Há perspectivas que analisam o poder sob diversos pontos de vista, poder como fenômeno, anteposto dialético do dever, forma de opressão, instrumento
11 Recuperações: A Agência Nacional Collection (NIB), em nome de milhares de vítimas e a As-sociação de Consumidores ajuizaram ações contra o banco. Um banco de poupança do Minis-tro Wouter Bos foi ameaçado através de uma ação judicial contra a Islândia. O Estado neerlan-dês garantiu que as vítimas teriam até € 100.000 ressarcidos. ICESAVE. Disponível em: <http:// icesave.nl/>. Acesso em: 14 jun. 2014.
12 Acordo de compensação: Em dezembro de 2010 foi anunciado que a Holanda, a Islândia e o Reino Unido chegariam a um acordo e um montante de 1,3 bilhões seriam pagos à Holanda pela Islândia. O Estado islandês disse em outubro que cumpriria o seu sistema de garantia e o Estado holandês alcançaria o montante inicial do pagamento dos correntistas do IceSave. Em dezembro de 2010 assim o fez conduzido pelo DNB. ICESAVE. Disponível em: <http://icesave. nl/>. Acesso em: 14 jun. 2014.
de manipulação, por meio de quem o exerce, enfim, percebe-se ser um amplo conceito estudado pelo homem, mas que pelo simples fato de ser possível entre pessoas, está sujeito a uma evolução constante. É nesse sentido que inicio essa pesquisa que tem como objeto o Estado Constitucional islandês que, além de palco de atuação de uma das casas legislativas mais antigas da Europa, traz consigo uma Constituição que data do imediato pós-guerra, em 1944, e atualmente tornou-se notícia pelo fato de o poder constituinte ser exercido diretamente pelo povo por meio da internet. É pouco provável que em termos de comparações uma realidade brasileira, sul-americana ou continental possa ser levada como ‘fiel da balança’ pela pouca similitude no que diz respeito a dimensões territoriais, aspectos demográficos, integração de diferentes culturas (talvez uma herança do colonialismo europeu nos force a entender mos a origem das coisas), entretanto, válido estudo pela contemporaneidade da discussão de marcos-civis da internet em vários países do mundo e das possibilidades que esse ‘lugar’ digital proporciona.
Valho-me das contribuições, em um primeiro momento, da escrita propriamente dita, pois, ‘sem a escrita, a construção de cadeias complexas de poder nas burocracias político-administrativas não poderia ser realizada, ainda menos um controle democrático do poder político’14, da escrita em linguagem de programação computadorizada que aproxima as esferas pública e privada, e do professor Niklas Luhmann, por meio de uma perspectiva de que o poder é generalizado simbolicamente.
Essa última perspectiva entende que comunicar-se é uma causalidade sob condições desfavoráveis, um processo causal, pelos fundamentos não causais da causalidade. Oportuno entender dessa forma, uma vez que os fundamentos não são os ‘jogáveis do jogo’ nem os ‘permutáveis da troca’. Pode ser uma abordagem subversiva se entendida sob o ponto de vista de um terceiro prejudicado, mas que, em vista de uma diferenciação social e de uma evolução sociocultural15, legitima o poderoso em relação ao subordinado através do critério da originalidade que 14 LUHMANN, Niklas. Poder. Brasília: UnB, 1975.
15 Teoria do poder através da teoria da sociedade, subsumida entre as teorias - que alcançam o mesmo resultado, qual seja a diferenciação - da diferenciação social (em estratos e em subsiste-mas funcionais) e a da evolução sociocultural em 3 concepções diversas: i) teoria da formação dos sistemas e da diferenciação deles; ii) teoria da evolução; e iii) teoria esboçada dos meios de comunicação generalizados simbolicamente.
faz do dissenso um consenso. Ao apresentar possibilidades, o poderoso decide, mas as alternativas devem ser consideradas novos fundamentos de causalidade.
A impressão de que o poder é maior quando não permite ao subordinado decidir entre opções é errônea, pois o exercício do poder gera a capacidade de transmissão por meio da aptidão a influenciar a seleção de ações (ou omissões) diante de outras possibilidades; assim, torna-se maior quando permite ao subordinado escolher entre decisões diferentes. Cresce com liberdades de ambos os lados. Certamente, a ausência dessas características distancia a relação de poder entre os sujeitos e aproxima-se da relação de coação16.
O entendimento de meio de comunicação exercido como modo de seleção e reprodução de resultados permite a exemplificação de substitutivos em uma comparação exata de poder e o mapeamento de possibilidades e equilíbrio delas no que diz respeito à psyché. Sobre os substitutivos, tem-se que são a relação de hierarquia ou de escalonamento por meio de uma distribuição assimétrica; os precedentes que possibilitem situações lembradas, padronizadas e generalizadas de imposições bem-sucedidas; e hipóteses de transferência de poder, exemplificada pelas relações contratuais em que misturam-se fatores ontológicos e deontológicos.
Sobre o mapeamento e o equilíbrio das possibilidades tanto no poderoso quanto no subordinado, tem-se que se a seleção de Alter limita as possibilidades de Ego (por exemplo: Alter ouve rádio e Ego não pode dormir), a minimização da dualidade através de proporcionalidade aplicada aos métodos substitutivos ou ao próprio exercício do poder como meio de comunicação deve prevalecer. Essa dualidade, por exemplo, encontra-se em proporção diminuta no que diz respeito à participação popular qualitativa em termos de elaboração da nova Constituição da Islândia17.
Em sua estrutura, o poder formaliza-se pela decisão de poder, que pode significar tanto a inexistência de vontade do subalterno quanto a causalidade do poder e neutralização da outra vontade. Nesse sentido, exerce uma função
16 Abandono de vantagens de generalização simbólica e da direção da seletividade do parceiro; ausência de poder; quem a utiliza assume o peso da seleção e da decisão.
17 THOMAZ, Paula. A Islândia prepara nova constituição. Via Facebook. Disponível em : <http:// www.cartacapital.com.br/internacional/a-islandia-prepara-nova-constituicao-via-facebook>/. Acesso em: 14 jun. 2014.
de regulação de contingência e de equilíbrio de discrepâncias (possíveis e reais) entre as seleções de Alter e de Ego, ao igualá-las. Em um aspecto sistêmico, o poder do poderoso, meio de comunicação, é um catalisador e independe de efeito imediato sobre o subalterno, mas tem a importância de cientificar o subalterno da seletividade de ações passadas ou futuras do poderoso que buscam a equalização entre as expectativas e contingências18.
O olhar sobre a limitação do poder no plano constitucional deve ser exercido no sentido de que os direitos fundamentais funcionam como limites e organizadores dos valores emanados do texto. No caso islandês, por exemplo, a limitação do exercício à liberdade religiosa, como Estado em que a religião oficial é a Luterana, é contrabalanceada pela não vedação a cultos e crenças de outra natureza que não a oficial, bem como o exercício obrigatório de pagamento de tributos a instituições de ensino se é o cidadão ateu, agnóstico ou não filiado a qualquer congregação.
Se, no Brasil, o entendimento perpassa por 4 diferentes vieses quanto à recepção dos tratados internacionais sobre direitos humanos (tratados
18 Diferenciação dos meios de comunicação - constelação de interações específicas - problemática própria. • Fenômeno do poder - código - generalização simbólica - formação de expectativas - diferenciação de poder como meio especializado - constelação determinada de problemas; produz determinados resultados; e base de determinadas condições.• Qual a diferença entre o poder e os meios de comunicação? O código de poder pressupõe, de ambos os lados da rela-ção de comunicarela-ção, a redurela-ção da complexidade pelo agir e não pela vivência. • “Depende do mundo ambiente ou do sistema, saber se supões dos demais sistemas na sociedade seleções se-melhantes ou se há espaço para seleções diferentes”. • O agir diferente é limitado, por exemplo, pelos imperativos (da moral e do direito) ou pelo poder. • Vivência - Agir próprio: i) vontade; ii) contingência do ato seletivo; e iii) atribuição de motivos e intenções. • Desvio por negações: i) poder: alternativas escolhidas e demais possibilidades; e ii) poder: exclusão de alternativas - alternativas em que o poderoso e o subalterno gostariam de evitar. • Poder como possibilidade de acoplamento condicional da combinação entre alternativas a evitar com uma combinação, considerada menos negativamente, de outras alternativas. • Poder é empregado, destarte, quan-do, diante de uma situação de expectativa, se constrói uma combinação de alternativas desfa-voráveis. • Meio de comunicação Poder - combinação - possibilidade: i) potência; ii) chance; e iii) disposição. • A diferença entre código e processo assume a forma de modulação do agir comunicativo. • A modulação é o fundamento de que o poder age como possibilidade, mesmo sem o emprego dos assim chamados instrumentos do poder. • A consistência do contexto é garantida, no caso do poder, por temas e parece que os processos específicos de poder só são identificáveis pela integração temática. • Os conflitos e esquematizações binárias geradoras de conflitos são moralmente desacreditadas. O poder absoluto postulado então fica sendo poder menor, pois não lhe são dadas situações de escolha em que possa agir. Sob estas condições, a sociedade não forma primado nítido algum da síndrome diferenciada de política, poder e di-reito, cuja contingência e capacidade de diferenciação com base no agir parece ser um estágio necessário da evolução social.
supraconstitucionais, tratados constitucionais, tratados como normas legais e tratados supralegais) em relação à Constituição, obsoleta tornar-se-á a ideia triangular do escalonamento kelseniano. A ideia de meio de comunicação como poder enseja uma tridimensionalidade não permitida pela antevisão triangular. Ainda que Thomas Friedman entenda ser o mundo plano19, em termos axiológicos e hermenêuticos, o entendimento piramidal, que enseja a aplicabilidade temporal e espacial, soma-se à adequação da realidade fática, sendo esta a característica que amplia o entendimento cartesiano de abcissas e ordenadas a uma interação simbolicamente generalizada que permite alcançar interpretações em linhas: i. emocionais, energéticas e lógicas; e ii. imediatas, dinâmicas e finais20.
Ao investigar sob a compreensão de que os direitos fundamentais situam-se em dimensões liberal, social e democrática, é possível visualizar, por exemplo, que o exercício da religião desde os primórdios (em que a sociedade islandesa organizava-se em godi e godord) e a coexistência de um emaranhado de direitos difusos e coletivos regulados pelo Estado (que, por exemplo, prevê em sua constituição de 1944 que no caso de aprovação por Althingi de uma emenda ao status da Igreja Luterana, deve ser submetida a voto de aprovação ou rejeição por escrutínio secreto daqueles sujeitos de direitos políticos)21 embasa entendimentos verdadeiramente abstratos, mas com aplicabilidades em muito práticas.