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Contextos restritivos e margem de regulação

Durante a mobilização no sentido de dar conta da tarefa o sujeito estabelece modos de atuação que podem conter tanto mecanismos de proteção quanto modos degradados de atividade potencialmente geradores de conseqüências negativas para a sua saúde, segurança ou mesmo para a produção (GUÉRIN et alii, 2001).

O entendimento das possibilidades e restrições que modulam a capacidade dos sujeitos de mobilizar recursos operatórios remete à compreensão dos contextos restritivos e margem de regulação presentes no trabalho.

A execução de uma determinada ação só tem significado a partir da compreensão do contexto em que a mesma se insere. A partir desta perspectiva, o papel do contexto na determinação da atividade tem sido objeto de atenção dentro das pesquisas atuais sobre a ação situada (LEPLAT, 2001). Este autor distingue contexto e ambiente, o ambiente é parte das condições externas à tarefa prescrita, e o contexto é o conjunto das condições externas realmente postas em conta dentro da atividade. O contexto pode ser dividido em externo, que remete às condições externas da atividade, e interno para designar a representação que o sujeito faz de seu contexto externo.

Considerando a condição de um trabalho coletivo, as condições de apresentação do contexto se apresentam como informações que determinam a atividade, que geram ações/comunicações que determinam contextos.

Tem sido identificado o papel dos contextos restritivos e dos espaços de regulação dos sujeitos do trabalho na determinação do processo saúde-doença no trabalho. Neste sentido, Guérin et alii (2001) compreendem a carga de trabalho a partir da margem de manobra da qual dispõe o operador para elaborar modos operatórios que atinjam os objetivos exigidos e preservem a sua integridade. Os modos operatórios são resultados de

um conjunto de compromissos que leva em conta: os objetivos exigidos, os meios de trabalho, os resultados e o seu estado interno.

Para os autores, (op. cit.) quando da existência de uma situação não restritiva, os operadores podem exercer o seu papel de sujeito da preservação e construção de sua própria saúde. Assim, diante de algum alerta relativo ao seu estado interno o operador modifica os objetivos ou os meios de trabalho para evitar agravos à sua saúde. Por outro lado, em um contexto restritivo há um impedimento em se estabelecer regulações que modifiquem os objetivos ou os meios, de modo que ante um constrangimento, os objetivos só podem ser atendidos mediante alterações do estado interno.

Leplat (2001) propõe, como forma de modificar o trabalho, a criação de contextos próprios para facilitar a comunicação. Os modelos que constituem o sistema técnico, as regras de utilização deste e os meios de comunicação devem ser suficientemente compatíveis para que as comunicações cumpram de modo eficaz suas funções dentro da atividade.

A transformação do trabalho a partir de modificações no contexto tem sido objeto de atenção e está presente em diversos estudos. Em 1998 a Agence Nationale pour l’Amélioration des Conditions de Travail - ANACT, órgão do governo Francês, promoveu o seminário abordando problemas músculo-esqueléticos e evolução das condições de trabalho. Neste seminário Daniellou (1998) defendeu um modelo analítico que busca compreender o surgimento de problemas músculo-esqueléticos à luz do grau de constrangimentos à atividade de trabalho, impostos pela rigidez da organização que acarreta baixa margem de manobra e participação. Nesta perspectiva as patologias passam a ser compreendidas também como reflexo da dinâmica estabelecida pelos diversos atores no interior da organização, conforme pode ser modelado na Figura 2.1.

Figura 2.1: A dinâmica das representações na organização -Adaptado de Daniellou (1998)

Para Daniellou (1998) o surgimento de problemas músculo-esqueléticos, relacionados ao trabalho é um sintoma do bloqueio da dinâmica de reflexão, de debates e de ação dentro da empresa.

Corroborando este modelo, Bourgeois (2001) afirma que os problemas músculos-esqueléticos se desenvolvem quando o contexto priva o operador dos meios de desenvolver uma estratégia de ação adequada ao real do trabalho. Os problemas não resultam da ignorância dos bons gestos, mas da impossibilidade dos operadores de exercê- los.

A relação entre a rigidez da organização e o surgimento de problema músculo-esquelético é mediada por uma relação estabelecida com três variáveis posicionadas em torno do trabalho real, quais sejam:

Poder de pensar; Poder de agir; Poder debater.

O poder pensar se refere às relações entre as características da situação de trabalho, a atividade humana e seus efeitos nos indivíduos. A dificuldade surge diante da falta de uma compreensão fina do trabalho por parte dos operadores e a partir dos

mecanismos que restringem os operadores e operadoras de analisarem sua própria situação de trabalho. Três grupos de mecanismos podem ser identificados:

Dificuldades de natureza cognitiva – representadas pelas competências tácitas, elaboradas no cotidiano do trabalho e que não podem ser objeto de uma formalização;

Descrições sociais dominantes – que subestimam a atividade cognitiva necessária para dar conta da variabilidade. O fato do trabalho repetitivo e simples ser uma atividade banal é uma idéia falsa, que negligencia a atividade de trabalho e as competências implicadas;

O terceiro grupo de mecanismos se refere às estratégias de defesa utilizadas pelos trabalhadores para suportar as situações que originam sofrimento.

O poder de agir sobre a situação de trabalho não existe sem relação com a possibilidade de pensar a situação de trabalho. O sofrimento não é definido unicamente pela dor física, nem mesmo pela dor mental, mas pela diminuição ou destruição da capacidade de agir, do poder-fazer. Daniellou (1998) afirma que a decisão da ação de mudança é precedida por uma mudança do ponto de vista, de uma abertura conceitual e imaginária de uma outra possibilidade. A dificuldade de imaginar a possibilidade de uma mudança, aumenta as chances de desencadear estratégias de defesa.

O poder debater remete à capacidade de seus membros de reconhecer e gerir uma diversidade de lógicas contraditórias através de negociações internas e externas. A necessidade de debates dentro de uma empresa, mais do que uma exigência democrática, é o reflexo da diversidade de lógicas presentes, sendo necessária para a sobrevivência da empresa. O autor admite que a eficácia da empresa é objeto de compromissos e julgamentos de uma diversidade de atores presentes na organização.

O autor levanta e responde a seguinte questão:

Qual a relação existente entre o modelo apresentado e o surgimento de patologias que afetam os tendões, bainhas, cartilagens, vasos e nervos?

Para o autor a especificidade dos problemas músculo-esqueléticos é proveniente da complexidade dos mecanismos que estão ligados aos constrangimentos organizacionais e ao surgimento de lesões. As lesões são precedidas de sinais precoces e sem maior gravidade, o surgimento das patologias significa que os atores envolvidos não

puderam detectar, interpretar, exprimir, e dar conta dos sinais de alerta para prevenir agravamentos.

Dentro do modelo proposto, as categorias de ação previstas: o poder de pensar, debater e agir só fazem sentido quando se referem à atividade real de trabalho. A compreensão fina dos determinantes da atividade, das regulações individuais e coletivas elaboradas pelos trabalhadores é, portanto, indispensável para que seja evidenciada a relação entre os contextos restritivos presentes no sistema produtivo e a margem de regulação disponível aos sujeitos do trabalho.

Em sentido similar, mas de abrangência mais geral, Belemare et alii (1995) afirmam que a eficácia de uma empresa é objeto de uma construção social, contínua, dinâmica e multidimensional que envolve um grande número de atores.

Nos conceitos aqui postulados pode-se identificar no campo de atuação da ergonomia uma série de elementos ou mesmo categorias que distinguem um ponto de vista a partir do qual estabelece-se um processo de compreensão, reflexão e ação no universo do trabalho. É possível que, em um contexto de início do processo de passagem do prescrito para o real, sejam evidenciados os aspectos relativos à relação existente entre a prescrição, o saber-fazer e o ponto de vista da atividade.