Capítulo 1 A editora, os livros e seu conteúdo
1.4 Contracapas, lombadas, abas e seus paratextos
Além da parte frontal, a capa é composta também pela lombada, contracapa e em alguns casos por abas. É todo esse conjunto que forma os paratextos, um espaço que pode ser utilizado para apresentar o autor, a obra e conquistar possíveis leitores. Sobre os paratextos, Genette (2009, p.9–10), diz:
[...] o paratexto é aquilo por meio do que um texto se torna livro e se propõe como tal a seus leitores, e de maneira mais geral ao público [...] que oferece a cada um a possibilidade de entrar, ou retroceder [...] sem limite rigoroso, nem para o interior (o texto), nem para o exterior (o discurso do mundo sobre o texto).
Genette (2009) define dois tipos de paratextos, os autorais, nos quais o autor colabora e interfere diretamente, e os editoriais, nos quais é a escolha ou opção de determinado editor que prevalece. Sobre isso, não é possível identificar as ações de um e de outro na série no âmbito das capas. Não há documentos que possam dizer se os autores que escreveram nas contracapas e abas, por exemplo, foram uma escolha direta de Malba Tahan ou do editor, ou mesmo acerca de qual texto iria para a contracapa ou para a aba. O certo é que os
autores, todos eles, são citados com certa frequência no corpo da obra, ou seja, foram referências bibliográficas para o autor.
A lombada de um livro, apesar de pequena se comparada com o restante da capa, ―tem evidente importância estratégica, traz na maioria das vezes o nome do autor, logotipo da editora e título da obra‖ (GENETTE, 2009, p.29), e as lombadas de todos os livros da série seguiram esse padrão, com o nome do autor apresentado de forma descendente, seguido pelo título e logotipo da editora. A escolha por esse formato de lombada se deveu ao fato de ela poder ser lida da esquerda para a direita quando o livro se encontra deitado com a capa voltada pra cima. Foi uma escolha da editora Vecchi.
Já as contracapas tiveram um trabalho específico para os livros publicados em 1967 e 1969. Nas obras de 1967, as três contracapas foram idênticas, exceção feita à cor de fundo, e apresentaram um caráter biográfico do autor, onde o escritor Othon Costa, então presidente da Academia Carioca de Letras, na qual Malba Tahan ocupava à época a cadeira número 8, fez uma sucinta biografia, ornada ludicamente com a caricatura de um árabe (TAHAN, 1967, contracapa). Nessa biografia, que começa em Queluz, recordando o pai e mãe do autor como professores, e termina com o costume que o mesmo tinha, quando criança, de colecionar sapos, Othon delinea toda a carreira acadêmica, profissional e literária, além de militante e que Malba Tahan exercia em prol dos hansenianos. Em nenhum momento é feito qualquer comentário quanto às obras e seu conteúdo.
Nas contracapas das antologias, o argumento foi diferente. Não tratou diretamente do autor, mas do objetivo das obras. Com uma arte simples, sem figuras ou fontes vistosas, abaixo da frase ―Falam os Mestres‖, Lourenço Filho destaca a pluralidade da antologia, visto que esta cita autores de diversas áreas, nomes comuns e famosos, e enaltece o ―elevado senso crítico e espírito realista‖ de Malba Tahan. Logo abaixo, Anísio Teixeira infere que a obra é uma seleção de pontos importantes do pensamento do educador e professor, sendo assim, um compendio das ―visões mais recentes do pensamento e das perspectivas dos educadores‖ (TAHAN, 1969, contracapa).
As abas não ficaram em branco. Tiveram seus espaços utilizados para apresentação do conteúdo a ser tratado na obra e para expor as recomendações e elogios de leitores, todos eles ligados à área educacional e literária. Nas obras
didáticas, A arte de ser um perfeito mau professor apresentou um conto de cunho moral, onde o personagem principal é um rabino, excelente professor, que trata seus alunos com reverência. Em O mundo precisa de ti, professor, as abas serviram para tratar mais especificamente dos objetivos da obra, tratar da ética profissional do professor. O professor e a vida moderna teve em suas abas texto mais direto quanto ao conteúdo, tratando de didática, indicando inclusive na aba da contracapa conteúdo da segunda parte da obra. Com relação às antologias, o espaço das abas foi utilizado para elogios e assertivas quanto à qualidade, bem como originalidade e utilidade do conteúdo das obras, externados por personalidades de locais variados, mas todas de prestígio, como Alberto Carneiro Leão (ex-professor do Pentágono), Maria Junqueira Schmidt (Universidade Santa Úrsula), Djacir Menezes (do Conselho Federal de Educação), Dr. Benjamin Albagli e Juracy Silveira (presidente e diretora da Associação Brasileira de Educação), P. Laércio Dias de Moura (reitor da PUC-RJ), Peregrino Júnior e Tristão de Athayde (da Academia Brasileira de Letras).
Para Genette (1987, p. 15–19 apud MARTINS, 2010, p.170):
[...] o paratexto não apenas confere a materialidade necessária à circulação do texto, mas é dotado ainda de um complexo caráter performativo, que, além de comunicar uma mera informação (o nome do autor, a data de publicação) ou uma intenção ou interpretação autoral ou editorial (prefácio, indicação do gênero), atua sobre o leitor construindo representações e crenças a respeito da natureza da leitura ou do texto.
Mais à frente, conclui Martins (2010, p.170):
O paratexto, muito mais do que acompanhar o texto, nele integra-se, não apenas por acrescentar uma informação ou propor uma interpretação, mas, sobretudo, por colocar a obra em perspectiva intertextual, conferindo-lhe uma dimensão institucional. [...]. Pode-se afirmar que o paratexto, jogando com as convenções literárias (e editoriais), cumpre uma importante função no sentido de garantir, antes mesmo da leitura do texto, sua literariedade. Assim, o paratexto poderá constituir-se em um eficiente mecanismo de legitimação do texto literário.
Os elementos paratextuais presentes nas abas e contracapas dessa série, possuem o objetivo de atingir um público específico, um público que possua repertório para identificar na mensagem um significado para os elementos que o constituem (autores, lugares, palavras). Desta forma, o prestígio de um autor e de uma instituição produzirá algum sentido em possíveis leitores dessas obras, como
podemos ver na aba da contracapa do livro O mundo precisa de ti, professor, na qual encontramos a recomendação de que o ―livro é destinado especialmente aos alunos das Escolas Normais, aos alunos das Faculdades de Filosofia, aos diretores e orientadores educacionais‖. Ou ainda, na aba da capa do livro Roteiro
do bom professor, onde Maria Junqueira Schmidt recomenda o livro aos
estudantes de filosofia e orientadores educacionais.