5 CORTE PENAL DO MERCOSUL (COPEM): ÓRGÃO PERMANENTE DO
5.4 COPEM: PROPOSTA DE ESTRUTURA E COMPETÊNCIA MATERIAL
5.4.2 Princípios norteadores para as decisões da Corte Penal do Mercosul
5.4.2.6 Princípio da Responsabilidade Penal Internacional Individual
pressupõe um poder comunitário autônomo. Para consolidar este poder comunitário,
o órgão supranacional deve decidir com independência e imparcialidade em relação
aos Estados nacionais, atendendo aos interesses de toda a população do bloco
regional. Da mesma forma, as decisões emanadas deste órgão supranacional devem
ser executadas de forma direta e imediata, em qualquer território dos
países-membros, sem qualquer outra interferência, e a interpretação das normas
supranacionais em confronto com as normas internas dos Estados-membros devem
estar a cargo deste órgão supranacional
405.
Raúl Granillo Ocampo entende que supranacionalidade pressupõe a
constituição de um órgão independente e superior aos Estados-membros que o
constituíram, dotado do poder de estabelecer um conjunto de regras ou normas de
caráter obrigatório, com vistas a alcançar objetivos comuns e possuindo as seguintes
características: a) não represente nenhum Estado; b) que a atuação de seus membros
não esteja vinculada à sua nacionalidade, mas ao interesse comunitário; c) que suas
decisões tenham aplicabilidade imediata e não necessite de anuência dos Estados
406.
Assim, para que a Corte Penal do Mercosul possa exercer com imparcialidade
e efetividade na sua função, é indispensável que os juízes e procuradores não estejam
na Corte para representar os interesses dos Estados que os indicaram, bem como
que as decisões emanadas da Corte tenham caráter coercitivo direto, com
reconhecimento de todos os Estados-membros e aplicação em todo o território do
Mercosul.
Este será um avanço significativo no processo de consolidação do Mercosul
como instância supranacional capaz de reconhecer um espaço de solidariedade, paz,
justiça e segurança para todos(as) os(as) cidadãos(ãs) que vivam em seu território.
Alguns avanços estão ocorrendo neste sentido, motivo pelo qual acreditamos que a
deliberação pela criação de uma Corte penal, com competência específica, poderá
consolidar um sentimento comunitário necessário para a superação dos problemas
que afetam os povos da região.
5.4.2.6 Princípio da responsabilidade penal internacional individual
405 PINTO, M.M. La dimensíon de la soberania em el Mercosur. Curitiba: Juruá, 2010, p. 97.
406 GRANILLO OCAMPO, R. Direito internacional pública da integração. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009, p. 130.
Os Estados soberanos eram os únicos sujeitos de direito nas relações jurídicas
internacionais, mesmo quando condutas ilícitas eram praticadas por indivíduos, a
responsabilização internacional recairia sobre o Estado. Este quadro sofreu profundas
alterações após as graves violações dos direitos humanos perpetrados durante a
Segunda Guerra Mundial.
Flávia Piovesan identifica o genocídio, a morte produzida em escala industrial,
a lógica da destruição e o desvalor da pessoa humana, produzidos pelo totalitarismo,
como causas do rompimento dos “paradigmas dos direitos humanos”. Neste sentido,
para se evitar a reprodução dos fatos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial é
que se inicia no pós-Guerra um maior desenvolvimento do Direito Internacional dos
Direitos Humanos, delineando o crescimento da importância do indivíduo no sistema
internacional, tornando-o sujeito de direitos protegidos pela comunidade
internacional
407.
O processo de internacionalização dos direitos
408humanos teve seu ápice com
a Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948, ao elevar o indivíduo à
categoria de protagonista no direito internacional público, até então dominado
exclusivamente pelos Estados soberanos. Produziu-se, assim, uma mudança na
concepção dominante de soberania westfaliana.
Una vez que quedó claro que las convenciones y tratados internacionales podían ser aplicados a los individuos y nació el DPI (Moderno), después de la II Guerra Mundial, se crearon convenciones internacionales trascendentes en la materia, como la Convención contra el Genocidio y la Declaración Universal de Derechos Humanos en 1948, la Convención sobre Imprescriptibilidad de Crímenes de
Guerra y de Lesa Humanidad de 1968, entre otras.409
Neste cenário, foi sendo construído um sistema internacional de proteção dos
direitos humanos, com uma série de tratados internacionais que reconhecem os
407 PIOVESAN, F. Direitos humanos e justiça internacional: um estudo comparativo dos sistemas regionais europeu, interamericano e africano. São Paulo: Saraiva, 2015, p. 47-48.
408 “Os direitos humanos, por sua vez, recuperam a ideia de direitos naturais do ser humano, recebendo assento, de regra, nas declarações e convenções internacionais, forjando a ideia de que a lesão a um direito fundamental do ser humano não é questão que deve ficar adstrita à ordem interna de um país, mas tem importância transnacional”. NUNES JUNIOR, V. S. Direito e jornalismo. São Paulo: Verbatim, 2011, p. 17.
409 RODRÍGUEZ, A.C. O. Principio II. Evolución del principio de legalidad a nivel internacional. In: MATUTE, Javier Dondé (Org.) Los principios de Núremberg: Desarrollo y actualidade. México: Inacipe, 2015, p. 113.
direitos do ser humano independente da sua nacionalidade e protegidos por órgãos
internacionalmente estabelecidos e não soberanos. Ao mesmo tempo, foram sendo
desenvolvidos subsistemas regionais de proteção dos direitos humanos
410para
reforçar a proteção dos indivíduos que tiveram seus direitos violados por ação ou
omissão dos Estados.
No mesmo sentido, reconhece Renata Montavani Lima que foram estes
atentados à dignidade humana que acabaram por despertar na comunidade
internacional a necessidade de se atribuir ao indivíduo uma personalidade jurídica no
cenário internacional, capacitando-os a contrair direitos e obrigações. Assim, por ser
detentor de direitos e obrigações, este indivíduo também poderia ser responsabilizado
por cometer graves crimes reconhecidos internacionalmente
411.
Todavia, somente com o julgamento realizado nos Tribunais de Nuremberg e
de Tóquio é que o ser humano passou a ser responsabilizado individualmente pelos
seus atos, consolidando sua personalidade jurídica como sujeito passivo de direito
internacional.
Entendeu-se que, na medida em que os crimes contra a ordem internacional são cometidos por indivíduos e não por serem abstratos, apenas punindo indivíduos perpetradores de tais crimes é que as previsões do Direito Internacional poderiam ser aplicadas. Consagrou-se, pois, o entendimento de que os indivíduos eram passíveis de punição por violação ao Direito Internacional.412
O tema da responsabilização do ser humano por crimes internacionais voltou
com força neste período, não sem fortes críticas sobre a violação de princípios penais
internacionalmente consagrados, como o princípio da legalidade, da anterioridade,
entre outros. Porque tais Tribunais militares foram constituídos após os fatos que iriam
julgar, sem uma definição taxativa e anterior das condutas dos crimes e das penas
que seriam atribuídas aos seus autores.
410 “Os sistemas global e regional não são dicotômicos, mas complementares. Inspirados pelos valores e princípios da Declaração Universal, compõem o universo instrumental de proteção dos direitos humanos no plano internacional”. PIOVESAN, F. Direitos humanos e justiça internacional: um estudo comparativo dos sistemas regionais europeu, interamericano e africano. São Paulo: Saraiva, 2015, p. 50.
411 LIMA, R. M. A contribuição dos tribunais híbridos para o desenvolvimento da justiça internacional penal. 2011. Tese (Doutorado em Direito) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2011, p. 113.
412 PIOVESAN, F. Direitos humanos e justiça internacional: um estudo comparativo dos sistemas regionais europeu, interamericano e africano. São Paulo: Saraiva, 2015, p. 81.