5.5 Controle do Boost e Suas Limita¸c˜oes
5.5.3 Controlador de Estrutura Vari´avel com Adapta¸c˜ao Fe-
ta¸c˜ao Feedforward
Como contraponto ao controlador linear, esta Se¸c˜ao apresenta um contro- lador de estrutura vari´avel. Conforme a an´alise de bifurca¸c˜oes, mudan¸cas no posicionamento relativo de S e Γ, deslocam os pontos de equil´ıbrio do sistema. Deste modo, um controle de estrutura vari´avel, que leve o sistema ao ponto de opera¸c˜ao por meio de uma trajet´oria deslizante, fica vulner´avel a perturba¸c˜oes de carga, e sofre desregula¸c˜ao da tens˜ao de sa´ıda em con- seq¨uˆencia do deslocamento do equil´ıbrio. Por isso, o controle do boost por modos deslizantes requer t´ecnicas auxiliares para garantir erro nulo em regi- me permanente.
O controlador proposto nesta Se¸c˜ao, faz uso de uma medida indireta da resistˆencia de carga afim de adaptar os coeficientes da fun¸c˜ao σ que determina a superf´ıcie de comuta¸c˜ao. A an´alise de bifurca¸c˜oes da Se¸c˜ao 5.4 mostrou que a regi˜ao Ψ, favor´avel `a ocorrˆencia de modos deslizantes, n˜ao se altera com varia¸c˜oes de s0. Portanto, este deve ser o ´unico parˆametro pass´ıvel de
adapta¸c˜ao.
Outra particularidade do controlador proposto ´e a opera¸c˜ao em freq¨uˆencia fixa. Em geral, controle por modo deslizante, quando aplicado em eletrˆonica de potˆencia, leva as chaves eletrˆonicas a comutarem com uma freq¨uˆencia
vari´avel. As causas e implica¸c˜oes disso ser˜ao expostas com mais detalhes na Se¸c˜ao 5.6. Por hora, ´e suficiente saber que, para o caso do conversor boost, faixas muito largas de varia¸c˜ao de freq¨uˆencia n˜ao s˜ao desej´aveis. Buscando a opera¸c˜ao em freq¨uˆencia fixa, as chaves podem ser acionadas por sinais modulados em largura de pulso, a exemplo das t´ecnicas de modelagem e controle baseadas na m´edia temporal local.
Neste sentido, o controle por modos deslizantes, tal como abordado nesta Se¸c˜ao, n˜ao tira proveito do car´ater discreto do sistema em quest˜ao. Este ´e tratado como se fora um sistema n˜ao-linear com um controle cont´ınuo, representado pela raz˜ao c´ıclica do sinal PWM que comanda a comuta¸c˜ao das chaves.
Tamb´em as vari´aveis de estado do sistema s˜ao “vistas” pelo controlador livres das ondula¸c˜oes de chaveamento. Para que isto seja poss´ıvel, filtros devem ser providos, para transmitir ao controlador apenas as m´edias locais das vari´aveis de estado.
Estrutura do Controle
Seguindo uma das abordagens apresentadas em [19], adota-se uma estrutura de controle segundo a seguinte forma geral
u(x) = ueq(x) + uN(x) (5.71) em que ueq(x) = 1 − s1CE − s2LxR2 s1Cx2− s2Lx1 (5.72) e uN(x) = γσ(x) = γ (s0(R) + s1x1+ s2x2) . (5.73)
Note-se que tanto ueq quanto uN dependem de R. Nesta lei de controle,
ueq ´e o controle equivalente calculado por (5.72) para uma dada superf´ıcie
de comuta¸c˜ao S escolhida previamente. Esse termo ´e respons´avel por guiar a trajet´oria do sistema ao longo da superf´ıcie S. O termo uN fica, ent˜ao,
encarregado de levar o estado do sistema at´e a superf´ıcie de comuta¸c˜ao. Sobre
S, uN deve se anular, de modo a deixar que ueq atue. Uma das possibilidades
para isso ´e fazer uN proporcional a σ, o que leva a
uN = γσ(x). (5.74)
O fator γ ´e um grau de liberdade para proporcionar pondera¸c˜ao entre as componentes da lei de controle. Seu valor foi ajustado via simula¸c˜ao, sendo selecionado o valor γ = 0, 004. A lei de controle assim definida ´e uma fun¸c˜ao suave. Seu valor modula a largura dos pulsos enviados `a porta do MOSFET.
Figura 5.31: Diagrama do sistema de controle por modos deslizantes com adapta¸c˜ao de superf´ıcie
Para que a superf´ıcie de comuta¸c˜ao passe pelo ponto de equil´ıbrio desejado
Xa = · IL VC ¸ , IL= VC2 RE (5.75)
deve-se ter que σ(Xa) = 0, logo
s0(R) = −s1
VC2
RE − s2VC. (5.76)
Esta ´e, portanto, a equa¸c˜ao para adapta¸c˜ao de s0baseada na medida indireta
de R. A superf´ıcie de comuta¸c˜ao torna-se, ent˜ao, uma fun¸c˜ao de R dada por
S(R) =©x ∈ R2/σ(x, R) = 0ª com σ(x, R) = s
0(R) + s1x1+ s2x2
(5.77) Para esta medida, faz-se necess´ario munir o circuito com um sensor de corrente na carga, al´em dos sensores para as vari´aveis de estado.
A Fig. 5.31 traz um diagrama esquem´atico do sistema. Tanto as vari´aveis de estado realimentadas, quanto o sinal feedforward de corrente da carga, s˜ao filtrados, para elimina¸c˜ao de ondula¸c˜oes, antes de compor as fun¸c˜oes da lei de controle.
A superf´ıcie de comuta¸c˜ao ´e escolhida de forma a levar o estado do sis- tema para o ponto de equil´ıbrio desejado, conforme a demanda de carga. A
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 0 50 100 150 x1 (A) x 2 (V) S( ) R nom
Ψ
Γ( ) R max S( ) R max Γ( ) R nomFigura 5.32: Trajet´orias no espa¸co de fase em resposta a perturba¸c˜oes de carga.
inclina¸c˜ao se S ´e escolhida de forma a que, em situa¸c˜oes de queda de carga, o estado se desloque ao longo de φ0 e s´o deixe esta trajet´oria ap´os atravessar
a variedade Γ(Rmax). O caminho percorrido pelo estado do sistema para se
deslocar de Xa at´e Xb dever´a, ent˜ao, ser composto por dois trechos: a tra-
jet´oria φ0, num primeiro momento, e a trajet´oria deslizante ao longo de S,
num segundo momento. A escolha de α deve ser feita, sem perder de vista as condi¸c˜oes de existˆencia de modos deslizantes. Para tanto, conta-se com o aux´ılio dos resultados obtidos com a an´alise de bifurca¸c˜oes, que permitem selecionar a inclina¸c˜ao α numa regi˜ao segura do conjunto de bifurca¸c˜oes. Os valores usados neste trabalho foram γ = 0, 004, s1 = −55, 8 e s2 = −1.
O diagrama de fase da Fig. 5.32 mostra as trajet´orias resultantes da simula¸c˜ao de uma excurs˜ao total entre carga m´axima e m´ınima.
60 70 80 90 100 110 120 130 140 x 2 (V) 0 1 2 3 4 5 6 x 1 (A) 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 0 0.2 0.4 0.6 0.8 1 t (ms) d
Figura 5.33: Rejei¸c˜ao de pertuba¸c˜oes de carga com controlador de modos deslizantes.
1.8 1.9 2.0 2.1 2.2 2.3 2.4 2.5 −0.5 0 0.5 1 1.5 t (ms) Controle Calculado Aplicado 9.8 9.9 10 10.1 10.2 10.3 10.4 10.5 t (ms) Calculado Aplicado Saturação referente à trajetória φ 0 Saturação referente à trajetória φ 1
Figura 5.34: Detalhes do regime transit´orio da vari´avel de controle. Comparando as Figs. 5.24 e 5.32, percebe-se que, para o controle imple- mentado, as trajet´orias que levam o estado do sistema de S(Rnom) a S(Rmax)
s˜ao muito pr´oximas das trajet´orias naturais φ0 e φ1. De fato, como se pode
verificar pelos gr´aficos da Fig. 5.34, o controlador, instantes ap´os as tran- si¸c˜oes da carga, fornece uma sa´ıda saturada em 0 ou 1, conforme o caso, e leva o sistema a evoluir sobre trajet´orias naturais, visto que a satura¸c˜ao do controle significa manter a chave fixa em uma ´unica posi¸c˜ao. Nos intervalos de tempo em que isto ocorre, o sistema permanece estacionado em uma de suas estruturas E0 ou E1.
Compara¸c˜ao entre o controlador linear e o n˜ao-linear
Os controladores apresentados nesta Se¸c˜ao, al´em de serem de naturezas di- ferentes, tamb´em possuem diferentes n´ıveis de complexidade na sua imple- menta¸c˜ao. O controlador linear ´e uma fun¸c˜ao de transferˆencia pass´ıvel de ser implementada por meio de circuitos eletrˆonicos. Ainda que a realiza¸c˜ao dos zeros complexos possa dificultar a s´ıntese do circuito, ainda se pode consi- der´a-lo um controlador relativamente simples, cuja realiza¸c˜ao envolve apenas amplificadores operacionais e elementos passivos, como resistores e capacito- res. Uma segunda alternativa, cuja a aplica¸c˜ao vem crescendo notavelmente, tanto no meio acadˆemico como nos meios industriais, ´e a utiliza¸c˜ao de con- troladores digitais. Estes s˜ao implementados numericamente por algoritmos programados em processadores digitais de sinais.
J´a o controlador baseado em modos deslizantes, por exigir a realiza¸c˜ao de uma fun¸c˜ao de controle n˜ao-linear, como (5.72) n˜ao oferece muitas al-
Perturba¸c˜ao Queda de carga Retorno de carga Parˆametro Sobrepasso tac (2%) Sobrepasso tac (2%)
Linear 29,0% 1, 8ms 24,5% 1, 7ms
N˜ao-linear 24,8% 1, 7ms 23,7% 0, 6ms
Tabela 5.4: Compara¸c˜ao de desempenho do sistema em malha fechada para os dois controladores.
ternativas. Tais fun¸c˜oes n˜ao-lineares, praticamente, exigem uma realiza¸c˜ao digital, porquanto sua realiza¸c˜ao anal´ogica pode oferecer dificuldades s´erias, j´a que n˜ao h´a, no universo anal´ogico, blocos construtivos b´asicos para imple- menta¸c˜ao de fun¸c˜oes n˜ao-lineares gen´ericas. Al´em disso, o controlador n˜ao linear apresentado aqui, exige que se filtre as vari´aveis medidas afim de lhes eliminar a ondula¸c˜ao.
Outra diferen¸ca fundamental, ´e que o controlador linear realiza uma re- alimenta¸c˜ao de sa´ıda, que necessita apenas da medi¸c˜ao de tens˜ao na carga, enquanto que o controlador n˜ao-linear realiza uma realimenta¸c˜ao de estados acrescida de um sinal feedforward para a adapta¸c˜ao da superf´ıcie, o que exige mais dispositivos sensores para a implementa¸c˜ao f´ısica do controlador.
Quanto ao desempenho dinˆamico, as Figs. 5.26, 5.29 e 5.33 revelam a efi- ciˆencia na rejei¸c˜ao de perturba¸c˜oes de carga, sendo o desempenho em malha fechada sensivelmente melhor que em malha aberta. Para uma compara¸c˜ao quantitativa, a Tabela 5.4 traz os valores dos principais parˆametros temporais obtidos das curvas de tens˜ao para m´axima perturba¸c˜ao de carga. Qualitati- vamente, o sistema, quando sujeito a um controle linear, exibe caracter´ısticas dinˆamicas de segunda ordem, ainda que revelando um amortecimento alto. Por sua vez, o controlador de modos deslizantes confere ao sistema em ma- lha fechada uma dinˆamica t´ıpica de primeira ordem, efetivando a redu¸c˜ao de ordem, pr´opria de regimes de deslizamento.
Al´em de tudo isso, h´a, ainda, outra diferen¸ca importante entre esses dois controladores. N˜ao ´e por acaso que as simula¸c˜oes do controlador n˜ao- linear partem do sistema em repouso, e que as do linear partem do ponto de equil´ıbrio. O controlador linear n˜ao ´e capaz de, sozinho, levar o estado do sistema da origem at´e o ponto de equil´ıbrio, pois, ele torna o sistema ape- nas localmente est´avel. ´E por isso, que, na pr´atica, os circuitos de controle implementados para o boost s˜ao munidos de recursos auxiliares para promo- ver partida suave, levando assim o estado para as vizinhan¸cas do ponto de equil´ıbrio, onde, ent˜ao, o controlador linear pode come¸car a atuar. O mesmo n˜ao acontece no controle por modos deslizantes, como mostra a Fig. 5.32.