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Conto e Moralidade em Perrault: A bota e a perdigota

CAPÍTULO III: O conto maravilhoso tradicional na literatura (também)

2. Conto e moralidade

2.1 Conto e Moralidade em Perrault: A bota e a perdigota

Como já referimos, as versões de Perrault ou adaptações destas continuam a ser amplamente difundidas. O objectivo moralizador de Contes de ma mère l’Oye (Perrault, 1997) é evidente e assumido pelo autor, no prefácio:

[…] ces bagatelles n’étaient pas de pures bagatelles, qu’elles renfermaient une morale utile, et que le récit enjoué dont elles étaient enveloppées, n’avais été choisi que pour les faire entrer plus agréablement dans l’esprit et d’une manière qui instruisît et divertît tout ensemble.

Mais adiante, Perrault, depois de confrontar os seus textos com outros da antiguidade, afirma que as suas narrativas

méritent mieux d’être racontées que la plupart des Contes anciens, et particulièrement celui de La Matrone d’Éfhèse et celui de Psyché, si l’on les regarde du côté de la Morale, chose principale dans toute sorte de Fables, et pour laquelle elles doivent avoir été faites. (p. 13).

Ainda no prefácio, Perrault enaltece a preocupação moralizadora dos antepassados, por oposição aos clássicos:

Il n’en est pas de même des contes que nos aïeux ont inventes pour leurs enfantas. Ils ne les ont pas contés avec l’élégance et les agréments dont les Grecs et les Romains ont orné leurs Fables; mais ils ont toujours eu un très grand soin que leurs contes renfermassent une morale louable et instructive. Partout la vertu y est récompensée, et partout le vice y est puni. Ils tendent tous à faite voir l’avantage qu’il y a d’être honnête, patient, avisé, laborieux, obéissant, et le mal qui arrive à ceux qui ne le sont pas. (p.14)

Se lermos, à luz deste propósito, «Le Chat botté»189, as dissonâncias são evidentes. Neste conto, o mais castigado (ludibriado, roubado e morto) é o Ogre. No entanto, desta personagem, o narrador diz-nos apenas que é o Ogre mais rico de todos, dono de um belo castelo e de todas as propriedades por onde o rei tinha passado; e quando o Gato das Botas pediu para ser recebido, «l’Ogre le reçut aussi civilement que le peut un Ogre,

et le fit reposer.»190 (Perrault, 1997: 70). O Gato das Botas, por seu lado, mente e obriga terceiros a mentirem, ameaçando-os: «Bonnes gens qui moissonnez, si vous ne dites que tous cês blés appartiennent à monsieur le Marquis de Carabas, vous serez tous hachés menu comme chair à pâté» (idem, 66). Não contente com isso, mata e rouba os bens do Ogre. Como «castigo», o gato «devint grand Seigneur, et ne courut plus après les souris, que pour se diverter.» (idem, 71). Neste caso, nem a lei de talião foi aplicada; o desfecho ilustra, sim, o provérbio «ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão», que também não se enquadra na nova ética.

Diz-nos o narrador que o Rei,

charmé des bonnes qualités de Monsieur le Marquis de Carabas, de même que sa fille qui en était folle, et voyant les grands biens qu’il possédait, lui dit, après avoir bu cinq ou six coups : "Il ne tiendra qu’a

189 No texto de apresentação que foi escrito, relativamente à tradução portuguesa (livro e CD) que foi

vendida juntamente com uma revista TV Guia, o conto era classificado como um dos mais moralistas.

190 Naturalmente que se considerarmos haver ironia, a leitura já será totalmente diferente; a continuação

vous, Monsieur le Marquis, que vous ne soyez mon gendre"» (idem, ibidem).

Tendemos a concordar com os investigadores que propõem uma leitura de ironia nas páginas de Perrault, sublinhada, nesta passagem, pela referência aos copos de vinho já ingeridos. Porém, para este estudo, o que interessa é a recepção actual do texto, junto das crianças. Não nos parece que a ironia faça parte da forma como o texto é interpretado, sobretudo porque não é essa a interpretação «oficial». Coloca-se, então, um problema de valores: o narrador refere-se às boas qualidades e aos bens que o alegado Marquês alegadamente possuía; não é feita qualquer crítica à forma como os bens foram obtidos e não são mencionadas quaisquer virtudes de índole moral ou actos que as deixem adivinhar. Assim, o texto acaba por valorizar os bens materiais, independentemente da forma como são obtidos.

Quanto ao rapaz, que foi conivente com as mentiras e crimes do Gato, «accepta l´honneur que lui faisait le Roi; et dès le même jour épousa la Princesse» (idem, p. 71).

Não podemos deixar de nos perguntar quais os conceitos de honestidade e de trabalho191 que o texto pretende veicular. Tanto mais que, na moralidade, é acrescentado «L’industrie et le savoir-faire/Valent mieux que des biens acquis.» (idem, ibidem).

Ainda relativamente ao Gato das Botas, Perrault propõe uma segunda moralidade: Si le fils d’un Meunier, avec tant de vitesse,

Gagne le cœur d’une Princesse,

Et s’en fait regarder avec des yeux mourants, C’est que l’habit, la mine et la jeunesse, Pour inspirer de la tendresse,

N’en sont pas des moyens toujours indifférents. (idem, p. 72).

A par dos bens materiais são, assim, valorizadas as aparências.

191

As dissonâncias acima referidas agravam-se em algumas «adaptações» portuguesas em que o texto é cortado, aspecto que retomaremos posteriormente.

O confronto entre os outros contos e as respectivas moralidades dariam idênticos resultados. Não nos ocuparemos deles, porém, uma vez que apenas este foi trabalhado por nós, com as crianças do 1º ciclo.

Acreditamos que os textos de Perrault se destinavam não a crianças mas a um público adulto e que deverão ser lidos como narrativas onde a ironia é a figura principal. Só assim as moralidades podem fazer sentido em articulação com os textos e estes com o discurso de preocupações moralizadoras do prefácio. Aliás, no referido prefácio, Perrault revela-se preocupado com o efeito que os textos podem exercer sobre as mulheres:

Qui ne voit que cette Morale [de La Matrone d’Éfhèse] est très mauvaise, et qu’elle ne va qu’à corrompre les femmes par le mauvais exemple, et à faire croire qu’en manquant à leur devoir elles ne font que suivre la voie commune. Il n’en n’est pas de même de la Morale de Grisélidis, qui tend à porter les femmes à souffrir de leurs maris, et à faire voir qu’il n’y en a point de si brutal ni de si bizarre, dont la patience d’une honnête femme ne puisse venir à bout.» (p. 13).

Também nesta passagem preferimos pensar que se trata de ironia, ainda que ela venha dar razão aos autores e autoras que apontam um dedo acusatório aos contos de fadas, responsabilizando-os, nomeadamente, pela atitude submissa da mulher.

Em suma, acreditamos que os textos de Perrault tinham por objectivo criticar a sociedade sua contemporânea, através de uma linguagem irónica e, aparentemente, pueril. Contudo, esses textos sendo usados hoje, junto das crianças, sem a devida contextualização, convidam a uma interpretação que nem é a sugerida por Perrault, nas moralidades, nem, afinal, a sugerida pelos que vêm neles um profundo sentido moralizador.