CONSIDERAÇÕES FINAIS 193 REFERÊNCIAS
2. METODOLOGIA DA PESQUISA
2.2 CONTEXTO EDUCACIONAL DA PESQUISA: SCUOLA ITALIANA EUGENIO MONTALE
A pesquisa foi realizada na Scuola Italiana Eugenio Montale, localizada no bairro do Morumbi, na zona sul de São Paulo, capital. A instituição de ensino particular foi fundada em 1982, por um grupo de pais italianos empenhados em uma proposta pedagógica de base filosófica e humanista. Segundo informações do site da escola (disponível em: <www.montale.com.br>, último acesso em: 13/10/2017), o objetivo da instituição é promover uma escolarização que favoreça a construção da autonomia, pautada em três saberes: o saber como apropriação do conhecimento, organizado nos principais campos teóricos relacionados à cultura literária, histórica, científica e artística; o saber fazer que é a capacidade de manejar e aplicar os conhecimentos em novas situações e o saber ser que se relaciona à postura ética do cidadão na vida social.
Além disso, a escola destaca que proporciona um ambiente multicultural e diversificado, de acordo com as exigências atuais de uma escola internacional. É a única do Estado de São Paulo a ser reconhecida como "scuola paritaria" pelo Governo Italiano, fato que garante o acesso direto dos alunos em escolas e universidades europeias, bem como em escolas e universidades brasileiras.
As salas de aulas possuem número reduzido de alunos e a grade curricular da Escola contempla, desde o primeiro ano do Ensino Fundamental I, a aprendizagem da Língua Italiana, Língua Portuguesa, Língua Inglesa (a partir do 3º ano), Matemática, História Geral e do Brasil, Geografia Geral e do Brasil, Música, Educação Física, Ciências Naturais e Artes Visuais. As disciplinas são ministradas em um dos dois idiomas, sendo que há uma prevalência da Língua Italiana. As aulas são em período integral (das 8h00 às 15h30) para os alunos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Os alunos da Educação Infantil podem optar pelo meio período.
Nossa pesquisa realizou-se com os alunos do 5º ano do Ensino Fundamental I. A carga horária referente a cada disciplina para o 5º ano pode ser observada na seguinte imagem retirada do site da Escola:
Podemos notar que no 5º ano do Fundamental I os alunos têm 5 aulas semanais de Língua Italiana e 4 aulas semanais de Língua Portuguesa. A divisão educacional segue a brasileira, em relação à duração de cada ciclo, mas a nomenclatura educacional utilizada é italiana: Scuola dell'Infanzia, Scuola Primaria, Scuola Secondaria di I Grado e Scuola Secondaria di II Grado. Como existem algumas diferenças de nomenclatura e de faixa etária dos alunos entre a divisão italiana e a divisão brasileira, apresentamos um breve quadro comparativo:
Scuola Italiana
Nomenclatura Duração Idade dos alunos (no início do ciclo)
Scuola dell'infanzia 3 anos Entre 3 e 5 anos
Scuola primaria 5 anos Entre 6 e 7 anos
Scuola Secondaria di I Grado (Scuola Media)
3 anos Entre 11 e 12 anos Scuola Secondaria di II Grado
(Scuola Superiore ou Liceo)
5 anos Entre 14 e 15 anos
Quadro 3 - Divisão Educacional Italiana
Escola Brasileira
Nomenclatura Duração Idade dos alunos (no início
do ciclo)
Pré escola/ Jardim de infância 3 anos Entre 3 e 5 anos
Ensino Fundamental I 5 anos Entre 6 e 7 anos
Ensino Fundamental II 4 anos Entre 11 e 12 anos
Ensino Médio 3 anos Entre 15 e 16 anos
Quadro 4 - Divisão Educacional Brasileira
Na conclusão do Ensino Fundamental II (ou da Scuola Secondaria di I Grado), os alunos da Montale são submetidos ao exame di Stato Conclusivo del Primo Ciclo di Istruzione, um exame obrigatório instituído pelo Ministero della Pubblica Istruzione, realizado em todas as escolas italianas no mundo. O exame é realizado por uma banca de professores da escola, presidida por um comissário enviado pelo Governo Italiano. Trata-se de uma avaliação global dos conhecimentos e das competências dos alunos, tanto do ponto de vista da escrita, quanto da oralidade. Os alunos aprovados recebem o primeiro Diploma di Stato Italiano (reconhecido pela União Europeia).
Os alunos que frequentam a escola são principalmente brasileiros e italianos, mas há também alunos estrangeiros de outras nacionalidades. O corpo docente é composto por professores italianos e brasileiros.
Sendo assim, nota-se que há um conjunto de fatores distintos que convergem no mesmo espaço e que, ao mesmo tempo, formam a complexidade do contexto dessa escola, particularmente interessante do ponto de vista pragmático, pois envolve o ensino de língua materna (L1), de segunda língua (L2) e de língua estrangeira (LE), proporcionando uma integração e uma interação cultural entre os alunos bilíngues de português e italiano.
Não nos deteremos aqui a tratar das questões de didática relacionadas ao ensino- aprendizagem de L1, L2 e LE, porque isso exigiria uma outra pesquisa, nosso intuito é somente o de descrever o contexto de ensino dessas duas línguas. Dessa forma, entendemos como língua materna (L1) a língua que se aprende nos primeiros anos de vida, em geral, com os pais, e que se fala em casa, com os amigos, parentes, em situações públicas, na escola etc. Já a segunda língua (L2) é a língua não materna, ou seja, é a língua que se aprende depois da primeira.
Pallotti (2006) distingue os aprendizes de segunda língua em aprendizes espontâneos ou naturais e aprendizes guiados ou escolares. Embora existam diferenças entre os dois tipos de aprendizados, ambos se baseiam fundamentalmente em processos comuns. As sequências de aprendizagem, o transfer, as estratégias comunicativas, os fatores afetivos ou a atenção para a forma linguística estão presentes tanto nos aprendizes espontâneos como nos aprendizes guiados. Nesta pesquisa, não usaremos esta distinção, mas chamaremos os aprendizes espontâneos de uma segunda língua de (L2) e, para os aprendizes guiados, usaremos (LE).
Desse modo, segunda língua (L2) é a língua que é aprendida no país em que ela é falada e é utilizada nos mesmos contextos da L1 (casa, escola, amigos, parentes etc.). A aquisição acontece de modo espontâneo ou natural, ou seja, não ocorre o ensino explícito de regras, a língua é apreendida por meio das interações sociais. Em outras palavras, o input (material linguístico ao qual o aprendiz é exposto) é maior, não é controlado e existem mais possibilidades de uso.
Já a língua estrangeira (LE) é a língua que é aprendida fora do país no qual ela é habitualmente falada. A aprendizagem é realizada através de instrução formal, dá-se
normalmente em contexto escolar. O input é menor, controlado, e com menor exposição e possibilidades de uso "real".7
Na Scuola Italiana Eugenio Montale, o português brasileiro é uma língua materna para os aprendizes brasileiros, no entanto, essa língua é pouco usada durante as atividades escolares. A língua italiana para os alunos italianos é uma língua materna, mas não é falada no país em que o aluno vive, falta-lhes, portanto, a possibilidade de usar a língua italiana nos contextos sociais públicos, além da escola.
O italiano para os alunos brasileiros é língua estrangeira porque não é aprendida no país em que se fala, mas a esta língua é dedicada a maior parte das atividades escolares. O português para os alunos italianos é segunda língua porque é aprendida no país em que se fala, mas, na escola, os alunos tem pouca oportunidade de usá-la.
Portanto, as crianças participantes da pesquisa apresentam diferentes níveis de bilinguismo. A partir da classificação de Harmers e Blanc (2000), em relação às competências linguísticas relativas em cada língua (português e italiano), podemos dizer que algumas crianças apresentam bilinguismo balanceado (competência linguística equivalente em ambas as línguas) e algumas apresentam bilinguismo dominante (maior competência linguística em uma das línguas, geralmente na língua que foi adquirida primeiro - L1). Já em relação ao aspecto cognitivo, algumas crianças apresentam bilinguismo simultâneo (quando foi exposta a duas línguas desde o nascimento e as adquiriu ao mesmo tempo), por exemplo, crianças com pais de nacionalidades diferentes que interagem em casa em suas línguas maternas. E outras crianças apresentam bilinguismo consecutivo (decorrente da exposição à segunda língua depois da aquisição da língua materna, ou seja, a criança adquiriu a L2 após ter assimilado as bases linguísticas da L1).
Assim, o contexto dessa escola bilíngue e os participantes da pesquisa são caracterizados pelo hibridismo. Essa característica se encontra tanto no modo como se organiza a escola como na heterogeneidade dos estudantes que a frequentam.
Dessa forma, estudar, sob uma perspectiva pragmática, a construção das relações pessoais entre esses falantes, em sala de aula, é lidar com uma perspectiva cross-cultural e intercultural simultaneamente, ou seja, é promover a comparação entre duas culturas, focalizando a interação entre os falantes nativos e não nativos das duas línguas. Ao mesmo
7 Krashen (1981) faz uma distinção entre aquisição e aprendizagem (acquisition e learning, em inglês). A primeira seria espontânea, inconsciente, já a segunda, seria guiada e caracterizada pela atenção consciente das estruturas linguísticas.
tempo, é se deparar com o ensino interlinguístico da Pragmática, isto é, com o modo como os aprendizes de língua estrangeira (português ou italiano) percebem as nuances pragmáticas de cada língua.
A seguir, apresentaremos, de forma mais detalhada, os participantes da pesquisa.