Capítulo 2. Implantando a Nova Política de Segurança Alimentar e Nutricional
2.2. A Implantação do Programa Fome Zero: as principais frentes de atuação
2.2.5 A Continuidade das Ações em 2004 e 2005
Em janeiro de 2004, em meio a uma reforma ministerial, o MESA foi extinto e sua estrutura foi incorporada ao novo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), que herdou também as estruturas e as políticas do Ministério da Assistência Social
e da Secretaria Executiva do Bolsa-Família. O novo Ministro, que permanece até o momento, é o Deputado Federal e ex-Prefeito de Belo Horizonte, Patrus Ananias. Este processo será analisado no Capítulo 3.
Com essas mudanças, a área da segurança alimentar ficou sob a responsabilidade da Secretaria de Segurança Alimentar e Nutricional-SESAN. As políticas específicas iniciadas no MESA permaneceram sob sua responsabilidade e foram continuadas. No entanto, perderam espaço político no Ministério e, por conseqüência, na agenda central do governo e nos meios de comunicação.
Em relação às ações locais, no relatório de gestão de 2004, da SESAN, constava a realização de 31 projetos de Restaurantes Populares apoiados e 119 de Cozinhas Comunitárias, que são pequenos estabelecimentos comerciais localizados em áreas centrais e que fornecem refeições prontas em pequena escala, com investimento de 19,7 milhões; 19 convênios para implantação de Bancos de Alimentos, totalizando R$ 5,5 milhões; e foram aplicados R$ 5,3 milhões para projetos de apoio ao autoconsumo, como hortas, viveiro de mudas, apicultura, beneficiamento de frutas e compras locais de alimentos, beneficiando 239 mil famílias.
O PAA recebeu investimento de 177 milhões, adquirindo 263 mil toneladas de alimentos. Foram beneficiados cerca de 50 mil agricultores nas modalidades compra direta, antecipada e especial e local. O Programa do Leite adquiriu, de 13 mil produtores, 177,8 milhões de litros de leite, distribuídos para 620 mil famílias. Isso representou 25% de todo o leite adquirido na região Nordeste, em 2004.
Também foram distribuídas 800 mil cestas básicas para populações específicas (acampados, quilombolas, indígenas e atingidos por barragens). Na área de educação alimentar, a principal ação foi a continuidade da edição das cartilhas da Editora Globo, da Turma da Emília, produzindo três edições e 54 milhões de cópias.
Os dados do balanço de outubro de 2005, do MDS (Governo Federal, 2005), indicam que, desde janeiro de 2003, a compra direta do PAA atendeu a 102.200 agricultores familiares, e seus alimentos beneficiaram 2,1 milhões de pessoas, com investimento de R$ 207 milhões. O Programa do Leite recebeu investimentos de R$ 254 milhões, beneficiando 18 mil agricultores e 2,6 milhões de pessoas na distribuição. Também foram distribuídas 2,3
milhões de cestas a grupos vulneráveis: indígenas, quilombolas, acampados e vítimas de calamidades.
Neste período, foram construídas 105 mil cisternas, em 858 municípios; há 5 Restaurantes Populares funcionando e 30 em construção; há 10 Bancos de Alimentos funcionando e 17 em fase de serem implantados; e 22 mil famílias estão sendo atendidas por projetos de hortas urbanas comunitárias.
O Programa Bolsa-Família, que passou a ser a principal política social do governo, tem como meta atender a 11,2 milhões de famílias pobres, com renda per capita igual ou inferior a R$ 100,00, até 2006. É uma meta bastante ambiciosa, mas deverá ser atingida59. No terceiro ano de governo, o programa já atendeu a 8,7 milhões de famílias, o que representa 77% da meta, em todos os municípios brasileiros. As condicionalidades em educação (freqüência escolar) e saúde (vacinação e acompanhamento básico) têm sido seguidas pelas famílias, segundo dados do MDS. O orçamento do Programa é crescente, passando de R$ 3,3 bilhões em 2003, incluindo todos os programas unificados, para R$ 5,6 bilhões, em 2004, e para R$ 6,6 bilhões previstos em 2005. Em 2006, a previsão é de R$ 7,5 bilhões no orçamento do Programa.
A mobilização social perdeu o fôlego inicial. Se, em dezembro de 2003, 99 empresas foram credenciadas pelo Programa Fome Zero, em dezembro de 2005 eram 106, um aumento de apenas 7 empresas em quase dois anos. As doações em dinheiro mantiveram o fôlego inicial, já que, de um valor de 7,3 milhões, em 2003, de doações voluntárias, o valor passou a R$ 10,6 milhões, em 2005.
Com relação às ações dos demais Ministérios participantes do Fome Zero, destaca-se a alimentação escolar, de caráter nacional, que teve expansão de recursos de R$ 848 milhões em 2002, para R$ 1,014 bilhão, em 2004, com o repasse per capita para o ensino fundamental ampliado de R$ 0,13 para R$ 0,18 por estudante/dia (Governo Federal, 2005). Esta foi uma iniciativa discutida e encaminhada pelo Consea.
O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar apresentou um aumento substancial de recursos, passando de R$ 2,3 bilhões para R$ 6,2 bilhões de recursos
59 Embora o próprio Governo Federal esteja cogitando a revisão da meta em função do crescimento econômico e da redução da pobreza evidenciada nos resultados da PNAD 2004.
contratados da safra 2002/2003 para a safra 2004/2005, com a inclusão de 700 mil novos produtores no sistema de crédito do Pronaf, tendo os maiores aumentos registrados na região Nordeste e Norte (Governo Federal, 2005).
Estudo realizado pela Câmara Federal (Câmara dos Deputados, 2005) comparou os recursos aplicados, de 2002 ao primeiro semestre de 2005, ano a ano, do Programa Fome Zero na sua concepção ampla, abarcando programas de vários ministérios, partindo de uma definição da composição das ações feita pelo MDS, que totalizava R$ 14,7 bilhões, em 2005. O estudo selecionou as ações de maior volume de recursos que existiam nos quatro anos, para possibilitar a comparação, o que representou R$ 14,1 bilhões, ou 96% da proposta original.
Tabela 2: Ações do Programa Fome Zero com Maiores Volumes de Recursos Liquidados Valores em R$ milhões 2005 Ação 2002 2003 2004 Autoriza- do Liquida- do (1o. Semestre) variação 2002- 2004 (%) variação 2002-2005 (autoriza- do) (%) Transferência de renda com
condicionalidades 2.308,3 3.357,1 5.314,4 6.542,5 3.237,6 130,2 183,4 Financiamento e equalização
de juros para agricultura
familiar - Pronaf 1.018,1 1.377,3 2.641,6 3.514,2 911,7 159,5 245,2 Formação de estoques
públicos 211,1 680,9 520,1 1.985,2 380,1 146,4 840,4
Apoio à alimentação escolar
na educação básica 848,9 954,2 1.014,3 1.265,0 567,1 19,5 49,0 Erradicação do trabalho infantil 465,5 456,2 495,3 532,9 195,0 6,4 14,5 Aquisição de alimentos provenientes da agricultura familiar 0,0 162,4 177,1 198,2 90,8 - -
Concessão de Bolsa Capa- citação de jovens de 15 a 17 anos em situação de vulne-
rabilidade e/ou risco social 55,8 55,9 55,1 69,9 28,3 -1,3 25,3
Total 4.907,7 7.044,0 10.217,9 14.107,9 5.410,6 108,0 187,5
% do PIB 0,36 0,46 0,58 0,72
Fonte: Lei de Diretrizes Orçamentárias e SIAFI/Prodasen. Elaboração: Câmara dos Deputados (2005).
Pelos dados da Tabela 2, as principais ações do Programa Fome Zero apresentaram um aumento nos recursos liquidados de 108,0%, no período 2002-2004, passando de 0,36% do PIB, para 0,58%. Os maiores aumentos foram verificados nas ações de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), que não existia em 2002; no Pronaf – equalização (159,5% de aumento); na formação de estoques públicos (146,4%), e na transferência de renda (130,2%). Considerando o valor autorizado em 2005, o estudo mostra, ainda, um aumento de 187,5%, em relação a 2002, com um aumento significativo de recursos para estoques públicos (840,4% de aumento) e continuidade na ampliação do Pronaf e da transferência de renda.
No entanto, vale uma observação a respeito do PAA. A despeito de ter sido criado em julho de 2003, os recursos do Programa, com exceção da Modalidade do Leite, têm apresentado um estacionamento (Tabela 3). Inicialmente focado na modalidade de compra direta para recomposição de estoques ou doação simultânea para programas locais, o MDS, a partir de 2004, começou a mudar o foco, privilegiando as modalidades operadas por meio de convênios com Estados (leite e compra local) e municípios (compra local). Estes tiveram aumento de R$ 81,1 milhões, em 2003, para R$ 221,2 milhões, em 2005. A modalidade compra direta permaneceu estacionada de 2004 para 2005 e a compra antecipada praticamente deixou de receber recursos em 2005. Este aspecto é abordado em Delgado et al. (2005). Isto significa que não há recursos para ampliação em relação ao público inicial atendido, que já foi prejudicado por ter contado com menos da metade do ano para operar. No aspecto geral, verifica-se que, em relação ao montante de recursos, houve avanços substanciais nos recursos para o Fome Zero. No entanto, mais do que o montante de recursos aplicados isoladamente, é importante alterar a “forma” de implantação das ações, em direção a uma integração efetiva das mesmas na ponta. Caso contrário, os resultados para a segurança alimentar e nutricional perdem em potencialidades.
Tabela 3: Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar – PAA Recursos aplicados e agricultores beneficiados – 2003 a 2005
Modalidades e Instrumentos do PAA 2003* 2004 2005** Compra Antecipada R$ 56,3 milhões 31,8 mil agricultores beneficiados R$ 34,6 milhões 16,4 mil agricultores beneficiados -
Compra Direta R$ 6,6 milhões 3,4 mil agricultores beneficiados R$ 31,2 milhões 15,8 mil agricultores beneficiados R$ 37,1 milhões 15,4 mil agricultores beneficiados Compra antecipada especial R$ 18,5 milhões 5,8 mil agricultores beneficiados R$ 41,6 milhões 18 mil agricultores beneficiados R$ 75,7 milhões 31,6 mil agricultores beneficiados Compra Direta Local R$ 19,2 milhões 8,3 mil agricultores beneficiados R$ 8,5 milhões 17,3 mil agricultores beneficiados R$ 26,2 milhões 15,4 mil agricultores beneficiados Programa do Leite R$ 61,9 milhões
s/operação R$ 61,3 milhões 13,1 mil agricultores beneficiados R$195 milhões 19,1 mil agricultores beneficiados TOTAL R$ 162,4 milhões (R$ 400 orçados) R$ 177,1 milhões aplicados (R$ 179 orçados) R$ 342,2 milhões aplicados (R$ 348 orçados + suplemen- tação) Fonte: Delgado et al.(2005), Conab e MDS.
*Início da operação em agosto.
** Dados preliminares de janeiro de 2006.