9. Sonhei com Isto: O que é? (17/07/1919)
4.3 A CRÔNICA COMO LUGAR DE MEMÓRIA
Analisando a obra em crônica de Lima Barreto, Rodrigo de Moura e Cunha procura demonstrar como a crônica é um gênero intelectualmente sofisticado para expressar a tensão entre as várias temporalidades, sociabilidades e sensibilidades existentes em determinado momento histórico. Ele se refere à coexistência de diferentes formas de perceber o tempo, de sentir, de se relacionar socialmente no Rio de Janeiro do início do século XX. Nessa época, a então Capital Federal do Brasil servia como vetor do progresso material e da introdução de novos valores e maneiras de pensar, agir e sentir para toda a nação. Ao mesmo tempo em que conservava costumes e crenças ligados ao recém-deposto Império, ou seja, a um modo de vida orientado por valores e preceitos tradicionais, a cidade testemunhava o desabrochar da vida orientada pela expectativa do futuro. Eram os primeiros passos do país na modernidade. Moura compreende a crônica como uma narrativa cuja matéria é o próprio tempo, ou como um lugar de memória , conceito desenvolvido pelo historiador Pierre Nora, sustentando a hipótese de que a obra em crônica de Lima Barreto contempla “uma certa convivência entre passado e promessa de futuro” (MOURA E CUNHA, 2018, p. 251).
Curiosamente, o título de As mágoas e sonhos do povo alude de modo expresso a essas duas noções temporais – o termo “mágoas” remetendo ao passado, e o termo “sonhos”, à promessa de futuro –, o que dá mostra da consciência histórica de Lima Barreto em relação às transformações ocorridas em seu tempo. É importante notar uma diferença significativa entre a crônica analisada por Moura e Cunha, “De Cascadura ao Garnier” (MOURA E CUNHA, 2018, p. 228), e as crônicas sobre folclore urbano aqui analisadas. Enquanto a primeira trata principalmente de um aspecto material, a transformação histórica da paisagem urbana, representada em um percurso que parte do subúrbio em direção ao centro da cidade, os textos da série se atém a aspectos imateriais que se revelam em práticas costumeiras, crenças e outras manifestações populares. Isso implica uma dificuldade maior para perceber qual forma é moderna e qual é tradicional na medida em que as transformações na sociabilidade do povo, por exemplo, não acontecem de maneira tão concreta e visível quanto a construção de um prédio moderno no lugar de um antigo. Assim, é mais difícil perceber como uma cultura nova se constitui a partir de uma tradicional, visto que, para se manter viva, as tradições também incorporam novidades de cada época. De todo modo, a tensão entre
os dois pólos identificados, passado e promessa de futuro, está presente nas crônicas da série e é bastante oportuna como chave de leitura.
Chamado por muitos críticos de “pré-moderno”, não se poderá afirmar jamais que Lima Barreto deixou de experimentar na sua produção literária uma das implicações mais características da modernidade na esfera cultural: a reflexividade em relação ao próprio tempo. Amparado no pensamento do historiador Reinhart Koselleck e do filósofo Hans-Georg Gadamer, Moura e Cunha afirma que a modernidade trouxe consigo uma aceleração radical do tempo, responsável por certa “desorientação”. Nesse sentido, o processo irrefreável de inovação técnico científica que se pôs em marcha na modernidade, ou melhor, a aceleração do seu ritmo fez com que a experiência do tempo na modernidade estivesse se atualizando constantemente. Como se os homens tivessem perdido a confiança em seu passado, no poder que ele sempre teve para explicar e reorganizar o presente a partir dos elementos tradicionais, a celeridade da inovação técnica representou um “encurtamento significativo da tradição” (MOURA E CUNHA, 2018, p. 244). A modernidade teria sido responsável, portanto, pelo advento de uma “consciência histórica”, de tal modo incontornável que todos os homens estariam marcados por um comportamento de ou por uma tendência a “não poder mais confinar-se na ingenuidade e nos limites tranquilizadores de uma tradição fechada sobre si mesma” (GADAMER apud MOURA E CUNHA, 2018, p. 245). Em outras palavras, ninguém mais poderia se eximir da reflexividade sobre o seu próprio tempo, sendo justamente esse um dos principais aspectos que caracterizaria o espírito moderno.
É essa postura de reflexão a respeito do tempo o que constitui a obra em crônica de Lima Barreto como um todo, segundo Moura e Cunha. Tratando especificamente de As mágoas e sonhos do povo , essa postura aparece com clareza ao longo de toda a série. De tal modo que se pode afirmar que suas crônicas testemunham justamente a tensão histórica de um processo que culminou no “encurtamento da tradição” entre as camadas populares do Rio de Janeiro. Assim, se ao próprio povo carioca já era impossível explicar e reorganizar totalmente o seu tempo presente e a sua vida na cidade a partir dos conhecimentos, costumes e valores tradicionais, ele acabava por assimilar alguns dos elementos da vida moderna ao seu modo de vida. O passado fechado em si perdera a capacidade de dar conta das mudanças que passavam a acontecer em um ritmo cada vez mais rápido. Nesse sentido, é flagrante nos textos a tensão existente entre o centro da cidade, polo geográfico que simboliza o vetor da
modernidade, e o subúrbio, lugar onde as manifestações tradicionais resistem à mudança dos tempos por estar isolado. Ao escrever sobre os costumes e crenças do povo carioca, Lima Barreto acaba registrando a maneira de o povo sentir e viver uma parte dessas mudanças. A sua percepção histórica aguda e bastante singular capta esse movimento que ele chama “transformação espiritual” dos homens, movimento que se faz perceber em cada um dos textos pela emergência da memória no presente. Ela funciona como gatilho da reflexão sobre o seu tempo.
Relembre-se aqui que o tempo contemporâneo a Lima Barreto é um tempo em que, do ponto de vista institucional, a vida em sociedade passa a ser cada vez mais orientada para o futuro, movida por um ideal de progresso material e cultural a ser alcançado sobretudo pelo trabalho, e grande é a vontade de se apagar da história os traços culturais populares. Nas palavras de Moura e Cunha, o tempo de Lima Barreto é “um tempo de extrema riqueza, porque de extrema tensão. De recusa do passado. De dor pelo passado. De desejo pelo passado. Ao mesmo tempo, da feliz promessa do futuro. De um presente que se estende enormemente no cotidiano tenso” (MOURA E CUNHA, 2018, p. 241). Essa é a situação que intriga Lima Barreto. A tensão resultante da coexistência de um modo de vida ligado ao passado e um modo de vida ligado à promessa de futuro e, sobretudo, o rumo para o qual esse jogo de forças conduziria o país. Não se havia integrado o povo devidamente à vida moderna que a elite e parte das camadas intermediárias exaltava nas ruas, nos palcos, livros e nas páginas de revistas ilustradas. Relegado à margem do progresso e do projeto modernizante que a política institucional botava em prática no Rio de Janeiro, o povo carioca se agarrava ao que tinha e não lhe poderia ser retirado facilmente nem com o uso da violência: os seus valores, crenças e costumes, enfim, sua tradição. Ainda assim, mesmo que grande parte dos sonhos aventados pelo ideal da República tivesse sido frustrada, como o direito à cidadania e a possibilidade de ascensão social, não se poderia mais ignorar a ideia de que havia um futuro pela frente, nem seria possível viver sem levar em conta certa esperança que ele inspirava, pois a modernidade era irrefreável.
Essa convivência inevitável entre modos de vida diferentes é matéria das crônicas de Lima Barreto e é isso que, no entender de Moura e Cunha, faz delas uma síntese, entre tantas outras possíveis, de um processo histórico. A partir de uma perspectiva diferente da de Beatriz Resende, porém, complementar, tem-se aqui a mesma ideia de que a crônica, enquanto forma de expressão, cumpre bem o papel de representar a história em sua
complexidade, de modo crítico, por permitir que se articule uma revisão do passado e a preparação para o futuro. Se já no título da série se tem expresso o sinal da consciência histórica de Lima Barreto, ao longo da série se tem aparentemente uma pequena mostra, por ser fragmentária, da tensão entre algumas das diversas maneiras de vivenciar o tempo e as novidades da época, de se relacionar socialmente entre a reinvenção ou a manutenção de formas tradicionais e a percepção a respeito de uma vida modelada por inovações técnicas e mercadológicas. O registro é feito a partir do olhar crítico do cronista, que, em vez de afirmar um ou outro modo de viver o presente, como o melhor, procura no seu substrato a matéria da solidariedade que poderia de fato dar liga ao povo.
Nesse sentido, Moura e Cunha entende que a crônica barretina serve como um lugar de memória . Segundo ele, o narrador da crônica de Lima Barreto é aquele que “ trabalha a memória , transformando seus resíduos e incorporando-os à vida presente, sem que esses resíduos e dejetos daquilo que se insinua como única narrativa caiam no esquecimento, ou mesmo sejam recalcados” (MOURA E CUNHA, 2018, p. 251 – Grifos do autor). A “única narrativa”, assinalada por Moura, estaria representada principalmente pelo projeto urbanístico de modernização do Rio de Janeiro, que operou a perda de densidade histórica da cidade, derrubando e soterrando o passado para erguer sobre ele os símbolos da mais vistosa e exaltada promessa de futuro, o progresso. Diante desse contexto, que envolve não só as reformas urbanas, mas todo um conjunto mais amplo de iniciativas políticas que na sua época foram motivadas pelo ideal do progresso e cujo objetivo era, entre outros, apagar o passado inculto e popular da história, a postura crítica de Lima Barreto tenciona de certa maneira “parar o tempo, bloquear o trabalho do esquecimento […] materializar o imaterial” (NORA apud MOURA E CUNHA, 2018, p. 239).
Nas crônicas de Lima Barreto, a reflexividade sobre o tempo, passado e futuro, ou tradição e modernidade, toma forma a partir da manipulação da memória que o autor traz dos lugares da cidade, das histórias de pessoas, da convivência com elas, das suas leituras e das reflexões a respeito da vida que o povo levava no Rio de Janeiro. Também sobre a experiência própria como indivíduo que vive e observa de modo atento e crítico as mudanças de seu tempo. Citando Pierre Nora, Moura afirma que o lugar de memória é sempre um jogo da memória e da história, na medida em que os lugares de memória são testemunhos que garantem a cristalização da lembrança e a sua transmissão. Assim, para que um espaço se constitua como lugar de memória é preciso ter vontade de memória , trazendo “a marca da
dúvida e da desconfiança com relação a sua futura utilização por parte dos historiadores”. Na falta dessa desconfiança, o lugar de memória pode ser compreendido como lugar de história (NORA apud MOURA E CUNHA, 2018, p. 238-39). Nesse sentido, observe-se que a relatividade confessa das declarações de Lima Barreto, em todas as ocorrências, demonstram de modo claro a vontade de memória do autor que, diga-se de passagem, parece ser maior devido à percepção que ele tem da ampla mudança de valores ocorrida em seu tempo.
Para Moura, é por assumir o risco de se colocar em um lugar transitório e fugaz, ou seja, de memória, que Lima Barreto estabelece uma relação reflexiva diante da tradição. Essa postura faz com que ele adote um olhar menos explicativo sobre as mudanças sofridas na cidade, e mais compreensivo ” (MOURA E CUNHA, 2018, p. 251). Essa predisposição que o cronista demonstra ter para a compreensão de diferentes formas de vida parece constituir o ideal de solidariedade que alimenta a sua prática literária e o que garante às suas crônicas uma perspectiva bastante singular em relação à produção de sua época.