CAPÍTULO 2 – TEORIAS SOBRE A SENTENÇA CONDENATÓRIA
2.14. Contingência da Separação entre Conhecimento e Execução
Como já visto a construção dogmática a estabelecer a separação entre processo de conhecimento e de execução, firmemente estabelecida na correlação necessária entre sentença condenatória e execução forçada, foi adotada no código processual de 1973.
Com a identificação dos títulos executivos extrajudiciais às sentenças condenatórias se tornou possível unificar os meios executivos. Perdeu relevância a distinção conceitual entre ação executiva, fundada em títulos extrajudiciais, e ação executória, fundada na sentença de condenação civil ou em outro título judicial.
A cisão da tutela jurisdicional em dois momentos, um exclusivamente cognitivo, exclusivamente executivo o outro, encontrava sustentação na doutrina de Enrico Tullio Liebman, a estabelecer a distinção entre atividade cognitiva e atividade executiva, tanto pela sua natureza, quanto pela sua função. A positivação dessa concepção no código e sua repetição doutrinária incessante emprestaram-lhe as características de um dogma.
A elegância da construção e seus resultados científicos consistentes conduziram a processualística a vê-la como a posição definitiva da ciência processual sobre o tema. Essa cristalização dogmática, se favoreceu a divulgação da doutrina, com a positivação da segurança jurídica, valor por ela representado, também afastou a tutela jurisdicional das necessidades da contemporaneidade.
De fato, o fenômeno da litigância em massa, conseqüência do esforço conjunto da sociedade em benefício do acesso à justiça, somado à crônica crise de aparelhamento do Poder Judiciário, deixou às claras a insuficiência, para a tutela efetiva e adequada dos direitos, da cisão doutrinariamente perpetrada e legislativamente acatada entre conhecimento e execução.
A dicotomia da tutela jurisdicional, a despeito de todo seu prestígio doutrinário, mostrou-se pouco propícia para o atendimento da demanda crescente por prestação jurisdicional nas sociedades contemporâneas. Por esse motivo vozes
autorizadas da processualística nacional recomendaram a superação da dicotomia da jurisdição, teoria que se converteu em escolho para a efetividade do processo.
Assim, há mais de vinte anos Humberto Theodoro Jr. preconizara o abandono da dicotomia da atividade jurisdicional, sustentando que a cisão era causa injustificável de embaraço à efetividade da jurisdição: “A necessidade de propor uma nova ação para dar cumprimento à condenação provoca uma longa paralisia na atividade jurisdicional, entre a sentença e a sua execução, além de ensejar oportunidade a vários expedientes de embaraço à atividade judicial aos devedores maliciosos e recalcitrantes”285.
Mais recentemente Athos Gusmão Carneiro se pronunciou enfaticamente, sustentando que a teoria da separação entre cognição e execução não poderia constituir obstáculo para a consecução das próprias finalidades do processo: “Com efeito, as teorias são importantes, mas não podem transformar-se em um embaraço a que se atenda às exigências naturais dos objetivos visados pelo processo, isso só por apego a tecnicismo formal”286.
Além das razões de ordem prática, indicativas da necessidade de aprimoramento da técnica processual no âmbito das obrigações para maior efetividade da prestação jurisdicional, Humberto Theodoro Jr. sistematizara razões dogmáticas conducentes à superação do dogma da dicotomia da atividade jurisdicional.
Primeiramente, uma só seria a pretensão do autor, consistente na satisfação do direito, compelindo o devedor ao adimplemento, donde a desnecessidade de dois processos para a satisfação de uma só pretensão. Em segundo lugar, se a sentença condenatória em regra não satisfaz o direito, necessitando para tanto da realização de atos executivos deflagrados posteriormente, inexiste razão para o encerramento da relação processual com a prolatação de sentença de procedência. Desse modo apenas os títulos executivos extrajudiciais exigiriam a deflagração de ação executiva autônoma287.
As vantagens da unificação também foram sintetizadas pelo jurista.
Corresponderiam, em primeiro lugar, à eliminação da propositura da execução forçada e de nova citação do devedor. Conseqüentemente, desapareceriam os embargos do devedor, porquanto havendo uma só relação processual, toda a matéria de defesa seria produzida necessariamente antes da prolatação da sentença. As provas de pagamento e as alegações de nulidade poderiam ser feitas mediante simples petição nos autos.
285 THEODORO JR., Humberto. A Execução de Sentença e a Garantia do Devido processo Legal, p. 250.
286 CARNEIRO, Athos Gusmão. Nova Execução. Aonde vamos? Vamos melhorar. Revista de Processo n. 123, p. 117.
287 Cf. THEODORO JR., Humberto. Op. cit., p. 253-254.
Admitir-se-ia embargos à arrematação, sem efeito suspensivo e a apelação, nas hipóteses de dívida em dinheiro, não interromperia a eficácia da sentença condenatória288.
Os argumentos de Humberto Theodoro Jr. autorizam concluir a inexistência de razão científica ou ontológica que imponha a separação da atividade jurisdicional. Dito de outro modo, não se encontra justificação científica ou na natureza das coisas para legitimar a bipartição da jurisdição em compartimentos estanques, um voltado somente para a cognição e certificação do direito, outro destinado exclusivamente para a efetivação do preceito sancionatório obtido289.
Se a separação não resulta de razões dogmáticas, nem, tampouco, de razões ontológicas, máxime porque o direito não é entidade natural, mas criação humana, parece correto concluir que a correlação necessária entre cognição e execução forçada constitui questão de política legislativa290. Nesse caso é certo, portanto, que o legislador possa dispor de modo diverso, unificando em uma só relação processual as atividades jurisdicionais cognitiva e executiva.
Foi o que efetivamente ocorreu no ordenamento jurídico brasileiro. A crise no plano fático ensejou a alteração legislativa trazida pela Lei n. 11.232/05, a transformar o processo de execução de sentenças, de demanda autônoma, em fase do processo de conhecimento. Essa alteração legislativa trouxe importantes reflexos no plano doutrinário, os quais serão objeto de investigação nos próximos capítulos deste trabalho.
288 Cf. THEODORO JR., Humberto. Idem, p. 255.
289 Cf. ZAVASCKI, Teori Albino. Título Executivo e Liquidação, p. 25.
290 Cf. SANTOS, Evaristo Aragão. A Sentença como Título executivo, p. 131.