3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.1. ESTUDOS DE CASOS MÚLTIPLOS, COMO PROCEDIMENTO DE
O estudo de caso, como discutido por Yin (2005), representa uma lógica de planejamento, uma estratégia de investigação. E, a opção pelo seu uso se faz em função de vários aspectos. Particularmente, pelo tipo de questão de pesquisa, o qual se propõe a investigar “como” determinado evento ocorre – neste caso, como se dá o processo de comunicação e significação no bebê, em suas diferentes relações e diversificados contextos.
Essa escolha se fez, ainda, como também indicada por Yin, em função de se considerar que estudar desenvolvimento implica em acessar processos marcados pela complexidade, devendo tal estudo se dar de maneira a preservar as características significativas dos acontecimentos, dentro de seus contextos e relações. Essa questão encontra-se perfeitamente em sintonia com o pressuposto teórico de base do presente estudo – a Rede de Significações (Rossetti-Ferreira, Amorim, Soares-Silva & Oliveira, 2008). Aliás, esse representa um eixo central de análise proposto por esta perspectiva.
Vale dizer que, apesar de que o estudo de caso trabalha com poucos sujeitos / condições, sua análise permite o relacionamento entre o singular e o universal, relacionando-se com aspectos da matriz sócio-histórica. Como Von Simson (Apresentação verbal, 2009) afirma, ao tratar da memória individual, as vivências e experiências pessoais contém conteúdos do grupo social, elementos que circulam no imaginário social. Os casos não representam, assim, situações particulares somente. Estas dialogam com e estão imersas em elementos sócio- culturais, que contribuem para circunscrever os processos em análise. O estudo de caso, permite, portanto, que, com cuidado, se vá além do próprio caso.
Finalmente, o estudo de caso foi escolhido como ferramenta de pesquisa, por se entender que, no presente trabalho, parte-se de uma hipótese que se mostra bastante contraditória com uma série de autores da literatura. Em função desses fatos, a pesquisa implica na realização de estudos exploratórios, descritivos e explanatórios, possibilitados pelos estudos de caso.
Nesse sentido, a partir de elementos que especificaram um conjunto de proposições, assim como as circunstâncias nas quais se acredita que as hipóteses sejam verdadeiras – bebês no primeiro ano de vida, independentemente de terem adquirido a linguagem verbal, já são seres da linguagem – os estudos de caso viriam para testar, confirmar, contestar ou desdobrar a referida proposição. A meta é utilizá-la de modo a determinar se as hipóteses levantadas são corretas ou se algum outro conjunto alternativo de explanações poderia ser mais relevante.
Outro aspecto que guiou os pesquisadores, no sentido de definir o planejamento da pesquisa enquanto estudo de caso, foi o objetivo fazer o acompanhamento dos processos de forma longitudinal, como discutido por Vygotsky (1991), Valsiner (2000) e Goes (2000). Como discute Yin (2005), o estudo de caso mostra-se bastante útil quando se deseja estudar o mesmo caso em dois ou mais pontos diferentes no tempo, de modo a se verificar como certas condições mudam com o tempo; e, ainda, de forma a se considerar se os intervalos de tempo selecionados refletiriam os estágios presumidos nos quais as alterações se revelam.
Finalmente, a escolha dos trabalhos recaiu no estudo de casos múltiplos; especificamente aqui, através da condução de uma série de estudos relacionados à mesma temática. Tal opção deveu-se pela vulnerabilidade em potencial, quando se conduz casos únicos que, por diversos motivos, poderiam acabar por não contribuir para a discussão em questão.
Dentro da proposição de estudo de caso, coloca-se como necessária a explicitação da unidade de análise. Nesse sentido, deve-se, em função do objetivo, explicitar qual é o grupo de sujeitos / casos a serem investigados; definir qual o limite de tempo a ser investigado, de modo a garantir as possibilidades de atingir a meta de investigação e dar os limites da coleta e análise dos dados (Yin, 2005).
Nesse sentido, considerando que a perspectiva de base do estudo é histórico-cultural, as considerações de Matusov (2007) sobre unidades de análise mostram-se importantes. Segundo este autor, não existe uma unidade de análise a ser considerada como universal. A unidade de análise depende do objetivo geral da pesquisa, aquela devendo ser cuidada para, de alguma maneira e extensão, conter características básicas do processo em investigação; ela deve ter consistência, de modo a não misturar aspectos diversos do processo, sobre cuja discussão poderia levar a diferentes processos de generalização; ela deve garantir ainda validade, no sentido de que represente o fenômeno a ser estudado, devendo para isso haver extensa correlação entre as metas da pesquisa e os procedimentos metodológicos.
Ainda segundo Matusov (2007), é necessário que não se limite a unidade de análise a traços, funções, mecanismos, propriedades e contexto social, pois ela negligenciaria as práticas humanas mais fundamentais (negligenciando junto o sistema biológico do corpo humano e sua ecologia) de qualquer fenômeno psicológico. O foco, ainda, não pode ser no indivíduo. Tal foco cegaria o pesquisador da complexidade sistêmica do fenômeno psicológico. A unidade deve conter, portanto, contradições dialéticas essenciais que constituem o fenômeno; deve ainda possibilitar a apreensão da subjetividade dialógica; deve também ser cuidadosa de modo a evitar o reducionismo. Neste último caso, como esse autor indica, deve-se evitar ser somente explicada com base no domínio dos meios simbólicos e práticas sociais, ignorando os aspectos biológicos e outras forças e circunscritores que podem estar envolvidos no fenômeno.
Como afirma Bussab (2000), a compreensão da complexidade deve produzir uma metodologia que explicite com clareza suas questões e que não pode ser traduzida por recomendações simples. Ao contrário, requer, antes de tudo, uma atitude de humildade diante
da complexidade do fenômeno, disciplina no exame sistemático de possibilidades alternativas, atenção mais global aos vários tipos de estudo, compromisso na consideração de resultados contraditórios e, em suma, exercício de rigor metodológico.
Esses dados serão, a seguir, brevemente apresentados. A não explicitação extensa se deve ao fato de que o conjunto dos trabalhos foi/vem sendo desenvolvido, de modo geral, através do compartilhamento de material empírico, oriundo de banco de dados de pesquisa. E como seis são os bancos de dados, dado o volume de informações, aqui será feita apenas uma explicitação dos procedimentos que resultaram na estruturação dos mesmos. São eles:
1) Processos de adaptação de bebês à creche (Rossetti-Ferreira, 1994);
2) A constituição de sujeitos da linguagem, em bebês com e sem deficiência auditiva (Rodrigues, 2007);
3) O processo de (trans)formação da comunicação ao longo do primeiro ano de vida: um estudo de caso (Rodrigues, 2011);
4) Estabelecimento da atenção conjunta em bebê vidente e com deficiência visual severa (Colus, 2011);
5) Os modos de relações e a co-construção dos recursos comunicativos em bebês que vivem em diferentes contextos de acolhimento (Moura, 2011).
6) Significações em relações de bebês com seus pares de idade (Costa, 2012);
1) Banco de dados do projeto integrado Processos de Adaptação de Bebês à Creche