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5.2. Campo do estudo: pressupostos à luz do programa de formação da Universidade de

5.2.2. Contexto institucional / referente meso

Tal como já se teve oportunidade de reflectir ao longo do enquadramento teórico que pretende legitimar este estudo, e conforme a Proposta de Criação da Licenciatura em Ensino do 1.º Ciclo do Ensino Básico (Universidade de Aveiro, 1997), retomamos Tomaz (2007: 152) que explicita que:

“(…) a consciencialização e o reconhecimento das profundas transformações que se têm operado nas sociedades actuais, bem como os baixos níveis de literacia da população portuguesa, (…) apontam para a necessidade de se repensar os modelos e as práticas de formação inicial de professores para o Ensino Básico”.

Tornou-se clara a complexidade do perfil de competência profissional do professor do 1.º Ciclo do Ensino Básico, o que implicou a reconceptualização progressiva dos cursos de formação. Se nos situarmos numa perspectiva histórica constatamos que a formação deste tipo de profissional evoluiu de cursos de Magistério (Lopes, 2007a) para Bacharelato e, posteriormente, para Licenciatura11. Foi

neste sentido que o Ministério da Educação se posicionou ao determinar que as funções de ensino fossem desempenhadas por profissionais com esse grau académico. E foi também à luz deste contexto que, no ano lectivo de 1998/99, na Universidade de Aveiro, se procedeu à

11 Como já referido, actualmente, a habilitação profissional para o exercício de funções docentes encontra-se ao nível de

reconceptualização do plano de estudos do Curso de Bacharelato, dando lugar à Licenciatura em Ensino do 1.º Ciclo do Ensino Básico12, entretanto também já reorganizada face aos objectivos e

pressupostos inerentes aos desenvolvimentos do Processo de Bolonha. Numa fase posterior, e com vista à acreditação do curso, foram estabelecidos os seguintes objectivos gerais de formação13:

• Desenvolver competências profissionais meta-reflexivas que sustentem atitudes e intervenções profissionais axiológica, científica, cultural, social e tecnologicamente sustentáveis.

“As competências meta-reflexivas nos domínios indicados exigem o conhecimento de conclusões relevantes da investigação educacional; pressupõem um entendimento das mudanças que, em cada época, ocorrem na sociedade e, por consequência, na escola e no papel do professor, relativamente a épocas anteriores; devem estar em consonância com as orientações da política educativa nacional.”

• Desenvolver e aprofundar conhecimento científico sobre as áreas epistemologicamente consagradas nos programas do Ensino Básico – 1.º ciclo.

“O conhecimento científico sobre as diferentes áreas do curriculum do 1.º ciclo é uma exigência fundamental para o futuro professor poder compreender a natureza das orientações e planos curriculares. Aprofundar conhecimento nos domínios específicos, pedagógico e didáctico é de importância inquestionável para a tomada de decisões sobre níveis de aprofundamento a seguir com as crianças na exploração dos diversos temas.”

• Aprofundar conhecimento sobre áreas transversais, com vista a promover o acesso das crianças ao conhecimento de conteúdos em situações de contexto diferenciado onde o acto pedagógico ocorre.

“O conhecimento do conteúdo pluridimensional das áreas transversais do curriculum é fulcral já que propiciará ao professor a exploração com as crianças de situações-problema retiradas de contextos reais da sociedade.”

• Aprofundar capacidades de problematização e de flexibilização cognitiva que, do ponto de vista social e cultural, permitam a implicação activa nas dinâmicas interpessoais e colaborativas ao serviço de valores universais da humanidade.

12 Cf. Despacho n.º 5890/98, de 8 de Abril (Decreto Regulamentar n.º 83, série II). 13 Dossier de candidatura à acreditação da Licenciatura a submeter ao INAFOP (2002: 6).

“A exploração das situações referidas no ponto anterior depende de competências do professor, em particular as inerentes à concepção e desenvolvimento do currículo do 1.º ciclo no que respeita aos saberes específicos de cada área, mas também à sua integração, condições indispensáveis para alcançar uma nova compreensão de cada problema”.

• Aprofundar o quadro de valores subjacentes ao conhecimento de grandes problemas que afectam a humanidade e de reflexão crítica sobre eles à luz de perspectivas que compreendem a complexidade e a diversidade como mais-valia.

“A compreensão, ainda que a um nível geral, das grandes temáticas da humanidade e a reflexão crítica sobre juízos de valor e repercussões para a vida das pessoas, necessária a todos os indivíduos numa sociedade democrática, é particularmente desejável num educador/ professor de qualquer nível. Para isso é indispensável que acompanhe o desenvolvimento científico e tecnológico, de modo a poder responder às perguntas das crianças que, nesta faixa etária, necessariamente colocam mas, e sobretudo, ganhar saber e confiança para conceber e conduzir estratégias didácticas para a sua abordagem com sucesso. Para que isto aconteça é, no entanto, necessário que o professor conheça resultados da investigação educacional e, também, saiba como construir um caminho de pesquisa para encontrar resposta a uma questão nova”.

• Desenvolver capacidades e competências que sustentem um crescimento profissional contínuo no acesso a nova informação e à sua interpretação, conhecer ferramentas e técnicas relacionadas com as novas tecnologias da informação e da comunicação, bem como (pelo menos) uma Língua Estrangeira, são condições prévias para as aprendizagens a desenvolver ao longo da vida.

“A capacidade de aprendizagem permanente de um professor é um requisito indispensável para que este possa ser um profissional capaz de acompanhar as mudanças na sociedade e na escola, os resultados da investigação educacional e conduzir investigação sobre o seu próprio ensino, sozinho ou em grupo e compreender as orientações que, no futuro, vierem a ser introduzidas na política educativa as quais poderão também originar novas orientações para os planos curriculares da educação básica. Estas competências deverão ser intrínsecas ao perfil profissional do professor do 1º ciclo”.

É este conjunto de objectivos gerais que se encontra subjacente à organização do plano de estudos da Licenciatura em Ensino do 1.º Ciclo do Ensino Básico, tal como se ilustra no quadro 5.1.

Ano Disciplina T|TP|P UC ECTS

Conceitos de Matemática I 2|2|0 3,5 6,0

História e Teoria da Educação 2|2|0 3,5 6,0

Língua Estrangeira (Inglês, Francês, Alemão) 0|3|0 2,0 5,0

Psicologia da Educação 2|3|0 4,0 6,5

Técnicas de Expressão e Comunicação em Língua Portuguesa 2|3|0 4,0 6,5

Ciências Integradas da Natureza I 3|0|2 4,0 6,5

Conceitos de Educação Física 2|2|0 3,5 5,5

História e Geografia de Portugal 2|2|0 3,5 6,0

Linguística Portuguesa 2|2|0 3,5 6,0

1.º

Sociologia da Educação 2|2|0 3,5 6,0

A Criança e os Textos 2|2|0 3,5 6,0

Ciências Integradas da Natureza II 3|0|2 4,0 6,5

Conceitos de Matemática II 2|3|0 4,0 6,0

Formação Artística Geral 2|2|0 3,5 5,5

Metodologias de Ensino das Ciências Sociais 2|0|2 3,0 6,0

Didáctica da Educação Físico-Motora 2|2|0 3,5 6,0

Didáctica da Língua Portuguesa 2|0|2 3,0 6,5

Didáctica das Artes na Educação 0|3|3 3,5 6,0

Tecnologia Educativa 1|0|4 2,5 5,0

2.º

Teoria e Prática Curricular 2|0|2 3,0 6,5

Didáctica da Matemática 2|0|2 3,0 6,5

Didáctica das Ciências Integradas 2|0|2 3,0 6,5

Opção I (Cultura Portuguesa, Ensino Precoce da Língua Estrangeira, Informática…) 4 3,0 5,0

Organização e Gestão Escolar 2|2|0 3,5 6,0

Projectos Educativos em Saúde, Desporto e Lazer 2|2|0 3,5 6,0

Ética e Educação para a Cidadania 2|2|0 3,5 6,0

Necessidades Educativas Especiais 2|2|0 3,5 6,0

Opção II (Avaliação Aprendizagens Matemática, Projectos Educativos Ciências…) 4-5 3,5 5,0

Prática Pedagógica e Projectos Educativos 0|1|4 2,5 7,0

3.º

Projectos Educativos em Arte 0|2|2 2,5 6,0

Prática Pedagógica (anual) 0|0|18 18,0 45,0

4.º

Seminário (anual) 0|0|8 8,0 15,0

T|TP|P = Horas semanais Aulas Teóricas/Teórico-práticas/Práticas UC = Unidades de Crédito

ECTS = Sistema Europeu de Transferência de Créditos)

Quadro 5.1. Estrutura curricular do curso de Licenciatura em Ensino do 1.º Ciclo do Ensino Básico (UA, 1998/99)

Este plano de formação organiza-se de acordo com cinco áreas científicas – Ciências da Educação, Ciências e Matemática, Ciências da Linguagem, da Informação e da Comunicação, Ciências Humanas e Prática Pedagógica – que integram e articulam disciplinas diversas (cf. fig. 5.1.). Daí decorre a forte aposta da instituição na promoção de uma articulação entre uma sólida formação académica e disciplinar multifacetada (face ao perfil de monodocência que caracteriza o professor do 1.º Ciclo do Ensino Básico) e uma formação pedagógico-didáctica, numa perspectiva de racionalidade crítico-reflexiva.

Fig. 5.1. Visão integrada do plano de estudos da Licenciatura em Ensino Básico do 1.º Ciclo (UA) Fonte: Sá-Chaves, I. e Martins, I. (1998)

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