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Sedes do Poder Legislativo

No documento OS PALÁCIOS ORIGINAIS DE BRASÍLIA (páginas 122-126)

PERCURSO DA ARQUITETURA

3.5 USUÁRIOS E PRECEDENTES

3.5.4 Sedes do Poder Legislativo

O Poder Legislativo é exercido pelo Congresso Nacional que, do tipo bicameral, compõe-se dos parlamentares da Câmara dos Deputados, constituída por representantes do povo - eleitos pelos Estados, pelo Distrito Federal e pelos Territórios, segundo o sistema de representação proporcional - e do Senado Federal, com representantes dos Estados e do Distrito Federal, em número de três para cada unidade da Federação, eleitos segundo o princípio majoritário.134

Em consonância com o dispositivo constitucional, a 40ª Legislatura do Congresso Nacional, correspondente aos anos 1955-1959, apresentava listas nominais de parlamentares com 109 membros no Senado Federal e com 449 na Câmara dos Deputados. No entanto, os números dos principais usuários em efetivo exercício considerados para a transferência destes órgãos foram de 63 senadores e de 326 deputados federais.135

133

Jornal do Commercio, edição de Sábado, 03 de abril de 1909. Apud BRASIL, 2007, "Arquitetura e memória : a arte na Justiça Federal", p.18-19.

134

Cf. Legislação vigente, Constituição Federal de 1946, Capítulo II. 135

Cf.: “Ata da Comissão de Estudos do Projeto do Edifício Destinado ao Senado em Brasília - 1ª reunião realizada em abril de 1959”. In: BRASIL, 1988, "Documentos históricos : mudança da capital, construção do edifício do Congresso Nacional", Seção IV; Diário do Congresso Nacional, 1º de julho de 1960; e MOREIRA. "Brasília: Hora zero", p. 92.

A diferença de quantitativos deve-se ao fato de que as listas nominais consideravam os parlamentares em exercício, os suplentes e aqueles que se encontravam legalmente afastados.

Apesar de constituírem-se como órgãos de funções complementares, antes de Brasília, Câmara e Senado nunca chegaram a compartilhar de um espaço comum que se configurasse como o Palácio do Congresso Nacional. Os parlamentares reuniram-se em mesmo local por duas ocasiões e com as funções específicas de constituir colegiados temporários para elaborar Constituições. A primeira como Assembléia Geral Constituinte e Legislativa, em 1823, na antiga Cadeia Velha e, posteriormente, como Congresso Nacional Constituinte, entre 1890 e 1891, no Palácio de São Cristóvão.136

As intenções de construir um palácio para o Congresso Nacional tiveram registros em dois momentos na história do Parlamento brasileiro, respectivamente em 1875 e 1906. Na segunda tentativa, o programa foi objeto de concurso de arquitetura para um lote da Praça Tiradentes,137

com destaque para os projetos de Francisco de Oliveira Passos e de Heitor de Mello, ambos com composição tributária ao Capitólio de Washington (Figuras 6; Figuras 7).138 Nenhuma das

propostas chegou a ser erigida e, no período anterior à Brasília, os membros e a estrutura física do parlamento encontravam-se em edifícios distintos no Rio de Janeiro.

3.5.4.1 Senado Federal

O Senado Federal ocupava o Palácio Monroe, idealizado em observância ao ecletismo da época, foi projetado e construído pelo coronel engenheiro Francisco Marcelino de Souza Aguiar, em 1904, com a função de representar o Brasil na Exposição Internacional de Saint Louis, nos Estados Unidos.139 A construção foi concebida em estrutura metálica e sistema que

previsse a desmontagem e remontagem posterior. Após a exposição, foi trazido para o Rio de Janeiro e reconstruído, em 1906, numa das extremidades à beira-mar da então Avenida Central. Após destinações diversas, em 1923 o palácio foi objeto de considerável reforma para abrigar o Senado (Figuras 8).

136

As ocupações do parlamento antes de Brasília foram: Câmara dos Deputados: 1826 - 1889, Cadeia Velha; 1891 - 1914, Cadeia Velha; 1914 - 1922, Palácio Monroe; 1922 - 1926, Biblioteca Nacional; e 1926 - 1960, Palácio Tiradentes. Senado Federal: 1826 - 1889, Palácio do Conde dos Arcos; 1831 - 1840, Casa da Relação; 1840 - 1889, Palácio do Conde dos Arcos; 1891 - 1925, Palácio do Conde dos Arcos; e 1925 - 1960, Palácio Monroe. Cf. MACEDO, 2010, "As sedes do Parlamento Brasileiro", In: Brasília, a idéia de uma capital.

137

Os projetos ”Helo”, de Heitor de Mello e “Semper”, de Francisco de Oliveira Passos, dividiram os dois primeiros prêmios. O 3º prêmio foi destinado ao Projeto “Mestre Valentin”, de Raphael Rebecchi, tendo sido também adquiridos pelo Senado Federal os projetos: “Leda”, de Albert Guilbert; “Pro-patria”, de Victor Dubugras; e “Quanto Posso”, de Vicente Terra. Cf. DIÁRIO OFICIAL DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL : 6 nov.1906, Seção 1, p. 19. Disponível em: <http://www.jusbrasil.com.br/diarios>.

138

Ibidem. 139

O arquiteto francês Grandjean de Montigny, que integrou a Missão Artística organizada por Lebreton em 1816, projetou uma sede para o Senado, ainda no Brasil Império, no ano de 1848, na antiga Praça da Constituição, atual Praça Tiradentes. Os desenhos originais encontram-se no acervo do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Yves Bruand registra também a existência de outro projeto não construído para um Palácio do Senado Federal, elaborado por Heitor de Mello, entre 1914 e 1920. Cf. BRUAND, 1981, "Arquitetura

[...] O edificio foi inteiramente remodelado. Póde-se dizer, rigorosamente, falando, que só foram aproveitadas do antigo edificio as paredes externas, tendo sido dividido o mesmo de conformidade com as necessidades do Senado. Do novo edificio se deprehende esta divisão: pavimento terreo, em que se encontra a Portaria, sala de chapéos, Archivo, Correio e Telegrapho; primeiro pavimento com dois terraços lateraes, no qual se encontram o hall de entrada, a Secretaria, o Gabinete do director e vice- director da Secretaria, as salas destinadas ás diversas commissões, salão nobre e a Bibliotheca; no segundo pavimento: a grande sala das sessões do Senado [e os] gabinetes do vice-presidente da Republica e vice-presidente do Senado, gabinetes dos secretarios do Senado e Salas de leitura, café, e para os senadores. Há sobre o edificio um amplo terraço. Tem-se accesso a todos os pavimentos, por meio de tres elevadores. Importaram em mais de cinco mil contos as obras de adaptação do edificio, inclusive as tapeçarias, mobiliario, alfaias, obras de arte, e outros objectos de adorno.140

O palácio era constituído de embasamento, térreo, segundo pavimento e cobertura e possuía área construída de 2.066m², que, aparentemente, era modesta diante das pretensões do órgão. Nas primeiras iniciativas da adaptação, a versão de projeto do Escritório de Arquitetura Armando de Oliveira, datada de 1923, indicava reforma com maiores impactos no prédio original, pois previa a ampliação no sentido longitudinal para abrigar os espaços destinados ao Plenário - Sala de Sessões com dupla altura -, e à Galeria de Público (Figuras 9).

Outra iniciativa para promover instalações mais amplas ao Senado ocorreu no ano de 1956 - pouco antes das iniciativas para Brasília -, no qual se realizou um concurso para edificação que seria erigida no mesmo terreno em substituição ao Palácio Monroe. Vencido pelo arquiteto Sérgio Bernardes e equipe, a proposta contemplava conjunto marcado por lâmina vertical em tronco de cone, com estrutura metálica planejada por Paulo Fragoso, e previa a ampliação do Senado para cerca de 29.000m² (Figuras 10).141 O edifício não chegou a ser construído, no

entanto, o projeto é um dos registros mais relevantes das aspirações dos Senadores em relação à nova sede que deveria abrigar aquela função legislativa. Além da generosa ampliação de área alguns detalhes do programa chamam a atenção, tais como a destinação de salas privativas para os parlamentares, até então inexistentes para os demais membros de órgãos colegiados, e a disposição de outro grande auditório, além do Plenário dos senadores, destinado às sessões conjuntas do Congresso Nacional, nas quais se reúnem simultaneamente deputados e senadores.

140

CASTRO, 1926, "Histórico e descripção dos edifícios da Cadeia Velha, Palacio Monroöe e Bibliotheca Nacional", p. 42.

141 “Senadores, arquitetos e engenheiros integraram a comissão julgadora que escolheu a proposta dos arquitetos Sérgio Wladimir Bernardes e Rolf Werner Hüther, elaborada com a colaboração do também arquiteto Nicolai Fikoff e dos engenheiros Paulo Fragoso e Gino Usiglio.” HOMEM, Roberto, 2010, “Senado e Brasília: construindo a história”. In: BRASIL, 2010, Senatus : cadernos da Secretaria de Informação e Documentação, v. 8, n. 1, p. 12- 37, abr. 2010.

3.5.4.2 Câmara dos Deputados

Dentre as antigas sedes no Rio de Janeiro, a Câmara dos Deputados foi o único órgão que contou com edifício projetado e construído com a finalidade específica de atender às suas atividades. O projeto foi encomendado em 1922 ao Escritório de Archimedes Memória e Francisco Cuchet, herdeiros do Escritório Técnico Heitor de Mello, que realizara um dos estudos para o Congresso Nacional. A execução ficou sob responsabilidade da firma Francisco Lopes de Assis Silva & Companhia e o edifício foi inaugurado em maio de 1926. Ricamente decorado e contando com a contribuição dos estados da Federação na composição dos ambientes, o palácio, assentado sobre embasamento, tem como traços relevantes as colunatas de ordem colossal marcando a galeria de entrada e a dominante cúpula sob a qual se localizava o Plenário e as Galerias de Público, em torno dos quais se distribuíam os demais espaços do programa nos cinco pavimentos constituintes, configurando área total construída de 10.730m² (Figuras 11). As referências que destacam as áreas do Plenário e das Galerias de Público - presentes também nas passagens registradas das diversas ocupações anteriores da Câmara dos Deputados – apontam a relevância destes espaços na caracterização das sedes do parlamento.

O Hall, a que cobre um vitral de fabricação brasileira, é occupado pela sumptuosa escada de honra de optimo traçado, construída em onyx africano e português, com applicações de bronze, desde o vestíbulo, onde nasce, em harmoniosas volutas, sobre as quaes repousam vasos decorativos, até o topo, no 3º pavimento, com artístico remate. Lateralmente ao vestíbulo estão as dependências do presidente e dos Vice-Presidentes.

O vestíbulo geral dá para as galerias de circulação, decoradas á Luiz XVI, com bellos pisos de mosaico Frances. Medem 3mX25m, com amplas aberturas para as ruas lateraes, vestíbulo central e área, e contornam o recinto das sessões para a qual communicam por três entradas, sendo duas na frente, precedidas de dois outros pequenos vestíbulos e uma pela parte posterior. Taes galerias guarnecidas de columnas de onix, com bronzes artísticos, formam nos ângulos quatro salas octogonaes, mobiliadas de confortáveis poltronas em verdadeiro couro “Club” de encosto captionné, com base de imbuya e entalhes, segundo o estylo Luiz XVI. Dahi se passa por duas escadas de onyx e bronze para as tribunas nobres [...]

Dessa galerias de circulação, passa-se por três portas, ao recinto das sessões, sala circular, de 22 metros de diâmetro e 18 de altura, de feição néo-grega. Os lambris e o mobiliário constituem a offerta do Estado de S. Paulo, e foram executados no Lyceu de Artes e Officios, da sua capital. Carteiras e poltronas em numero de 260 jogos, occupam a superfície de 400m² e dispõem-se em arcos de círculos concêntricos, sobre um plano com a inclinação de 2%. [...] Na grande arca da frente em corpo avançado sobre o amphyteatro, avulta o bureau da Presidencia e Secretarios, ladeado por tribunas para os oradores, situadas ambas em plano mais baixo.

[...] Por cinco escadas de mármore e grades de ferro com applicações de bronze, e pelos elevadores que vão do 1º andar ao ultimo, attinge-se ao 4º pavimento, onde, na parte interior, ficam situadas quatro salas para Commisões, ainda ao gosto de Luiz XVI, pintadas a óleo fosco, tendo os ornatos patinados. 142

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