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2 Contexto histórico constitucional

No documento Christine PeterRafael Fernandes (páginas 180-184)

A partir da revolução francesa de 1789 houve avanços significativos para o começo da formação de um pensamento com caráter transformador de âmbito social, resultando mais tarde, na formação constitucional alemã. A revolução despertou o anseio por transformações sociais visando à queda do feudalismo, por parte da burguesia e a proclamação da igualdade. Entretanto a nobreza alemã foi contra, acarretando no fracasso da maioria dos ideais gerados2. “O cidadão teve negado, em quase toda parte, a participação na atividade legislativa. Apenas com hesitação os príncipes outorgaram a seus Estados uma constituição”.3

Em 1814, no Congresso de Viena, criou-se a Liga Alemã, uma reunião de Estados soberanos que tinha por objetivo “reprimir qualquer esforço voltado para a unificação e a liberdade”4, composta por 35 principados e 4 cidades livres5, substituindo o antigo império6.

Em 1848 houve uma nova revolução francesa que, diferentemente da anterior, teve muito reflexo no território alemão. Substituindo a Liga Alemã surge a Assembleia Nacional, que se reúne em Frankfurt, tendo como força dominante o centro liberal que objetivava uma Monarquia Constitucional com direito eleitoral limitado7.

Em março de 1849 a Assembleia aprova a Constituição Imperial, oferecendo a coroa hereditária ao rei prussiano, Guilherme IV, que recusou devido à mesma ter sido originada de uma revolução. Com isso a Assembleia fracassa, a revolução é dissolvida e a Liga Alemã volta em 18508, existindo até 18669.

2 ROMER, Karl. A Alemanha de hoje. Tradutor: José Camurça. Alemanha: Bertelsmann Lexicon Verlag, 1981.

3 ROMER, Karl. A Alemanha de hoje. Tradutor: José Camurça. Alemanha: Bertelsmann Lexicon Verlag, 1981.. p. 53.

4 ROMER, Karl. A Alemanha de hoje. Tradutor: José Camurça. Alemanha: Bertelsmann Lexicon Verlag, 1981.

5 ARNTZ, Helmut. A Alemanha de hoje III: a Alemanha no passado e no presente. Alemanha: Bertelsmann Lexicon Verlag, : F. S. Verlag,1964.

6 ROMER, Karl. A Alemanha de hoje. Local:L. Verlag,1981.

7 ROMER, Karl. A Alemanha de hoje. Tradutor: José Camurça. Alemanha: Bertelsmann Lexicon Verlag, 1981.

8 ROMER, Karl. A Alemanha de hoje. Tradutor: José Camurça. Alemanha: Bertelsmann Lexicon Verlag, 1981.

9 ARNTZ, Helmut. A Alemanha de hoje III: a Alemanha no passado e no presente. Alemanha: Bertelsmann Lexicon Verlag,1964.

O texto fundamental de 1849, que acabou por nunca verdadeiramente vigorar, continha 14 artigos, influenciados pela Declaração de Direitos do Homem da revolução francesa, pelo “Bill of Rights” da Constituição da América, e que referiam as liberdades civis essenciais, os direitos políticos dos sistemas “democráticos” e as garantias processuais dos modernos Estados de Direito.10

A Liga Alemã foi dissolvida e para a sua substituição surge a Liga Setentrional Alemã formada por todos os estados germânicos ao norte da linha do rio Meno. Teve como chanceler Otto Von Bismarck11.

Bismarck tinha como objetivo unificar a Alemanha dentro da concepção de pequena Alemanha. Governou por 19 anos como Chanceler Imperial, fazendo acordos para crescimento do Império e de força diante outros países europeus12.

Otto Von Bismarck reconstituiu com seu posto de chanceler e a partir da Prússia, uma política de reestruturação do Império. A guerra entre a Prússia e a Áustria em 1866 definiu as fronteiras orientais e ocidentais da Alemanha. Em 1867 surge a Federação Alemã do Norte com frente prussiana13.

Em 1871 foi estabelecida uma nova constituição alemã, conhecida como a lei fundamental de 1871, associando o regime monárquico de Guilherme I a “uma forma republicana de governo” representando as parcelas da sociedade14.

A função dessa constituição foi de estruturação do poder do Estado, representando uma “Lei orgânica”. Nessa constituição os direitos fundamentais foram deixados em segundo plano, sendo abordados por meio de cartas de direitos do Estados e leis avulsas15

A fórmula monárquica, simbólica e unificadora, alia-se à continuação de uma alargada Confederação Alemã e a ideia de uma lei fundamental complexa, estruturadora de garantias de ordenamentos jurídicos diversos e estabelecedora

10 ROGEIRO, Nuno. A lei fundamental da República Federal da Alemanha: com um ensaio e ano-tações de Nuno Rogeiro. Coimbra: Coimbra, 1996. p. 30.

11 ROMER, Karl. A Alemanha de hoje. Tradutor: José Camurça. Alemanha: Bertelsmann Lexicon Verlag, 1981.

12 ROMER, Karl. A Alemanha de hoje. Tradutor: José Camurça. Alemanha: Bertelsmann Lexicon Verlag, 1981.

13 ROGEIRO, Nuno. A lei fundamental da República Federal da Alemanha: com um ensaio e ano-tações de Nuno Rogeiro. Coimbra: Coimbra, 1996

14 ROGEIRO, Nuno. A lei fundamental da República Federal da Alemanha: com um ensaio e ano-tações de Nuno Rogeiro. Coimbra: Coimbra, 1996.

15 ROGEIRO, Nuno. A lei fundamental da República Federal da Alemanha: com um ensaio e ano-tações de Nuno Rogeiro. Coimbra: Coimbra, 1996.

de princípios horizontais e verticais de separação de poderes.16

Com a República de Weimar, a derrocada militar foi acompanhada pela política. Sem oferecer resistência alguma, imperador e príncipes abandonaram seus tronos em novembro de 1918, e ninguém procurou defender a monarquia que caíra em descrédito, a Alemanha tornara-se República.17

Quanto ao sistema de direitos fundamentais herdado diretamente da constituição de 1848 tentou-se conciliar os chamados18 “direitos políticos de 1ª geração e os direitos sociais”.19

Os sociais-democratas ficaram com o poder. Seu principal objetivo foi garantir uma transição ordenada a uma nova forma de Estado. Forças radicais foram militarmente impedidas para que não houvesse desvio para o caráter socialista20.

Em janeiro de 1919 foi eleita uma Assembleia Nacional composta basicamente por três partidos, o Partido Social Democrata, o Partido Democrata Alemão e o Centro Liberal. Eles se reuniram em Weimar, aprovando a nova constituição para o Reich21.

“A República de Weimar foi uma república sem republicanos”, pois foi muito criticada e pouco defendida, juntando ainda os problemas econômicos causados pela primeira guerra e a paz forçada pelo Tratado de Versailles22.

O fracasso da República começa com a crise de 29 pois os extremistas se aproveitaram tanto da instabilidade emocional, como da miséria que a população da época passou. Então o movimento nazista de Adolf Hitler, que pregava ideais antidemocráticos ganhou força principalmente em 193023.

16 ROGEIRO, Nuno. A lei fundamental da República Federal da Alemanha: com um ensaio e ano-tações de Nuno Rogeiro. Coimbra: Coimbra, 1996. p. 26.

17 ROGEIRO, Nuno. A lei fundamental da República Federal da Alemanha: com um ensaio e ano-tações de Nuno Rogeiro. Coimbra: Coimbra, 1996. p. 60

18 ROMER, Karl. A Alemanha de hoje. Tradutor: José Camurça. Alemanha: Bertelsmann Lexicon Verlag, 1981.

19 ROGEIRO, Nuno. A lei fundamental da República Federal da Alemanha: com um ensaio e ano-tações de Nuno Rogeiro. Coimbra: Coimbra, 1996. p. 41

20 ROGEIRO, Nuno. A lei fundamental da República Federal da Alemanha: com um ensaio e ano-tações de Nuno Rogeiro. Coimbra: Coimbra, 1996.

21 ROGEIRO, Nuno. A lei fundamental da República Federal da Alemanha: com um ensaio e ano-tações de Nuno Rogeiro. Coimbra: Coimbra, 1996.

22 ROGEIRO, Nuno. A lei fundamental da República Federal da Alemanha: com um ensaio e ano-tações de Nuno Rogeiro. Coimbra: Coimbra, 1996.

23 ROMER, Karl. A Alemanha de hoje. Tradutor: José Camurça. Alemanha: Bertelsmann Lexicon Verlag, 1981.

Em 1933 Hitler é eleito Chanceler do Reich. Após a sua entrada no poder, ele acabou com seus aliados dando poder apenas para seu partido e, reprimindo os outros24.

“Logo após a tomada do poder, o regime deu início à concretização de seu programa antissemita. Paulatinamente foram roubados aos judeus seus direitos políticos fundamentais.”25 Mas a maioria dos alemães aceitou a ditadura sem esforços, pois a democracia da República de Weimar não tinha criado raízes e Hitler fez notar-se com o “fim” do desemprego26.

“Os sindicatos foram liquidados, os direitos fundamentais praticamente revogados e extinta a liberdade de imprensa”.27

“Em 1° de setembro de 1939, com a invasão da Polônia, Hitler desencadeia a segunda guerra mundial que durou cinco anos e meio, devastou grandes regiões da Europa e custou a vida de 55 milhões de pessoas.”28 Tendo fim em 1944 com a queda de Adolf Hitler e de seus aliados, deixando a Alemanha em plena miséria e com um futuro incerto29.

3 Constituição de 1949

Foi formalmente aprovada em 8 de maio de 1949 e, com a assinatura dos Aliados (França, Reino Unido, Estados Unidos), entrou em vigor em 23 de maio de 1949como a constituição de fato da Alemanha Ocidental.30

A palavra alemã Grundgesetz pode ser traduzida tanto para Lei Básica ou Lei Fundamental. O termo Verfassung (constituição) não foi usado, pois os criadores viam o Grundgesetz como um documento provisório, que seria substituído pela constituição da Alemanha reunida. Isso não foi possível no contexto da Guerra 24 ROMER, Karl. A Alemanha de hoje. Tradutor: José Camurça. Alemanha: Bertelsmann Lexicon

Verlag, 1981.

25 ROMER, Karl. A Alemanha de hoje. Tradutor: José Camurça. Alemanha: Bertelsmann Lexicon Verlag, 1981. p. 63.

26 ROMER, Karl. A Alemanha de hoje. Tradutor: José Camurça. Alemanha: Bertelsmann Lexicon Verlag, 1981.

27 ROMER, Karl. A Alemanha de hoje. Tradutor: José Camurça. Alemanha: Bertelsmann Lexicon Verlag, 1981. p. 62.

28 ROMER, Karl. A Alemanha de hoje. Tradutor: José Camurça. Alemanha: Bertelsmann Lexicon Verlag, 1981. p. 63.

29 ROMER, Karl. A Alemanha de hoje. Tradutor: José Camurça. Alemanha: Bertelsmann Lexicon Verlag, 1981.

30 ALEMANHA. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Alemanha>. Acesso em: 14 jun. 2014.

Fria e da orientação comunista do setor soviético da Alemanha, que depois em 1949 proclamou-se República Democrática da Alemanha, dividindo a Alemanha em dois estados31.

Quarenta anos depois, em  1990, a Alemanha finalmente foi  reunificada  quando os  estados  da  RDA  pacificamente se uniram com a parte ocidental, a  República Federal da Alemanha. Depois da reunificação, a Lei Fundamental permaneceu, tendo provado ser um fundamento estável da  próspera  democracia  da Alemanha Ocidental que emergiu das ruínas da Segunda Guerra Mundial. Algumas mudanças foram feitas em 1990, sendo a maioria pertinente à reunificação, tal como do preâmbulo32.

No documento Christine PeterRafael Fernandes (páginas 180-184)