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Contrabando de migrantes

No documento São Paulo (páginas 121-124)

5 CORTE PENAL DO MERCOSUL (COPEM): ÓRGÃO PERMANENTE DO

5.4 COPEM: PROPOSTA DE ESTRUTURA E COMPETÊNCIA MATERIAL

5.4.1 Proposta para a competência da COPEM

5.4.1.4 Contrabando de migrantes

Um dos maiores problemas da atualidade, o mundo sofre as consequências

desta crise humanitária que é o resultado das guerras, desastres ambientais, conflitos

étnicos, perseguições religiosas e crises econômicas cíclicas do capitalismo que

produzem pobreza e miséria, alimentam o problema migratório e o faz ganhar

proporções nunca antes vistas na história da humanidade, apesar de sabermos que

as migrações acompanham as sociedades desde sempre, é com a globalização

econômica assimétrica que este problema é ampliado

317

.

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR),

grande parte desses deslocados é obrigada a abandonar seus lares, sendo que

ocorreu um aumento considerável do número de pessoas deslocadas nas duas

últimas décadas, passando de 33,9 milhões em 1997, para 65,6 milhões de pessoas

em 2016

318

. Nesse processo identifica-se um aumento da mixofobia

319

, com aumento

da radicalização nas políticas de exclusão e do discurso de inferiorização dos

migrantes oriundos dos países periféricos, empobrecidos e abandonados como refugo

do capitalismo globalizado.

316 RODRIGUES, T. de C. Tráfico internacional de pessoas para exploração sexual. São Paulo: Saraiva, 2013, p. 164.

317 PINTAL, A.R. Direito imigratório. 3. ed. Curitiba: Juruá, 2015.

318 UNITED NATIONS HIGH COMMISSIONER FOR REFUGEES (UNHCR). Global trends forced displacement in 2016. Genebra: UNHCR, 2017. Disponível em: <https://goo.gl/IpZ7B2>. Acesso em: 10 maio 2018.

Para definição da competência da Corte Penal do Mercosul (COPEM), o

conceito do Crime de Contrabando de migrantes será construído a partir do Protocolo

adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional,

relativo ao Combate ao Tráfico de Migrantes por Via Terrestre, Marítima e Aérea

320

.

Esta metodologia viabiliza a construção do conceito em virtude de os países já

serem signatários deste Tratado e já terem incorporado o tema em suas agendas

públicas. Desta forma, o contrabando de migrantes no citado Protocolo, no artigo 3º,

“significa a promoção, com o objetivo de obter, direta ou indiretamente, um benefício

financeiro ou outro benefício material, da entrada ilegal de uma pessoa num Estado

Parte do qual essa pessoa não seja nacional ou residente permanente”

321

.

Possuindo uma logística por onde escoam seus produtos ilegais, fica fácil para

esses grupos criminosos, organizados de forma empresarial, transportarem seres

humanos de um território para outro, desde que lhes tragam altas margens de lucro.

Diante do quadro de assimetria no desenvolvimento econômico, fruto e base

do capitalismo globalizado, as populações empobrecidas dos países africanos,

asiáticos ou latino-americanos migram em busca de condições mínimas de vida, por

um lar seguro e que tenham condições de proporcionar as mínimas condições de

sobrevivência, alimente a esperança e proporcione a tão desejada paz.

Para estas nações empobrecidas e periféricas da América Latina, Ásia e África

a saída é a fronteira, a busca de outro país que tenha melhores condições de

sobrevivência, um novo local onde suas necessidades básicas ou seu desejo de

mudança seja possível. Em busca desta porta de saída, de melhores condições de

vida e oportunidades, são forçados a abandonarem seus países, amigos, emprego e

família, em decorrência de calamidades ambientais naturais ou produzidas pela ação

humana.

Como mencionado, os países do Mercosul são signatários do Protocolo

Adicional relativo ao Combate ao Tráfico de Migrantes por Via Terrestre, Marítima e

Aérea, que refundou as estratégias de proteção às vítimas dos contrabandistas,

buscando consolidar políticas públicas para o enfrentamento a migração ilegal.

320 BRASIL. Decreto nº 5.016, de 12 de março de 2004. Protocolo adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, relativo ao Combate ao Tráfico de Migrantes por Via Terrestre, Marítima e Aérea. Disponível em: < https://goo.gl/5P7LTR>. Acesso em: 15 maio 2017.

Por certo que, dado o caráter flexível das organizações criminosas, as redes

de tráfico de pessoas e migrantes têm se reinventado, reprogramado os canais de

transporte e fazem uso de estruturas criminosas comuns para a prática de tais crimes,

bem como de outros tipos penais de interesses das organizações criminosas

transnacionais

322

para auferir lucros bilionários.

Também não se deve confundir o contrabando de migrante com a figura do

refugiado. De fato, vítimas do contrabando de migrantes ou do tráfico de pessoas

podem vir a ser refugiados se preencherem os requisitos exigidos na legislação

interna. No caso da lei brasileira (art. 1º, da Lei 9.474/1997), será considerado

refugiado todo indivíduo que:

I – devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas encontre-se fora de seu país de nacionalidade e não possa ou não queira acolher-se à proteção de tal país;

II – não tendo nacionalidade e estando fora do país onde antes teve sua residência habitual, não possa ou não queira regressar a ele, em função das circunstâncias descritas no inciso anterior;

III – devido a grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outro país.323

Cíntia Barbosa nos alerta que o ponto comum entre o refúgio e o contrabando

de migrantes ou o tráfico de pessoas é a entrada ilegal no país. Ser vítima de

contrabando ou de tráfico não exclui a sua condição de perseguido político, religioso,

vítima de graves catástrofes da natureza, etc., possibilitando, no Brasil, a concessão

de refúgio e de todos os direitos decorrentes desta condição

324

.

No âmbito das Américas, a Carta de Cartagena ampliou o conceito de refugiado

e fomentou a construção de políticas públicas para sua recepção e proteção aos seus

direitos, descriminalizando a conduta do refugiado e reconhecendo que as migrações

forçadas estão relacionadas à criminalidade organizada transnacional

325

.

322 ROGEIRO, N. Menos que humanos: imigração clandestina e tráfico de pessoas na Europa. Alfragibe: Dom Quixote, 2015.

323 BRASIL. Lei nº 9.474, de 22 de julho de 1997. Define mecanismos para a implementação do Estatuto dos Refugiados de 1951, e determina outras providências. Disponível em: <https://goo.gl/fq3KHR>. Acesso em: 10 jan. 2018.

324 BARBOSA, C. Y. S. Tráfico Internacional de pessoas. Porto Alegre: Núria Fabris, 2010, p.25-26.

325 JUBILUT, L. L.; MADUREIRA, A. de L. Dossiê: “Migrações forçadas”. Os desafios de proteção aos refugiados e migrantes forçados no marco de cartagena + 30. REMHU – Rev. Interdiscip. Mobil. Hum., Brasília, ano XXII, n. 43, p. 11-33, jul./dez. 2014.

No documento São Paulo (páginas 121-124)