• Nenhum resultado encontrado

Princípio da Responsabilidade Penal Internacional Individual

No documento São Paulo (páginas 150-153)

5 CORTE PENAL DO MERCOSUL (COPEM): ÓRGÃO PERMANENTE DO

5.4 COPEM: PROPOSTA DE ESTRUTURA E COMPETÊNCIA MATERIAL

5.4.2 Princípios norteadores para as decisões da Corte Penal do Mercosul

5.4.2.6 Princípio da Responsabilidade Penal Internacional Individual

pressupõe um poder comunitário autônomo. Para consolidar este poder comunitário,

o órgão supranacional deve decidir com independência e imparcialidade em relação

aos Estados nacionais, atendendo aos interesses de toda a população do bloco

regional. Da mesma forma, as decisões emanadas deste órgão supranacional devem

ser executadas de forma direta e imediata, em qualquer território dos

países-membros, sem qualquer outra interferência, e a interpretação das normas

supranacionais em confronto com as normas internas dos Estados-membros devem

estar a cargo deste órgão supranacional

405

.

Raúl Granillo Ocampo entende que supranacionalidade pressupõe a

constituição de um órgão independente e superior aos Estados-membros que o

constituíram, dotado do poder de estabelecer um conjunto de regras ou normas de

caráter obrigatório, com vistas a alcançar objetivos comuns e possuindo as seguintes

características: a) não represente nenhum Estado; b) que a atuação de seus membros

não esteja vinculada à sua nacionalidade, mas ao interesse comunitário; c) que suas

decisões tenham aplicabilidade imediata e não necessite de anuência dos Estados

406

.

Assim, para que a Corte Penal do Mercosul possa exercer com imparcialidade

e efetividade na sua função, é indispensável que os juízes e procuradores não estejam

na Corte para representar os interesses dos Estados que os indicaram, bem como

que as decisões emanadas da Corte tenham caráter coercitivo direto, com

reconhecimento de todos os Estados-membros e aplicação em todo o território do

Mercosul.

Este será um avanço significativo no processo de consolidação do Mercosul

como instância supranacional capaz de reconhecer um espaço de solidariedade, paz,

justiça e segurança para todos(as) os(as) cidadãos(ãs) que vivam em seu território.

Alguns avanços estão ocorrendo neste sentido, motivo pelo qual acreditamos que a

deliberação pela criação de uma Corte penal, com competência específica, poderá

consolidar um sentimento comunitário necessário para a superação dos problemas

que afetam os povos da região.

5.4.2.6 Princípio da responsabilidade penal internacional individual

405 PINTO, M.M. La dimensíon de la soberania em el Mercosur. Curitiba: Juruá, 2010, p. 97.

406 GRANILLO OCAMPO, R. Direito internacional pública da integração. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009, p. 130.

Os Estados soberanos eram os únicos sujeitos de direito nas relações jurídicas

internacionais, mesmo quando condutas ilícitas eram praticadas por indivíduos, a

responsabilização internacional recairia sobre o Estado. Este quadro sofreu profundas

alterações após as graves violações dos direitos humanos perpetrados durante a

Segunda Guerra Mundial.

Flávia Piovesan identifica o genocídio, a morte produzida em escala industrial,

a lógica da destruição e o desvalor da pessoa humana, produzidos pelo totalitarismo,

como causas do rompimento dos “paradigmas dos direitos humanos”. Neste sentido,

para se evitar a reprodução dos fatos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial é

que se inicia no pós-Guerra um maior desenvolvimento do Direito Internacional dos

Direitos Humanos, delineando o crescimento da importância do indivíduo no sistema

internacional, tornando-o sujeito de direitos protegidos pela comunidade

internacional

407

.

O processo de internacionalização dos direitos

408

humanos teve seu ápice com

a Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948, ao elevar o indivíduo à

categoria de protagonista no direito internacional público, até então dominado

exclusivamente pelos Estados soberanos. Produziu-se, assim, uma mudança na

concepção dominante de soberania westfaliana.

Una vez que quedó claro que las convenciones y tratados internacionales podían ser aplicados a los individuos y nació el DPI (Moderno), después de la II Guerra Mundial, se crearon convenciones internacionales trascendentes en la materia, como la Convención contra el Genocidio y la Declaración Universal de Derechos Humanos en 1948, la Convención sobre Imprescriptibilidad de Crímenes de

Guerra y de Lesa Humanidad de 1968, entre otras.409

Neste cenário, foi sendo construído um sistema internacional de proteção dos

direitos humanos, com uma série de tratados internacionais que reconhecem os

407 PIOVESAN, F. Direitos humanos e justiça internacional: um estudo comparativo dos sistemas regionais europeu, interamericano e africano. São Paulo: Saraiva, 2015, p. 47-48.

408 “Os direitos humanos, por sua vez, recuperam a ideia de direitos naturais do ser humano, recebendo assento, de regra, nas declarações e convenções internacionais, forjando a ideia de que a lesão a um direito fundamental do ser humano não é questão que deve ficar adstrita à ordem interna de um país, mas tem importância transnacional”. NUNES JUNIOR, V. S. Direito e jornalismo. São Paulo: Verbatim, 2011, p. 17.

409 RODRÍGUEZ, A.C. O. Principio II. Evolución del principio de legalidad a nivel internacional. In: MATUTE, Javier Dondé (Org.) Los principios de Núremberg: Desarrollo y actualidade. México: Inacipe, 2015, p. 113.

direitos do ser humano independente da sua nacionalidade e protegidos por órgãos

internacionalmente estabelecidos e não soberanos. Ao mesmo tempo, foram sendo

desenvolvidos subsistemas regionais de proteção dos direitos humanos

410

para

reforçar a proteção dos indivíduos que tiveram seus direitos violados por ação ou

omissão dos Estados.

No mesmo sentido, reconhece Renata Montavani Lima que foram estes

atentados à dignidade humana que acabaram por despertar na comunidade

internacional a necessidade de se atribuir ao indivíduo uma personalidade jurídica no

cenário internacional, capacitando-os a contrair direitos e obrigações. Assim, por ser

detentor de direitos e obrigações, este indivíduo também poderia ser responsabilizado

por cometer graves crimes reconhecidos internacionalmente

411

.

Todavia, somente com o julgamento realizado nos Tribunais de Nuremberg e

de Tóquio é que o ser humano passou a ser responsabilizado individualmente pelos

seus atos, consolidando sua personalidade jurídica como sujeito passivo de direito

internacional.

Entendeu-se que, na medida em que os crimes contra a ordem internacional são cometidos por indivíduos e não por serem abstratos, apenas punindo indivíduos perpetradores de tais crimes é que as previsões do Direito Internacional poderiam ser aplicadas. Consagrou-se, pois, o entendimento de que os indivíduos eram passíveis de punição por violação ao Direito Internacional.412

O tema da responsabilização do ser humano por crimes internacionais voltou

com força neste período, não sem fortes críticas sobre a violação de princípios penais

internacionalmente consagrados, como o princípio da legalidade, da anterioridade,

entre outros. Porque tais Tribunais militares foram constituídos após os fatos que iriam

julgar, sem uma definição taxativa e anterior das condutas dos crimes e das penas

que seriam atribuídas aos seus autores.

410 “Os sistemas global e regional não são dicotômicos, mas complementares. Inspirados pelos valores e princípios da Declaração Universal, compõem o universo instrumental de proteção dos direitos humanos no plano internacional”. PIOVESAN, F. Direitos humanos e justiça internacional: um estudo comparativo dos sistemas regionais europeu, interamericano e africano. São Paulo: Saraiva, 2015, p. 50.

411 LIMA, R. M. A contribuição dos tribunais híbridos para o desenvolvimento da justiça internacional penal. 2011. Tese (Doutorado em Direito) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2011, p. 113.

412 PIOVESAN, F. Direitos humanos e justiça internacional: um estudo comparativo dos sistemas regionais europeu, interamericano e africano. São Paulo: Saraiva, 2015, p. 81.

Não obstante as críticas atribuídas aos Tribunais ad hoc, o julgamento de

Nuremberg assentou a percepção de que indivíduos, assim como Estados poderiam

ser sujeitos de direito internacional, capazes de serem responsabilizados por suas

condutas ilícitas que violarem o Direito internacional

413

.

Posteriormente, nos Tribunais ad hoc da ex-Iugoslávia e Ruanda o tema

ganhou maior forma até o advento do TPI, que tornou a responsabilidade penal

internacional da pessoa física como tema consolidado, com um Tribunal que definiu

as condutas típicas, respeitando o princípio da legalidade e anterioridade, estabeleceu

o princípio da complementaridade, os elementos constitutivos dos tipos criados e o

seu regulamento processual respectivo, ampliando as possibilidades de defesa dos

acusados.

É com o Estatuto do Tribunal Penal Internacional que surge o primeiro

instrumento internacional de caráter permanente, abstrato e universal, que prevê as

consequências da prática das condutas individuais que causem danos a bens jurídicos

internacionalmente reconhecidos, enfrentando a impunidade, protegendo as vítimas e

testemunhas, consagrando o princípio da responsabilidade penal internacional

individual

414

.

No documento São Paulo (páginas 150-153)