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4.2 ENTREVISTAS

4.2.5 Controle da Ansiedade na Performance Musical

Ao ser questionado se possui alguma estratégia ou ritual para lidar com a ansiedade na performance musical, o Professor E relatou que a ansiedade não compromete sua performance q m : “ h m , b m m [...] „ x , ‟”. C m m P D, a ansiedade afeta muito o sistema respiratório. Diante Disso, ele procura praticar alguns x í x m : “ m x , , x ”. A ém , v ocura focar na : “ m mb q m q b x m . Eliminar o ar viciado que fica preso ali. E eu acho que tendo esse controle da respiração [...] v ê já m í 50% h ”.

Por outro lado, o Professor A apontou a escolha do repertório e a sua respectiva disposição no programa do recital como um fator que pode contribuir para atenuar a ansiedade. Na sua concepção, a ordem das obras pode estar relacionada a dois critérios fundamentais:

Primeiro, uma questão técnica, que é o seguinte: de repente você põe uma obra que de cara, num recital, não funciona. Ou ela funciona melhor no meio. Ou ela funciona melhor com uma obra menos exigente no começo. Esse tipo de relação que a gente estabelece quando vai bolar um recital. Então eu diria, eu chamo de critério técnico, b á m j é é é : „ b v q q b q m ‟ (P A).

De acordo com o Professor A, existe um segundo critério relacionado à escolha do repertório que, talvez, seja um pouco mais profundo e que tem lhe ajudado bastante:

Eu vi um autor falar sobre o processo dele de construção literária e romance, que foi uma ideia que eu gostei muito. Ele bola os personagens não por conta dos personagens em si. O personagem é um pretexto pra ele estudar um comportamento humano [...] Então um recital pode ser isso. Quer dizer, não é um recital pelo recital em si, mas é um recital com uma oportunidade, sei lá, de estudar uma condição humana. A minha condição humana relacionada às pessoas que estão ali presente. Então eu procuro montar um recital, a ideia das obras que vão compor o recital muito mais pensando num discurso que essas obras fazem quando são postas juntas (Professor A).

Além disso, o Professor A explicou que a mesma obra pode ser executada sob v : “é m m m m m concurso [...] você tocar o concerto de Mozart pra crianças e tocar o concerto de Mozart pra um b õ ”. D m v , é m m m v b : “ m h h j é m m m ”.

Quando perguntado se o ato de se apresentar publicamente com maior frequência b , P D q “ é b h e administrada, principalmente, em performances ao vivo: quanto mais a pessoa se apresenta, mais ganho ela tem. Tanto de segurança [...] q x ê ”. N v P E, “v ê m q v v x ê v ê h x ê [...] q m v z j m v ê m à v ”.

Nesse mesmo sentido o Professor C ressaltou que não adianta o músico traçar uma grande meta, um grande concerto, mas viver a situação de palco quase nunca. Na concepção v , “ z ”. Em m q m z á ganhando experiência. Assim, quando chegar o dia da apresentação, o indivíduo poderá até ficar nervoso, porém saberá como enfrentar esse nervosismo. De acordo com o Professor C: “ b m é q v ê z m , , m [...] Quanto mais você toca, mais m v ê v b m ”.

Desse modo, ao comparar a performance musical com um jogo de futebol, o Professor B afirmou:

„T é , j é j ‟. E v ê v j jogo. Com preparo no treino [...] Então quanto mais você tá no jogo [...] quanto mais vezes eu for pro Maracanã, televisão filmando, a primeira vez gera maior ansiedade, depois... (Professor B).

Na visão do Professor B, a prática de palco ajuda o músico a lidar com sua ansiedade, desde que seja uma prática consciente:

P m á é h j [...] F v , „ h, m m ?‟... 'Cê á , b h !‟... E q , h m . E q . „P ê ?‟ Você esquece o pênalti. O jogo continua. Q z , q , x m m . „Pô ‟, v , q . Aq , já é . T m . E mbém q m „ ô, errei ali, agora eu vou compensar m h h ‟. N . T q á j , m h , ótimo. Mas qualquer pensamento que faz um erro no começo da apresentação, que

faz você ficar pensando no erro pode atrapalhar o momento. Inclusive o bom pensamento de querer tocar melhor porque você errou lá. Então esse pensamento tá fora do seu foco, seu foco é concentrar na música. Você estudou pra fazer isso, você treinou um pênalti dessa maneira, não mude na hora. Você treinou tanto tempo jogar no canto direito e se a sua técnica não tá segura pra jogar no canto esquerdo na hora, vá no que você tem confiança. Não deixa perturbar. E isso dá pra fazer no palco, né (Professor B).

De acordo com o Professor B, se o músico não possuir estratégias de enfrentamento à ansiedade para utilizar na hora da performance, b m v : “v ê , „ ô m m ‟ m m m h , M , b m é ”. N m m o Professor A afirmou que o fato do indivíduo repetir uma determinada atividade não significa, necessariamente, que ele obterá x v : “ m v ê q z m q você melhore. Pelo contrário. Às v z v ê á ”. N P A, o aumento da frequência com que o músico vivencia a situação de palco, por si só, não é capaz de ajuda-lo a reduzir os níveis de ansiedade:

Quando você me pergunta se eu acho que a frequência de recitais pode levar a melhorar, talvez a coisa mais honesta que eu posso te falar a esse respeito é: depende. Depende. Porque se você é um cara muito ansioso, você é um cara que tem muito problema e você travar num recital, travou no outro e travou no outro, pô, isso á j , , á h . D z: „b h , m v m . P q m v ‟ [...] „V z ‟. Então o que eu acho que tem que acontecer é você ter, de fato, primeiro um acompanhamento. E aí entra a nossa responsabilidade. A gente fazer como professor uma leitura adequada do que é que está acontecendo. Às vezes é porque o cara não estudou mesmo e não tem como ir bem numa coisa que você não domina. Mas quando você, mesmo dominando aquilo, você ainda sofre problemas, então eu acho que é uma coisa que começa a escapar da área do professor de clarinete e entra numa área de outra pessoa. Pode ser um psicólogo (Professor A).

Diante do que foi exposto, o Professor A afirmou que sente falta de uma orientação v á m , m : “ q , à v z , m v ê z „ , é m ‟ [...] „ ô, ô , m é m ‟ [...] já cria um efeito absurdo pro a ”. N v P A, m q propõe a tocar, por exemplo, o concerto de Nielsen para uma plateia gigantesca certamente ficará ansioso, pois trata-se de uma narrativa densa, uma obra que representa um dos ápices daquele momento histórico na literatura para clarineta. Ainda de acordo com o Professor A, essa obra possui uma carga emotiva e artística muito forte, que passa pelo filtro do clarinetista mbém: “ m h q m [...] ”. A disso o entrevistado começou a perceber esse processo da ansiedade como algo natural e a enfrentá-lo por esse prisma:

Eu não acho que ansiedade é uma - na grande maioria dos casos [...] doença que precisa ser curada. Eu acho que em alguns casos, sim. É uma coisa que merece tratamento e um tratamento especializado. Mas na grande maioria das vezes, eu acho que é um desafio que tá proposto pra gente, porque a nossa própria natureza é assim [...] É uma herança que é genética que tá com a gente, quer dizer, tá presente na essência da humanidade e que eu, particularmente, vejo que é uma coisa que a gente tem que aprender a lidar. Não é uma coisa pra ser curada. Eu não acho, eu não acredito que alguém vá deixar de ser ansioso pura e simplesmente (Professor A).

Ao refletir sobre a sua prática pedagógica, o Professor C referiu que não ensina seus m v : “ z . E ém b . É í . Você pode ficar nervoso raramente, mas eu acho que não tem um método que ensine alguém b m v ”. N v v , m m ante ao nervosismo, ou ante a ansiedade e, para alcançar esse objetivo, quanto mais tocar, melhor. Porém, o Professor A observa que muitas vezes o músico está tão focado no estudo da clarineta, que não consegue perceber mais nada, não consegue realizar mais nada em sua v . N v , m b m , “ v ê v v m experiência agradável no teu dia a dia, como é que você vai saber o que é uma experiência áv q v ê ?”. S P A, m õ m sua vida pessoal, para aproveitar a família, para se relacionar com aquilo que ele gosta; se ele não cultiva essas sensações em outros campos da sua vida, provavelmente não saberá cultivá- las na música.

Por fim, o Professor E afirmou que é fundamental o músico conseguir reunir boas referências, boas memórias e conviver com profissionais que aprenderam a lidar com a ansiedade de maneira positiva e de forma motivadora. Segundo o entrevistado, muitos colegas seus possuem uma frustração em sua carreira devido à má convivência com seus professores e é h j m m b m m : „ h, m b m; m z a que eu ia ser m ‟. P , q é m m b ê aproximação com profissionais que lhe motivem e lhe ajudem a superar os obstáculos, oferecendo dicas e orientações sobre como proceder em cada situação e o que fazer para resolver os problemas. Na visão do Professor E, uma carreira bem sucedida se relaciona com boa qualidade de vida e de convivência com as pessoas, com saber administrar a sua carreira e as suas emoções.

5 DISCUSSÃO

O questionário, bem como as entrevistas realizadas no presente estudo evidenciaram a existência de ansiedade na performance musical de profissionais da clarineta no Brasil. Os achados também apontam para as características dessa ansiedade, seus efeitos na performance musical, os sintomas vivenciados pela população de estudo e os fatores que contribuem para a experiência de ansiedade na performance. Além disso, investigou-se as estratégias utilizadas por clarinetistas no Brasil para lidar com a ansiedade na performance musical e a percepção desses profissionais acerca da influência do ato de se apresentar publicamente com maior frequência sobre a ansiedade. Finalmente, verificou-se a contribuição da prática de aulas coletivas em formato de masterclasses para o controle da ansiedade, de acordo com a experiência dos respondentes.

A literatura afirma que crianças muito novas raramente vivenciam ansiedade na performance musical, porém ressalta que a transição da infância para a adolescência pode trazer consigo os primeiros sintomas da APM (KENNY, 2004a). Considerando que a adolescência configura uma fase de transição caracterizada por mudanças, consolidação do crescimento, instabilidade emocional e pressões sociais (EISENSTEIN, 2005), é provável que o fato dos respondentes terem iniciado os estudos na clarineta (Tabela 2) e realizado a primeira apresentação musical pública (Tabela 3) predominantemente nessa fase da vida tenha contribuído para o sentimento de ansiedade na performance musical. Segundo a literatura, estudantes com 12 anos de idade já apresentam sintomas de APM, assim como ocorre com os adultos (RYAN, 2004).

Por outro lado, os Professores A e D atribuíram parte de sua ansiedade a um processo pessoal de autocobrança excessiva por resultados rápidos, desencadeado pelo fato de serem autodidatas no início de sua trajetória musical e terem iniciado seus estudos formais de clarineta apenas na fase adulta. Esses professores acreditam que a sua relação com a música, com o instrumento e com a ansiedade teria sido diferente caso tivessem ingressado nos estudos formais de clarineta mais cedo, preferencialmente na infância. Porém, a literatura demonstra que as crianças estão, cada vez mais de maneira precoce, absorvendo os problemas que afligem os adultos. No que se refere à APM, a principal causa observada é a preocupação demonstrada pelas crianças em relação à possibilidade de cometer falhas em sua performance diante dos outros (RYAN, 2004). Contudo, a avaliação majoritariamente positiva realizada

pelos respondentes acerca de sua primeira apresentação musical pública (Tabela 4) indicou que essa experiência não foi traumática.

A percepção dos respondentes acerca da frequência com que seus professores de clarineta ofereciam orientação sobre estratégias para o enfrentamento da APM no início de sua trajetória musical (Tabela 5) evidenciou uma lacuna na formação de clarinetistas no Brasil. No relato dos Professores A e E é possível perceber os prejuízos para a formação do aluno quando seus professores não oferecem orientação sobre estratégias de enfrentamento à ansiedade. Entretanto, esse problema não se restringe ao Brasil, pois, segundo o relato do Professor A, alguns de seus colegas na Europa chegaram ao ponto de desistir da clarineta por conta da ansiedade, e devido à falta de acompanhamento por parte de seus professores. De acordo com o entrevistado, carreiras promissoras foram interrompidas em função da ansiedade. Esses resultados corroboram com o paradigma de que a ansiedade constitui um sério problema que tem impedido musicistas de alto nível de prosseguirem com suas carreiras (THOMPSON et al., 2006; KENNY, 2011; MIRANDA, 2013).

No que se refere à percepção dos respondentes acerca da frequência com que seus professores de clarineta abordavam questões sobre como proceder no palco durante o início de sua trajetória musical (Tabela 6), o resultado obtido demonstrou outra lacuna na formação desses profissionais. Segundo a literatura, o planejamento de palco pode proporcionar maior segurança ao intérprete e, consequentemente, contribuir para o aprimoramento de sua performance musical. Desse modo, mesmo que o músico possua qualidade, talento e sólida formação, é de fundamental importância uma preparação específica para lidar com a situação de palco e, quanto melhor for essa preparação, menor será o grau de ansiedade vivenciado na performance (RAY, 2009). Portanto, conhecer o palco e saber como proceder nele é tão importante quanto o estudo das obras musicais que serão apresentadas. Nesse sentido, é possível perceber na fala dos Professores B e C a importância do músico conhecer o palco e sua acústica antes da apresentação a fim de evitar surpresas que possam desencadear ansiedade no momento da performance.

Ainda no que se refere à prática pedagógica de seus professores, a percepção dos respondentes acerca da frequência com que eram acompanhados em suas apresentações públicas no início de sua formação musical (Tabela 7) indicou uma maior atenção por parte de seus orientadores nesse quesito. No relato do Professor B, ressaltou-se a importância dos professores acompanharem as apresentações musicais de seus alunos, no intuito de oferecer- lhes orientação e apoio. De acordo com o entrevistado, a simples presença do professor na plateia pode proporcionar segurança e confiança ao aluno. Além disso, é possível perceber na

fala dos Professores B, C, D, e E a importância de uma boa relação entre alunos e professores, para que o aluno se sinta à vontade com o seu professor e não desenvolva o sentimento de ansiedade durante as aulas e/ou em sua rotina de estudos.

Com relação ao ambiente vivenciado no início de sua formação musical, o indicativo de que a maior parte dos respondentes vivenciou ambientes competitivos e com cobrança artística elevada pode ter influenciado no alto índice de ansiedade relatado pela população de estudo. De acordo com a literatura, jovens que vivenciam ambientes com cobrança artística elevada e que ainda não possuem todas as ferramentas pessoais desenvolvidas para suportar esse ideal artístico e competitivo, podem apresentar um perfil propício para a APM (BARLOW, 2000).

Na percepção do Professor B, a ausência de cobrança por um nível artístico elevado favoreceu para que ele não desenvolvesse o sentimento de ansiedade no início de sua trajetória musical. Segundo o Professor E, cobrança excessiva não ajuda o músico a construir uma performance de alto nível. Na visão do entrevistado, esse tipo de cobrança é prejudicial tanto para o professor, quanto para o aluno. Desse modo, esses resultados reforçam os achados na literatura que indicam que cobranças excessivas, impostas pelo meio em que o indivíduo vive podem desencadear perfeccionismo, crenças irracionais, sentimento de insegurança e ansiedade (TRICOLI; BIGNOTTO, 2000; NASCIMENTO, 2013).

Sobre a ansiedade, a literatura afirma que esse sentimento pode interferir tanto de forma positiva quanto negativamente na performance musical (WILSON, 1997; WILSON; ROLAND, 2002; STUDER et al., 2011). Em consonância com essa premissa, o Professor C afirmou não acreditar que a ansiedade seja a razão pela qual uns tocam bem e outros tocam mal, pois o entrevistado não costuma atribuir performance boa à ausência de ansiedade ou performance ruim ao excesso dela. Contudo, a percepção dos respondentes acerca da influência da ansiedade em sua performance musical indicou a prevalência dos efeitos prejudiciais da ansiedade sobre a performance de profissionais da clarineta no Brasil (Tabela 8). Isso nos leva a entender que a APM vivenciada pela população de estudo se caracteriza m m „ b ‟ q m „ ‟ (APA, 2010). A ém disso, o fato da opção mais indicada pelos respondentes informar que a ansiedade prejudica o seu desempenho, sugere que uma parcela expressiva desses clarinetistas não tem alcançado êxito em transformar o excesso de excitação que a ansiedade pode desencadear em energia e direcioná-la para a performance, conforme recomendado na literatura (GREENE, 2011).

No que tange à imagem e autoestima do indivíduo, os resultados demonstram que uma parcela expressiva da população de estudo se preocupa com a avaliação do público ao seu

respeito e acerca de seu desempenho. Cabe ressaltar que essa preocupação também pode ser percebida no relato do Professor B. Embora esse grupo não represente a maioria dos respondentes, esses resultados sugerem um quadro elevado de ansiedade nessa parcela da população e reforçam os achados na literatura que apontam a preocupação com o julgamento do público como um agente desencadeante de ansiedade (WILSON; ROLAND, 2002; MARSHALL, 2008; NASCIMENTO, 2013; MIRANDA, 2013; CUNHA, 2013).

Com relação ao sentimento de ansiedade, constatou-se que a maior parte dos respondentes costuma senti-lo nos dias que antecedem à apresentação. Esse resultado corrobora com os achados na literatura que afirmam que a APM pode se manifestar durante dias, semanas, ou até meses antes de uma apresentação pública (KEMENADE et al., 1995; STEPTOE, 2001). Além disso, os resultados também demonstraram que, para uma parcela menor da população de estudo, o sentimento de ansiedade permanece após o término de suas apresentações. Esse achado indica que a APM também pode se manifestar após a performance devido à insatisfação por metas não alcançadas durante a atividade realizada, bem como em função da apreensão pela percepção dos outros acerca do seu desempenho ou , m m „ - m ‟ (APA, 2010).

No que se refere aos sintomas decorrentes da ansiedade, os resultados indicam que os sintomas fisiológicos mais vivenciados pela população de estudo referem-se à respiração, boca seca e tensão muscular (Tabela 9). Na fala do Professor D, a ansiedade afeta bastante o sistema respiratório do indivíduo. Nesse sentido, o Professor B referiu que, no momento anterior à performance, seus batimentos cardíacos sobem e ele costuma sentir uma moderada falta de ar – sintomas que se intensificam quando ele entra no palco e inicia sua apresentação. Esse relato reforça a concepção de que a ansiedade eleva-se gradualmente com a proximidade da tarefa e atinge o seu ápice durante o momento de execução dessa tarefa. Além disso, a aceleração dos batimentos cardíacos foi o sintoma mais observado no estudo realizado com clarinetistas da UFBA (SILVA; SANTIAGO, 2011). No que tange à tensão muscular, é possível perceber o combate a esse sintoma nas estratégias utilizadas pelo Professor C. Assim, os sintomas fisiológicos mais relatados pelos respondentes também podem ser fortemente observados em estudos realizados tanto com clarinetistas, quanto com outros instrumentistas (SILVA; SANTIAGO, 2011; MIRANDA, 2013; NASCIMENTO, 2013; CUNHA, 2013).

Ainda no que se refere aos sintomas fisiológicos, os Professores A e D relataram vivenciar sintomas de ansiedade relacionados à transpiração e ao controle motor. Com relação à transpiração, ambos referiram sudorese nas mãos e, além disso, o Professor D mencionou apresentar hiperidrose, destacando que o seu suor apresenta um odor muito forte e efeito

corrosivo quando ele está ansioso – devido ao aumento do seu metabolismo. No que diz respeito ao controle motor, o Professor A ressaltou a perda da motricidade fina como o sintoma da ansiedade que mais lhe incomoda, pois a falta desse domínio sobre a coordenação motora, essencial para a performance, cria uma espécie de delay entre a intenção do indivíduo e aquilo que de fato ele está executando, intensificando seu nervosismo e prejudicando sua concentração. Esse resultado corrobora com os achados na literatura que afirmam que a ansiedade pode surgir quando o músico percebe uma diferença entre o seu ideal interpretativo e o que está executando no momento (MOR et al., 1995); e que a ansiedade pode provocar um declínio da concentração e destreza motora do indivíduo (WILSON, 1997).

Sobre os sintomas psicológicos, os mais indicados pelos respondentes foram: apreensão, preocupação excessiva, autocrítica severa e falta de concentração (Tabela 9). A literatura afirma que a autocrítica severa é comumente identificada pelos próprios músicos como uma das causas da APM, e que esse sintoma sugere um perfeccionismo mal trabalhado e/ou uma vulnerabilidade psicológica (KENNY, 2011). Na sua fala, o Professor B ressaltou a questão do pensamento negativo e a preocupação com o julgamento do público ao seu respeito como sintomas da ansiedade recorrentes em suas apresentações. Cabe ressaltar que os sintomas psicológicos mais relatados pelos respondentes também foram observados em outros estudos na literatura (MIRANDA, 2013; NASCIMENTO, 2013; CUNHA, 2013).

Com relação aos sintomas comportamentais, destacaram-se erros técnicos e inquietação (Tabela 9). Esses sintomas podem ser identificados na fala do Professor D quando relatou excesso de movimentos para tocar e decaimento da performance devido à dificuldade de controlar os andamentos da música. Além disso, os sintomas comportamentais mais relatados pelos respondentes também foram observados em outros estudos na literatura (MIRANDA, 2013; NASCIMENTO, 2013; CUNHA, 2013).

No que tange à experiência de ansiedade além da performance, metade da população de estudo informou que se considera ansiosa em outras áreas de sua vida. Esse resultado m „ ‟ b m m K m (1999) m q a predisposição para ser ansioso em todos os aspectos da vida torna o indivíduo mais susceptível à ansiedade também na performance. Outro fator observado foi a prevalência de perfeccionismo, tanto na performance, como nas demais áreas da vida. A esse respeito, a literatura indica que níveis elevados de perfeccionismo contribuem para desencadear ansiedade na performance musical (MOR et al., 1995; WILSON; ROLAND, 2002; KENNY, 2011; MIRANDA, 2013). Além disso, a literatura sugere que o perfeccionismo nos músicos pode está relacionado ao fato do indivíduo se comparar com gravações comerciais de CDs,

independentemente do processo de edição desses produtos envolver inúmeros cortes e repetições (LEHRER, 1987).

Entretanto, apesar da prevalência de perfeccionismo, apenas uma pequena parcela dos respondentes referiu que costuma idealizar sua performance comparando-a com gravações