Para mostrar como os animais estão presentes na “espontânea atividade literária de todos os povos”, Lima Barreto mergulha na história e traz ao leitor uma série de curiosidades iniciadas pelo comentário sobre o que considera o generoso pai do positivismo, Augusto
Comte, e Buda, o iluminado Sáquia-Múni, passando pela literatura oral dos troveiros e pelo Dom Quixote, de Cervantes, até chegar ao Robinson Crusoe, de Daniel Defoe. Lembrando ao leitor que o seu propósito não era exibir leituras nem erudição, ele o deixa curioso para saber o que diria a respeito do Roman de Renard , das fábulas, dos poemas hindus. E, voltando-se para o modo como os animais figuram nas diversas religiões, o autor comenta aspectos da sua manifestação na cultura ocidental, nas crenças africanas e na fé islâmica (BARRETO, 1956, p. 266-69). Note-se que, nessa crônica, ao mesmo tempo em que reforça as evidências da sua ideia de unidade espiritual, Lima Barreto permite também compreender a especificidade das suas manifestações. Por exemplo, o fato de que os animais aparecem em “toda e qualquer” literatura, “quer na popular, quer na anônima, quer na pessoal e cultivada” aparece como universal, no entanto, a forma como cada cultura a exprime é específica (BARRETO, 1956, p. 266).
Enquanto a antiga mitologia greco romana, recorda o autor, associava os animais aos deuses, atribuindo-lhes sua força e seu poder, a religião católica, afirma, “que não é das mais naturalistas e zoomórficas”, apresenta certos santos apenas acompanhados por eles:
São João Batista, como toda gente sabe, é figurado com um carneiro ao lado; e nos presepes, com os quais se comemora o nascimento de Jesus Cristo, há o burro, a vaca, galos, galinhas, etc. A transcendente imaterialidade do Divino Espírito Santo é representada na iconografia católica por um pombo (BARRETO, 1956, p. 267).
No breve exame que faz dos discursos religiosos, Lima Barreto revela o indício de uma mágoa que é sua, mas poderia também ser atribuída ao povo em geral. Ao comentar as narrativas que explicam a origem de “certas deformidades”, ou melhor, diz o autor, “singularidades morfológicas de determinados animais”, ele destaca o rigor que o castigo assume na religião católica comparada à tolerância da punição nas crenças zoomórficas africanas de um modo geral. Na narrativa retirada do livro do “Senhor Van Gennep”, quando o Elefante-Rei convoca “todos os seus súditos para uma assembleia, sob a pena de morte em caso de desobediência”, todos os animais comparecem, exceto o caramujo, que se atrasa por ter apenas “um pé para andar”, ter se atrapalhado com os ramos que o cegavam e, temendo o frio e a chuva, ter voltado para carregar sua casa nas costas. Depois de muito e prolongadamente rir com a explicação, o Elefante-Rei concede ao caramujo os olhos na ponta dos chifres, podendo escondê-los logo que os ramos das árvores os ameaçassem, mas como punição por ter faltado à conferência, impõe que o caramujo carregue a casa nas costas
durante toda a vida. Lima Barreto ressalta que, a essa história, existia uma tribo africana que ainda acrescentava a consideração de que o castigo não fora grande, porquanto o caramujo não precisaria mais trabalhar para ter a casa (BARRETO, 1956, p. 268).
Quanto ao motivo de o linguado ter a boca torta, o autor registra uma narrativa que era corrente entre o povo da cidade e explicava tal singularidade pelo fato de o peixe ter tomado a liberdade de caçoar com Nossa Senhora. Contavam as “nossas velhas” que, passeando por uma praia, não havia meio de a mãe de Jesus atinar se o mar estava enchendo ou vazando. Ao se aproximar das águas, vendo um linguado, ela pergunta “com toda a doçura e delicadeza” se a maré enchia ou vazava. O peixe, “que devia ser, por esse tempo, quando os animais ouviam e falavam, de um natural mofador e grosseiro”, sem saber com quem estava falando, não responde e se limita a imitar Nossa Senhora em tom de galhofa. Pela zombaria, o linguado é amaldiçoado a ficar com a boca torta, ele e toda a sua geração “até a consumação dos séculos!”. Talvez de modo irônico, mas bem humorado, Lima Barreto emenda que, ainda então, na mesa do almoço ou do jantar, via-se o “estigma” que o linguado levava no corpo pelo “justo ressentimento” de “nossa Mãe santíssima” (BARRETO, 1956, p. 268-69).
E continua, lembrando que outras narrativas populares associadas à religião católica revelavam o mesmo modo como “os nossos severos e terríveis deuses mais ou menos judaicos” procederam com os animais que os desrespeitaram, como a da maldição de Jesus Cristo lançada sobre o gato, “muito conhecida e familiar entre nós”. Curiosamente, mas não por acaso, Lima Barreto afirma que a ouvira de “Manuel de Oliveira, um negro velho, cabinda de nação, muito fiel e dedicado”, que vivera com a sua família e o vira menino de sete ou oito anos, “tendo morrido há pouco tempo”. Ele não gostava de gatos e não cessava de explicar essa sua ojeriza, afirma o autor (BARRETO, 1956, p. 268-69). Por um momento, durante a leitura, as identidades do rigor e da tolerância, como formas de punição, tal como representadas por Lima Barreto, parecem se perder por completo em Manuel de Oliveira. De origem africana, o “saudoso preto velho” surge totalmente identificado com a religião católica. Porém, a proximidade, no texto, entre o caráter relativamente compreensivo da religião africana e o exemplo que Manuel de Oliveira causa um estranhamento no leitor e o provoca a refletir sobre algo que parecia já estar naturalizado na sociedade brasileira e, por consequência, pensar sobre a história do país.
Através do modo como os animais são representados em cada manifestação cultural popular, Lima Barreto chama a atenção para a realidade brasileira, mas também para o poder
da religião, um aspecto fundamental de qualquer tradição, sobre as formas de sociabilidade em determinadas épocas ou lugares. Ao afirmar que os animais que cercam os povos nas suas narrativas figuram humanizados, “falando, discreteando, sentenciando, narrando, ora com esta intenção, ora com aquela moralidade ou aquela outra filosofia”, o autor sugere uma certa correspondência entre o modo como homens estabelecem também as relações entre si, sugerindo que essas relações poderiam ser voltadas à construção de um sonho coletivo ou exploração do homem pelo homem:
Os animais domésticos, domesticados e selvagens, sempre entraram em toda e qualquer literatura, quer na popular, quer na anônima, quer na pessoal e cultivada. Desde muito cedo que os homens se associaram aos animais para fazer a sua jornada na vida. Seja como simples companheiros, seja para sacrificá-los, a fim de obter alimento, eles sempre viveram entrelaçados aos sonhos e devaneios da humanidade.
[…]
Num caso ou noutro, seja qual for a razão, podemos afirmar que os animais irracionais, desta ou daquela forma, entram mais na nossa vida do que supomos. É sobre o seu sofrimento, sobre as suas próprias vidas que nós erguemos a nossa (BARRETO, 1956, p. 266).