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Contexto e condicionantes

No documento OS PALÁCIOS ORIGINAIS DE BRASÍLIA (páginas 73-76)

PERCURSO DA ARQUITETURA

2.5 PARÂMETROS ANALÍTICOS

2.5.1 Contexto e condicionantes

Neste primeiro conjunto de parâmetros, busca-se compreender a influência de eventos ou de fatos isolados que porventura tiveram interferência nas decisões arquitetônicas relacionadas à forma plástica. Procura-se também avaliar as condições existentes ou pré-estabelecidas para a realização dos projetos, bem como a ocorrência de outros fatores que tenham representado obrigações a serem seguidas, tais como as resultantes de medidas que restringiram ou impuseram ações ao longo do percurso da arquitetura.

A preocupação com problemas funcionais, descrita por Niemeyer, pode ter primeira apropriação ampliada começando pela explicação contida no projeto do Museu de Arte Moderna de Caracas, na qual o arquiteto orienta que na elaboração de planos de arquitetura, a

solução seja resultante, das condições locais, topográficas e climatéricas, das condições funcionais e programáticas, da técnica e dos materiais em uso.105 Carlos Lemos, por seu turno, expõe-nos visão detalhada de um conjunto dos principais determinantes ou condicionantes, a serem considerados em análises de obras construídas: técnica construtiva, segundo os

recursos locais, tanto humanos, como materiais, que inclui intenção plástica; clima, condições físicas e topográficas do sítio onde se intervém; as condições financeiras do empreendedor; a legislação regulamentadora e/ou as normas sociais e/ou as regras da funcionalidade; e o

programa das necessidades, segundo os usos, costumes populares ou conveniências

do empreendedor.106

Partindo da síntese do autor dos projetos de arquitetura e desta percepção abrangente, verificaremos, na etapa de concepção, como estes condicionantes se apresentavam para a elaboração dos projetos, cientes, no entanto, de que se tratam de aspectos comuns, em sua maioria, e de aspectos determinantes específicos, sobretudo aqueles relacionados à definição do programa de necessidades para cada palácio, parte que mais se vincula aos problemas

funcionais descritos por Niemeyer. As questões programáticas que incidem sobre os projetos

dos edifícios, conforme nos lembra Edgar Graeff, constituem-se como exigências de natureza

utilitária e de natureza artística, com preponderância das últimas, que dizem respeito aos

valores de beleza arquitetônica, caráter arquitetônico e expressão arquitetônica.107

No tocante às exigências de natureza utilitária, abordaremos a precedência programática das antigas sedes existentes no Rio de Janeiro como referência imediata do funcionamento de cada órgão na época. Acerca destes exemplares, Niemeyer relata como foi tomada parte das decisões, como no caso do projeto para o Palácio do Congresso Nacional, para o qual a

105

NIEMEYER, 1956. "Museu de arte moderna de Caracas". In: Módulo nº 4, p. 41. 106 Cf. LEMOS, 1979, "Arquitetura brasileira", p. 9.

consulta aos prédios existentes serviu para que, multiplicando a área avaliada e os setores

existentes, fossem iniciados os desenhos.108 Oportuno lembrar também, além dos precedentes

materiais da antiga capital, do histórico destas ocupações e dos acontecimentos recentes da época, aspectos que podem ter influenciado na definição dos programas que foram considerados.109

Quanto às exigências de natureza artística, dentre aqueles valores sinalizados por Graeff, destacamos o que se refere ao caráter arquitetônico, principalmente, pela identificação com os enunciados do autor dos projetos. Niemeyer manifestara, anteriormente no projeto para o "Museu de arte moderna de Caracas", preocupação com o caráter monumental da arquitetura para o qual certos temas apelam, em “Depoimento” caráter arquitetônico dos novos edifícios é retomado como uma das preocupações relacionadas à forma plástica e no artigo “Forma e função na arquitetura” o arquiteto volta a utilizar o termo na argumentação.110 A respeito

do assunto, Graeff nos apresenta uma síntese para o significado de caráter arquitetônico, que se refere, em especial, às qualidades que possibilitam identificar a finalidade do edifício através

de suas formas. Detalha ainda que o parentesco formal dos edifícios da mesma finalidade decorre do fato deles possuírem espaços e elementos arquitetônicos semelhantes, ditados por semelhantes programas. 111

Em acréscimo a este entendimento, Comas recorda-nos que o termo provém das instruções de tradição acadêmica - parte formativa dos arquitetos da Escola Nacional de Belas Artes no período de instrução de Niemeyer - e que caráter arquitetônico refere-se à rememoração

de precedentes formais, obras e tipos clássicos;112 manifesta-se na capacidade guiada pela

intuição do arquiteto, educada e preparada pela observação e pela experiência; e é baseado

na particularização do programa.113 108

“Não foi fácil trabalhar em Brasília, e o projeto do Congresso Nacional serve de exemplo. Um trabalho elaborado sem programa, sem uma idéia de como se ampliaria o número de parlamentares. “Tudo a correr” era a palavra de ordem. Recordo como foi iniciado aquele projeto, Israel Pinheiro e eu indo ao Rio com o objetivo de dimensionar o antigo Congresso daquela cidade, para, multiplicando a área avaliada e os setores existentes, iniciar os desenhos.” NIEMEYER, 2000, "Minha arquitetura", p. 43-45.

109

Conforme veremos, o concurso de projeto para o Senado Federal realizado em 1956 no Rio de Janeiro consistia, de certa forma, em diretriz de programa para o projeto a ser elaborado. Cf.: MÓDULO, 1956, “Projeto do Senado, completo, de Sérgio Bernardes e Rolf Hüther”; e HABITAT, 1956, “Senado Federal, Rio de Janeiro”.

110

Cf.: NIEMEYER, 1956. "Museu de arte moderna de Caracas". In: Módulo nº 4, p. 44.; Ibidem, 1958,

"Depoimento". In: Módulo, nº 9, p. 4; Ibidem, 1960, "Forma e função na arquitetura". In: Módulo, nº. 21, p. 4. 111

GRAEFF, 1995, "Arte e técnica na formação do arquiteto", p. 18-19 112

Segundo esclarece Comas, a partir da obra de Julien Guadet, o clássico pode remeter a princípios abstraídos de qualquer exemplo do passado, sem, necessariamente, vincular-se a determinado estilo. “O precedente clássico é toda forma que resistiu ao julgamento do tempo, porque vazada em elementos consagrados pela razão, pela tradição lógica e firme respeito aos princípios superiores, gerais e invariáveis da arte”. Cf. COMAS, 2002, "Precisões brasileiras", p. 28.

Também conforme Comas, a preocupação com os valores vinculados ao caráter da arquitetura estende seus efeitos a todos os aspectos do edifício: formais, funcionais e materiais. Nesse sentido, lembra-nos da discriminação dos três tipos de caráter arquitetônico: caráter

essencial , que se relaciona às constantes da arquitetura - sinônimo de força e grandeza, aparência de solidez simples, imponente, majestosa, regularidade e simetria, idéia de unidade -; caráter distintivo, instrumento de classificação e de distinção da fisionomia - leveza chinesa face a solidez egípcia, graça e harmonia gregas face ao luxo e orgulho romanos -; e caráter relativo, que se relaciona à finalidade programática - expressão aparente do uso -, trata

da concordância e conveniência das partes construtivas, e também da escolha, medida ou

maneira da aplicação dos materiais.114

As exigências programáticas, orientadas segundo estes valores, constam das obras de autores que trataram de tipos específicos de edifícios, exemplificados sobretudo com referência nos modelos clássicos consagrados, e que contemplavam destinações variadas, incluindo aquelas relacionadas às funções administrativas, políticas e judiciárias.115 Fazem parte do conteúdo

destas publicações tanto as recomendações funcionais quanto as necessidades inerentes à caracterização apropriada de cada tipo edilício. Embora não seja intenção o exame detalhado do assunto, cuja amplitude ensejaria abordagem específica, convém ter em vista que estas fontes constavam do arcabouço teórico dos arquitetos cariocas do período, e que as referências podem auxiliar na leitura da definição e da apropriação dos programas para os palácios durante a etapa de concepção.

Na etapa do desenvolvimento de projetos, além dos aspectos condicionantes comuns, das exigências utilitárias e das exigências artísticas vinculadas ao programa de necessidades, a disponibilidade de curto prazo e a exigência de obedecer ao cronograma de exceção implicou também os desdobramentos nas fases subsequentes, incluindo as decisões que resultaram em simplificação de soluções, conforme nos atesta Niemeyer:

[...] tivemos muitos obstáculos a vencer problemas que a urgência e a dificuldade de transporte acentuavam, impedindo-nos, muitas vezes, de utilizar nos projetos o material desejado, para que as obras seguissem dentro do cronograma. E tivemos, para isso, de transigir, elaborando em quinze dias projetos que normalmente exigiriam dois ou três meses de trabalho,

114 Comas explica detalhadamente “caráter arquitetônico” a partir do estudo das obras tratadísticas de: Quatremèrre de Quincy; Julien Guadet; Jean-Nicolas-Louis Durand; e Louis Cloquet. Cf. COMAS, 2002, "Precisões

brasileiras", pp. 27-30.

115 Paulo Thedim Barreto apresenta algumas pistas para uma possível listagem de “mestres professores de História e de Teoria da Arquitetura” que provavelmente foram referências para os alunos da Escola Nacional de Belas Artes. Da relação constam: Luis Cabello y Aso; Louis Cloquet ; Auguste Choisy; Julien Guadet; Jean-Nicolas- Louis Durand; Eugene Viollet-le-Duc; Paul Amédée Planat; Léonce Reynaud; Georges Tubeuf “e outros”. In: BARRETO, 1947, "Casas de Câmara e Cadeia". p. 12.

simplificando e alterando especificações, evitando materiais de importação que, embora adequados, criariam dificuldades econômicas e alfandegárias e uma competição com a indústria brasileira que nos cabia proteger. Daí aceitarmos soluções conciliatórias, conscientes da realidade nacional que Brasília teria de exprimir e do objetivo principal a atender, isto é, definir a cidade em termos irreversíveis antes de 21 de abril de 1960.116

Ainda segundo o arquiteto, os prazos também tinham um componente benéfico, pois, se faltava

tempo para pensar um pouco, tempo também faltava para as modificações indesejáveis.117

Entretanto, ressalta-se que, se o cronograma representava, por um lado, aspecto limitador de intervenções dos usuários, por outro lado, também condicionava eventuais modificações necessárias no desenvolvimento dos trabalhos. É conveniente, portanto, avaliar como estas restrições ou imposições - relacionadas ao cronograma e à atuação dos demais agentes envolvidos - repercutiram nas respostas dos autores de projetos para os desdobramentos projetuais .

A combinação entre situação atípica da sobreposição entre projetos e obras, cronograma exíguo, condições existentes e fatos geradores de intervenções posteriores, permite-nos leitura de contextos e condicionantes em períodos que vão além daquelas usualmente compreendidas pelas etapas de projetos. Na etapa de construção este grupo de parâmetros será abordado de acordo com os dois momentos tratados: inicialmente, com foco nas tarefas relacionados à materialização da forma construída, entre as décadas de 50 e 60, avaliando o papel dos agentes construtores e dos procedimentos; em segundo momento, tratando das circunstâncias que determinaram as principais intervenções na forma plástica ao longo da existência dos edifícios.

No documento OS PALÁCIOS ORIGINAIS DE BRASÍLIA (páginas 73-76)