CAPÍTULO 2 – O GOLPE MILITAR E O SINDICALISMO ATÉ MEADOS DOS
2.3 O sindicalismo norte-americano na formação de dirigentes no Brasil
O governo dos EUA desempenhou um papel importante no enfraquecimento político de João Goulart e na preparação da intervenção militar. No quadro dessa política de intervenção, o sindicalismo norte-americano implementou, após o golpe militar, assistência ao sindicalismo rural brasileiro, através do Instituto Cultural do Trabalho (ICT) e do Instituto Americano de Desenvolvimento do Sindicalismo Livre (IADESIL).
O IADESIL operava com base em três princípios, denominados de “educação trabalhista”, afirma Dreifuss (1981: 317). Primeiramente, “dividir as classes trabalhadoras na tentativa de se criar uma aristocracia trabalhista, privilegiada e sindicalizada”. Em segundo lugar, evitar o comunismo e livrar-se dele, negando a luta de classe, obtendo “consenso” entre empresários e trabalhadores. Finalmente “servir como uma sutil rede de coleta de informações dentro dos movimentos trabalhistas na América Latina”.
No que se refere às relações da CONTAG com o IADESIL, as informações são poucas e dispersas. Segundo Tavares (1992) e Silva (2006), entre 1963 e 1973, aproximadamente 30.000 sindicalistas brasileiros (rurais e urbanos) receberam os ensinamentos dispensados pelo ICT. A partir de 1965, em diferentes pontos do país, o IADESIL patrocinou diversos cursos destinados à formação de sindicalistas. A título de intercâmbio sindical, também dava suporte à participação de dirigentes sindicais 63 Entrevista, Bruno Nogueira, 1982. Essa característica é importante, porque, ela durou nos anos 70 e
80, até aonde tivemos conhecimento. No relatório de atividades da FETAG em 1979, constam os seguintes STRs com contabilidade financeira centralizada na Federação: Rio Bonito, Parati, Valença, Campos, Barra Mansa, Magé, Trajano de Moraes, São Fidelis, Itaocara, Vassouras, Conceição de Macabu, São Gonçalo, Rio Bonito, Angra dos Reis, Paracambí, Araruama e Silva Jardim.
brasileiros em cursos em Front Royal Institute (EUA). Em 1966, mais de 200 militantes sindicais foram enviados aos Estados Unidos (Silva: 2006; 299). O eixo central dos cursos, tanto no exterior quanto no Brasil, eram matérias de administração sindical, organização, negociação coletiva, legislação sindical e trabalhista.
No campo nacional, o quadro de relações entre o IADESIL e as FETAGs é variado. Sobre Pernambuco, Tavares (1992) destaca que a presença norte-americana junto do movimento camponês é anterior ao golpe. Afirma que a estratégia da CIA para interferir diretamente nos movimentos camponeses era financiar o SORPE e as cooperativas agrícolas.65 Entretanto, após o golpe o autor destaca intensas disputas entre
diferentes atores, entre eles distintos setores da Igreja católica, militares, organismos estatais, organizações patronais e agencias internacionais, que tinham tido papel relevante no período anterior ao golpe e que se mantinham vivas. Cresciam inclusive as divergências entre padre Mello e padre Crespo.
O autor conta que com o Golpe, dos 35 sindicatos existentes, 30 sofreram intervenção.
“Na prática, o controle do movimento trabalhista passou para as mãos do único no qual o Exército confiava – o padre Mello. (...) Ele se tornou um ditador não oficial, dirigindo o exército e a policia para intervir em todos os sindicatos rurais nomeando diretores novos para substituir os lideres que havia removido. O Padre agia em consonância com o Delegado Regional do Trabalho, Haroldo Veloso Furtado, arqui-inimigo dos sindicalistas que sustentaram a FETAPE de portas abertas, apoiados pelo padre Crespo” (Page Apud Tavares, 1995: 244).66
A Federação não sofreu intervenção, mas a diretoria foi afastada. João Jordão, que era do sindicato de Vicência, assumiu a Presidência e José Francisco, do mesmo sindicato, a secretaria (Tavares, 1992: 79). Contudo, padre Mello tentou conseguir, sem sucesso, que padre Crespo fosse expulso da FETAPE. Tavares destaca que o Delegado do Trabalho passou a dizer que a FETAPE estava sendo dirigida pelos americanos, o que foi refutado com veemência pelo ex-presidente da FETAPE. Quem interferiu de modo mais claro para que padre Crespo não fosse afastado foram algumas agencias norte-americanas, bastante vivas na vida sindical daquele período.
“Alguém da missão do USAID se comunicou com um advogado que tinha ligações com os oficiais do IV Exército e insistiu fortemente para que padre Crespo fosse poupado. Seis meses mais tarde, o padre Crespo participou de um acordo aberto, firmado pelo SORPE com a Liga Cooperativa (CLUSA), e que possibilitava para a CIA, sob a cobertura da CLUSA, carrear fundos diretamente para o movimento cooperativista” (Page Apud Tavares, 1995: 87). 67
65 Como vimos no capítulo 1, o objetivo era fazer com que essas organizações agissem no sentido de
reduzir a influencia das Ligas Camponesas. Ao mesmo tempo, se considerações de Tavares (1992), esse objetivo permeava a ação norte-americana um sentido de reduzir a influência dos latifundiários, retirando-lhes o monopólio dos recursos de poder, em Pernambuco e no Nordeste, permitindo o acesso dos camponeses aos direitos assegurados pela legislação brasileira.
66 Page, Joseph A. A revolução que nunca houve – o Nordeste do Brasil (1955-1964). Rio de Janeiro,
Record, 1989.
O Delegado do Trabalho foi demitido e passou, segundo Tavares (1995: 94), a se colocar como aliado das oligarquias latifundiário-industriais da área, ficando à margem das articulações dos norte-americanos, que buscavam um “sindicalismo de enfoque legalista”. Nesse quadro, Tavares destaca relatos com informações de que o IADESIL financiou a construção de três centros de treinamento em Pernambuco.
Após 1968, segundo Tavares (1992), a Federação de Pernambuco implementou um progressivo afastamento com o IADESIL, reclamando tentativas de intervenção na Federação. A relação do sindicalismo pernambucano com o Instituto se alterou, diminuindo significativamente o número de cursos. O IADESIL manteve apenas os cursos em São Paulo e nos Estados Unidos, através do ICT. O autor destaca que a direção da FETAPE caminhou na corda bamba, tentando evitar uma intervenção, ao mesmo tempo em que fugia do controle do sindicalismo americano.
Temos poucas informações das relações do IADESIL com a CONTAG após 1968, quando a Federação de Pernambuco, muito ligada à CONTAG, começou a se afastar do IADESIL. Nossa hipótese é que houve um progressivo afastamento entre a CONTAG e o IADESIL nos anos que se seguiram, dada à proximidade de Pernambuco com a CONTAG. No Congresso da CONTAG em 1973, aparecia na lista de presentes ao evento somente um membro do IADESIL. Segundo o tesoureiro da FETAG/RJ, a CONTAG não tinha ligação com os cursos do IADESIL nos anos 70.68
Entretanto, esse progressivo afastamento não impediu, se considerarmos alguns dados de Tavares, continuidades e rupturas nas ações sindicais. Segundo Tavares (1992; 99), o presidente da CONTAG foi aos EUA antes de 1968 participar de um desses cursos. E foi esse mesmo dirigente que, após ter ganhado a presidência da CONTAG em 1967, começou a construir uma linha do sindicalismo diferente da que estava sendo construída. Ao mesmo tempo, Tavares destaca que isso não impediu o ex-presidente da CONTAG de afirmar que os eixos dos cursos do IADESIL foram o mote da CONTAG durante todos os anos seguintes, com uma exceção: a legislação agrária, que foi pouco trabalhada pelos cursos. Era a legislação sindical e trabalhista o eixo do IADESIL. Tavares argumenta que segundo o ex-presidente da CONTAG, “a gente pegava as matérias que interessavam ao movimento sindical como um todo. A parte que não prestava para a nossa prática, a gente não aproveitava” (Citado Tavares, 1992: 100).
No Paraná, conforme pudemos perceber em Silva (2006; 300), a Federação dos Trabalhadores do Estado (FETAEP) iniciou suas relações com o IADESIL desde os primeiros anos após o Golpe. A diferença com Pernambuco é que o convênio da Federação do Paraná com o IADESIL se estendeu pelos anos 70. Para Silva, é possível pensar que o sindicalismo “conservador vindo dos Estados Unidos serviu de matriz política à organização sindical rural do Brasil”. O autor argumenta que a FETAEP enviou diversos sindicalistas para os cursos do IADESIL fora do estado do Paraná. Ao mesmo tempo, a Federação organizou, em conjunto com o IADESIL, diversos cursos no próprio estado. O autor destaca que o boletim informativo do IADESIL, que se dizia ser o “organismo de assistência sindical da Aliança para o Progresso”, afirmou que em 1972 o a FETAEP construiu, em parceria com o IADESIL, ICT e a Delegacia Regional do Trabalho, o Centro Social de Campo Mourão.
Segundo Silva (2006; 301), ocorre, porém, uma diferenciação entre as políticas do regime militar e as iniciativas norte-americanas de formação de dirigentes sindicais, 68 Entretanto, acreditamos que a relação da CONTAG com o IADESIL no final dos anos 60 e início dos
anos 70 precisa ser ainda estudada, haja visto que há um arco de alianças em que o Presidente da CONTAG e sua direção navegavam entre as federações estaduais para poder se equilibrar num período extremamente violento.
que expressavam algumas das contradições dos jogos de força que estavam em curso naquele período. Uma CPI foi aberta para investigar as ingerências das centrais sindicais norte-americanas, evidenciando irregularidades graves e marcas de corrupção. “Mas as denúncias, as investigações e os escândalos não seriam suficientes para colocar um fim na colaboração sindical norte-americana” (Silva, 2006: 301).
Mesmo em casos de federações que participavam da diretoria da CONTAG, como no caso do Rio de Janeiro, foi possível perceber uma independência parcial da FETAG/RJ em relação à linha política da CONTAG frente o IADESIL e o ICT. Depoimentos indicam que o período de duração do convênio da FETAG/RJ com o IADESIL foi de 1966 até o ano de 1973. O estopim para o fim do convênio, segundo o tesoureiro da Federação à época, foi uma proposta de desvio de dinheiro para um “curso fantasma no Espírito Santo” feita à FETAG por um membro do IADESIL.69 Não temos
informações mais profundas sobre as disputas políticas entre o IADESIL e agências do Estado e nem tampouco sobre o dia-a-dia da Federação. Também não temos nenhuma fonte que fale em tentativa de intervenção na FETAG/RJ, como citado por Tavares (1992) no caso de Pernambuco.70
As informações que temos sobre a relação do IADESIL com a FETAG destacam que o Rio de Janeiro enviou alguns de seus dirigentes para cursos nos Estados Unidos. Não há dados sobre quais foram os dirigentes enviados nem seus municípios. Campos foi um município que enviou alguns sindicalistas. O presidente da FETAG nos anos 70 e 80 participou de um desses cursos.
As relações com o IADESIL ainda são uma questão encarada com certa delicadeza pelos sindicalistas, o que tem contribuído com a falta de informações sobre o período. Vivenciaram na prática contradições com os agentes dos EUA e indicam claramente a consciência sobre a participação norte-americana no Golpe que derrubou João Goulart. Por outro lado, essas relações permitiram que um grupo de dirigentes sindicais se visse no centro de disputas políticas de alcance mundial, após um longo período de exclusão social e política.
O depoimento do ex-presidente da FETAG, que participou de um curso no início dos anos 70, mostra um pouco dessa ambivalência.71
Pesquisador - Eu estou vendo aqui na sala do senhor um diploma de um curso, umas fotos...
Ex-presidente da FETAG – Foi no convênio com o IADESIL e eu fiz um curso de educação sindical nos Estados Unidos. Eu levei mais de um mês lá, mas não me pergunta o que eu aprendi porque eu vi foi americano frio.
A partir dessas constatações, nos pareceu ser possível pensar que o sindicalismo vindo dos Estados Unidos serviu para que um grupo de sindicalistas acumulasse uma bagagem de técnicas (leis e processos administrativos), experiências, enfrentamentos e relações políticas. Não foi possível perceber se os cursos ajudaram a credenciar os dirigentes a assumirem novos papéis. Questões ligadas à legislação agrária não foram trabalhadas, excluindo a principal bandeira que unificou a luta pela terra com as questões trabalhistas: a reforma agrária. O sindicalismo que sobreviveu ao golpe, tendo 69 Entrevista com Eraldo Lírio de Azeredo, 2007.
70 As relações com as agências dos EUA após o Golpe aparecem muito brevemente no depoimento de
algumas lideranças. Parece ser uma memória que os sindicalistas fazem questão de eliminar.
na FETAG um importante instrumento de rearticulação e continuidade, ocupou um dos poucos espaços que lhe restava para a ação sindical: a promoção de ações na justiça e pedidos junto ao poder Executivo para que desapropriasse as áreas em litígio. Não foi possível perceber se esta postura sindical se deveu mais às circunstâncias políticas extremamente desfavoráveis então existentes do que os cursos orientados pelo IADESIL.