ESPÉCIES DE CONTRATO DE GESTÃO.
6.6. Os Contratos de Gestão com as Empresas Estatais
6.6.1. O Contrato de Gestão com a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD).
HÉLIO TANNY TEIXEIRA, RICARDO LUIZ CAMARGO E SÉRGIO MATTOSO SALOMÃO, ao estudar a "reconstrução da administração pública: aspectos do caso brasileiro" dizem que os Contrato de Gestão das empresas estatais foram instituídos para se formar uma nova linguagem do diálogo institucional na área pública, haja vista que tal se reencontrava dificultado pela variedade de interlocutores e pela formalidade procedimental. De um só tempo, este Contrato de Gestão visava avaliar a eficiência empresarial e viabilizar a prática das políticas públicas.
Frisam os autores referidos que o Contrato de Gestão proporcionaria um processo de aprendizado em que a fase mais importante seria a da negociação. (1999:58).
Registram que a experiência federal é ilustrativa das limitações e potencialidades do modelo dos Contratos de Gestão.
ADALBERTO A. FISCHMANN e outros, num estudo em que aliam o contrato-programa à gestão estratégica, fazem um breve relato sobre a origem e evolução das estatais brasileira, explicando a adoção do Contrato de Gestão.
Primeiro, dizem que nas últimas duas décadas (isto em 1992), a escolha governamental pelo Estado empresário foi realizada mais enfaticamente e a criação das sociedades de economia mista já introduzia a problemática de um instrumento governamental operar num regime de direito privado com critérios, portanto, de livre iniciativa.
Ressaltam como motivos para a introdução das estatais para a sua autonomia administrativa em relação à política de recursos humanos, concernente à aquisição de bens e serviços, à orçamentação e finanças, bem como, à auto-administração de receitas e contabilizações.
O Dec. Lei 200/1967 serviu como precursor do "boom" da criação de estatais na medida em que traçou toda a principiologia da descentralização, da delegação de competência e da tutela. Nos últimos anos, todavia, observam que o relacionamento entre o Estado e as empresas estatais tem comprometido o desempenho destas, posto ter havido um incremento dos controles sobre as tais e justamente nas áreas para as quais foram criadas como pessoas descentralizadas (contratos, recursos humanos, investimentos, tarifas etc).
Como agravante, citam as constantes mudanças de cúpula das empresas, o que provocou a solução de continuidade nos projetos estratégicos de longa duração. Isso, sem deixar de lado problemas de cultura organizacional e de corrupção. (1992: 25).
A companhia Vale do Rio Doce, hoje privatizada, era uma estatal multinacional que atuava no setor minero-metalúrgico.
Seu primeiro Contrato de Gestão, que começou a viger em 10/09/1992, foi firmado com a União através do Ministério de Minas e Energia. Neste caso, tratou-se de uma avença entre o acionista majoritário da CVRD e a empresa estatal, através da sua direção.
A avaliação das diretrizes insertas naquele Contrato de Gestão ficava a cargo do Conselho de Administração da entidade, órgão que reunia seus acionistas.
O descumprimento das obrigações (negociadas) poderia acarretar em penalidades aos administradores, como a destituição destes, à semelhança do que ocorre na iniciativa privada. (FERNANDO ANTÔNIO GALVÃO DE ALMEIDA, 1992:15).
De logo, com a assinatura do Contrato de Gestão, a CVRD recebeu autorização para atuar em atividade administrativa antes burocraticamente submetida à aprovação do Poder Público, como, por exemplo, gerência de pessoal (admissão, demissão, autorização para viagens etc), elaboração e execução orçamentária, emissão de títulos mobiliários etc.
Nas metas de contrapartida, a CVRD se obrigou a investir em seu maquinário, reduzir custos, melhorar seu padrão de qualidade, dentre outras medidas de reestruturação administrativa. Este Contrato de Gestão estava baseado no Decreto n. 137 de 27/05/91, instituidor do Comitê de Controle das Empresas Estatais e no Dec. S/N de 10/06/1992 que, dentre outras Cláusulas obrigatórias do Contrato de Gestão, instituiu a de penalidades aos administradores que descumprirem as resoluções do referido Comitê e das Cláusulas contratuais.
Talvez também por isto, houve baixa adesão das estatais ao regime de Contrato de Gestão consubstanciado naquele decreto.
O "contrato" foi acompanhado através de relatórios trimestrais analisados pelo Ministério de Minas e Energias, sendo isto complementado por "auditorias operacionais", que "investigavam" a fidedignidade das informações pela CVRD .
De 1990 a 1993, a avaliação de empresa foi considerada promissora e, segundo a empresa, as autonomias gerenciais obtidas pelo Contrato de Gestão foram fundamentais, principalmente no campo dos recursos humanos. (Houve enxugamento e liberdade salarial, respeitado, contudo, o teto remuneratório vigente à época) (ENAP, 1993:21-24).
O Relatório de Levantamento de Auditoria na CVRD feito pelo Tribunal de Contas de 31/05/1993 a 09/08/1993 diz que os procedimentos adotados quanto à execução do Contrato de Gestão do exercício de 1992, como também os termos deste deveriam ser reconhecidos como consoantes com a legislação aplicável, com o que discordo parcialmente .
Só para lembrar, o Contrato de Gestão da CVRD está lastreado em um decreto, quando somente poderia ser previsto em lei, por força de dicção constitucional vigente à época. (art. 84, IV da Constituição Federal de 1988).
O aludido relatório critica detalhes operacionais de negociação, de ausência de prévio estudo de diagnóstico, o número e a qualidade das condições que no seu entender, facilmente, eximiriam a empresa etc.
Diz que a CVRD, independente do Contrato de Gestão, era descumpridora de normas legais, como a da obrigatoriedade do concurso público, do teto remuneratório, das regras licitatórias e coisas do gênero.
Se válida fosse a instituição de tal acordo não creio que suas Cláusulas atentassem contra normas legais, pois aquele prevê no seu texto exatamente o que a Emenda Constitucional nº 19/98 agora permite.
O que se observa do Contrato de Gestão com CVRD é que a flexibilização prometida pelo poder público ficou dentro da faixa de sua competência discricionária de atuação.
As trinta e seis metas estabelecidas no Contrato de Gestão de 1992, por exemplo, englobaram a produção de minério, o nível médio de preços e o volume de vendas, a previsão de margem de receita, a definição de limites mínimo e máximo para gastos com mão de obra (IPEA,1995:22), ou seja, nada que afastasse as regras constitucionais de controle orçamentário pelo Tribunal de Contas, da licitação do concurso público etc.
Tais mandamentos, contudo, foram objeto de crítica por parte dos administrativistas, que, disseram, por exemplo, que a autonomia concedida no Contrato de Gestão ficou "prejudicada" pela Lei 8666/93, pois tal norma cerceava decisões e retardaria operações (IPEA, 1994:24). Ainda houve, pelo Dec.137/91, previsão de instituição de Contrato de Gestão com as empresas controladas, que a CVRD utilizou com as suas subsidiárias: DOCENAVE, DOCEGEO, Florestas Rio Doce, ALUVALE e MSG.
Não é preciso salientar que, sendo ilegal a possibilidade de instituição de Contrato de Gestão da Administração Direta com a CVRD por decreto, o mesmo o seria para as controladas. Tal expediente nem assim ganharia foros de legalidade com a promulgação da Lei complementar nº101, a Lei de Responsabilidade Fiscal, pois a definição de empresa controlada nesse diploma contempla aquelas cuja capital votante seja de maioria de ente federado, logo celebrante com este de Contrato de Gestão.
Apenas para ilustrar, veja-se o dispositivo:
Art. 47. A empresa controlada que firmar Contrato de Gestão
em que se estabeleçam objetivos e metas de desempenho, na
forma da lei, disporá de autonomia gerencial, orçamentária e
financeira, sem prejuízo do disposto no inciso II do § 5º do art. 165 da Constituição.(Grifei).
O texto, apenas de eficácia limitada pela lei que tratará dos Contratos de Gestão, permite a sua utilização pelas entidades controladas e, por curioso que possa parecer, apenas por estas, creio que, pelo fato de, àquela época, o art.37, § 8º da Norma Constitucional já ter autorizado a Administração Direta e a Administração Indireta a faze-lo.
De tudo quanto exposto sobre este Contrato de Gestão, ter-se-á que o modus operandi não, necessariamente, contraria as normas legais e que o Contrato de Gestão pode introduzir valores de eficiência na Administração Pública satisfatoriamente. Todavia não posso compreender que o meio justifica o fim. O decreto não era instrumento hábil para introduzir o Contrato de Gestão e, certas dúvidas teriam sido após a realização de tal acordo após previsão de lei.