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Capítulo 1 – Ancorando o objeto de estudo

1.2. O controle do corpo delinquente

A preocupação sobre o que fazer com aquele/a que comete uma infração ou tem uma atitude fora da norma e/ou regra coletiva perpassa os séculos. Banimentos, castigos, suplícios e até mesmo a morte eram – e, em alguns locais do mundo continuam sendo - algumas das formas de punição para tais atitudes.

É a partir do século XIX que os estudos da formação, caracterização, prevenção e resolução de problemas oriundos da forma criminosa ou delituosa com que seres humanos agem, tornaram-se mais presentes no universo ocidental científico. O interesse em tratar o delinqüente não provém de uma origem piedosa ou de assistência cristã, mas sim da possibilidade de um controle total do seu corpo. A normalização é o foco dos investimentos deste cuidado (Foucault, 2001, p. 23-65).

Como já colocado, o adolescente delinquente será também o resultado de uma série de ciências que começam a tomar corpo a partir do século XIX. A psicologia, a pedagogia, a psiquiatria, a medicina e a jurisprudência, por exemplo, serão alguns dos saberes que nomearão, classificarão e promoverão não só os conceitos de normalidade, mas também a partir do que é normal, àquilo que não o é. É aqui que o adolescente delinquente se torna presente nos discursos científicos. Como César (2008, p.125) esclarece,

Tal como estabelecida no discurso científico, a adolescência apresentou-se como uma fase do desenvolvimento humano na qual o risco da transgressão e, consequentemente, da delinquência tornou-se um dado rondando de forma espectral aqueles sujeitos.

Ao mesmo tempo em que a adolescência considerada “normal” conta com a rebeldia, crises e agressividade próprias da idade, a delinquência é sempre vista como a exabundância dessas mesmas características, paradoxo desta nova fase do desenvolvimento humano. Para combater o excesso, a vigilância será a principal arma de combate à delinquência juvenil “e a segregação foi tomada como uma solução para o problema já instalado” (César, 2008, p.126). Vigilância é sinônimo de fiscalização e controle.

Michel Foucault realizou diversos estudos sobre a historicidade e caráter do controle, ou seja, desde quando surgiu a necessidade de um controle sob forma opressiva e quais os objetivos para a existência do domínio exercido dessa maneira. Em seu livro “Vigiar e Punir”, ele discorre historicamente sobre os temas da delinqüência e da legislação penal.

Do banimento nas sociedades arcaicas, suplício na Idade Média, chegando às penas da Idade Moderna, Foucault explicita como se legitimam as novas formas

de controle sobre o corpo, conforme os tempos históricos, chegando à sociedade disciplinar.

Ao descrever-nos sobre a função e a imagem do soldado do século XVII e das mudanças ocorridas ao longo deste século e do posterior, o pesquisador francês apresenta o corpo como objeto e alvo de poder, e, o soldado como algo que se fabrica (Foucault, 2007, p.117) e que pode ser docilizado. “É dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado” (p.118).

No século XVIII, o controle exercido sobre os corpos sugere uma coerção feita sem folga a fim de mantê-lo estável mecanicamente e eficaz economicamente em seus movimentos, comportamento e em sua organização interna. Assim,

“A modalidade (de controle17) enfim: implica numa coerção

ininterrupta, constante, que vela sobre os processos da atividade mais que sobre seu resultado e se exerce de acordo com uma codificação que esquadrinha ao máximo o tempo, o espaço, os movimentos. Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as “disciplinas”” (id., ibid.,).

Foucault (2007) informa que no momento histórico em que surge a disciplina, está se formando um novo jogo político na sociedade. Segundo ele,

(...) é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. (...) Uma “anatomia política”, que é também igualmente uma ‘mecânica do poder”, está nascendo; ela define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina. (p.119).

17 Itálico nosso.

Contudo, é curioso pensar que o locus da formação disciplinar tenha sido a comunidade religiosa. “Foi em seu interior que ele se formou e dessas comunidades “transportou-se, transformando-se, para comunidades laicas que se desenvolveram e multiplicaram no período da pré-Reforma, nos séculos XIV, XV” (Foucault, 2006 (b), p. XX). O estudioso francês nos esclarece que “as disciplinas marcam o momento em que se efetua o que se poderia chamar a troca do eixo político da individualização” (Foucault, 2007, p.160).

Percebe-se, então, que o corpo humano passa a ser objeto e as instituições são e oferecem um sistema que o esmiúça, desequilibra e o reencaixa, no sentido de colocar este corpo sob submissão a um domínio político. Trata-se do exercício de um poder sobre um corpo. Podemos ver o indivíduo como a bainha de mielina na qual o poder passa e ao mesmo tempo se exerce, sendo que não há uma distribuição exata e/ou democrática do poder no-e-sobre o corpo. É na bainha de mielina que se dá o transporte do próprio poder. “Na realidade, o que faz com que um corpo, gestos, discursos, desejos sejam identificados e constituídos como indivíduo, é precisamente um dos efeitos do poder” (Foucault,1999, p.35). Ou como Veiga-Neto (2007, p.62) coloca “o poder entra em pauta como um operador capaz de explicar como nos subjetivamos imersos em suas redes”.

Para Foucault, o poder é, grosso modo, uma relação de forças dentro de um espaço/ território no qual essas mesmas forças, ao mesmo tempo, se constituem, se auto-organizam e são exercidas em relação ao(s) outro(s). Por conta de sua multiorigem, o poder é onipresente e, essas relações de força que o constituem são “o jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte”, isto é, “um nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada (Foucault, 2009, p. 102-3). Com isso, “o homem, assim pensado, nada mais é que uma série de ocorrências transitórias num campo de lutas sempre aberto” (Branco, 2008, p. 143).

Dessa forma, Foucault (2009) observa que o poder: - ocorre a partir de relações assimétricas e instáveis;

- é inerente às relações socioeconômicas, de conhecimento e das relações sexuais;

- atua em feixes de relações, incluindo aparelhos de produção e família; - tem intenção, objetividade e capilaridade, e,

Em sua obra “O Poder Psiquiátrico”, na aula de 21 de novembro de 1973, Foucault esmiúça o chamado poder disciplinar. Por tomar o tempo, o corpo e a vida do individuo/ soldado, dizemos que o poder disciplinar consiste em um controle e vigilância contínuos, com o objetivo de que a vigilância esteja introjetada no indivíduo e que a disciplina, em si, torne-se um hábito. Ou seja, o objeto do poder disciplinar será a virtualidade do comportamento

Antes mesmo de o gesto ser feito, alguma coisa deve poder ser detectada, e o poder disciplinar deve intervir; intervir de certo modo antes da manifestação mesma do comportamento, antes do corpo, do gesto ou do discurso, no nível que é a virtualidade, a disposição, a vontade, no nível do que é a alma. (Foucault, 2006, p.65)

Pelo fato do poder disciplinar ser isotópico, isto é, apesar das relações de forças, à primeira vista e, de modo subliminar, parecerem iguais, elas, por si, contêm elementos inclassificáveis e, portanto, não há como serem iguais. Assim, haverá margens pelas quais o poder disciplinar se esvai. O exemplo que Foucault coloca sobre a relação do débil mental e a sua (in)capacidade de aprendizagem de leitura e escrita pode ser vista como problema, só o pode ser, a partir do momento em que existe uma disciplina escolar que normatiza o que é ser um aluno que consegue apreender os ensinamentos escolares. O mesmo pode ser dito em relação aos delinquentes, que só aparecem e são reconhecidos como tais quando há dispositivos disciplinares policiais que os podem enquadrar segundo o que é considerada uma conduta adequada ou não.

Como é feito para funcionar independentemente de quem o exerça, pois se trata de efetivar e/ou sobrepujar uma relação de força sobre outra, o poder disciplinar transforma o individuo em função-sujeito: são relações de poder em cascata e também em rede. Da família (ou melhor, do fim-de-linha como menciona o filósofo Luiz Fuganti (2010) já que é ela quem recebe, devolve, incorpora, legitima e encerra todos os micropoderes de controle da sociedade) ao Estado, todos os feixes das relações de poder perpassam os indivíduos e, consequentemente, as demais instituições.

(...) estes sujeitos, de uma forma ou de outra, participam na dinâmica da estratégia envolvida, quer seja rejeitando-a, filiando-se a ela,

minando-a, desacreditando-a, remanejando-a, enfim, atuando com, contra, sobre e pela linha de força em questão. (Carvalho, 2010, p. 69)

É por isso que Foucault (2009, p.244) conceitua estas instituições como instituições de sequestro, que só funcionam por meio de dispositivos previamente reconhecidos, que englobam o dito e o não-dito.

As instituições de sequestro são assim denominadas porque elas se encarregam de toda a dimensão temporal da vida dos indivíduos e possuem três funções: extraem todo o tempo do ser humano; controlam sua existência a fim de que o tempo de vida seja também um tempo de trabalho, um tempo produtivo, e, por fim, criam um poder polivalente (Foucault, 1996, p.119-122).

Para que o sequestro tenha efeito, é preciso que existam vigilância, controle e correção. E esses mecanismos poderão se dar por meio daquilo que Foucault vai denominar de Panoptismo.

Este é um conceito oriundo do Panóptico, obra proposta por Bentham, no século XIX. Teoricamente, aquilo que será denominado como o Panóptico é uma estrutura arquitetônica, que pressupõe uma construção em formato de anel, onde no meio dessa estrutura há uma torre, vazada de amplas janelas que se abrem para a parte interna do círculo que contém diversas celas. Ao se colocar um vigia na torre, esse pode observar tudo o que ocorre em cada uma das celas, sem, necessariamente, ser visto pelo “prisioneiro”. Pelo fato de poder ver o outro sem ser reconhecido, o vigia detém um poder que lhe é outorgado pela construção arquitetural, pois nem sempre o vigia estará observando o detento, porém, a ideia é de que a sensação de vigilância esteja presente durante as 24 horas do dia, todos os dias.

Na quarta conferência do livro “A verdade e as formas jurídicas”, edição de 1996, Foucault define o Panoptismo por meio de seu histórico e suas relações, apresentando seus primeiros indícios quando são criadas as bases do Direito Penal, na institucionalização da punição e das penalidades.

As reflexões sobre a vigilância iniciam com o Livro sobre as Prisões, de Giulius. Nele, se explicam as diferenças entre as preocupações arquitetônicas na Grécia clássica e as preocupações modernas como, por exemplo: como um gesto podia ser visto por um maior número de pessoas (espetáculo) e como uma única

pessoa podia “vigiar” um grande número de pessoas. Esses modos distintos apresentam diferenças cruciais na forma social de se ver os indivíduos. “(...) o aparecimento deste problema arquitetônico é correlato ao desaparecimento de uma sociedade que vivia sob a forma de uma comunidade espiritual e religiosa e ao aparecimento de uma sociedade estatal. O Estado se apresenta com uma certa disposição espacial e social dos indivíduos, em que todos estão submetidos a uma única vigilância” (Foucault, 1996, p. 106). Assim, o panoptismo existe no cotidiano das instituições, e, consequentemente na vida e nos corpos de todos os indivíduos.

Interessante notar que Foucault (2007) esmiúça os dois caminhos pelos quais o panoptismo dar-se-á, diferenciando-os por meio de suas tragédias: a exclusão dos leprosos e a reclusão dos pestilentos. Exclusão e reclusão também fazem parte da estratégia de controle do adolescente em conflito com a lei, como veremos mais adiante.

Desde que há punição e correção na sociedade, a exclusão e o banimento foram formas de “castigar” àquilo que a norma, a regra e/ou a Lei apresenta como normal, adequado, perfeito. A lepra será considerada uma dessas possibilidades de anormalidade dentro da sociedade por muitos e muitos séculos e como forma de controle, a exclusão dos doentes para além dos muros das cidades é o efeito encontrado para tal.

Já as famosas pestes que ocorrem no século XVII vão possibilitar o surgimento de toda uma tecnologia de controle e reclusão por parte dos indivíduos para com seus pares. A proposta da reclusão, além de colocar o sujeito em um espaço pré-determinado no qual possam ser feitos os devidos controles do espaço físico e da própria população em quarentena, a tecnologia proposta pela reclusão fará com que todos os movimentos possam ser monitorados, onde o grupo dominante de controle – que pode ser x, y ou z, pois não importa quem o faça, importa que se faça - e que faz uso do poder possa exercer esse controle, e que onde quer que esse indivíduo se encontre, ele possa estar limitado e identificado. A disciplina dá seus primeiros sinais sobre o corpo.

Foucault entende que, apesar de diferentes modos de condução para aquilo considerado não-normal, a reclusão e a exclusão são compatíveis e caminharão juntas a partir do século XIX, quando o leproso começa a receber o “quadriculamento” disciplinar. Desde então, toda a série de disciplinas que tratam o “pestilento” começam a ser adotadas para o tratamento do leproso e, por

conseqüência, por todas as instituições de correção e normalização como hospitais, penitenciárias, escolas, asilos, manicômios. Ou seja, serão constituídos processos de individualização com o objetivo de melhor vigiar, controlar, normalizar.

“Todos os mecanismos de poder que, ainda em nossos dias, são dispostos em torno do anormal, para marcá-lo como para modificá-lo, compõem essas duas formas de que longinquamente derivam. (Foucault, 2007, p.165).

O pesquisador francês também apresenta o relato das regras e normas de funcionamento (horário de acordar, realizar atividades, dormir, comer etc) de uma fábrica de mulheres que trabalhavam na região do Ródano (Foucault, 1996, p. 107- 110). Ao relatar as instruções, a idéia é transmitir ao leitor a apresentação de qualquer instituição de sequestro como um hospital, convento ou qualquer outra instituição total se empregarmos o conceito de Erwin Goffmann (1974).

As fábricas-prisões foram uma realidade nos primórdios da industrialização e muitas das instituições que começaram a existir naquele período tinham um modelo de funcionamento baseado em vigia e controle, ou seja, no modelo panóptico. Porém, na medida em que a economia dessas mesmas instituições passa a sofrer dificuldades, muitas delas começaram a ruir. E com a “queda” destas fábricas- prisões, mantiveram-se apenas algumas técnicas de internamento, reclusão e fixação da classe operária. Assim, criaram-se as cidades operárias (no nosso caso brasileiro, há a periferia e/ou cidades satélites), caixas econômicas (por conta do desemprego), caixas de assistência social, entre outras medidas.

A reclusão, como medida punitiva exercida e mantida desde o século XIX, é uma herança direta das duas correntes/ tendências que se encontram no século XVIII. “(...) É uma combinação de controle moral e social, nascido na Inglaterra, com a instituição propriamente francesa e estatal da reclusão em um local, em um edifício em uma instituição, em uma arquitetura” (Foucault, 1996, p.112). O estudioso cita o exemplo da vigia e controle que ocorria dentro de um mesmo grupo (quakers) no século XVIII. Ali, é o fato do indivíduo pertencer ao grupo que fará com que ele possa ser vigiado.

Se no século XVIII temos a reclusão como meio para excluir os marginais ou reforçar a marginalidade, no século XIX, é o sequestro que vai imperar a fim de

incluir e, ao mesmo tempo, normalizar os indivíduos. Aqui, não é o grupo que controlará o individuo, mas a instituição, que faz parte de uma coletividade, é que será controlada.

A prisão, para Foucault (1996), instituição criada no século XIX, será uma forma concentrada e simbólica de todas as formas de sequestro criadas até então, será muito mais que uma forma econômica, penal ou corretiva. A prisão vai emitir o discurso do consenso social e o discurso da separação e diferença entre as outras instituições. É na prisão que o poder disciplinar reina, pois “tem a dupla propriedade de ser anomizante, isto é, de sempre pôr de lado certo número de indivíduos, de ressaltar a anomia, o irredutível, e de ser sempre normalizador, de sempre inventar novos sistemas recuperadores, de sempre restabelecer a regra” (id.,1996, p. 68).

Assim,

(...) a disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, (chamados) corpos “dóceis”. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência). (...) Se a exploração econômica separa a força e o produto do trabalho, digamos que a coerção disciplinar estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e uma dominação acentuada. (Foucault, 2007, p.119).

Para que o exercício da disciplina em um corpo tenha efeito, é necessário que existam algumas características em torno deste corpo. A principal delas é a presença de um local apropriado para a execução do processo disciplinar. Alguns instrumentos disciplinares serão necessários, como: a especificação de um local fechado em si mesmo para a presença do corpo, o quadriculamento (espaço definido pelo corpo na instituição a fim de que seja rapidamente localizável), as localizações funcionais e observáveis dos espaços, o controle das atividades por meio do horário, da elaboração temporal do ato (ou de como o individuo pode e deve se portar em determinada circunstância, seja na marcha de uma tropa, seja na marcha rumo ao refeitório), a não-ociosidade desse corpo e a vigilância feita por um aparelho com técnicas altamente sofisticadas e hierarquizadas com vistas às sanções, exames e punições.

Hoje, as instituições de sequestro possuem a finalidade de fixar o individuo em uma situação de normalização. “A fábrica, a escola, a prisão ou os hospitais têm

por objetivo ligar o individuo a um processo de produção, de formação ou de correção dos produtores. Trata-se de garantir a produção ou os produtores em função de uma determinada norma” (Foucault, 1996, p. 114).

É interessante observar que a ideia de prisão na Idade Média não existia com o propósito de controle. O confinamento ou internação serão opções de controle quando o capitalismo iniciante se depara com os problemas causados pelo desemprego, marginalidade, revoltas populares e insurreições. As prisões, naquele tempo, eram destinadas às pessoas que aguardavam julgamento pelas infrações cometidas até que pagassem o resgate ou até o momento da execução (Foucault, 2006, p. 287).

Rememorando o surgimento da Fundação CASA, lembremo-nos que, em 1902, com o objetivo de educar, é criado o Instituto Disciplinar e a Colônia Correcional. Aqueles que iam para o Instituto Disciplinar recebiam educação primária, trabalhavam na agricultura e desempenhavam outros serviços de modo a corrigir um comportamento ruim, com trabalhos na cozinha, banheiro e lavanderia.

Cursos e oficinas voltadas ao ensino de ofícios e artes também aconteciam, de acordo com a disponibilidade da instituição, além de ensinamentos sobre moral e civismo. O domingo era livre.

Já a Colônia Correcional era voltada para a reabilitação de jovens considerados “vadios”, ou seja, àqueles que se sustentavam pela prática do jogo (crime conforme artigo 374 do Código Penal), além daqueles que realizavam atividade proibida por lei e reincidentes.

De acordo com Moura (2005, p.31-32), os jovens podiam ter sua religião e credo, os castigos corporais eram proibidos, porém havia punições como privação de liberdade em cela escura para casos graves.

É no inicio do século XX, mais precisamente, em meados da década de 20, que acontecem algumas mudanças significativas no trato com a criança e o adolescente, seja abandonado ou praticante de ato infracional: o termo “menor” começa a ser utilizado por juristas para denominar jovens e adolescentes abandonados ou que teriam cometido uma infração; inaugura-se o 1º. Juizado de Menores de São Paulo e, aprova-se um decreto, na qual se regulamentava a assistência e proteção aos menores por existir um pressuposto de que o ato cometido ou a situação de abandono era originada pela pobreza. Segundo Moura, a

questão passa a ser social e não policial, envolvendo conhecimentos jurídico- médicos.

A criação de instituições de sequestro ainda faz parte do plano de governo do Estado de São Paulo. Na gestão passada (2006-2009), a meta era construir 57 unidades de internação nas cidades do interior e grande São Paulo. Até novembro de 2010, 51 unidades já haviam sido construídas.

Esses novos alojamentos têm capacidade máxima para receber 56 adolescentes – 40 deles em internação e 16 em internação provisória. E segundo eles “esteticamente, as unidades lembram escolas, em contraposição à imagem prisional dos complexos da antiga Febem. Elas têm três pisos, com salas de aula e recreação, dormitórios, consultórios médico e odontológico e uma quadra

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