CAPÍTULO II – Aborto, anencefalia e sociedade
2.1 Contexto social
Na comunidade internacional, de forma geral, existe uma prática abortiva clandestina bastante difundida, embora reprimida por questões morais e religiosas. Trata-se de ato revelador de um desvirtuamento daqueles valores por parte da população, relativamente à gestação de um filho, em função, principalmente, das condições de criação no pós-parto, a despeito de suas crenças e anseios.
Em trabalho apresentado no XV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, realizado em Caxambú, Minas Gerais, em setembro de 2006, através de apoio do Ministério da Saúde, Mario Francisco Giani Monteiro e Leila Adesse estimaram que, em 1996, houveram 1.066.993 (um milhão, sessenta e seis mil e novecentos e noventa e três) abortamentos induzidos, no Brasil, mantendo-se neste patamar até 2005 (1.054.242 – um milhão, cinqüenta e quatro mil e duzentos e quarenta e dois abortamentos induzidos).56
A grande maioria destes abortamentos induzidos (três em cada quatro, em 2005), afirmam, ocorreu nas regiões Nordeste e Sudeste. Com uma redução, na taxa anual, por 100 (cem) mulheres, de quinze a quarenta e nove anos, de 3,69 (três inteiros e sessenta e nove décimos), em 1992, para 2,07 (dois inteiros e sete décimos), em 2005, ocorrendo em maior quantidade na região Nordeste.
Concluíram que o número aproximado de abortos induzidos, em 1992, era equivalente a 43% (quarenta e três por cento) dos nascimentos vivos, mostrando que uma elevada proporção das gestações não foi desejada, levando estas mulheres a recorrer ao abortamento.
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Vide: MONTEIRO, Mario Francisco G.; ADESSE, Leila. Estimativas de aborto induzido no Brasil e
grandes regiões (1992-2005). Disponível em: <http://www.ipas.org.br/arquivos/ml2006.pdf>. Acesso em:
Esta proporção cai para 31% (trinta e um por cento), em 1996, e cerca de 30% (trinta por cento) dos nascimentos em 2005.
Utilizam-se diversas técnicas para interromper a gravidez, incluindo uma ampla variedade de procedimentos populares, praticados pelas próprias gestantes ou por pessoal não capacitado, resultando em sérios riscos à saúde destas mulheres, acarretando, ainda, seus óbitos.
A Comissão de Cidadania e Reprodução noticiou, em outubro de 2007, pesquisa relacionada ao abortamento, na qual foi constatado que suas taxas são semelhantes entre países onde a prática é legal e onde é ilegal. O trabalho, realizado, em conjunto, pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Instituto Guttmacher, de Nova York, indica que a proibição legal não inibe sua prática.57
Os pesquisadores também confirmaram um dado lógico: os abortos são seguros em países em que a prática é legalizada e perigosos onde são feitos clandestinamente. Asseveram que, no mundo, 67.000 (sessenta e sete mil) mulheres morrem por complicações decorrentes dessa prática, a maioria em países em que o aborto é ilegal. Segundo o levantamento, em todo o mundo os abortos correspondem a 13% (treze por cento) das mortes de mulheres.58
A União Internacional da Saúde da Mulher (Internacional Women´s Health Coalition) também confirma tais informações. Afirma que “o aborto seguro – a interrupção de uma gravidez por prestadores de serviço de saúde treinados que utilizam a técnica sanitária correta e o equipamento apropriado – é um serviço de saúde simples que salva vidas. Todavia, dos 42 milhões de abortos realizados todos os anos, estima-se que 20 milhões são de risco e 97% deles são realizados nos países em desenvolvimento. Todos os anos, quase 70.000 mulheres
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Vide: Criminalizar o aborto não reduz sua incidência. Comissão de cidadania e reprodução. Disponível em: http://www.ccr.org.br/a_noticias_detalhes.asp?cod_noticias=1558. Acesso em: 25.02.10. out. 2007.
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Neste mesmo sentido, vide periódico O Globo. Abortos matam 70 mil mulheres por ano no mundo. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/vivermelhor/mulher/mat/2009/10/14/abortos-matam-70-mil-mulheres-por-ano-no- mundo-768047365.asp>. Acesso em: 25.02.10. out. 2009.
morrem desnecessariamente em decorrência de complicações de abortos de risco e inúmeras outras sofrem infecções, infertilidade e lesões debilitantes”.59
Entende que jovens ou idosas que enfrentam punições por terem feito um aborto, continuam sujeitas a tentar novamente, mas seria menos provável que elas tivessem acesso a serviços seguros. Quando o aborto é restrito por lei, afirma, os prestadores treinados podem hesitar instrumentá-lo, mesmo quando permitido, na ocasião. Como não conhecem a lei, temem a censura da comunidade ou têm crenças pessoais contra o ato, o que vem a forçar as gestantes a praticá-los clandestinamente, com pessoas menos escrupulosas.
A União defende a capacidade da mulher para exercer seus direitos de controlar o próprio corpo, para sua autodeterminação e saúde, inclusive com autonomia para definir se deseja levar a gravidez até o fim. Ademais, protestam pela liberalização de leis restritivas e implementação de leis que permitam a autonomia feminina quanto à decisão de interromper ou não a gravidez, tendo acesso a serviços de aborto seguro, os quais fariam parte dos serviços de saúde reprodutiva e que deveriam ser acessíveis e economicamente viáveis a todas as mulheres.
Destarte, observa-se que restrições legais não impedem o aborto, simplesmente tornam o procedimento perigoso. Muitas mulheres são mutiladas ou mortas a cada ano por não terem acesso ao aborto legal. Investigadores admitem que não é realista evitar totalmente o procedimento, mas que melhorar o acesso a anticoncepcionais e pressionar pela retirada de restrições ao aborto é uma meta válida em nível global. Disseram, também, que o atendimento
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Vide: O acesso ao aborto seguro é um direito humano. Internacional women´s health coalition. Disponível em: <http://www.iwhc.org/index.php?option=com_content&task=view&id=3112&Itemid=751>. Acesso em: 25.02.10.
a mulheres que sofrem lesões devido a abortos arriscados custa cerca de meio bilhão de dólares60.
Relativamente às expectativas e aspectos emocionais vividos pela gestante, foi realizado um trabalho bastante significante, divulgado na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, no qual os pesquisadores descreveram os processos emocionais na interrupção da gestação após o diagnóstico de malformação fetal letal61.
Nele, foram entrevistadas trinta e cinco gestantes, cujo feto era portador de malformação fetal, sendo a mais freqüente a anencefalia, com 71,5% (setenta e um e meio por cento) dos casos, e que realizaram a interrupção da gestação após solicitação de autorização judicial.
As pacientes foram submetidas à entrevista psicológica, logo após o diagnóstico, ocasião em que expressaram seus sentimentos e, também, para promoção de reflexão sobre o assunto. As que solicitaram e tiveram o aborto realizado foram convidadas a retornar para a segunda entrevista psicológica, dentro de um ou dois meses após o procedimento, quando foi aplicado questionário para identificar os aspectos emocionais vivenciados e descrever os sentimentos despertados.
A análise comprovou que 60% (sessenta por cento) relataram ter sofrido sentimentos negativos, pouco mais da metade afirmou não ter tido dúvidas quanto à decisão tomada. Pouco mais de noventa por cento (91%) afirmaram que adotariam a mesma atitude em outra situação semelhante e, a maioria delas (60%), que aconselharia a interrupção a outras mães
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Abortos matam 70 mil mulheres por ano no mundo. O Globo. Disponível em:
<http://oglobo.globo.com/vivermelhor/mulher/mat/2009/10/14/abortos-matam-70-mil-mulheres-por-ano-no- mundo-768047365.asp>. Acesso em: 25.02.10. out. 2009.
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BENUTE, Gláucia Rosana Guerra; NOMURA, Roseli Mieko Yamamoto; LUCIA, Mara Cristina Souza de e ZUGAIB, Marcelo. Interrupção da gestação após o diagnóstico de malformação fetal letal: aspectos emocionais.
Rev. Bras. Ginecol. Obstet. 2006, vol.28, n.1, pp. 10-17. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-
que estivessem indecisas sobre interromper ou não a gestação, nas mesmas condições que a vivida.
Revelou, ainda, um aspecto bastante importante para o presente trabalho: cerca de sessenta e cinco por cento das gestantes (65,7%) informaram que a opinião mais importante na tomada da decisão pela “antecipação terapêutica do parto” era a própria, a despeito das considerações do parceiro ou quaisquer outras influenciadoras. Observou-se que, quanto às crenças relativas ao aborto antes da vivência da malformação fetal e da interrupção judicial da gravidez, quase a metade (45,7%) era contra o aborto.
Ao receber o diagnóstico de malformação fetal, já era esperado que as gestantes passassem por períodos de dúvidas e questionamentos, buscando outras opiniões, para confirmar o diagnóstico recebido. Esses sentimentos, comumente, dizem respeito à ansiedade e apreensão.
O processo de internação hospitalar, a indução e interrupção da gestação são situações que envolvem sofrimento pessoal relevante, despertando sentimentos mais intensos de fracasso e frustração, não pela interrupção em si, mas pela incapacidade sentida no gestar, pela ausência do filho imaginado, pelo filho perdido, mostraram os avaliadores. Quando o diagnóstico é estabelecido com a gestação avançada, a aceitação do problema torna-se ainda mais difícil.
A reação dos casais, em face do diagnóstico pré-natal de uma anormalidade fetal, pode envolver sentimentos de raiva, desespero, inadequação e distúrbios do sono e de alimentação. Ao investigar a incidência de depressão, após a interrupção da gestação por anomalias fetais, avaliaram que mais da metade das pacientes apresentaram os sintomas no segundo trimestre.
Analisaram que, em países onde o aborto é permitido, quando é estabelecido o diagnóstico de anomalia cromossômica do feto, a opção pela intervenção na gestação ocorre em elevada percentagem dos casos: 100% (cem por cento) dos casos na Suíça e 94 a 100% (de noventa e quanto a cem por cento) nos Estados Unidos. Quando se confirma o diagnóstico de distúrbios metabólicos, 100% (cem por cento) das pacientes realizam a interrupção da gravidez na Austrália, o mesmo ocorrendo nos Estados Unidos. Observaram que a opção pela interrupção da gravidez, muitas vezes, está pautada na qualidade de vida do feto, com relatos de preocupação com o sofrimento do bebê e da família.
De fato, como fora dito, 43% (quarenta e três por cento) das entrevistadas, nesta pesquisa da revista brasileira de ginecologia e obstetrícia, assumem a tomada de decisões como ação pragmática de enfrentamento da realidade. As dúvidas vivenciadas pelas pacientes relacionaram-se principalmente ao diagnóstico. Menor proporção relatou dúvidas de ordem moral em relação à interrupção da gravidez.
Ressalta-se, no entanto, que, nesta inquirição, todas as pacientes foram acompanhadas por psicólogo no momento da opção pela intervenção cirúrgica, os conteúdos inconscientes foram trazidos ao consciente e as pacientes puderam refletir sobre suas posições. Assim, os pesquisadores entendem ser provável que a ausência de sentimento de culpa ou depressão pós-interrupção esteja diretamente relacionada a esse processo de intensa revisão de valores morais, culturais e melhor compreensão dos aspectos psíquicos em funcionamento.
Verificaram que algumas mães necessitam visualizar o feto com todos os problemas, para que consigam crer plenamente no diagnóstico e estabelecer um sentido psíquico para essa vivência. Outras preferem não entrar em contato, por acreditar que isso dificultaria o luto. A escolha é pessoal e mesmo tendo optado pela interrupção, o casal não consegue conceber esse ato como eliminando a vida do filho. Visualizam o processo como escolhendo o
momento da perda, mas o vínculo afetivo com a "criança" se mantém; por isso, exigem respeito e cuidado com o feto durante todo o processo.
Esta análise possibilitou compreender os processos psíquicos vivenciados após a interrupção da gestação com malformação fetal letal. Houve reconhecimento de que a intervenção na gravidez foi a melhor escolha e que efetivamente minimizou o sofrimento. Não foram identificadas reações de arrependimento ou culpa. A participação ativa do casal no processo de decisão, com ampla reflexão sobre os valores morais e culturais e com a elucidação de aspectos inconscientes foi fundamental para minimizar os sentimentos negativos.
Revelou que a reflexão é de fundamental importância para uma decisão consciente e posterior satisfação com a atitude tomada. O acompanhamento psicológico permite, também, revisar os valores morais e culturais para auxiliar a tomada de decisões visando minimizar o sofrimento vivido.