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3 INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS – IRDR:

3.1 Contexto histórico sobre demandas em massa

O crescimento exponencial da população mundial e o consequente aumento nas relações sociais humanas, especialmente na modernidade e na atual era da informação com advento da internet, percebeu-se um fenômeno de total democratização da informação, causando os mais variados estímulos aos desejos humanos.

Conforme bem rememora Almeida (2011, p. 7):

Nas últimas décadas, principalmente no segundo pós-guerra, constatou-se uma mudança de paradigmas com o surgimento de novos anseios sociais. Nesta realidade, além de emergirem novos problemas antes inexistentes, a informação e o apelo ao consumo infiltram-se democraticamente nas casas ricas e pobres, o cidadão passa a ter plena consciência de seu direito ao trabalho, ao lazer, à saúde, à educação, à proteção do meio ambiente e do patrimônio histórico e cultural. Este maior número de informações instigou o desejo humano de buscar a satisfação de seus novos e antigos interesses.

Neste contexto, a espécie humana lida com dilemas morais antigos, ainda sem solução, e depara-se com novos que se desenham em um futuro de muitas incertezas; ao passo que há um bombardeio diário de publicidade pronta a induzir pessoas das mais diversas classes sociais ao consumo. Assim, ao mesmo tempo o

grau de acessibilidade a tais produtos é alarmantemente desigual; o modo de tornar o anseio democrático, mas o consumo não.

Nessa perspectiva, José Carlos Barbosa Moreira apud Rossi (2015, p. 212) ao constar:

As características da vida contemporânea produzem a emersão de uma série de situações em que, longe de achar-se em jogo o direito ou o interesse de uma única pessoa, ou de algumas pessoas individualmente consideradas, o que sobreleva, o que assume proporções mais importantes, é precisamente o fato de que se formam conflitos nos quais grandes massas estão envolvidas. É um dos aspectos pelos quais o processo recebe o impacto desta propensão do mundo contemporâneo para os fenômenos de massa: produção de massa, cultura de massa, comunicação de massa e porque não, o processo de massa? (MOREIRA apud ROSSI, 2009, ob. cit. p. 380).

Conforme acima elucidado, as demandas de massa caracterizadas principalmente por produção em grande quantidade, do consumo ostensivo e das controvérsias jurídicas homogêneas. Assim, em meio de tais massificações das estruturas sociais, o judiciário aquecido com ajuizamento de grande número de contratos e demandas, os quais as massas estão compreendidas.

Desse modo, as situações narradas ensejaram os anseios coletivos e estimularam as demandas em massa. Assim, o novo momento abriu espaço para os mecanismos que assegurassem o direito das massas, no âmbito da tutela coletiva, assim como nos procedimentos de resolução de demandas repetitivas.

Assim, leciona Theodoro Jr. e Humberto (2016 p. 912):

A sociedade contemporânea sofreu profunda modificação no que toca aos conflitos jurídicos e aos meios de resolução em juízo. As crises de direito deixaram de se instalar apenas sobre as relações entre um e outro indivíduo e se expandiram para compreender numerosas relações plurilaterais, ensejadoras de conflitos que envolvam toda coletividade ou um grande número de seus membros. Surgiram, assim, os conflitos coletivos, a par dos sempre existentes conflitos individuais.

É que o relacionamento social passou, cada vez mais, a girar e, torno de interesses massificados, interesses homogêneos, cuja tutela não pode correr o risco de ser dispensada pela Justiça de maneira individual e distinta, isto é, com a possibilidade de soluções não idênticas, caso a caso.

Como asseverado, surgiu ume demanda por um processo que contemplasse o direito das massas. Em contra ponto a isso, a ordem jurídica brasileira tinha tradição voltada para solução de conflitos individuais enfrentou um novo dilema advindo da produção exponencial de conflitos em massa e por consequência o

surgimento de técnicas de processamento que possam abarcar esse fenômeno e garantir o acesso à justiça.

A Constituição Federal consagrou no artigo XXXV, em seu texto, o princípio do Acesso à Justiça, no qual é clara em dizer que a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário, lesão ou ameaça de lesão à Direito.

Ante o exposto, é valido citar a obra “Acesso à Justiça”, uns dos clássicos da literatura jurídica italiana, elucidam Mauro Cappelletti e Garth Bryant (1988, p. 31):

O recente despertar de interesse em torno do acesso efetivo à Justiça levou a três posições básicas, pelo menos nos países do mundo Ocidental. Tendo início em 1965, estes posicionamentos emergiram mais ou menos em sequência cronológica (39). Podemos afirmar que a primeira solução para o acesso – a primeira “onda” desse movimento - foi a assistência jurídica; a segunda dizia respeito às reformas tendentes a proporcionar representação jurídica para os “interesses difusos”, especialmente nas áreas da proteção ambiental e do consumidor; e o terceiro – e mais recente – é o que nos propomos a chamar simplesmente “enfoque de acesso à justiça” porque inclui os posicionamentos anteriores, mas vai muito além deles, representando, dessa forma, uma tentativa de atacar as barreiras ao acesso de modo mais articulado e compreensivo.

Para o presente trabalho, obviamente, a perspectiva será a da segunda onda, o momento que o acesso à justiça levou uma quantidade maior de demandas ao judiciário e foi enfrentado o problema de representação jurídica para os interesses das massas.

Constata-se, claramente, um limiar na zona cinzenta entre a tutela de jurisdicional coletiva e o processamento de demandas repetitivas, as duas claramente cuidam demandas em massa, entretanto, a primeira cuida de uma legitimação extraordinária que substituirá uma coletividade em via de ação, cuja decisão fará coisa julgada um único processo, a segunda trata da adoção de um caso representativo controvertido juridicamente e repetitivo que, por via incidental de um processo, substituirá os demais com a mesma controvérsia unicamente de direito, os quais permaneceram sobrestados, até que tese de direito formada na coisa julgada do processo representativo seja aplicado nos que restaram suspensos, formando coisa julgado, caso a caso (THEODORO-JR, 2016, p. 913).

O IRDR não se sobrepõe a tutela dos direitos coletivos por via de ação, considerando que as ações coletivas tem um caráter mais amplo quando a legitimidade, já que asseguram pretensões não passíveis de individualização e são capazes de assegurar melhor o acesso à justiça das multidões, enquanto os

procedimentos de resolução de demandas repetitivas asseguram decisões uniformes para questões de comuns de direito e também são capaz de garantir o acesso à justiça, uma vez que é dado um tratamento isonômico a questões repetitivas levadas até o poder judiciário.

Nesse contexto, explica Daniel Amorim Assumpção Neves:

A tutela jurisdicional coletiva, portanto, nada mais é que um conjunto de normas processuais diferenciadas (espécie de tutela jurisdicional diferenciada), distintas daquelas aplicáveis no âmbito da tutela jurisdicional individual. Institutos processuais como a competência, a conexão e a continência, legitimidade, coisa julgada, liquidação da sentença etc., recebem na tutela coletiva um tratamento diferenciado, variando o grau de distinção do tratamento recebido pelos mesmos institutos no Código de Processo Civil. (NEVES, 2014, ob. cit. p.7)

De acordo com Bryan Garth e Mauro Cappelletti (1988, p. 49), na obra “Acesso à Justiça”, pode-se dizer que não havia um lugar para as demandas em massa na lógica do direito processual civil, constata-se que o objetivo do processo era apenas a resolução de uma controvérsia entre duas partes; fica claro, desse modo, que o papel do processo terminava na solução de único litígio, com as mesmas partes e próprias pretensões.

Dessa maneira, as controvérsias jurídicas repetitivas ou mesmo direitos metaindivinduais não eram abarcados pelo direito processual civil. As regras do processo relativas à legitimidade, procedimento, competência, atuação judiciária e formação de uma jurisprudência íntegra e coerente não era capazes de lidar com novo momento de massificação de demandas e crise judiciária, por isso novos segmentos da legislação processual enveredam por tais caminhos em busca de uma solução que reafirme o judiciário como zelador do direito.

Na mesma linha, seguiu Montenegro (2016, ob. cit. p. 658).

O legislador responsável pela elaboração do novo CPC modificou não apenas as regras aplicáveis aos processos individuais (de João contra Maria, de Pedro contra José), para padronizar prazos (quase todos fixados em quinze dias), instituir a audiência de conciliação ou de mediação como etapa quase obrigatória do processo (art. 334), prever a possibilidade de o magistrado distribuir de modo inverso o ônus da prova (§ 1.º do art. 373), concentrar a defesa do réu (art.337), eliminar recursos, como o agravo retido e os embargos infringentes etc., como também inseriu normas relacionadas a instrumentos de resolução dos conflitos de massa, sobressaindo as que disciplinam o denominado incidente de resolução de demandas repetitivas, que, segundo alguns autores, seria uma das cerejas do bolo da nova lei processual.

Como se pode ver, o Novo Código Processual Civil brasileiro evolui bastante no tratamento das demandas em massa que afogam o judiciário brasileiro, prestigiando mecanismos que observem a duração razoável do processo e decisões que tratem os jurisdicionados de maneira igualitária.

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