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CONSIDERAÇÕES FINAIS 193 REFERÊNCIAS

1. A LINGUAGEM SOB A PERSPECTIVA DA PRAGMÁTICA

1.2 LÍNGUA E CONTEXTOS

1.2.1 Língua e contexto social

Em 1929, acredita-se que Bakhtin, sob o pseudônimo de V. N. Volochínov, escreveu a obra Marxismo e Filosofia da Linguagem, a qual tem como pressuposto as relações entre linguagem e sociedade. O autor caracteriza e analisa criticamente duas correntes do pensamento filosófico-linguístico: o subjetivismo idealista e objetivismo abstrato para propor uma teoria da enunciação e um novo olhar sobre a natureza da linguagem.

De acordo com Bakhtin, a corrente teórica que ele chamou de subjetivismo idealista interessava-se pelo ato da fala, de criação individual. O autor sintetiza as características dessa visão da seguinte forma: a língua é uma atividade, um processo criativo ininterrupto de construção, que se materializa sob a forma de atos individuais de fala; as leis da criação linguística são essencialmente as leis da psicologia individual; a criação linguística é uma criação significativa, análoga à criação artística; a língua, como produto acabado, é vista como estável, como um instrumento pronto para ser usado (BAKHTIN, 2002, p. 72-73). Como um dos mais notórios representantes dessa tendência, Bakhtin cita Wilhelm Humboldt. Em outras palavras, nessa perspectiva o contexto social não teria uma significação direta na

construção do pensamento e da enunciação, pois, para os teóricos do subjetivismo idealista, o pensamento originava-se de dentro para fora, isto é, o pensamento era expressão do interior para o exterior. A língua era apenas um instrumento utilizado para expressar o que já estava no interior do sujeito, portanto, criação subjetiva individual.

Em oposição a essa visão de língua, estavam os teóricos adeptos ao que Bakhtin denominou objetivismo abstrato, para os quais o centro organizador de todos os fatos da língua é o sistema linguístico (sistema de formas fonéticas, gramaticais e lexicais da língua). São esses traços que garantem a unicidade de uma dada língua e sua compreensão. Do ponto de vista do indivíduo, as leis linguísticas são arbitrárias, isto é, privadas de uma justificação natural ou ideológica (por exemplo, artística). Se a língua, como conjunto de formas, é independente de todo impulso criador e de toda ação individual, logo é produto de uma criação coletiva, um fenômeno social. Bakhtin enumera as seguintes características dessa perspectiva: a língua é um sistema estável, imutável de formas linguísticas submetidas a uma norma fornecida; as leis da língua são essencialmente leis linguísticas específicas, que estabelecem ligações entre os signos linguísticos no interior de um sistema fechado, são objetivas e não subjetivas; as ligações linguísticas específicas nada tem a ver com valores ideológicos (artísticos, cognitivos, ou outros), ou seja, entre a palavra e seu sentido não existe vínculo natural e compreensível para a consciência; os atos individuais de fala constituem simples refrações ou variações fortuitas ou mesmo deformações das formas normativas (BAKHTIN, 2002, p. 82-83).

Um dos representantes mais eminentes do objetivismo abstrato é Saussure. Para Bakhtin, como também para Saussure, a língua é um fato social, cuja existência se fundamenta nas necessidades da comunicação, mas, ao contrário de Saussure, que faz da língua um objeto abstrato ideal, homogêneo e rejeita suas manifestações individuais (a fala), Bakhtin, por sua vez, valoriza justamente a fala (a enunciação).

De acordo com Bakhtin, a fala está indissoluvelmente ligada às condições de comunicação e a enunciação é a unidade de base da língua. A enunciação faz parte de um processo de comunicação ininterrupto, é um elemento do diálogo, portanto, é uma criação coletiva, um fenômeno social e não existe fora de um contexto social. A situação dá forma à enunciação que, por sua vez, veicula, elabora e transmite ideias, logo a enunciação é ideológica. Para Bakhtin todo signo é ideológico, a ideologia é reflexo das estruturas sociais, assim toda modificação da ideologia encadeia uma modificação na língua.

A concepção de língua de Bakhtin, além de ideológica é também dialógica (diálogo), uma vez que há sempre um interlocutor, ao menos potencial, e um locutor que pensa e se exprime para um auditório bem definido. Sendo o signo e a enunciação de natureza social, em que medida a linguagem determina a consciência, a atividade mental? Em que medida a ideologia determina a linguagem? Para o filósofo, o pensamento forma-se a partir do exterior, ou seja, do contexto social. É o contexto social que molda os sentimentos do indivíduo e esses sentimentos, por sua vez, vão moldar a sua enunciação, que é a expressão do modo de se relacionar com o mundo exterior, tanto que Bakhtin afirma: "a situação social mais imediata e o meio social mais amplo determinam completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a estrutura da enunciação" ( 2002, p. 113).

Em outras palavras, o pensamento não existe sem a língua e a língua não existe sem contexto social, ou seja, a existência de uma está condicionada à existência da outra, são indissociáveis. Nas palavras do autor "pode-se dizer que não é tanto a expressão que se adapta ao nosso mundo interior, mas o nosso mundo interior que se adapta às possibilidades de nossa expressão, aos seus caminhos e orientações possíveis" (BAKHTIN, 2002, p. 118).

Resumindo, o contexto exterior gera língua, que gera pensamento, que gera expressão que se materializa no mundo exterior. A expressão, por sua vez, age novamente no interior do sujeito provocando reflexão e diálogo com o meio no qual está inserido. É um ciclo. Dessa forma, o estudo da linguagem não pode estar apartado do contexto que o produz.

Colaborando para o desenvolvimento dessa perspectiva, nasce a Análise do Discurso (AD), a qual coloca como elemento fundamental a relação entre linguagem e contexto de produção. Orlandi (1987) afirma que a AD abre um campo de questões no interior da linguística, relacionando o conhecimento da linguagem ao conhecimento das formações sociais. Segundo a autora, a AD considera a exterioridade como constitutiva dos processos e das condições de produção da linguagem e define discurso não como transmissão de informação, mas como

efeito de sentidos entre interlocutores, enquanto parte do funcionamento

social geral. Dessa forma, os interlocutores, a situação, o contexto histórico social, as condições de produção, constituem o sentido da sequência verbal produzida. Quando se diz algo, alguém o diz de algum lugar da sociedade para outro alguém também de algum lugar da sociedade e isso faz parte da significação. ( p. 26)

Além disso, para a autora "[...] a AD tem relações importantes com a Pragmática, a Enunciação e a Argumentação, mas inclui, nessas relações, a consideração necessária do ideológico, ao asseverar que não há discurso sem sujeito nem sujeito sem ideologia" (ORLANDI, 1987, p. 13).

Podemos acrescentar que, se não há discurso sem sujeito, nem sujeito sem ideologia, também não há contexto sem sujeito, pois como afirma Van Dijk:

os contextos não são um tipo de condição objetiva ou de causa direta, mas antes construtos (inter) subjetivos concebidos passo a passo e atualizados na interação pelos participantes enquanto membros de grupos e comunidades. Se os contextos fossem condições ou restrições sociais objetivas, todas as pessoas que estão na mesma situação social falariam do mesmo modo. (2012, p. 11)

Dessa forma, os contextos são construtos dos participantes, ou seja, durante uma interação não é somente o discurso que é produzido e influenciado pelo contexto, mas também o contexto interacional é produzido e influenciado pelo discurso. Como veremos a seguir, o contexto apresenta algumas características fixas e algumas variáveis.