da gerente acadêmica na época, que os membros organizacionais de nível gerencial, sentem que alguma coisa está próxima de acontecer e a tarefa é produzir fragmentos dispersos de informação em um quadro de referência em progresso, que formará o entendimento de eventos quando eles estão se desdobrando (BECK E PLOWMAN, 2009). Para estes autores, estar em progresso significa que o quadro de referência se desenvolve quando os indivíduos adquirem cada boato ou informação especulativa.

Claramente que o momento de maior especulação foi causado quando da abertura de capital pela Gama, especialmente no que diz respeito à prestação de serviços educacionais, que é um segmento de negócios em que não se verificava a tradição das empresas em abrir capital e ofertar ações ao público. As especulações giravam em torno da possibilidade de se maximizar a lucratividade das organizações em detrimento da qualidade da educação, conforme alega a ex-coordenadora do NAP e do curso de pedagogia, quando questionada sobre a decisão da Gama em abrir o capital.

(...) Eles estão preocupados em fazer (...) da instituição educacional uma empresa literalmente, então eles querem o lucro. O objetivo eu acho que é esse – o lucro. Então perde essa preocupação com a educação de fato (E7 – ex-coordenadora do NAP e do curso de Pedagogia).

A discussão acerca das consequências da abertura de capital para o processo educacional deu lugar a um novo movimento interpretativo quando a Gama Educacional incorporou as mantenedoras Não SESUG e excluiu a ALFA e três outras instituições. As especulações passaram rapidamente a girar em torno da exclusão da mantenedora da ALFA do processo de incorporação e por consequência da sua participação no mercado de capitais. Havia uma apreensão quanto ao destino da instituição caso não fosse incorporada, se seria fechada, se seria vendida a outro grupo ou instituição. A ALFA naquela circunstância era uma instituição que, além das dificuldades econômicas, não possuía expressão em termos de números. Era uma instituição pequena em número de alunos, em número de empregados e em número de cursos ofertados. Não era atrativa aos olhos da Gama Educacional e do mercado de capitais.

(...) A ALFA não entrou nessa incorporação que deu início em 2007 com relação às outras unidades (...) e acredito eu que por uma série de fatores (...). Em termos de tamanho, a ALFA representava uma instituição pequena, talvez pouco atrativa para a proposta que a Gama tinha na época a incorporação (...) (E4 – coordenadora do NPJ).

Deixar de participar do grupo constituía-se em um incômodo, pois a instituição já possuía em seu histórico um rótulo diante da diretoria da Gama de ser uma instituição ruim do ponto de vista dos negócios. Aquela decisão de excluí-la do processo era tomada como um atestado de que a instituição fora e continuaria a ser menos importante entre as instituições que estavam vinculadas ao grupo Gama.

A decisão da Gama de preparar a instituição para a incorporação, entretanto, trouxe nova esperança aos membros diretivos da ALFA, uma vez que se desenvolveu o entendimento de que o ingresso na instituição poderia significar deixar de ser o “patinho feio” do grupo e que poderia ser a maior e melhor instituição do Estado do Araguaia.

Eu acho que muitos acharam que isso seria bom, que a gente ia crescer, que a gente ia estar no mercado (financeiro), que ia ser um negócio assim: - “Vamos ser a maior do Brasil, né?!”. Então foi passado assim de uma maneira muito positiva pra gente (...). A gente queria realmente fazer parte pra dizer que a gente também era importante (...) porque até então a gente era o patinho feio e estava fora (...), então eu acho que isso foi muito bem vendido pelo gestor pra que todo mundo comprasse essa idéia, que ia ser ótimo, que ia melhorar muito a instituição, que ela ia realmente chegar assim – ela vai ser a melhor... Se a Gama Educacional quer ser a melhor do Brasil e se até 2012 ela quer ser a maior da América Latina, então a Gama, ou melhor, a ALFA na época, ia ser a melhor do nosso estado. Ninguém vai bater a gente. Não vai ter pra ninguém. Então eu acho que isso foi muito bem vendido e todo mundo vestiu a camisa dessa maneira. (E3 – ex-gerente acadêmica da instituição).

Em certa medida, nessa fase do processo de interpretação, os gestores da organização buscam tentar controlar os rumores ou disseminação de informação, levando a interpretações univocais, que é o caso do entendimento do diretor geral daquela época quando direcionou o processo interpretativo dos demais colaboradores. Este direcionamento é o que Gioia e Chittipeddi (1991) chamam de sensegiving.

Embora não fosse evidente para as pessoas qual seria o impacto da mudança vindoura, algumas reuniões e conversas entre os colaboradores e a direção da instituição aconteceram com o propósito de expor informações e expectativas advindas de encontros das diretorias da Universidade Gama de Monte Verde e as diretorias das unidades estaduais, buscando-se assim também formar aquilo ia acontecer (...). (E3 – ex-gerente acadêmica da instituição).

Este relato ratifica a afirmativa de Gherardi et al. (1998), quando argumentam que as pessoas e os grupos criam conhecimento negociando os significados, ações, situações e artefatos materiais, evidenciando a forte influência da teoria da aprendizagem social no processo de interpretação dos colaboradores da ALFA.

Ainda que o processo de interpretação do evento raro possa ter criado interpretações univocais por parte dos gestores da instituição, é possível verificar algumas dissonâncias na forma como os membros organizacionais perceberam o desenrolar dos primeiros eventos. É o caso do atual diretor da instituição que interpretou o fato de a ALFA ficar de fora não como um incômodo, mas como uma conveniência para a ALFA.

(...) eu lembro que a primeira conversa mais específica sobre o tema foi quando houve o IPO (oferta pública de ações) da Gama S/A. Veja, praticamente o final de processo de mudança formal, da S/C que virou limitada e que virou S/A. E a grande coisa desse momento foi o seguinte... é que confirmava aquilo que a gente vivia. A ALFA estava de fora desse processo. Ela não participou do IPO. (...). Eu acho que o que chamou a atenção é que nós continuávamos no nosso canto.

Nós tínhamos ainda o sentimento de continuar sendo ALFA e que aqueles eventos eram eventos deles e não nossos. Então pode ver que era uma relação tão conveniente tanto pra ALFA quanto pra Gama, que no momento de apurar os resultados e números, ela descobriu que tinha de ter mais um tempo (...). Foram três ou quatro instituições que ficaram de fora e ficaram de fora porque eram as mais debilitadas economicamente (...). (E2 – atual diretor geral da instituição).

Isso comprova o que Huber (1991), cintando Bruner (1957) afirma quanto à percepção dos indivíduos. Quanto mais complexo ou ambíguo é o estímulo, mais a percepção do estímulo é influenciada pelo que está dentro do sujeito e menos pelo que está no estímulo.

Embora a afirmativa do atual diretor geral da GAMA ALFA seja aceitável, nesse momento do processo interpretativo os colaboradores da ALFA vislumbram um destino promissor ingressando na Gama, mas não são capazes de perceber o impacto que o seu ingresso poderia ocasionar à sua cultura e à sua identidade.

Eu lembro de muitas reuniões telepresenciais expondo os novos parâmetros da instituição assim, que de alguma forma foram uma preparação, mas sinceramente eu fui me dar conta... até de um pouco ter uma idéia vaga de mercado financeiro com essa mudança, porque eu não sabia nem pra onde andava (...). Eu não estava preocupada com isso, não! Mas depois a gente foi obrigado [risos].

(E7 – ex-coordenadora do NAP e do curso de pedagogia).

Por fim, vale destacar ainda ao longo desse período anterior à incorporação uma forte demanda por redução de custos. Mesmo que a incorporação efetivamente

não tivesse ocorrido, a fragilidade econômica da ALFA precisaria ser solucionada para que ela pudesse ingressar na Gama Educacional. A presença de uma consultoria chamada R2 nessa primeira etapa do processo de incorporação tem uma importante contribuição no processo interpretativo dos colaboradores.

A primeira manifestação que foi percebida por todos os colaboradores foi quando ela contratou uma consultoria chamada R2 e onde essa R2 tentava entender o desenho organizacional atual da IES (...) e tentava traçar um novo desenho. Só que saíram comentários de que a R2 era movida pela redução de custos. (E10 – coordenador do curso de administração).

A redução de posições, e, por conseguinte, de pessoal, preliminarmente não foi associada ao processo de incorporação, mas impulsionou interpretações sobre a dificuldade que a unidade corporativa estava tendo em entender o negócio a partir do contexto em que ele estava inserido, que é o contexto educacional. Esta interpretação se intensificou na fase em que o processo aquisitivo ocorre de fato, porque as decisões da Gama estavam focadas na eficiência e rentabilidade da empresa, sem que fossem levadas em consideração as regulamentações que regem o sistema de ensino do país ou a própria experiência de negócios nesta área.

(...) marketing de IES, gestão de IES é totalmente diferente de outros tipos de gestão. Totalmente diferente! E a gente percebia que as pessoas não entendiam isso. Por quê? Porque o ensino é uma prestação de serviços em que não há um contrato inflexível. Ele é semestral. E é uma prestação de serviços em que existe uma participação do cliente (...). O marketing é diferente a meu ver e a prestação de serviços é diferente. E talvez essa falta de know-how dessas pessoas (da R2) (...), a mudança que tentaram fazer foi muita rápida sem o principal, que foi uma conscientização de quem estava e uma qualificação dessas pessoas (referindo-a à R2). (E10 coordenador do curso de Administração).

Assim, os principais eventos que marcaram essa fase do processo interpretativo são demarcados na quadro 06 abaixo, assim como os discursos que se manifestaram naquele momento.

Quadro 06 – Eventos da fase pré-evento raro e os discursos interpretativos dos membros organizacionais

Evento Discurso Interpretativo

Contratação da Price Waterhouse Coopers (PWC)

Especulação sobre a possibilidade de a organização mudar sua natureza jurídica e passar a ser Gama.

Transformação da SESUG e Não SESUG em instituições empresariais com fins lucrativos

Especulações sobre a

possibilidade de a ALFA passar a ser Gama, ingressar no mercado de capitais e ter uma mudança profunda.

Especulações sobre o futuro da educação na organização.

Nascimento da Gama Educacional S.A e Oferta Pública de Ações

Preocupação com o destino da ALFA, uma vez que ela não ingressou no grupo.

Frustração pela percepção de que a instituição continuava a ser o “patinho feio do grupo”.

Preparação da ALFA para ingressar no mercado em 2008

Entendimento de que a organização seria a maior e melhor do Estado.

Contratação da Consultoria R2 Redução de custos para tornar a organização saudável economicamente.

Percepção de que a R2 não conhecia o segmento educacional

Fonte: Elaborado pelo autor.

A próxima seção apresenta o processo interpretativo na fase durante o evento raro, em que a incorporação se efetiva formalmente e em que são iniciadas as primeiras mudanças e as lutas políticas e divergências institucionais.

5.2.2 O processo interpretativo durante a ocorrência do Evento Raro de

No documento Black box (páginas 166-174)