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Contexto Histórico do Crime

No documento tese final com juri (páginas 36-38)

“Mais vale prevenir os crimes do que puni-los”

Cesare Beccaria (1998, p. 22)

Numa sociedade onde a prática de crimes é bastante comum, a procura da justiça social torna-se numa crescente necessidade para a população, que muitas vezes se vê obrigada a conviver e a aceitar leis que favorecem mais os que cometem crimes do que aqueles que os sofrem. Por isso mesmo a sociedade foi-se habituando a estabelecer os seus padrões de aceitabilidade, onde cada qual julga saber o que é normal e aceitável e o que não é.

A existência do crime é fulcral e necessária, é o que nos diz Durkheim, pois a comunidade em geral necessita do crime para evoluir e inclusive para sobreviver (Kuhn & Agra, 2010). É a própria sociedade que define o que é crime e o que não é, pois nenhuma ação particular é crime por si só. Em termos técnicos, aquilo que a legislação afirma como crime, é o que é, embora nem todas as atividades ilegais possam ser tidas como crime. Isto é, a principal diferença existente entre uma conduta criminal e uma conduta ilegal, reside no facto de que um comportamento criminal pode ter como principal e pior consequência a perda da liberdade, ou seja, atividades do foro criminal podem possivelmente levar à prisão do sujeito, ao passo que atividades ilegais não, nem implicam necessariamente a existência de crime (Briggs & Friedman, 2009). Os crimes e as formas como estes foram e são punidos, varia em função do tempo e do lugar em que ocorrem, e a reação social é que acaba por determinar qual o comportamento criminal. Por exemplo, matar uma pessoa, pode ser considerado o mais serio dos crimes na sociedade atual - dependendo dos países - mas ser totalmente aceitável noutros tempos e contextos. As diferentes épocas dão significados diferentes à ideia de crime, pois antigamente havia certos comportamentos que eram tidos como crimes e agora já não é assim, e o contrário também acontece, pois havia comportamentos que antes eram aceitáveis e agora já não o são. Por exemplo, a tradição de queimar e enforcar mulheres acusadas de bruxaria (Marsh, Melville, Morgan, Norris & Walkington, 2006), quando muitas vezes nem o eram.

A ideia de que tanto o crime como a sua punição contêm aspetos positivos além dos negativos, surge algures no século XIX, onde igualmente se acreditava que era a sociedade que produzia as normas penais. A parte dos aspetos positivos incide no facto de se poder demarcar aquilo que é permitido e proibido de se fazer, ou seja, através de uma sanção ou outra medida, torna-se possível o controlo da sociedade, definindo quais os seus limites. Este controlo da sociedade é essencial para que os ditos delinquentes não se sintam intocáveis achando que podem fazer tudo sem nunca serem descobertos. Neste sentido, ao

intimidá-los dá-se a oportunidade ao sujeito de se redimir, tentando com que não volte a repetir o (s) ato (s) após tomar consciência da seriedade do (s) mesmo (s) (Kuhn & Agra, 2010; Manita, 1997).

Ao longo dos tempos os psicólogos têm tentado dar a volta a esta questão do crime, procurando encontrar as melhores explicações a questões como «quais as pessoas que tendem a tornar-se criminosas?» e «o que levou/ leva certos indivíduos a cometerem um tipo particular de crime?». As opiniões dividem-se pois há os que acreditam numa explicação genética e há os que acreditam que é o ambiente no qual as pessoas vivem que influencia a tendência para o crime (Marsh et al, 2006). As pessoas e a sociedade em geral têm o mau hábito de criar rótulos para muitas coisas, especificamente para criminosos, sendo essas mesmas pessoas aquelas que mais acreditam que o comportamento criminal já nasce com o sujeito, que ele é mau por natureza e não há qualquer hipótese de isso mudar. Isto é o que acontece igualmente no século XIX, pois que permanece a ideia do criminoso possuir determinados traços de personalidade e características que fazem com que tenha comportamentos desviantes, sendo portanto inequívoco que as más intenções são intrínsecas ao individuo, não havendo espaço para qualquer tipo de influência do meio envolvente ou da própria sociedade (Marsh et al, 2006; Soares, 2007/2008). Quer isto dizer que um criminoso é tido como «anormal», pois é essa sua predisposição para o crime devido à sua personalidade, que o distingue das pessoas «normais», sendo que os principais traços que o caracterizam são o egocentrismo, a indiferença ao sofrimento do outro, a irresponsabilidade e ainda a incapacidade de controlo (Cusson, 2011).

Neste seguimento alguns estudos evidenciaram que de facto há alguns tipos de traços de personalidade que podem influenciar o comportamento criminal, nomeadamente a inteligência, a impulsividade e o locus de controlo. No entanto, o ato de ofender e agredir alguém pode ter diversas causas e diversas explicações, havendo sempre aquela ideia de que um individuo apresenta maior probabilidade de enveredar por maus caminhos se for oriundo de um núcleo familiar em conflito ou em rutura (Marsh et al, 2006).

Na ideia de Beck (cit. Marsh et al, 2006), a gestão do risco face ao crime tem a sua importância, tendo essa ideia sido igualmente seguida por outros autores, na medida em que se há algo que pode ser gerido, calculado e potencialmente evitado, é o crime, ou melhor o seu risco. Todo este enredo mostra que o crime, mais do que algo que pode ser causado por fatores biológicos, psicológicos ou sociais, é o produto de uma interação social entre a vítima e o agressor. E não são só decisões de justiça criminal que estão em causa, pois esta questão do risco no crime vai bem mais além, tomando como exemplo as construções de ruas, espaços sociais e outras estruturas comunitárias, que são cada vez mais pensadas e definidas em função do risco que o crime representa. Com o passar dos

anos as preocupações têm vindo a aumentar e face a isso aumenta cada vez mais a tendência de rotular as pessoas só porque apresentam algum risco, mesmo antes de chegarem a cometer qualquer ofensa. Ora, isso acaba por ter sempre más consequências, especialmente para aqueles que são menos afortunados, pois ao não terem possibilidades de se proteger aumenta o sentimento de medo e insegurança.

Na opinião de Beccaria, a sanção positiva deveria ser a base da lei criminal, para que em toda a sociedade se tenha o direito de fazer algo sem pensar na punição que dali pode advir, ou seja, ter o privilégio de fazer algo que não seja proibido e sem medo de ser punido. Nas suas próprias palavras, “as leis são as condições sobre as quais homens

independentes e isolados se unem para formar uma sociedade” (Beccaria,1998, p. 63),

importando por isso reforçar que a prevenção do crime ao invés do castigo é defendida pelo autor.

Para as vítimas o crime é uma realidade dura e uma verdade crua, e assim sendo, a preocupação principal deveria incidir numa melhoria da prevenção do comportamento criminal, seja através da educação ou de ações práticas, pois tentar encontrar significados e explicações para o crime não ajuda grande coisa. Como Maurice Cusson (2011) afirma, “só

pelo conhecimento se pode evitar a criminalidade”.

No documento tese final com juri (páginas 36-38)