3. CONTEXTO HISTÓRICO
3.1 Contexto histórico brasileiro
3.1.3 Contexto Educacional Superior
O período do Estado Novo foi fundamental para o início da formação do Ensino Superior, até então voltado exclusivamente para o ensino profissionalizante (ROMUALDO, 2012). No setor educacional, o governo getulista foi marcado por vários Decretos-Leis no período de 1942 a 1946 reconhecidos como “Reforma Capanema”, nome este referente ao então Ministro da Educação da época Gustavo Capanema22. Foram oito decretos que regulamentavam o Ensino Primário, o Ensino Secundário e as distintas áreas do Ensino Profissionalizante (industrial, comercial, normal e agrícola). De modo geral, pode-se ponderar a educação neste período como uma das principais ferramentas de fortalecimento da intervenção do Estado nos diferentes setores da sociedade, deixando assim de ser neutra para adotar uma filosofia e seguir valores interessantes ao governo (ALMEIDA, 1998). Esta reforma das vias pedagógicas, como via de controle das massas, introduziria a “ordem”, a “tradição” e o “patriotismo” como princípios nos novos programas de ensino, prática esta semelhante às adotadas pelos regimes totalitários alemão e italiano da época. Por este motivo, esta prática também era mais um dos exemplos do paradoxo da aproximação do Governo Vargas com os países do Eixo.
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A criação do Ministério da Educação e da Saúde também aconteceu no plano do Estado Novo, com o objetivo de coordenar e impulsionar o desenvolvimento dos trabalhos relativos aos problemas da área em alcance nacional (Schwartzman, 1982, pg 355).
A Reforma Capanema ratificou a ordem vigente da época, já que manteve como característica da educação brasileira o dualismo, já explícita na constituição de 1937. Esta dualidade refere- se à divisão educacional entre pobres e ricos, através da ênfase no trabalho manual: a classe alta iniciou seus estudos em redes públicas ou privadas com objetivo introdutório e teórico, enquanto que os pobres, por sua vez, destinar-se-iam às escolas profissionalizantes, revelando a clara dicotomia entre os trabalhos intelectuais e manuais. Estas últimas escolas foram criadas após as reformas de ensino em nível federal, com a implantação de ensino técnico para promover a industrialização simultaneamente à qualificação da mão de obra profissional (SCHWARTZMAN, 1982).
Exemplo de propostas para este ensino profissionalizante foram as chamadas “Universidades do Trabalho”, perdurantes entre 1930 a 1955. Estas foram as primeiras instituições de ensino com o objetivo de amenizar a disparidade encontrada no ensino superior no Brasil, ao tentar conciliar os conceitos “Universidade”, destinada apenas às elites, e “Trabalho”, atividades braçais ligadas às classes mais baixas (LORETO JUNIOR, 2008). Apesar destas universidades não conseguirem êxito em seu desenvolvimento e expansão, foram totalmente condizentes com os interesses do Estado Novo de instrução profissional aos jovens trabalhadores para a evolução da educação nacional. O anseio por uma formação profissional mais completa é presente no discurso do então presidente Getúlio Vargas, realizado na Bahia em 1933: “A instrução que precisamos desenvolver, até o limite extremo das nossas possibilidades, é a profissional e técnica. Sem ela, sobretudo na época caracterizada pelo predomínio da máquina, é impossível o trabalho organizado” (LORETO JUNIOR, 2008, pg. 38).
Pelas mudanças nas leis trabalhistas, bem como desenvolvimento das indústrias, no governo foi necessário formular um novo perfil da força de trabalho urbana, o que pressupôs uma certa escolarização dos profissionais. Além disso, a própria diversificação das atividades ocupacionais, inerente ao processo de modernização, suscitou a demanda pela ampliação das oportunidades educacionais. Assim, era de extrema importância profissionalizar a massa trabalhadora precocemente (no ensino secundário) devido a realidade socioeconômica em que se inseria o país naquele momento, realidade já relatada neste estudo. Por este motivo, o ensino industrial e o ensino comercial foram melhores organizados, bem como atingidos com acentuado progresso quantitativo, em virtude do novo sistema legal e das providências executivas tomadas pelo Ministério de Educação e Saúde (SCHARTZMAN, 1982). Como
exemplos deste contexto, foram criados o Senai (1942) e o Senac (1946), visando qualificar a mão-de-obra para a indústria e o comércio/prestação de serviços, respectivamente (LORETO JUNIOR, 2008). É interessante mencionar que Padre Sabóia, criador da ESAN, foi um dos inspiradores e orientadores da implantação destes serviços sociais juntamente com Roberto Simonsen, então presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP).
Destarte, diante deste novo objetivo quanto ao sistema educacional, deu-se início a um debate sobre quais seriam as finalidades dos cursos de nível médio e de nível superior. Segundo Romualdo (2012), nestes debates o ensino superior deixou de possuir uma vocação exclusivamente acadêmica para promover também uma a aplicação prática dos conceitos, alterando-se, para atingir esse objetivo, os currículos então ministrados para incluir ou sobressair as disciplinas técnicas ou tecnológicas. Resumidamente, o quadro de instituições de ensino bem como da qualidade de rendimento dos mesmos foram alvo de reformas, a fim de fixar bases e linhas estruturais de um novo sistema de ensino (SCHWARTZMAN, 1982, pg. 367). Outras mudanças foram implantadas, como a introdução de novos processos na seleção dos professores, a criação de ensino de Filosofia, Ciências e Letras e a construção de um emparelhamento às instituições federais de ensino para abrir novas perspectivas ao ensino universitário, enriquecendo-o com mais um setor de estudos de grande significação (SCHWARTZMAN, 1982, pg. 371). Neste contexto de reformas, houve a criação de universidades públicas em paralelo à necessidade de resolução dos problemas sociais que emergiam nas grandes capitais, especialmente em São Paulo (por exemplo, no caso da criação da Universidade de São Paulo, em 1934), devido à industrialização e ao aumento da demanda de mão-de-obra qualificada.
Dessa maneira, a educação no Estado Novo foi considerada a base para ascensão social da população, divulgando o caráter profissionalizante precoce para as classes menos favorecidas, ao mesmo tempo que ratificava a ordem dominante ao manter a dualidade entre as classes sociais. Este caráter “estratégico” da educação, ao utilizá-la indiretamente como ferramenta de controle, permaneceu durante a Guerra Fria, já que neste período o ensino no Brasil foi marcado pelos altos investimentos externos, como será exemplificado com a expansão do ensino do management.