1. INTRODUÇÃO
1.6. O BEBÊ DOS LIVROS E DAS REVISTAS REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
1.6.2. Contextos em que estudos foram conduzidos e o papel dos contextos nos
clínicas (13,2%). Outros locais mostraram-se menos privilegiados enquanto locus de investigação, como a casa (11,7%) e a creche (8,5). E, dentre aqueles que foram realizados nos ambientes da casa e da creche, muitos foram ali realizados apenas como base da coleta de dados, sem considerar efetivamente o ambiente enquanto contexto de desenvolvimento da criança.
Gottlieb (2009) afirma, nesse sentido, que a grande maioria dos estudos psicológicos é baseada em observações de bebês em laboratórios e estão muito longe de observá-los em suas vidas diárias. Em análise dessa forma de investigação do desenvolvimento humano, Bronfenbrenner (1977) afirma que há importantes limitações científicas. Segundo ele, tais pesquisas são rigorosas, elegantes, mas de escopo limitado, já que estudam situações não familiares, artificiais e curtamente vividas; e, que resultam em comportamentos não usuais que são difíceis de generalizar a outros settings. É o que ele denominou de ciência do comportamento estranho, de crianças em situações estranhas, com estranhos adultos, pelo menor período de tempo possível.
Assim, apesar das informações valiosas sobre a linguagem e as habilidades motoras do bebê que têm sido identificadas, estudos em laboratório não conseguem responder sobre a complexidade em que a criança está inserida, complexidade esta que engloba desde os grupos proximal (mãe, família) e distal (escola, comunidade, sociedade), os quais marcam os processos de desenvolvimento da criança (Taylor, 2010). Como Clark (1978) afirma, situações experimentais não vêem que aquela situação tem pouco a ver com a vida real experimentada pela criança. Tais situações possibilitam a construção de uma versão distorcida de desenvolvimento, por que isolam a criança de seu contexto e assumem que aspectos do desenvolvimento da criança - que de fato são resultado de sua história social – são manifestações de um organismo isolado.
Para Trevarthen e Aitken (2001), assim, o sucesso dos métodos de pesquisa desenvolvidos em laboratório relegou ao segundo plano a descoberta dos fatores comuns, sociais e interpessoais do desenvolvimento e das motivações intrínsecas. Estas, segundo eles, normalmente regulam todas as atividades do espírito infantil e são evidenciadas através de estudos microdescritivos de bebês realizados em condição natural.
Posições como essas fizeram com que Bruner (1983) afirmasse que as questões da sensibilidade ao contexto e do formato da interação mãe-criança já o haviam conduzido a desertar o generosamente equipado, mas artificial vídeo–laboratório, em favor da desordem da vida em casa. Bruner passou, assim, a ir até as crianças, em lugar de as trazer até o laboratório. Como afirma Bruner (1997), é a participação do homem na cultura e a realização de seus poderes mentais através da cultura que tornam possível construir uma psicologia humana baseada no indivíduo. O autor propõe, portanto, o estudo no ambiente cotidiano da criança. O apelo do autor, porém, não é simplesmente um chamado naturalista para situar ecologicamente a pesquisa psicológica. Seu ponto é que o entendimento social, por mais
abstrato que possa eventualmente se tornar, sempre começa como práxis em contextos particulares nos quais a criança é uma protagonista, é um agente, uma vítima, um cúmplice.
Nesse sentido, esse autor, assim como outros (Thoman, 1979; Cavalcante, 2003), destacam a necessidade de se considerar a realização de estudos em contextos diversos. Para eles, as pesquisas deveriam caminhar para além dos laboratórios, já que os eventos ambientais desempenham importante papel, sendo constitutivos dos bebês.
No entanto, quando se sai dos laboratórios, o contexto privilegiado é o doméstico (abarcando, como será discutida adiante, a relação quase que exclusiva com a mãe). Assim, dos 20 estudos conduzidos no ambiente doméstico, 14 deles buscaram acompanhar a díade cuidador-criança (como em Piccinini et al, 2007; Seidl-Moura et al., 2008; Silva & Salomão, 2002). Em outros dois, os pesquisadores foram à residência para observar o bebê (como em Acredolo & Goodwyn, 1988); em um, para analisar o adulto (Kendon, 2004); e, em três, para entrevistar o adulto a respeito do bebê (como em Hekavei & Oliveira, 2009).
Os estudos trazem assim uma marca de quais crianças são investigadas, as pesquisas estando implicitamente carregadas de um modelo ideal de bebê, de família e de exercício de maternidade. Dessa maneira, os bebês são usualmente aqueles considerados como uma criança ou um jovem idealizado, globalizado, bem alimentado, limpo, educado, membro de famílias tradicionais nucleares, com determinadas características. Com isso, como questiona Friedmann (2005), as múltiplas infâncias não são investigadas. Usualmente, não se estudam bebês provenientes de famílias desestruturadas, filhos de mães solteiras, pais separados e crianças adotadas; ou crianças criadas em abrigo, abandonadas, violentadas ou tendo sofrido abuso; bebês de periferias da cidade (barraco, favela, etc;), de zonas rurais, comunidades ribeirinhas, da rua, doentes, internados em hospitais ou de diversas origens étnicas. O que há nos estudos são as crianças criadas em contextos “normais”. Os demais, os discriminados são estudados, no máximo, na comparação com um padrão ideal de família, considerado normal.
Como Friedmann (2005) afirma, o campo sofre de uma “normose”, através da qual se é guiado por um conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou agir em uma determinada sociedade. Tal perspectiva pode ser vista na afirmação de Taylor (2010) que diz que, para o desenvolvimento normal da linguagem, é necessário que haja uma maturação cerebral normal, um curso neurodesenvolvimental normal, além de interação social e do input de adultos.
Porém, os bebês também foram investigados em outro contexto – especificamente a creche. Dos 11 trabalhos conduzidos em creche, seis deles buscaram acompanhar processos de transformação considerando as particularidades daquele ambiente (como em Zanella &
Andrada, 2002; Seabra & Seidl Moura, 2005; Meneghini & Campos-de-Carvalho, 2003; Franchi e Vasconcelos et al, 2003). Dentre os demais cinco estudos, em três, a creche foi utilizada enquanto espaço de coleta, o estudo tendo uma perspectiva mais individualizada da criança (como em Cochet & Vauclair, 2010; Gil et al., 2006; Rezende, Beteli & Santos, 2005); nos dois outros, a avaliação foi feita através de entrevistas e questionários dos adultos cuidadores dos bebês (Lima et al., 2004; Melchiori & Alves, 2000).
Ainda, quando a creche era palco de estudo, muito frequentemente a afirmação é de que, por princípio, tais tipos de contexto são prejudiciais ao desenvolvimento do bebê. Assim, por exemplo, Santos, Lemos, Rates e Lamounier (2008), ao discutirem a avaliação de linguagem, concluem que não há como negligenciar a avaliação da audição e seu processamento em crianças, principalmente, das que apresentam maior vulnerabilidade a atrasos no desenvolvimento e as frequentadoras de creche em período integral.
No mesmo sentido, Lima et al. (2004) investigaram o desenvolvimento da linguagem e das funções auditiva e visual em lactentes de creche. Segundo os autores, os lactentes apresentaram um padrão diferente no desenvolvimento da linguagem quanto ao início do balbucio e das primeiras palavras, bem como na função visual, quanto à imitação e ao uso de jogos gestuais e de seguir ordem com uso de gestos. Para eles, a ausência da função de um adulto realizando uma atividade conjunta com o lactente pode levar a esse desenvolvimento diferenciado na creche.
Tal posição explicita a idéia que os autores têm de que, naquele ambiente, as crianças não mantêm relações de qualquer tipo, de que não há educadoras e de que os bebês, praticamente, ficam à própria mercê. Nesse sentido, os autores concluem que este ambiente propicia condições para o desenvolvimento de linguagem e das funções auditiva e visual com um padrão diferente que não segue o padrão universal. Em função disso, deve haver ações de prevenção na creche que devem integrar as áreas de saúde e educação em objetivo comum.
Divergindo dessa vertente, o trabalho de Ferreira et al. (2008) analisou o desenvolvimento da comunicação em crianças com Síndrome de Down. Os autores ressaltam a influência na aquisição de habilidades de linguagem em crianças que frequentam pré- escolas ou creches, os autores implicitamente atribuindo vantagens ao fato de se frequentar um ambiente de creche. Talvez essa posição distoante do conjunto esteja relacionada ao fato de que esses pesquisadores vinham investigando crianças um pouco mais velhas (2-3 anos de idade) e/ou que fossem crianças com necessidades especiais (deficiência intelectual pela síndrome de Down).
Ainda, à exceção, tem-se os trabalhos de Rapoport e Piccinini (2001a), Rapoport e Piccinini (2001b), Piccinini et al. (2001; 2007), Franchi e Vasconcelos et al. (2002, 2003), Anjos et al. (2004) e Amorim, Vitória e Rossetti-Ferreira (2000), que estudaram processos em ambientes de educação coletiva do tipo creche, sem considerá-la, por princípio, como perniciosa ao desenvolvimento da comunicação e linguagem dos bebês. No caso desses trabalhos, todos os autores destacam a necessária qualidade do atendimento e das relações ali constituídas, para o desenvolvimento da linguagem das crianças.
Porém, como discutem Seidl Moura e Ribas (2000), embora seja frequente o uso da palavra ‘contexto’ nos estudos de desenvolvimento psicológico, ainda são poucas as iniciativas de discussão conceitual deste termo. Falta, em síntese, um modelo de contexto a ser utilizado para conceber o desenvolvimento psicológico como sendo situado, ou, seja, ocorrendo de forma indissociável do contexto sociocultural.
Isso pode ser observado no trabalho de Santos, Lemos, Rates e Lamounier (2008), que ao avaliarem linguagem em crianças de creche mencionam preocupação com dados do contexto. Nesse sentido, referem considerar (enquanto variáveis e não em sua materialidade cotidiana, como discutem acima Seidl Moura e Ribas (2000)) características sócio-ambientais. Porém, concluem que os grupos eram bastante homogêneos inclusive na comparação entre os grupos caso e controle. Afirmam, nesse sentido, que as crianças estavam expostas aos mesmos fatores ambientais.
Ainda, o modo de se considerar o papel do contexto varia. Em vários trabalhos, ele aparece como algo que influencia, com possibilidades de alterar rumos. Assim, usualmente, o contexto é visto como algo que pode deslocar o desenvolvimento da direção ideal. Em outros trabalhos, ele representa elemento que participa de forma inerente na constituição dos sujeitos.
Assim, no primeiro caso, Silva, Santos e Gonçalves (2006) afirmam que o primeiro ano de vida da criança é caracterizado por grandes mudanças. Segundo eles, o termo desenvolvimento, quando aplicado à evolução da criança, significa constante observação no crescimento das estruturas somáticas e aumento das possibilidades individuais de agir sobre o ambiente. E este pode levar a diferentes formatos ou moldes ao comportamento. O ambiente positivo age como facilitador do desenvolvimento normal, pois possibilita a exploração e interação com o meio. Entretanto, o ambiente desfavorável lentifica o ritmo de desenvolvimento e restringe as possibilidades de aprendizado da criança. Paralelamente aos fatores de risco biológico, as desvantagens ambientais podem influenciar negativamente a evolução do desenvolvimento das crianças. Para os autores, as experiências culturais e
ambientais podem levar os resultados do desenvolvimento para uma ou outra direção, inúmeras vezes durante os primeiros estágios da vida, provavelmente promovendo ou inibindo taxas de maturação.
Tomasello (2003), por outro lado, considera o contexto enquanto constitutivo e, segundo ele, a criança se desenvolve no que ele denomina de habitus. Nesse sentido, pelo fato de os bebês e as crianças humanas serem totalmente dependentes dos adultos, elas estão inseridas em suas práticas e, portanto, comem dessas maneiras, vivem desses modos e acompanham os adultos quando estes vão para lugares determinados e fazem coisas específicas. A criança participa das práticas das pessoas entre as quais ela cresce. Isso significa que a criança vive certas experiências e não outras e, portanto, o habitus determina o tipo de interações que terá, o tipo de objetos físicos que estarão à disposição, o tipo de experiências de aprendizagem e de oportunidades que encontrará e o tipo de inferências que poderá fazer sobre modo de vida dos que a rodeiam. O habitus tem efeito direto sobre o desenvolvimento cognitivo das crianças quanto à matéria prima com que a criança terá para trabalhar.
Essas diferentes formas de considerar o papel do contexto no desenvolvimento dos bebês, incorporando-o ou não na análise dos dados, relaciona-se diretamente com outro componente do estudo dos comportamentos do bebê. Particularmente, se o bebê é investigado de maneira mais individualizada ou se a análise encampa alguns dos parceiros sociais.