CAPÍTULO 2 – O GOLPE MILITAR E O SINDICALISMO ATÉ MEADOS DOS
2.5 A continuidade dos conflitos de terra no estado do Rio de Janeiro e a ação da FETAG
2.5.1 A continuidade dos conflitos
Com foi possível perceber, após o Golpe Militar, os conflitos continuaram ocorrendo. Medeiros (1983; 03) registrou 71 conflitos por terra no Estado do Rio de Janeiro no período entre 1969-79, abrangendo 18 municípios. No estudo, só no litoral sul do estado, nos municípios de Angra dos Reis e Parati, ocorreram 24 focos de tensão, a maioria em decorrência da construção da estrada Rio-Santos. O relatório destaca a concentração de conflitos em alguns municípios, como é o caso de Magé (8), Cachoeiras de Macacu (5), Duque de Caxias (7) e Casimiro de Abreu (4). Dos 71 conflitos registrados, 37, ou seja, 52% do total para os quais o estudo teve notícia da data de início, 12, ou seja, um terço, principiaram antes de 1969, sendo 9 até 1964. Medeiros (1983) fez um gráfico da distribuição dos conflitos segundo o ano do início com base nos arquivos da FETAG e CONTAG.
DISTRIBUIÇAO DOS CONFLITOS SEGUNDO O ANO DE INÍCIO
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 1964 1965- 68 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979
Fonte: MEDEIROS, Leonilde Sérvolo. Levantamento de conflitos no Estado do Rio de Janeiro. (Relatório de Pesquisa) Dez anos de luta pela terra: 1969-1979. CEDEC/ABRA/CPDA-UFRRJ, 1983. (mimeo)
Medeiros (1983; 10-11) destaca que esses dados parecem ser significativos porque indicam que os litígios então existentes no estado eram, em grande parte, continuidade ou desdobramento de conflitos anteriores e que vinham se prolongando por décadas. O estudo também aponta para um grande número de ocorrências em 1973, quando se iniciaram muitas das tensões em torno da Rio-Santos, com a valorização das terras para empreendimentos imobiliários. Desses conflitos, há uma característica já apontada por Medeiros (1984), que Grynszpan (1991; 110) destaca também: grande parte das áreas conflituosas no estado nos anos 1980 eram as mesmas dos anos 1960, entre elas a América Fabril, em Magé, toda a área de Xerém em Caxias, São José da Boa Morte, a divisa dos municípios de Itaboraí e Cachoeiras de Macacu e Campos Novos, na Região dos Lagos.
Grynszpan (1991) também relaciona os conflitos aos processos sociais e econômicos da realidade fluminense. Um destes seria o crescimento da cidade do Rio de Janeiro. Outro a valorização e especulação na faixa litorânea do estado, de Cabo Frio até Parati. Mas adverte:
“Se eles representam fator de atração para especuladores, grileiros, empresas ou pessoas não interessadas na produção agrícola, é preciso levar em conta que também se constituem em elementos que pesam nos cálculos e estratégias dos próprios lavradores e posseiros, determinando sua permanência ou não nas áreas que ocupam, definindo seu maior ou menor investimento na atividade agrícola, ou mesmo seu abandono, ainda que isso não implique, necessariamente, numa saída de terra” (Grynszpan, 1991: 114).
Medeiros (1984), com base em documentos sindicais, identifica as seguintes categorias de trabalhadores envolvidas em conflitos: “posseiros”, “parceiros”, “colonos do INCRA”, “assalariados” e “outros”. As categorias utilizadas foram buscadas não só a partir da explicação da relação do trabalhador com a terra, mas também na dinâmica do grupo no decorrer da luta, ou seja, a identidade que ele assumia. A grande maioria (56 dos 71 conflitos registrados) envolvia “posseiros” que se enfrentavam com “grileiros” ou “pretensos proprietários”. O estudo destaca que, em poucos casos, se reconhecia a propriedade jurídica da terra. Em 10 casos, o trabalhador aparecia caracterizado como “parceiro”. Dos 71 conflitos registrados, em 11 o antagonista era o próprio Estado, através de algumas de suas instâncias, seja a nível federal ou estadual. Os conflitos envolviam aproximadamente 4800 famílias.84
Há poucas referências sobre o que definia a entrada da FETAG nos conflitos. É particularmente interessante porque a ação política que se desenvolveu, apareceu como se fosse uma decorrência necessária da situação da expropriação dos trabalhadores e não produto de um trabalho de organização e representação política, realizado por instituições do movimento sindical, entre eles a própria Federação.
Apesar dessa aparente invisibilidade do trabalho político, condição para acentuar a tese que a FETAG procurava defender de que sua ação se desencadeava no momento em que os trabalhadores procuravam a Federação, alguns documentos mencionam que o “relator” deliberava em relatório a formulação da situação dos trabalhadores e reivindicação a ser encaminhada no caso. Os relatores faziam parte do “Conselho de Representantes”, composto por diretores da FETAG e dos STRs filiados. Depoimentos de lideranças também mencionam que, em função do interesse de fundar sindicatos, as áreas onde havia conflitos eram consideradas prioritárias, explicitando assim um longo processo de organização, de identificação de lideranças e laços de confiança que, em muitos casos, era o que definia o envio do advogado da Federação para ajudar no caso. É o que supomos a partir da seguinte passagem:
“Nós tínhamos o trabalho de defesa do trabalhador através do sindicato. Nós pegávamos, por exemplo, o sindicato de São Gonçalo, Itaboraí e Rio Bonito. Pegávamos o advogado e dizíamos: ‘Você vai trabalhar com esses sindicatos’. E ele fazia um trabalho na sede dos sindicatos, fazendo a defesa dos trabalhadores. E assim começou: o estado era distribuído, onde tinha sindicato, com advogados da Federação. Onde não tinha sindicato, a gente ia fazendo a defesa na proporção em que ia chegando alguém na Federação ou nos sindicatos. Paralelo a isso começa os cursos. Automaticamente os trabalhadores conhecendo mais seus direitos, passam também a exigir. Aumenta, então, o trabalho da Federação no campo da defesa”.85
Depoimentos de dirigentes e documentos disponíveis indicam que a ação sobre os conflitos no decorrer do tempo não foi homogênea. O primeiro pico de que tivemos notícia foi em 1965, nas áreas em que os governos federal e estadual invocavam a necessidade de ajustes técnicos e correção de erros cometidos nas desapropriações no período anterior ao Golpe, participando das comissões de transferência dos 84 Número obtido pela autora por meio da soma do número de famílias que os documentos sindicais
apontavam como afetados.
trabalhadores para os núcleos do IBRA, principalmente em Cachoeiras de Macacu, Macaé e Caxias.
Num segundo momento, de fins dos anos 60 em diante, documentos indicam que a FETAG não ficou satisfeita com as resoluções da comissão que reviu as desapropriações nos municípios. A Federação passou a questionar o poder público, em especial o Ministro da Agricultura. Solicitavam que o Ministro avaliasse a possibilidade de assentamento nos municípios de Casimiro de Abreu, Duque de Caxias, Itaguaí, Magé, Niterói, Nova Iguaçu, São João da Barra e Trajano de Moraes. Destacavam que diversas áreas serviam à agricultura, mas estavam sem qualquer uso, enquanto havia uma carência de terras para os lavradores trabalharem, com conflitos em diversos municípios. A FETAG atuou também nas áreas em que as comissões do Governo federal e estadual encaminharam para a desapropriação, mas que não ocorreram.
O crescimento seguinte foi no início dos anos 70, ano em que se iniciam muitas das tensões em torno da BR-101. Além das áreas já citadas, a FETAG ampliou sua área de atuação para os municípios do sul fluminense, Vale do São João e Região dos Lagos, especialmente nas áreas dos “posseiros”.