2.3 A Ergonomia e o processo de projeto
2.3.1 O processo de projeto
Inicia-se uma caracterização do processo de concepção a partir da compreensão proposta por Pugh (1991). Para o autor, o processo de design possui um elemento central de confluência, o cerne do projeto. O processo de projeto seria então caracterizado por um fluxo iterativo que se inicia a partir do mercado e tem como destino final a venda do produto, objeto do projeto. Em sentido análogo, Bucciarelli (1994) propõe que o processo de projeto se inicia com reconhecimento de meta, especificação da tarefa e, termina com a distribuição, venda e serviço. No caso da indústria aeronáutica, o mercado determina o perfil de missão e define o Request For Proposal - RFP1 que por sua vez delimita e constrange o trabalho dos projetistas (RONCERO, 2007).
Ainda para o autor supra mencionado, o cerne do projeto é envolvido por uma série de elementos de especificação que estabelecem relação com o fluxo principal e no âmbito destas relações estabelecidas são construídas as soluções ou proposições de projeto.
Para Bucciarelli (1994) o processo de projeto não é um processo técnico, mas sim um processo social, composto por diferentes atores com seus mundos objetos que não possuem a mesma representação do problema. O autor justifica sua proposição a partir da identificação de que participantes de um projeto trabalham em diferentes domínios de diferentes características do sistema, têm diferentes responsabilidades e, freqüentemente, as criações, achados e proposições de um indivíduo para um determinado nível do projeto promovem um conflito de interesse em outra parte do projeto. Como resultado, negociações e “trade offs” são necessários para manter a coerência do projeto. Isto por sua vez faz da projeção um processo social. Um outro aspecto considerado é o de que o projeto necessita de uma coordenação, uma interação de diferentes mundos, de modo a promover o exercício de uma negociação contínua das diferenças, a fim de assegurar a coerência do projeto.
1 Request For Proposal- No documento em que é solicitada a proposta, constam as características que
A perspectiva proposta por Bucciarelli (op. cit) contribui no entendimento deste objeto no sentido de que do modo proposto, o processo de projeto é mais do que uma adição, ou uma síntese de interpretações dos participantes, é uma construção social.
Para conduzir a atividade de concepção, Garrigou et alii (2001) enfatizam a importância de pôr em andamento um processo de construção social que elabore regras, posicione os diferentes atores envolvidos e estabeleça a relação entre os mesmos a fim de proporcionar a interação da atividade dos diferentes atores responsáveis pela concepção.
Na condução do processo de design os projetistas se deparam com restrições das mais diferentes naturezas, de tempo, orçamento, técnica. Lidando com outros tantos diferentes atores, cada um com sua representação do objeto de concepção, com diferentes formas de pensar o mundo. Para Bucciarelli (1994) estas diferentes representações sobre o mundo se constituem em paradigmas instrumentais e científicos próprios. Constituindo-se mundos-objeto, que possuem uma linguagem especializada, inserida na linguagem ordinária. Cada linguagem do mundo-objeto de um engenheiro é enraizada em um paradigma científico particular que serve como base para conjecturas, análise, teste e projeto do mundo.
Bucciarelli (op. cit.) ao tratar das dificuldades enfrentadas no processo de concepção de aviões descreve uma famosa charge que retrata os diferentes mundos-objeto com os quais o projetista tem que lidar, o avião dos sonhos das diferentes visões, interesses e competências dos responsáveis pelo projeto do avião é um avião que não está representado no cerne do projeto.
Figura 2.2 Aviões dos sonhos – C. W. Miller- Fonte: Roncero (2007)
Ao tratar especificamente do projeto de aviões, Roncero (2007) afirma que o projeto se inicia a partir do perfil de missão que a aeronave deverá cumprir, em seguida segue-se a proposta de solução, esta é uma tarefa multidisciplinar envolvendo diferentes áreas como aerodinâmica, estruturas, propulsão, estabilidade e controle, aspectos econômicos em um processo iterativo de cooperação.
O autor apresenta um modelo que representa as relações estabelecidas entre os diferentes elementos de especificação e mundo-objeto com o cerne do projeto, representado na figura como o avião.
Figura 2.3 - Elementos de síntese integrados no projeto. Fonte: Roncero (2007).
Para Darses, Falzon e Béguin (1996) os problemas envolvidos nas soluções de projeto, por serem grandes, numerosos e complexos, requerem não apenas múltiplas competências, mas, sobretudo, que estas desenvolvam colaborações em conjunto. Para os autores, as soluções de projeto não são únicas, existindo uma série de soluções aceitáveis, um certo grau de liberdade, não havendo uma via pré-determinada que leve à solução. As soluções de projeto são limitadas pelo estabelecimento da solução final, em que as propostas são integradas, de modo que as soluções finais, freqüentemente sejam satisfatórias, mas não ótimas.
Posicionando em paralelo a famosa charge de Miller e as proposições de Darses, Falzon e Béguin (1996) e Bucciarelli (1994) têm-se o quadro de um processo social em que as diferentes representações sobre o projeto são mais ou menos contempladas no projeto final, conforme sua suposta coerência com o cerne do projeto e conflitos com outras representações. Assim, a determinação das características do cerne do projeto funciona como pressuposto de concepção, em torno do qual os mundos-objeto interagem.
Tratar da otimização das soluções de projeto tem sido objeto de atenção de diversos estudos. Favorecimento de comunicação e integração têm sido apontado como elemento importante para esta otimização (DEVON, 2003).
Para Fadier e Neboit (1998) os métodos tradicionais de concepção de sistemas têm mostrado seus limites diante da evolução da complexidade dos sistemas industriais, do aumento das exigências de performance e da obrigação de resultados em matéria de segurança do trabalho. Os autores afirmam que a promoção de uma análise funcional, por meio da criação de uma cadeia formal de cooperação e um sistema de regras entre as diferentes partes participantes de uma concepção, é uma tentativa de responder a esta insuficiência.
Diante da amplitude de problemas de projeto, foca-se a atenção no processo de concepção a partir do ponto de vista da ergonomia, com ênfase na ergonomia que tem no ponto de vista da atividade o seu eixo de compreensão do trabalho.
Buscar-se-á partindo do referencial próprio ergonômico estabelecer um ponto de vista a partir do qual se transite dos problemas identificados nos processos de projeto, na caracterização de um ponto de vista da atividade na concepção e culmine em perspectivas de processos de concepção que contemplem o ponto de vista da atividade.