Na sociedade atual o Crime é um assunto que continua a fascinar muita gente. Tanto o crime como o desvio alcançaram um grande significado cultural, estando quase sempre em primeiro lugar nos Média e em tudo o que é notícia ou novidade. As pessoas vivem de tal forma essa realidade que acabam por perder a noção do perigo, expondo-se a situações arriscadas e a eventos criminais, devido às representações que essas situações, nomeadamente quem comete o crime e quem o sofre, têm para si. E como não podia deixar de ser, há todo um preconceito e uma certa tendenciosidade face a esta temática, que leva a uma fácil distorção da verdadeira realidade do crime (Pakes & Winstone, 2007).
Nas palavras de Picca (cit. Cusson, 2011, p.17),Crime é “todo o ato previsto como
tal pela lei, dando lugar à aplicação de uma pena por parte da autoridade superior.” Neste
seguimento, outras definições vão surgindo, incluindo aquelas mais simples e ditas populares, pois para muita gente «o crime é um comportamento que viola as normas de uma sociedade», ou se quisermos simplificar ainda mais, «é um comportamento anti – social». Portanto sabemos que o crime é sempre, ou quase sempre, uma violação intencional da lei criminal vigente ou do código penal, que por não ter justificação acaba por ser punido por uma entidade superior (Bohm & Vogel, 2011). Mas nesta ideologia do crime nem tudo é como deveria ser, pois por vezes alguns comportamentos perigosos e
prejudiciais passam ao lado, não sendo considerados crime, enquanto outros menos danosos são assim considerados. Todos sabemos que o crime nos é imposto todos os dias e que há sempre alguém disposto a cometê-lo, seja pelo desespero de mudar de rumo, seja por uma ameaça, seja por necessidade, seja apenas porque sim. O crime envolve sempre a inflição de uma ofensa ou de várias ofensas, por vezes infundadas e significativas, em sujeitos e na comunidade, e assim sendo trata-se de um assunto ético, social e legal (Ward & Maruna, cit. Craig, Dixon & Gannon, 2013). Apesar disso, nem todos os crimes são violentos ou doentios e muitas vezes os próprios ofensores não são psicopatas. Por isso mesmo é importante refletir sobre a questão da prisão nestes casos, pois existirão certamente outras alternativas menos punitivas e mais eficientes para tal.
Começar por tentar perceber as causas do crime já é um importante passo, porque mais do que o crime ou a gravidade do ato em si, importa compreender qual a natureza do criminoso, para que se possa fazer um trabalho equilibrado face à pena, ou seja, deve tentar adequar-se a pena às características do sujeito, particularmente nos casos em que se acredita na possibilidade de «recuperação», no sentido em que se pode defender e proteger a sociedade e igualmente prevenir e recuperar o sujeito delinquente (Manita, 1997). Quanto à situação da pena, é fulcral ir ao cerne da questão, isto é, o motivo que levou o dito criminoso a cometer o ato, sendo necessária a compreensão do sentido do mesmo, devendo para isso estabelecer-se uma relação entre o ator e o ato (Foucault, cit. Kuhn & Agra, 2010).
Uma vez que há quem acredite que os ofensores, na sua maioria, têm alguma característica em comum que os leva a cometer crimes, então talvez se possa pensar nisso como uma eventual causa do crime. No entanto, não é certo que essa tal característica esteja correlacionada com a prática do crime em si. Neste sentido, a causa de um crime “é
um fator ou uma circunstância que se aplica mais significativamente aos ofensores/ delinquentes do que aos não ofensores, tendo potencialmente uma ligação direta mas não necessariamente imediata com o crime” (Pakes & Winstone, 2007, p.4).
Segundo Unnever et al. (2010), existem duas visões ou dois pontos de vista principais face ao crime, concretamente: visão disposicional e visão situacional No primeiro caso pensa-se na existência de fatores intrínsecos ao individuo como causas do crime, querendo isto dizer que, as pessoas optam pelo crime por não terem moral ou simplesmente por acreditarem que lhes é benéfico. Assim sendo, o mais fácil seria punir tal obstinação levando a uma aprendizagem e perceção por parte desse indivíduo de que o crime não vale de todo a pena. Por outro lado, de acordo com a visão situacional, são fatores externos ao indivíduo que causam o crime, ou seja, o sujeito é livre da culpa uma vez que não teve propriamente outra alternativa de escolha, pois viu-se obrigado a crescer em zonas
caracterizadas por famílias desestruturadas e desorganizadas, escolas ineficientes, espaços deteriorados, privação económica e acima de tudo com uma cultura criminal. Neste caso a melhor solução seria um investimento de forma a moderar essas desigualdades sociais, isolando os jovens de tais condições e elaborando programas de assistência (Jonson, Cullen & Lux, 2013). Neste âmbito foram realizados alguns estudos com a população americana, levados a cabo por vários autores, onde se averiguou o seguinte: quando as pessoas acreditavam que o crime tinha como principal causa fatores intrínsecos, como retrata a visão disposicional, as suas ideias eram de apoiar com maior ênfase a pena capital, como um castigo mais severo ou até mesmo a pena de morte, tanto para jovens, como para adultos ou até para doentes mentais e ofensores mentalmente incapacitados. Pelo contrário, quando achavam que o crime era causado por fatores externos ao sujeito, de acordo com a visão situacional, estavam menos dispostos a apoiar a pena de morte quer para jovens quer para adultos (Cochran, Boots & Heide, cit. Jonson et al., 2013). Ainda face a esta investigação e com base na mesma, outros dois autores, nomeadamente Mascini e Houtman (2006) indicaram que quando os ditos atributos internos são aceites pelas pessoas como causa do crime, estas optam por defender sanções mais severas e repressivas ao invés de medidas de reabilitação para os delinquentes. Já no caso dos atributos externos, quando estes são defendidos como causa do crime, a reabilitação tem um maior apoio por parte das pessoas, pois é vista como um modo de controlar o crime (Mascini & Houtman, 2006, cit. Jonson et al., 2013).
Apesar de tudo estes fatores não têm necessariamente uma relação inversa, na medida em que se um indivíduo defender por exemplo os fatores internos como causa do crime, isso não quer dizer que o mesmo não acredite que também os fatores externos podem ter a sua influência, ou seja, os americanos em geral visualizam a existência de diversos fatores internos e externos como possíveis causas explicativas para o crime, uma vez que o consideram um fenómeno complexo.
Para além de tudo o que foi referido, importa ainda mencionar que podendo ser várias as causas do crime, do ponto de vista da psicologia e da sociologia existem três causas principais:
Biológicas: incluem as hormonas e os genes da pessoa bem como os seus danos ou disfunções cerebrais;
Psicológicas: incluem o conceito «busca de sensações», o fator conhecido como «auto – controlo» e ainda a personalidade do indivíduo;
Sociais: incluem o conceito «tensão» bem como as subculturas do sujeito e a pobreza.
Embora todas essas causas sejam importantes, não se pode deixar de lado o papel que a família desempenha na vida destes sujeitos delinquentes, pois esta constitui o núcleo principal, onde tudo começa e onde tudo pode acabar, sendo relevante examinar todos os fatores que possam servir como prevenção, de modo a evitar que o sujeito volte a cometer algum crime (Pakes & Winstone, 2007).
Muitas vezes quando ouvimos falar no termo comportamento ofensivo, por parte dos psicólogos e criminólogos, é referente às causas do crime e não aos seus motivos. Isto para explicar que, se o ofensor for diretamente questionado a respeito do que estava a pensar aquando do cometimento do crime, a probabilidade de responder algo que vá de acordo com a expectativa de quem fez a pergunta é elevada, pois o sujeito quererá transparecer uma boa impressão - a chamada desejabilidade social. Mas porque é que as pessoas ofendem e cometem crimes? Porque é que foi escolhida aquela vítima em particular? Porque é que outras pessoas com as mesmas características não enveredaram pelo mundo do crime? Como se sabe há várias questões e dúvidas a respeito desta temática do crime, e embora seja difícil não é completamente impossível entrar na mente de quem os pratica para tentar arranjar as tão procuradas explicações. No entanto sabemos que provavelmente se questionarmos diretamente a pessoa que o fez, as respostas nunca serão propriamente satisfatórias, sendo necessário mais do que isso.
Concluindo “quanto mais um ato for ameaçador para a segurança interna de uma
comunidade, maior será a probabilidade desse mesmo ato ser percecionado como grave e menor será a dúvida de que constitua crime” (Cusson, 2011, p. 23).