UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO
ESCOLA DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO E SAÚDE NA
INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA
KATERINA VOLCOV
AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA PRÁTICA DE YOGA JUNTO
AOS ADOLESCENTES INTERNOS E FUNCIONÁRIOS DA
FUNDAÇÃO CASA
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO
ESCOLA DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO E SAÚDE NA
INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA
KATERINA VOLCOV
AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA PRÁTICA DE YOGA JUNTO
AOS ADOLESCENTES INTERNOS E FUNCIONÁRIOS DA
FUNDAÇÃO CASA
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da Universidade Federal de São Paulo como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Ciências.
Orientador: Prof. Dr. José R. S. Brêtas
Ficha Catalográfica
Universidade Federal de São Paulo
Biblioteca da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Volcov, Katerina.
As representações sociais da prática de yoga junto aos adolescentes internos e funcionários da Fundação CASA/ Katerina Volcov. – Guarulhos; [s.n.], 2011.
188 p.
Orientador: José Roberto da Silva Brêtas
Dissertação (Mestrado) –Universidade Federal de São Paulo, Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Guarulhos, 2011.
Social representations of yoga practice with adolescents residents and employees of the Fundação CASA /
KATERINA VOLCOV
As representações sociais da prática de yoga junto aos adolescentes internos e funcionários da Fundação CASA
Guarulhos,_____/_____/2011.
_____________________________________________________________ Prof. Dr.
Instituição
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Instituição
_____________________________________________________________ Prof. Dr.
“As bênçãos” “Não tenho a anatomia de uma garça pra receber Em mim os perfumes do azul. Mas eu recebo. É uma benção. Às vezes se tenho uma tristeza, as andorinhas me
Namoram mais de perto. Fico enamorado. É uma benção. Logo dou aos caracóis ornamentos de ouro Para que se tornem peregrinos do chão Eles se tornam. É uma benção. Até alguém já chegou de me ver passar A mão nos cabelos de Deus! Eu só queria agradecer.”
Manoel de Barros
Agradeço:
Aos queridos ex. alunos da Fundação CASA e participantes desta pesquisa. À Eliane Schmidt, precursora da prática de yoga na antiga FEBEM, hoje, CASA. À Fundação CASA e seus funcionários, principalmente, àqueles que puderam participar deste estudo.
Ao mui querido orientador de jornada, Prof. Dr. José Roberto da Silva Brêtas, um verdadeiro lord, pela confiança, apoio e gentileza. Muita gratidão, professor.
À cara Profa. Dra. Maria Cristina Vicentim, pela escuta, atenção e considerações. Meu sincero e profundo “muitíssimo obrigada”.
À querida Profa. Dra. Amália Covic, pela intensidade, interdisciplinaridade e possibilidades em aula. Foram inesquecíveis, professora. Obrigada.
Aos professores Dr. Pedro Paulo Rezende e Dr. Alexandre Filordi de Carvalho, pelas boas conversas foucaultianas.
À Profa. Dra. Carmem Lucia de Albuquerque Santana pelo aceite em participar desta banca.
Ao grupo de colegas e professores do Programa de Pós-Graduação em Educação e Saúde na Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo pelo conhecimento compartilhado, em especial, à Profa. Dra. Maria de Fátima Carvalho. Aos professores Marcos Rojo Rodrigues e Lia Diskin pelo apoio na pesquisa.
Aos funcionários da Biblioteca e da Secretaria de Pós-Graduação em Educação e Saúde na Infância e Adolescência da UNIFESP.
À CAPES, pela bolsa.
Aos artistas pelo som, imagem, fúria, beleza, suavidade, mares e devires.
Aos queridos Alan Zanini e Ana Lúcia Berndt, pelo zelo, questionamentos, revisão e comentários nas leituras.
À gentil Paula Paschoalick, pela arte, e ao amigo reencontrado,Tiago Vassão, pela multimídia.
Ao Andres Legum, pelas boas sementes que frutifica(ra)m.
E a todos que direta ou indiretamente contribuíram para a realização deste estudo, em especial, pelo que nos une, à Carolina Mandell, Claudio Cesarini, Deise Fernandes, Elza Melo, Elizane Mecena, Igor Penna, João Carlos Pereira, Juliana Carvalho, Lorenzo Portoghese, Luciana Calvo Dorta, Luciana Fuoco, Marcos Zibordi, Monica Barbosa, Monica Soutello, Paulo Loureiro Júnior, Rodrigo Rocha e Simone Kubiak.
Aos do-lado-de-lá, ao mistério, ao divino e tudo-o-que-isso-possa-ser;
E, por fim, agradeço intensa e imensamente:
Aos meus antepassados.
À minha Tiana, Ana Maria Koldaev, pelo apoio durante a vida. Ao meu saudoso pai, Alejandro Volcov (in memorian), pelo amor.
Ao meu querido irmão, Alexander Volcov (in memorian), que me ensinou que a vida é breve.
Ao meu menino amado, Ravi Volcov Legum, sol que ilumina meus dias, pelo seu sorriso, abraços, poesia e alegria!
E à minha querida mãe, Liliana Lidia Bufrini, pelo afeto e pelo muito que me auxiliou nestes dois anos de intenso trabalho. Muitíssimo obrigada, minha mãe!
“Om
O que é bom escutemos, deuses, com os ouvidos; O que é bom vejamos, venerandos, com os olhos, Elogiando com membros fortes, com os corpos, Alcancemos o dom dos deuses, a vida.
Prosperidade nos outorgue Indra, de crescente fama; Prosperidade Pusan, o onisciente;
Prosperidade Tarksya, no caminho seguro; Prosperidade nos outorgue Brhaspati. Om, paz, paz, paz”.
RESUMO
VOLCOV, K. As representações sociais da prática de yoga junto aos adolescentes internos e funcionários da Fundação CASA. Dissertação (Mestrado), 2011, 188 p. Programa de Pós-Graduação em Educação e Saúde na Infância e Adolescência. Universidade Federal de São Paulo. Guarulhos, São Paulo.
Trata-se de uma pesquisa de orientação qualitativa, utilizando a teoria e método propostos pelas Representações Sociais a respeito da prática de yoga junto a adolescentes internos e funcionários da Fundação CASA. Como objetivos do estudo, temos: caracterização dos sujeitos; contextualização da atividade de yoga dentro da unidade da Fundação CASA; análise da atividade de yoga enquanto cuidado de si e seus possíveis impactos na vida do jovem interno dentro da Fundação CASA por meio das representações sociais dos adolescentes praticantes e dos funcionários da instituição e, por fim, descrição das dificuldades e desafios para a construção de um sentimento de paz e bem-estar internos. Realizada na Unidade de Internação Divisão Regional 5 – Unidade de Internação Paulista, na Vila Maria, em São Paulo, a pesquisa contou com a participação de quatro adolescentes e cinco funcionários da instituição. Como instrumentos de coleta de dados foram utilizados a entrevista com três questões norteadoras e a observação participante. Os dados obtidos e organizados a partir da Teoria do Núcleo Central desvelaram um desenho que tem como núcleo central a prática de yoga na Fundação CASA e núcleos periféricos “repercussões da prática de yoga”, “conceito”, “dificuldades” para o grupo formado por adolescentes internos, e “percepção da repercussão da atividade”, “dúvidas” e “conceito”, para o grupo de funcionários. Bem-estar, vínculo, auto-avaliação, resistência, ambiente e cotidiano, auxílio no cumprimento da medida socioeducativa, postura corporal e desconhecimento foram alguns elementos periféricos surgidos nas narrativas dos participantes. Comentado à luz das teorias de Winnicott e Foucault, o material permitiu observar diferenças no entendimento dos objetivos, conceitos e vivências ao que se propõe o yoga entre os grupos, ao mesmo tempo em que aproxima dificuldades. O estudo deu voz para ambos os públicos apresentarem suas respectivas representações sociais sobre a yoga praticada nas dependências de uma instituição de seqüestro.
ABSTRACT
The social representations of the practice of yoga with adolescent residents and employess of CASA Foundation
This is a qualitative research project, conducted using theory and methodology proposed by Social Representation with respect to the yoga practice of adolescent inmates and employees of the CASA Foundation. The objectives of the study are based on the following themes: characterization of the subjects; contextualization of the yoga activity within the organization of CASA Foundation; analysis of the yoga practice as a self-help tool and its potential impacts on the lives of young residents in the CASA Foundation through social representation of the adolescent practitioners and staff of the institution and, finally, an analysis of the difficulties and challenges involved in building a sense of inner peace and well-being.
Held at the “Unidade de Internação Divisão Regional 5 – Unidade de Internação Paulista”, in Vila Maria, São Paulo, the survey was carried out with the participation of four teenagers and five employees of the institution. Interviews with three guiding questions and the observation of participants were used as data collection instruments. The data collected and organized using the Central Nucleus Theory unveiled a design that has as its core the practice of yoga in the CASA Foundation with peripheral nuclei of "repercussions of the practice of yoga", "concepts" and "difficulties" for the group composed of internal adolescents, and "perception of the impact of activity," "doubts" and "concepts" for the group of employees. Factors relating to well-being, attachment, self-assessment, resistance, environment and everyday life were important in compliance with the socio-educative measures and body posture and lack of knowledge were some of the peripheral elements emerging from the narratives of the participants.
Considered through Winnicott´s and Foucault´s theories the material allowed us to observe differences in the understanding of objectives, concepts and experiences in the proposal of the practice of yoga between the different groups, at the same time as these difficulties arise. The study gave voice to both participant groups, allowing them to submit their social representations of the yoga practiced in the premises of a corrective institution such as this.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES Página
Figura 1 - Arvore Máxima das representações sociais da prática de
LISTA DE SIGLAS
ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente
Fundação CASA – Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente
PRTE – Projeto de Reorganização de Trajetória Escolar
PIA – Programa Individual de Atendimento ao Adolescente
SINASE – Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo
TRS – Teoria das Representações Sociais
UI – Unidade de internação
UIP – Unidade de internação provisória
UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo
UNIFMU – Universidade Faculdades Metropolitanas Unidas
US – Unidade de semi-liberdade
SUMÁRIO Página
Introdução 14
Capítulo 1 – Ancorando o objeto de estudo 26
1.1. Adolescer na Fundação CASA 27
1.2. O controle do corpo delinquente 33
1.3. Cuidado de si e resistência 50
1.4. A delinquência sob a ótica winnicottiana 58
1.5. Yoga como cuidado de si 67
Capítulo 2 – Itinerário Metodológico 78
2.1. Tipo de Pesquisa 78
2.2. Aspectos Legais da Pesquisa 86
2.3. Sujeitos do Estudo 87
2.4. Local da Investigação 88
2.5. Instrumentos da Pesquisa 88
2.6. Para a análise dos dados 92
Capítulo 3 – Apresentação e Análise dos Dados 94
3.1. Apresentação dos sujeitos 94
3.2. A Árvore Máxima da Representação Social e sua elucidação
96
Considerações Finais 168
Referências Bibliográficas 173
“Úsame. Háblame. Enseñame. Enseñame a ver, a ver mas allá, madre, a ver al hombre dentro del hombre, a ver el sol dentro y fuera del hombre. Enseñame a ver, madre. Usa mi cuerpo y hazme brillar, con brillo de estrellas con calor de sol, con luz de luna y fuerza de tierra, con luz de luna y calor de sol”.
INTRODUÇÃO
Foi em novembro de 2006 que dei minha primeira aula de yoga em uma unidade de internação provisória (UIP) na Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente – CASA, com adolescentes de idades entre 13 e 17 anos.
Ao olhar do lado de fora não se imagina o quão alto é o pé direito da UIP-12, no Brás, local desta primeira narrativa. As janelas com grades estavam no alto, a uns quinze metros de altura do chão. Paredes pintadas de amarelo. Cerca de trinta meninos vestidos com moletom vinho, sentados em posição carandiru1, isto é, sentados ao chão, mãos sobre os joelhos dobrados e a cabeça abaixada. Não me intimidaram. Meu sentimento era apenas de tristeza. Ver aquele grupo de meninos sentados daquela forma era penoso. Alguns viam a sessão da tarde, em uma TV de 20 polegadas que devia estar cerca de quatro metros do piso. Desperdício. Vidas desperdiçadas, diria Bauman (2005).
Eu precisava ir até o 5º andar e até chegar lá, atravessei grades e mais grades. Em cada grade, havia um cadeado enorme que era aberto por um guarda. Daria aula no anfiteatro da unidade. Um espaço de cor cinza, enorme e frio.
Nove adolescentes me esperavam e eles “não estavam bons” naquele dia, como disseram. Dois deles já haviam se manifestado dizendo que não queriam participar da aula. Aceitei. Era nova na área e aquela era uma unidade de internação provisória. Isto é, os adolescentes ficam nesta unidade até que a juíza decida qual medida socioeducativa o adolescente receberá.
Então, eu disse que iríamos conversar e que, depois, praticaríamos yoga. Lá, há uns 30 metros distantes, estava o vigilante. Apresentei-me aos meninos e lhes falei da importância da respiração e de sua ligação com o medo (“mais adrenalina, mais respirações curtas”). O objetivo era aprofundar esse tema e entrar nas questões da libertação do sofrimento.
Perguntei-lhes se tinham medo. Então, cada um disse o que lhe vinha à mente. Uns disseram que não tinham medo de nada. Um disse que tinha medo de polícia. Outro, que a mãe morresse e um outro, de morrer queimado.
Ao ouvir aquilo, parei e repeti: “morrer queimado?”. Por quê? E o menino contou: “Eu estava em uma outra unidade. Numa noite, o menino que dormia comigo, ateou fogo no colchão. Nós pedimos ajuda e ninguém veio. Ele morreu assim. Queimado”. E na sua contação doída, o rapaz se encolhia, falava sentido, magoado. Olhei-o e não sabia nem o que responder àquela dor. Comovia-me e só consegui dizer “Lamento que você tenha presenciado isso. Eu sinto muitíssimo que seu colega tenha morrido dessa forma e que você estivesse ao seu lado. Só posso dizer isso e, infelizmente, não há nada que eu possa fazer para que você não se lembre mais. O que sei que posso fazer, agora, é vir dar aulas de yoga para vocês. Isso eu sei que posso fazer e é por isso que eu estou aqui”.
Mais um menino falou sobre seu medo de morrer. Falamos sobre formas possíveis da libertação do sofrimento. Seria possível ali?
A aula correu bem e os dois meninos que até aquele momento estavam resistentes, resolveram participar. Tudo aconteceu de forma tão harmoniosa que esses mesmos rapazes relaxaram tanto que dormiram. Quando acordaram, disseram que, como não dormem à noite, foi bom terem dormido ali. Há medo de dormir e não acordar mais.
Os meninos se despediram agradecendo a aula, perguntando quando eu voltaria e disseram “vai com deus, senhora”. Jeito deles de dizer que gostaram, jeito deles de dizer que me queriam bem e lá de volta. A lembrança do filme “Carandiru” estava presente nesse dia e lembrei-me da cena em que o Dr. Dráuzio está indo embora e o detento-cozinheiro questiona “quando voltas, doutor?”.
Saí de lá repleta. Dentro de mim não cabia tanto. De certo modo, senti que havia ido até as profundezas e também até as entranhas daqueles jovens e voltado. E talvez eles também tenham ido até as minhas. Quem saberá?
Em 2007, com o intuito de registrar historicamente a atividade de yoga nas unidades, pude realizar entrevistas junto a outros professores e adolescentes internos2.. Por conta disso, obtive relatos que me surpreenderam no que diz respeito à forma como o corpo era vivenciado, os benefícios encontrados e como a linguagem exercia um dos fatores predominantes para o entendimento ou não das
experiências do corpo por meio do yoga, como o relatado por um dos professores que lecionava na unidade de internação Itaquera: “Aconteceu no caso de uma passagem entre um ásana3 e outro. Eu pedi que os meninos ficassem de pé olhando
para a parede. Na ocasião, dois meninos imediatamente afastaram os pés e levantaram as mãos como se fossem ser revistados. Eu choquei e pensei “será que eu falei algo errado?”. Para sair dessa situação, eu disse “estar em pé, em frente à parede, é simplesmente estar em pé. Então, juntem os pés, abaixem as mãos e olhem um ponto fixo na parede. E os meninos, então, se recolocaram” (Cesarini, 2007).
De posse do material, fiz um vídeo4 e a monografia “Yoga e voluntariado: a prática junto aos internos da Fundação CASA-SP” para o curso de especialização em Yoga e resolvi me aprofundar nessa problemática a fim de entender melhor como os adolescentes e funcionários da instituição percebiam e vivenciavam a atividade. E assim surgiu a ideia de trabalhar o tema de modo interdisciplinar por meio de uma pesquisa em nível mestrado.
O interesse em discutir o potencial do yoga dentro de uma instituição de proteção integral deve-se ao fato de ter atuado como professora voluntária em unidades da Fundação CASA desde 2006. Passei pelas unidades UIP-8 e UI-34, ambas situadas no bairro do Brás, em São Paulo, e desenvolvi as atividades na unidade de internação Divisão Regional 5 – Unidade de Internação Paulista, localizada no bairro da Vila Maria, também na capital paulista.
Buscando contextualizar a problemática que envolve os sujeitos de minha práxis e objeto deste estudo, no Brasil, segundo dados do censo 2008 do PNAD- Pesquisa Nacional por Amostra de Domicilio- há 35.287.882 pessoas que estão na faixa etária entre 10 e 19 anos, faixa etária correspondente à adolescência preconizada segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS, 1965, p.29).
Desse contingente populacional, apenas na região sudeste, conforme Levantamento Nacional do Atendimento Socioeducativo ao Adolescente em Conflito com a Lei – 2009, realizado pela Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, em dezembro de 2009, período da coleta de dados, havia 8819 adolescentes em cumprimento de medidas privativas de liberdade. Em São Paulo,
3 Palavra em sânscrito que significa “postura física”.
no mesmo período, considerando internação, internação provisória e semiliberdade, havia 6226 jovens sendo: 5952 do sexo masculino e 274 do sexo feminino. As taxas de crescimento no Estado foram de 10% e 18,48% para a internação e semiliberdade, respectivamente, em relação ao ano anterior. A internação provisória contou com uma deflação de 5,34%, porém São Paulo continua sendo o estado com maior população em cumprimento de internação, concentrando 37% dos adolescentes em regimes em meio fechado no Brasil.
Do latim ad (a, para) e olescer (crescer), adolescer é o processo de desenvolvimento e crescimento do indivíduo que sai da infância e se dirige à vida adulta. Aberastury (1980) observa, biologicamente, que a adolescência é o período da vida que se inicia com a puberdade (de puder, pêlos, isto é, com o nascimento dos pêlos pubianos) até o desenvolvimento completo do corpo, cuja finalização para a vida adulta, dá-se, geralmente entre os 18 e 23 anos no homem, chegando em alguns casos exceder-se até os 27 anos.
Segundo Knoebel (1980), esse período é caracterizado por uma série de modificações físicas, psíquicas, emocionais e sociais. As transformações do próprio corpo, as alterações de humor passando pelas crises de identidade e a busca de sua individualidade, a necessidade de intelectualizar e fantasiar seu universo, o descobrimento da sexualidade e sua posterior evolução sexual, o deslocamento temporal e a (não) urgência e contradição para determinadas condutas, as crises de fé a respeito do que possa ser o divino, a separação progressiva em relação aos genitores, a prevalência de atitudes sociais reivindicatórias junto à tendência de participação de grupos.
É importante considerar, como bem coloca Outeiral (2008), que há várias adolescências no adolescer e há várias experiências de adolescência porque, afinal, cada sujeito é único em sua individualidade, apesar de ser possível verificar pontos comuns entre todos os indivíduos nesta fase. O que deve ser salientado é que, por ser um processo biopsicossocial, a adolescência tem relação direta com sua situação social, econômica e cultural.
indivíduo adulto ideal, para a qual foi necessária a instauração de seus duplos negativos, isto é, os delinquentes, os perversos, os rebeldes”.
No entanto, estudar o problema da adolescência ou os problemas originados a partir dela só foram possíveis com a invenção da família nuclear e da escolarização seriada, onde a disciplina e os dispositivos psicopedagógico e médico-higienistas a sustentavam (César, 2008; Adorno et al, 1999).
Nessa perspectiva, as pesquisas realizadas pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), observando as possíveis relações entre adolescência e delinqüência, são esclarecedoras.
Adorno et al (1999) fizeram um levantamento histórico da condição da criança e do adolescente e das preocupações sociais sobre este público. Segundo ele, a associação entre adolescência e criminalidade não é algo próprio de sociedades consideradas subdesenvolvidas. Inquietações mais constantes se intensificam a partir do século XIX em países como Canadá, França, Inglaterra, Estados Unidos, Itália e Alemanha.
Quatro tendências explicativas serão apresentadas por Adorno para entender se a adolescência produz e como produz a criminalidade.
A primeira tendência, oriunda da sociologia norte-americana, conceberá que a delinqüência juvenil é resultado da falta de controle em diversos níveis, associada à pobreza que assola as grandes metrópoles.
A segunda tendência concentrou-se em estudos na observação sistemática da evolução da delinqüência juvenil por meio de estatísticas oficiais. Observou-se então que os jovens não só eram autores de crimes, mas também eram vítimas.
adequados do ponto de vista da moralidade pública e privada” (Adorno et al, 1999, p.66).
Assim, partindo do pressuposto de que são necessárias políticas públicas de controle social para a delinquência juvenil, teremos uma quarta tendência de entendimento para o fenômeno, que se divide em duas orientações opostas.
De um lado, a partir dos anos 80, criam-se legislações, princípios e recomendações desenvolvidas por agências normativas de abrangência internacional. O intuito é investir em mão-de-obra especializada, em pesquisa e em avaliação de programas e políticas sociais a fim de garantir os direitos fundamentais para impedir o abandono e a delinquência.
A outra orientação, por sua vez, conclama a reversão das políticas liberais no modo como são tratados os adolescentes delinquentes. Tanto as imagens veiculadas da delinquência juvenil quanto as estatísticas oficiais irão corroborar para um maior controle dessa parcela da população, assim como para a criação de normas e leis mais rigorosas nas chamadas políticas de redução de riscos como ocorreu nos Estados Unidos e na Inglaterra na década de 90.
De acordo com os pesquisadores, esses modos de tratar a delinquência juvenil também estão presentes na maneira como a sociedade brasileira trata da questão. Aqui, o discurso de que o número de crimes cometidos por adolescentes cresce anualmente, também se reflete na posição tomada por grupos da sociedade civil que trabalham na criação de medidas mais severas e de detenção de adolescentes com fins de queda ou extinção das infrações.
Os pesquisadores observaram que, entre 1993 e 1996, houve “sensíveis mudanças”, em comparação ao período entre 1988 e 1991. Quanto à natureza das infrações, houve aumento das lesões corporais e dos roubos, em diminuição dos furtos. Vale salientar que “11,7% de todos os registros referiam-se a lesões corporais resultantes de agressões, uma proporção quase três vezes maior do que o porte ilegal de armas e do que as infrações relativas ao porte, consumo e tráfico de drogas” (Adorno et al, 1999, p.68).
Além disso, ao mesmo tempo em que há maior visibilidade do aumento do envolvimento de jovens no crime, seja na mídia, seja em números oficiais, o mesmo ocorre com a vitimização desse público. Segundo o “Mapa da Violência 2011: os jovens no Brasil”, acidentes de trânsito e homicídios são os atos que põem em risco, hoje, a vida de adolescentes. Por exemplo, a média nacional de homicídios da população jovem5 é 258% maior que a taxa de homicídios entre os não-jovens (Walselfisz, 2011, p.154).
Outra explicação para o maior número de adolescentes na criminalidade é a participação desses em gangues envolvidas no crime organizado. Contudo, devido às diferenças entre o conceito de gangue, procedimentos metodológicos e até mesmo a falta de informações legais, é possível que “a delinquência juvenil organizada esteja subestimada pelas próprias fontes oficiais ou oculta no interior da criminalidade adulta” (Adorno et al, 1998, p.71). Os autores observam que há razões, no entanto, para se pensar nas relações dinâmicas que envolvem as atividades no narcotráfico e o aumento da criminalidade e do homicídio contra jovens.
Outro estudo que observa as características e tendências sobre a delinquência juvenil na segunda metade do século XX e nos anos 2001 e 2002, é o de Toledo (2006). O pesquisador mostra que entre 1950 e 2000, as taxas de participação dos adolescentes em atos infracionais aumentaram, sendo que entre 1985 e 1995, houve um grande salto, quando saímos de 18,1 para 96,1 por 100 mil habitantes. Em 2001, o aumento persistiu e a taxa foi de 129 por 100.000 habitantes” (2006, p.7). Para chegar a estes números, o estudioso consultou 10% do total de prontuários dos adolescentes pertencentes ao núcleo de documentos da então FEBEM/ São Paulo, à exceção de 1950, ano em que todos os prontuários foram examinados. No total, a amostra contou com 2.432 fichas.
Toledo fez uma revisão dos estudos já realizados a respeito da delinquência na tentativa de descrever e entender este fenômeno. Ele observou que a pauperização e o incremento da difusão do tráfico e consumo de drogas são as explicações mais recorrentes para o crescimento da delinquência.
Assim, a fim de conter a violência e seus resultados na sociedade, ações civis e voluntárias têm sido recorrentes nas mais diversas frentes. Seja em prol de crianças e jovens em situação de rua, seja no oferecimento de uma melhor qualidade de vida antes, durante ou depois de uma medida socioeducativa de internação.
Nessa perspectiva, em 2002, foi criado um projeto, feito em parceria com diversas instituições de ensino, tratando da prática física do yoga, voltado aos adolescentes em conflito com a lei, que cumprem medida socioeducativa nas instalações da então FEBEM/ São Paulo, nomeada, atualmente, como Fundação CASA – Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente, no Estado de São Paulo.
Esta iniciativa acontece em algumas unidades de internação (UI) e internação provisória (UIP) nas cidades de São Paulo, Campinas, Guarujá e São Vicente e conta, essencialmente, com instrutores de yoga voluntários. São três os projetos voluntários: projeto Cyimam, coordenado por Marcia de Luca e realizado na UI Mooca que atende somente adolescentes do sexo feminino; projeto YAM – Yoga, Ayurveda e Meditação - desenvolvido pelo médico César Devesa em unidades do bairro da Vila Maria e o projeto CE PROTENS, coordenado pelo professor Marcos Rojo Rodrigues, da Universidade de São Paulo, do qual faço parte.
A disseminação do yoga em todo o mundo é perceptível. Inúmeros veículos de comunicação têm apresentado os benefícios desta prática corporal para a saúde humana. Revistas especializadas como Yoga & Saúde, Prana Yoga Journal, O Atma Yoga são algumas das publicações brasileiras focadas no yoga, que foram criadas, especialmente, para atender a um mercado que cresce e que exige mais informações sobre essa prática milenar.
Referente à utilização de técnicas yóguicas em prisões ou internatos, a Índia, local de origem do yoga, já possui algumas experiências bem sucedidas onde a yogaterapia foi aplicada com o objetivo de diminuir a ansiedade e depressão em detentos (Vyahare, 1991 apud Telles, 1997). Outras duas pesquisas com encarcerados foram feitas: uma trabalhando com meditação Vipassana6 e, outra,
com a técnica de Iyengar yoga7. A primeira realizada por Kela junto aos prisioneiros de Tihar Jail com meditação8 Vipassana trouxe bons resultados: os detentos relataram que as técnicas meditativas ofereceram-lhes a possibilidade e a habilidade de viverem de forma mais responsável na sociedade (Kela, 2003). A segunda investigação feita com mulheres encarceradas feita pela University of Pennsylvania School of Nursing utilizando a técnica de Ivengar Yoga, apresentou que o grupo que completou 12 semanas no uso de Iyengar Yoga teve decréscimos nos níveis de ansiedade e depressão pelos testes Beck Depression Inventory, Beck Anxiety Inventory e Perceived Stress.
No Brasil, a prática de yoga também já foi utilizada em prisões no Nordeste do país. Em 2004, tal iniciativa foi registrada no vídeo-documentário “Do Lodo ao Lótus”, de Marcelo Buainan. O vídeo conta a história de Luiz Henrique Gusson Coelho, preso por homicídio, seqüestro e estelionato, entre outros crimes, que encontra o yoga em um livro fotocopiado e inicia sua prática dentro da unidade prisional. No decorrer do tempo, o detento cria uma rotina diferenciada de atitudes e dissemina a prática de yoga aos demais prisioneiros. O vídeo apresenta relatos de Gusson e seus companheiros de cela com a experiência do yoga e nos mostra que a atividade deu a esses indivíduos mais tranqüilidade, reflexão e possibilidade de uma nova forma de viver.
Sob os mais diferentes propósitos e objetivos, o yoga tem sido percebido por esse público e outros praticantes como um meio de cuidado do corpo e da mente.
Como ciência psicofísica criada há cerca de cinco mil anos, o yoga tem como objetivo acalmar e/ou atenuar as perturbações mentais, isto é, o ciclo ininterrupto de pensamentos que vêm à mente humana. Por meio de posturas físicas (ásanas) e técnicas respiratórias (pranayama), o indivíduo pode criar um equilíbrio interno e controlar melhor seus impulsos voltados ao mundo exterior.
A proposta de levar uma técnica como o yoga aos internos faz parte da filosofia de vida dos coordenadores dos projetos de yoga existentes na Fundação CASA. Para Marcos Rojo e Cesar Devesa, propor atividades que favoreçam o bem-estar dos jovens e que o yoga possa auxiliá-los a refletirem sobre suas próprias
7 Ivengar yoga é uma “modalidade” na yoga, criada por B.K.S. Iyengar onde os ásanas podem ser ajustados com o uso de instrumentos externos como tornozeleiras, almofadas, etc. Mais informações em www.bksiyengar.com/
atitudes enquanto indivíduos responsáveis pelos seus próprios atos são os dois grandes pilares para a continuidade do projeto (Volcov, K; Legum, A, 2007).
Winnicott observa que ao concebermos uma pessoa plenamente integrada, temos que essa pessoa assume plena responsabilidade por todos os sentimentos e ideias que acompanham o seu estar vivo (Winnicott, 1987, p.144). Por isso, questionamos: o yoga, enquanto atividade psicofísica, pode se desdobrar em uma atividade que ofereça tal integração? Para este adolescente, como se processa o encontro entre o corpo e a mente por meio do yoga, enquanto processo psicofísico? Como o yoga participa da vida do indivíduo? No quê esta prática contribui em sua experiência de internação? Favorece o entendimento de sua responsabilidade em todos os seus atos diários? O instrutor de yoga pode criar esse vínculo terapêutico necessário ao cuidado do adolescente? Se sim, como se dá esse processo? O adolescente percebe esse vínculo como cuidado ou como controle? Há mudanças perceptíveis de comportamento antes e depois da prática realizada pelo jovem? A percepção corporal é alterada por meio dos ásanas? Para os funcionários, a prática do yoga facilita a convivência do jovem dentro do grupo? É possível existir um cuidado de si (Foucault, 2006, p.11) em um local onde há um controle direcionado à docilização dos corpos (id., 1987, p.119)? No caso destes internos, o controle exercido pela sociedade pode ser atenuado pelo controle de si proposto pela prática de yoga? Há possibilidade de que a prática de yoga se torne um instrumento para a docilização? Em resumo: como as representações sociais da prática do yoga reverberam no dia-a-dia do adolescente interno e da equipe que o acompanha?
A proposta desta dissertação é entender até que ponto o yoga participa ativamente do processo e construção de um novo entendimento de si e sobre uma nova possibilidade de vida fora da unidade de internação. Isto é, como é compreendida a prática do yoga pelo adolescente interno e pelo funcionário, observando seus possíveis reflexos no ambiente institucional.
Em levantamento realizado a respeito das pesquisas científicas sobre yoga e adolescência nas principais bases de dados científicos9, pudemos constatar a inexistência de pesquisas que relacionavam a técnica e os grupos mencionados, no
caso, adolescentes em conflito com a lei. As palavras-chave para a sondagem foram adolescência, adolescentes em conflito com a lei e yoga. Portanto, trata-se de um estudo pioneiro sobre a atividade junto a estes públicos.
Esta pesquisa apresenta as representações sociais da prática física do yoga realizada na Divisão Regional 5 – Unidade de Internação Paulista, localizada no bairro da Vila Maria, em São Paulo. E também visa observar se esta prática corporal é um instrumento de intervenção capaz de fornecer subsídios estruturantes para o bem-estar psicofísico do adolescente interno que cumpre medida socioeducativa, além de aferir resultados, mesmo que subjetivos.
“Às vezes desço até os arrebaldes empobrecidos do cosmos
e mal sei por onde começar”
Capítulo 1 – Ancorando o objeto de estudo
Neste capítulo, a fim de dialogarmos posteriormente com as representações sociais da prática de yoga junto aos internos e funcionários da Fundação CASA, apresentaremos distintos pontos teóricos que tratam de aspectos importantes do objeto de estudo e se entrelaçam, oferecendo novas perspectivas para se observar uma experiência e também um dado. Trata-se de uma ancoragem interdisciplinar, respeitando os limites que cada saber contém em si.
Assim, para tratar deste tema, escolhemos apresentar em formato de tópicos o caminho por onde nosso olhar se voltará. A linguagem, infelizmente, não nos possibilita que apresentemos o todo-ao-mesmo-tempo-agora. A linguagem é linear e somente quando se termina um período é que se dá o entendimento do todo. Assim, também se baseia nosso raciocínio quando disponibilizamos dados, neste capítulo, sobre: quem é o adolescente da Fundação CASA; o controle do corpo delinquente, o cuidado de si e o que é resistência na obra de Michel Foucault; a delinquência rumo ao amadurecimento sob a ótica winnicottiana e, por fim, a prática de yoga como produtora de subjetividade, a partir dos estudos realizados com e sobre a técnica.
A escolha de entrelaçar duas linhas teóricas distintas deve-se ao fato de ambos considerarem em suas análises o ambiente na qual está inserido o sujeito. Foucault observa o sujeito inserido na trama de relações como alguém que pode ser constituído, seja por meio de dispositivos de controle, seja por um cuidado de si, e Winnicott observa a adolescência como um período rumo ao amadurecimento, onde o sujeito pode vir a desenvolver suas potencialidades na fase adulta, se contar com um ambiente suficientemente bom.
1.1. Adolescer na Fundação CASA
Com a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990, qualquer ato infracional cometido por um adolescente é, ou, pelo menos deveria ser visto apenas como uma circunstância de vida que pode ser modificada e não como algo inerente à sua identidade (Volpi, 1997, p.7).
Baseado na Constituição de 1988 e na Declaração Universal dos Direitos da Criança e do Adolescente, o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA como é mais conhecido, inaugura uma nova fase no tratamento de crianças e adolescentes infratores e carentes. Uma das primeiras medidas foi o rompimento da designação “menor”, utilizada desde o século XIX, por ser considerado estigmatizado, remetendo-se ainda à Lei de Assistência e Proteção de Menores, mais conhecido como Código de Menores criado em 1922. Em teoria, o ECA permitiu que se consolidasse novas diretrizes e direitos no trato das crianças e adolescentes, substituindo uma doutrina irregular pela doutrina da proteção integral, tratando-os como sujeitos de direitos (Moura, 2005, p 59-60).
Assim, para as crianças e adolescentes menores de 12 anos, o novo estatuto prevê medidas de proteção e podem vir a ter medidas socioeducativas. Já para os adolescentes com idade superior a 12 anos de idade, de acordo com a infração cometida, o ECA preconiza uma medida socioeducativa, de natureza sancionatória e com conteúdo preferencialmente pedagógico. Como medidas socioeducativas temos: a prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, regime de semiliberdade e internação.
Conhecida anteriormente como FEBEM – Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor -, a instituição, em dezembro de 2006, passou a ser chamada de Fundação CASA – Centro de Atendimento Sócio-Educativo ao Adolescente. Ligada à Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania, a instituição, que, entre 2002 e 2008 havia mudado de secretaria três vezes e de presidente, sete, mudou de nome porque, segundo Claudio Lembo, então governador do Estado em 2006, o termo “menor” (contido na sigla FEBEM) já estava em desuso e não atendia aos princípios pretendidos pela entidade que era oferecer um acolhimento.
da Criança e do Adolescente (PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, CASA CIVIL, 1990). Por isso as unidades de atendimento da Fundação CASA são classificadas de acordo com a medida socioeducativa proposta, havendo: unidades de atendimento inicial (UAI), unidade de internação provisória (UIP), unidade de internação (UI), unidades de semiliberdade (US), casas comunitárias e postos de supervisão, assessoramento e atendimento direto do adolescente em meio aberto, em cumprimento de medida socioeducativa.
Com a prevalência da faixa etária entre 12 e 18 anos10, os adolescentes que cumprem uma medida socioeducativa que prevê internação são privados de sua liberdade de ir e vir e submetem-se à revista pessoal, de seu alojamento e pertences sempre que necessário e a critério da Fundação CASA, segundo artigo 17, inciso X, da Portaria Normativa No.136/2007 que institui o Regimento Interno das unidades de atendimento de internação.
A Fundação CASA é uma instituição que tem “por objetivo promover, no Estado de São Paulo, o atendimento ao adolescente em cumprimento de medida socioeducativa e daquele que se encontra em internação provisória, com eficácia, eficiência e efetividade, de acordo com as leis, normas e recomendações de âmbito nacional e estadual” (Fundação CASA, 2009).
Junto à mudança de nome, o Estado iniciou a implantação da filosofia do atendimento em pequenas unidades, ao contrário dos grandes complexos. Segundo Lembo, em entrevista concedida ao jornal televisivo SPTV, o problema das rebeliões, que em 2003, chegaram a 80, nesse novo modelo, pode ser melhor equacionado e os adolescentes podem ter uma assistência mais direcionada com um contato pessoal com psicólogos e pedagogos. “As grandes unidades, de 1200 menores, é uma massificação da tragédia humana. Não é possível que os governos antigos, anteriores, erraram quando fizeram campos de concentração!”. Em outubro, do mesmo ano, o complexo do Tatuapé já tinha sido desativado.
A construção de unidades menores e espalhadas pelo interior do Estado também tem o objetivo de aproximar o adolescente de sua família, já que muitos jovens internados nas unidades da capital ficam sem ver seus familiares devido à distância. Porém, a ação não teve as boas vindas como se esperava. Segundo
Berenice Giannella, presidente da Fundação CASA, houve grandes discussões para colocar as unidades nos municípios, pois ela lembra que muitas vezes precisou entrar e sair escoltada por seguranças em diversos municípios, tal era o grau de rejeição ao projeto de implantação das unidades descentralizadas (FUNDAÇÃO CASA, 2010). Tal problema que se justificava pela própria imagem que a instituição sempre ofereceu, ou seja, imagens de meninos no telhado, rebeliões, reféns e tentativas de fuga.
Foi em Campinas (SP) que começou a funcionar a primeira unidade sob os novos moldes, ainda como FEBEM, onde, segundo eles, é possível manter todos os jovens em atividades ao longo do dia.
Além disso, desde 2005, as unidades de internação contam com o Projeto de Reorganização da Trajetória Escolar (PRTE), que tem foco na recuperação da defasagem escolar. Os meninos, quando entram na CASA, contam com aulas do ensino formal e as disciplinas são ministradas por professores da rede pública de ensino.
Vale a pena notar que as pequenas unidades possuem uma gestão compartilhada, ou seja, existe participação do governo e da sociedade civil. O atendimento socioeducativo é feito por organizações não governamentais (ONG) e o corpo de segurança e a direção da unidade ficam por conta da Fundação CASA. À ONG cabe a responsabilidade sobre os agentes educacionais, a assistência social e o trabalho de psicólogos, médicos e dentistas. Assim, pela possibilidade da CASA firmar parcerias com outras organizações e associações, o universo de atividades programadas e oferecidas também se estendeu. Assim, o projeto de yoga entra na instituição como mais uma opção dentro da grade oferecida aos adolescentes.
Em 2006, a fim de caracterizar a população interna, a então FEBEM-SP, realizou uma pesquisa quantitativa11 em conjunto com o Instituto Uniemp (FUNDAÇÃO CASA, 2009). Nesta investigação, foram feitas 1190 entrevistas sendo 96% com internos do gênero masculino, com uma média de idade de 16,7 anos no total do grupo pesquisado.
Deste contingente, 71% possuíam ensino fundamental e 37% não freqüentavam a escola por falta de interesse, 17% porque ajudavam a família e 12%
por envolvimento com drogas e o crime, apesar de 95% viverem próximos à escola e 91% perto do posto de saúde.
Em relação ao trabalho das mães desses adolescentes, 34% relacionavam-se às atividades de diarista e empregada doméstica e 28% possuíam o ginásio incompleto. Vale notar que 51% desses jovens moravam com suas mães antes de serem internados e 60% dos adolescentes não sabiam o grau de escolaridade de seu pai, enquanto 36% não tinham o conhecimento a respeito da escolaridade de sua mãe.
Referente ao nível socioeconômico, 33% dos adolescentes se autoclassificaram como moradores de uma casa de uma classe pobre, 28% como de classe média e apenas 3% estariam vivendo em uma casa de classe alta (1%) e média alta (2%). Porém, vale notar que 72% viviam em casas próprias, contra 21% alugadas. Apenas 3% informaram que não havia coleta de lixo na residência e 2% informaram que não havia água encanada na casa.
Quanto aos bens materiais em suas casas de origem, grande parte dos entrevistados possuía geladeira (96%), fogão (99%), televisão a cores (94%), máquina de lavar ou tanquinho (88%), aparelho de som (86%), aparelho de DVD ou vídeo (56%). Apenas 25% contavam com carro de passeio e apenas 9% tinham computador.
Antes de cumprirem a medida socioeducativa, 54% dos adolescentes não estavam trabalhando. Dos 46% restantes, 86% desse total realizavam trabalhos não qualificados. Além disso, apenas 3% tinham a carteira de trabalho assinada e 12% recebiam vale-transporte ou dinheiro para condução até o local da atividade. A média salarial era de R$ 361,00 e o salário mínimo era de R$ 350,00, naquele período. Dos 46% que trabalhavam, 51% consideravam bom trabalhar (antes de serem internados). Após a internação, 79% percebiam o trabalho como algo muito bom.
após a desinternação, sendo que 16,4% ainda viam interesse na prática do ato infracional e os demais pretendiam, definitivamente, conseguir um trabalho.
As drogas também foram palco das entrevistas na pesquisa FEBEM12/ Uniemp. Segundo os dados, 62% dos adolescentes faziam uso freqüente de maconha, 33% tinham por hábito o uso de álcool e 19% usavam cocaína. Interessante é notar que apenas 19% dos jovens foram internados por uma infração de média gravidade, ou seja, que inclui tráfico de drogas e/ou porte ou uso de drogas. Ainda sob os motivos da internação, 51% cumpriam medida por roubo simples, roubo qualificado e porte de arma, já que 22% possuíam arma na residência e desse montante, 86% eram proprietários das armas.
Para saber qual era a opinião a respeito da medida socioeducativa, a pesquisa contemplou algumas frases que pudessem ter eco junto aos adolescentes. Para a oração “Eu estou aqui porque eu aprontei lá fora, acabei quebrando as pernas. A responsabilidade é só minha”, 79% dos jovens disseram ter a ver13. Outra frase com 75% de aceitação foi: “Mesmo quando eu entrei na FEBEM, o meu pensamento era voltar para o crime. Aí comecei a pensar, prestar atenção na vida e fui mudando de idéia”. Em relação às unidades de internação e o tratamento dado, a frase “Quando a unidade é muito rígida, a gente sofre, mas pensa mais no futuro, em dar um novo rumo na vida”, teve 74% de eco em relação aos jovens, enquanto 54% observaram que “a gente aqui dentro parece um animal que está sendo domado”.
Para 53% dos jovens, a primeira menção para não voltar a cumprir medida socioeducativa é conseguir um trabalho, seguido por 22% que querem terminar os estudos.
As atividades religiosas também faziam parte das realizações de 75% dos jovens, sendo que 44% desse total freqüentavam o grupo religioso de duas a três por semana.
Quanto ao aspecto recreativo e de lazer14, 40% dos entrevistados informaram que não desenvolviam atividades antes da internação, enquanto que 35% praticavam esportes, 24% faziam cursos de informática ou computação, 8%
12 Na ocasião, a instituição ainda era chamada por FEBEM.
13 A pesquisa utilizou em muitas das frases uma linguagem coloquial e de gíria para que os adolescentes pudessem sentir-se próximos (ou não) daquele conteúdo.
dançavam, 6% estavam em cursos de música, 4% faziam curso de teatro e 3% participavam de cursos de inglês.
Em relação às atividades oferecidas pela FEBEM, 47% pediram mais cursos e 9% gostariam de mudanças no regimento interno, ou seja, 5% na atitude de profissionais e 4% na postura de funcionários. Quanto às ações que os jovens menos apreciam, 21% citaram o esporte e 11% as atividades relacionadas ao lazer, sendo que yoga conta com 1% dos votos e é incluída na pesquisa como diversão e lazer dentro das atividades oferecidas dentro da instituição. Porém, contraditoriamente, 47% gostam muito de esporte, sendo 35% pelo futebol e 15% se interessam pelos cursos e oficinas de capacitação. Vale destacar que, na pesquisa, a prática de yoga aparece, ora como atividade recreativa e de lazer, ora como atividade desportiva intitulada como Projeto Meditação & Yoga, coordenada pela gerência de educação física.
Esse projeto foi oferecido a 13% dos entrevistados, ou seja, 4% do total do grupo, sendo que 79% dos adolescentes disseram gostar da atividade. Dos cerca de 5500 adolescentes que viviam nas dependências da Fundação CASA, em 200915, cerca de 300 internos praticaram yoga. Por mudanças na coordenação da gestão dos projetos de yoga dentro da Fundação CASA, em 2010, não havia números precisos ou estimados em relação à quantidade de adolescentes praticantes durante esse ano.
O cotidiano de jovens16 em uma unidade de internação é baseado em uma rotina pré-determinada pela gerência técnica da unidade composta por profissionais da área da psicologia, pedagogia e assistência social.
Se no século passado, na Colônia Correcional, as atividades começavam às 5h30, no século XXI, o horário de despertar passa a ser às 6h30. O dia-a-dia engloba atividades pedagógicas, de estudo e oficinas de trabalho (Moura, 2005). Atividades esportivas e culturais também estão presentes no decorrer do período e seguem uma escala de participação do interno orientada pela pedagogia. “(...) Cada fase da atividade diária do participante é realizada na companhia imediata de um grupo relativamente grande de outras pessoas, todas elas tratadas da mesma forma
15 Informações disponibilizadas em agosto de 2009, pela então coordenadora do projeto de yoga da Fundação Casa-SP, Eliana Schmidt.
e obrigadas a fazer as mesmas coisas em conjunto. Em terceiro lugar, todas as atividades diárias são rigorosamente estabelecidas em horário, pois uma atividade leva, em tempo pré-determinado, à seguinte, e toda a seqüência de atividades é imposta de cima, por um sistema de regras formais explícitas e um grupo de funcionários. Finalmente, as várias atividades obrigatórias são reunidas num plano racional único, supostamente planejado para atender aos objetivos da instituição” (Goffman, 1974, p.18).
Termo cunhado por Erwing Goffman, as instituições totais são espaços físicos onde as a pessoas que possuem uma “situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada” (1974, p.11).
O autor assinala que as instituições totais são “um híbrido social, parcialmente comunidade residencial, parcialmente organização formal. Em nossa sociedade, são as estufas para mudar pessoas” (ibid., p.22).
Hospitais, clínicas para toxicômanos, asilos, mosteiros, conventos, prisões para ambos os sexos, orfanatos, abrigos e instituições voltadas para jovens em conflito com a lei são alguns exemplos de instituições totais.
Segundo Goffmann (1974, p.18), nessas instituições
(...) existe uma divisão básica entre um grande grupo controlado, que podemos denominar o grupo dos internados, e uma pequena equipe de supervisão. Geralmente, os internados vivem na instituição e têm contato restrito com o mundo existente fora de suas paredes.
Vigilância, controle e correção, tripé do panoptismo segundo Foucault (1996, p.103), é o que acontece dentro de uma instituição total.
1.2. O controle do corpo delinquente
É a partir do século XIX que os estudos da formação, caracterização, prevenção e resolução de problemas oriundos da forma criminosa ou delituosa com que seres humanos agem, tornaram-se mais presentes no universo ocidental científico. O interesse em tratar o delinqüente não provém de uma origem piedosa ou de assistência cristã, mas sim da possibilidade de um controle total do seu corpo. A normalização é o foco dos investimentos deste cuidado (Foucault, 2001, p. 23-65).
Como já colocado, o adolescente delinquente será também o resultado de uma série de ciências que começam a tomar corpo a partir do século XIX. A psicologia, a pedagogia, a psiquiatria, a medicina e a jurisprudência, por exemplo, serão alguns dos saberes que nomearão, classificarão e promoverão não só os conceitos de normalidade, mas também a partir do que é normal, àquilo que não o é. É aqui que o adolescente delinquente se torna presente nos discursos científicos. Como César (2008, p.125) esclarece,
Tal como estabelecida no discurso científico, a adolescência apresentou-se como uma fase do desenvolvimento humano na qual o risco da transgressão e, consequentemente, da delinquência tornou-se um dado rondando de forma espectral aqueles sujeitos.
Ao mesmo tempo em que a adolescência considerada “normal” conta com a rebeldia, crises e agressividade próprias da idade, a delinquência é sempre vista como a exabundância dessas mesmas características, paradoxo desta nova fase do desenvolvimento humano. Para combater o excesso, a vigilância será a principal arma de combate à delinquência juvenil “e a segregação foi tomada como uma solução para o problema já instalado” (César, 2008, p.126). Vigilância é sinônimo de fiscalização e controle.
Michel Foucault realizou diversos estudos sobre a historicidade e caráter do controle, ou seja, desde quando surgiu a necessidade de um controle sob forma opressiva e quais os objetivos para a existência do domínio exercido dessa maneira. Em seu livro “Vigiar e Punir”, ele discorre historicamente sobre os temas da delinqüência e da legislação penal.
de controle sobre o corpo, conforme os tempos históricos, chegando à sociedade disciplinar.
Ao descrever-nos sobre a função e a imagem do soldado do século XVII e das mudanças ocorridas ao longo deste século e do posterior, o pesquisador francês apresenta o corpo como objeto e alvo de poder, e, o soldado como algo que se fabrica (Foucault, 2007, p.117) e que pode ser docilizado. “É dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado” (p.118).
No século XVIII, o controle exercido sobre os corpos sugere uma coerção feita sem folga a fim de mantê-lo estável mecanicamente e eficaz economicamente em seus movimentos, comportamento e em sua organização interna. Assim,
“A modalidade (de controle17) enfim: implica numa coerção ininterrupta, constante, que vela sobre os processos da atividade mais que sobre seu resultado e se exerce de acordo com uma codificação que esquadrinha ao máximo o tempo, o espaço, os movimentos. Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as “disciplinas”” (id., ibid.,).
Foucault (2007) informa que no momento histórico em que surge a disciplina, está se formando um novo jogo político na sociedade. Segundo ele,
(...) é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. (...) Uma “anatomia política”, que é também igualmente uma ‘mecânica do poder”, está nascendo; ela define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina. (p.119).
Contudo, é curioso pensar que o locus da formação disciplinar tenha sido a comunidade religiosa. “Foi em seu interior que ele se formou e dessas comunidades “transportou-se, transformando-se, para comunidades laicas que se desenvolveram e multiplicaram no período da pré-Reforma, nos séculos XIV, XV” (Foucault, 2006 (b), p. XX). O estudioso francês nos esclarece que “as disciplinas marcam o momento em que se efetua o que se poderia chamar a troca do eixo político da individualização” (Foucault, 2007, p.160).
Percebe-se, então, que o corpo humano passa a ser objeto e as instituições são e oferecem um sistema que o esmiúça, desequilibra e o reencaixa, no sentido de colocar este corpo sob submissão a um domínio político. Trata-se do exercício de um poder sobre um corpo. Podemos ver o indivíduo como a bainha de mielina na qual o poder passa e ao mesmo tempo se exerce, sendo que não há uma distribuição exata e/ou democrática do poder no-e-sobre o corpo. É na bainha de mielina que se dá o transporte do próprio poder. “Na realidade, o que faz com que um corpo, gestos, discursos, desejos sejam identificados e constituídos como indivíduo, é precisamente um dos efeitos do poder” (Foucault,1999, p.35). Ou como Veiga-Neto (2007, p.62) coloca “o poder entra em pauta como um operador capaz de explicar como nos subjetivamos imersos em suas redes”.
Para Foucault, o poder é, grosso modo, uma relação de forças dentro de um espaço/ território no qual essas mesmas forças, ao mesmo tempo, se constituem, se auto-organizam e são exercidas em relação ao(s) outro(s). Por conta de sua multiorigem, o poder é onipresente e, essas relações de força que o constituem são “o jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte”, isto é, “um nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada (Foucault, 2009, p. 102-3). Com isso, “o homem, assim pensado, nada mais é que uma série de ocorrências transitórias num campo de lutas sempre aberto” (Branco, 2008, p. 143).
Dessa forma, Foucault (2009) observa que o poder: - ocorre a partir de relações assimétricas e instáveis;
- é inerente às relações socioeconômicas, de conhecimento e das relações sexuais;
- atua em feixes de relações, incluindo aparelhos de produção e família; - tem intenção, objetividade e capilaridade, e,
Em sua obra “O Poder Psiquiátrico”, na aula de 21 de novembro de 1973, Foucault esmiúça o chamado poder disciplinar. Por tomar o tempo, o corpo e a vida do individuo/ soldado, dizemos que o poder disciplinar consiste em um controle e vigilância contínuos, com o objetivo de que a vigilância esteja introjetada no indivíduo e que a disciplina, em si, torne-se um hábito. Ou seja, o objeto do poder disciplinar será a virtualidade do comportamento
Antes mesmo de o gesto ser feito, alguma coisa deve poder ser detectada, e o poder disciplinar deve intervir; intervir de certo modo antes da manifestação mesma do comportamento, antes do corpo, do gesto ou do discurso, no nível que é a virtualidade, a disposição, a vontade, no nível do que é a alma. (Foucault, 2006, p.65)
Pelo fato do poder disciplinar ser isotópico, isto é, apesar das relações de forças, à primeira vista e, de modo subliminar, parecerem iguais, elas, por si, contêm elementos inclassificáveis e, portanto, não há como serem iguais. Assim, haverá margens pelas quais o poder disciplinar se esvai. O exemplo que Foucault coloca sobre a relação do débil mental e a sua (in)capacidade de aprendizagem de leitura e escrita pode ser vista como problema, só o pode ser, a partir do momento em que existe uma disciplina escolar que normatiza o que é ser um aluno que consegue apreender os ensinamentos escolares. O mesmo pode ser dito em relação aos delinquentes, que só aparecem e são reconhecidos como tais quando há dispositivos disciplinares policiais que os podem enquadrar segundo o que é considerada uma conduta adequada ou não.
Como é feito para funcionar independentemente de quem o exerça, pois se trata de efetivar e/ou sobrepujar uma relação de força sobre outra, o poder disciplinar transforma o individuo em função-sujeito: são relações de poder em cascata e também em rede. Da família (ou melhor, do fim-de-linha como menciona o filósofo Luiz Fuganti (2010) já que é ela quem recebe, devolve, incorpora, legitima e encerra todos os micropoderes de controle da sociedade) ao Estado, todos os feixes das relações de poder perpassam os indivíduos e, consequentemente, as demais instituições.
minando-a, desacreditando-a, remanejando-a, enfim, atuando com, contra, sobre e pela linha de força em questão. (Carvalho, 2010, p. 69)
É por isso que Foucault (2009, p.244) conceitua estas instituições como instituições de sequestro, que só funcionam por meio de dispositivos previamente reconhecidos, que englobam o dito e o não-dito.
As instituições de sequestro são assim denominadas porque elas se encarregam de toda a dimensão temporal da vida dos indivíduos e possuem três funções: extraem todo o tempo do ser humano; controlam sua existência a fim de que o tempo de vida seja também um tempo de trabalho, um tempo produtivo, e, por fim, criam um poder polivalente (Foucault, 1996, p.119-122).
Para que o sequestro tenha efeito, é preciso que existam vigilância, controle e correção. E esses mecanismos poderão se dar por meio daquilo que Foucault vai denominar de Panoptismo.
Este é um conceito oriundo do Panóptico, obra proposta por Bentham, no século XIX. Teoricamente, aquilo que será denominado como o Panóptico é uma estrutura arquitetônica, que pressupõe uma construção em formato de anel, onde no meio dessa estrutura há uma torre, vazada de amplas janelas que se abrem para a parte interna do círculo que contém diversas celas. Ao se colocar um vigia na torre, esse pode observar tudo o que ocorre em cada uma das celas, sem, necessariamente, ser visto pelo “prisioneiro”. Pelo fato de poder ver o outro sem ser reconhecido, o vigia detém um poder que lhe é outorgado pela construção arquitetural, pois nem sempre o vigia estará observando o detento, porém, a ideia é de que a sensação de vigilância esteja presente durante as 24 horas do dia, todos os dias.
Na quarta conferência do livro “A verdade e as formas jurídicas”, edição de 1996, Foucault define o Panoptismo por meio de seu histórico e suas relações, apresentando seus primeiros indícios quando são criadas as bases do Direito Penal, na institucionalização da punição e das penalidades.
pessoa podia “vigiar” um grande número de pessoas. Esses modos distintos apresentam diferenças cruciais na forma social de se ver os indivíduos. “(...) o aparecimento deste problema arquitetônico é correlato ao desaparecimento de uma sociedade que vivia sob a forma de uma comunidade espiritual e religiosa e ao aparecimento de uma sociedade estatal. O Estado se apresenta com uma certa disposição espacial e social dos indivíduos, em que todos estão submetidos a uma única vigilância” (Foucault, 1996, p. 106). Assim, o panoptismo existe no cotidiano das instituições, e, consequentemente na vida e nos corpos de todos os indivíduos.
Interessante notar que Foucault (2007) esmiúça os dois caminhos pelos quais o panoptismo dar-se-á, diferenciando-os por meio de suas tragédias: a exclusão dos leprosos e a reclusão dos pestilentos. Exclusão e reclusão também fazem parte da estratégia de controle do adolescente em conflito com a lei, como veremos mais adiante.
Desde que há punição e correção na sociedade, a exclusão e o banimento foram formas de “castigar” àquilo que a norma, a regra e/ou a Lei apresenta como normal, adequado, perfeito. A lepra será considerada uma dessas possibilidades de anormalidade dentro da sociedade por muitos e muitos séculos e como forma de controle, a exclusão dos doentes para além dos muros das cidades é o efeito encontrado para tal.
Já as famosas pestes que ocorrem no século XVII vão possibilitar o surgimento de toda uma tecnologia de controle e reclusão por parte dos indivíduos para com seus pares. A proposta da reclusão, além de colocar o sujeito em um espaço pré-determinado no qual possam ser feitos os devidos controles do espaço físico e da própria população em quarentena, a tecnologia proposta pela reclusão fará com que todos os movimentos possam ser monitorados, onde o grupo dominante de controle – que pode ser x, y ou z, pois não importa quem o faça, importa que se faça - e que faz uso do poder possa exercer esse controle, e que onde quer que esse indivíduo se encontre, ele possa estar limitado e identificado. A disciplina dá seus primeiros sinais sobre o corpo.
conseqüência, por todas as instituições de correção e normalização como hospitais, penitenciárias, escolas, asilos, manicômios. Ou seja, serão constituídos processos de individualização com o objetivo de melhor vigiar, controlar, normalizar.
“Todos os mecanismos de poder que, ainda em nossos dias, são dispostos em torno do anormal, para marcá-lo como para modificá-lo, compõem essas duas formas de que longinquamente derivam. (Foucault, 2007, p.165).
O pesquisador francês também apresenta o relato das regras e normas de funcionamento (horário de acordar, realizar atividades, dormir, comer etc) de uma fábrica de mulheres que trabalhavam na região do Ródano (Foucault, 1996, p. 107-110). Ao relatar as instruções, a idéia é transmitir ao leitor a apresentação de qualquer instituição de sequestro como um hospital, convento ou qualquer outra instituição total se empregarmos o conceito de Erwin Goffmann (1974).
As fábricas-prisões foram uma realidade nos primórdios da industrialização e muitas das instituições que começaram a existir naquele período tinham um modelo de funcionamento baseado em vigia e controle, ou seja, no modelo panóptico. Porém, na medida em que a economia dessas mesmas instituições passa a sofrer dificuldades, muitas delas começaram a ruir. E com a “queda” destas fábricas-prisões, mantiveram-se apenas algumas técnicas de internamento, reclusão e fixação da classe operária. Assim, criaram-se as cidades operárias (no nosso caso brasileiro, há a periferia e/ou cidades satélites), caixas econômicas (por conta do desemprego), caixas de assistência social, entre outras medidas.
A reclusão, como medida punitiva exercida e mantida desde o século XIX, é uma herança direta das duas correntes/ tendências que se encontram no século XVIII. “(...) É uma combinação de controle moral e social, nascido na Inglaterra, com a instituição propriamente francesa e estatal da reclusão em um local, em um edifício em uma instituição, em uma arquitetura” (Foucault, 1996, p.112). O estudioso cita o exemplo da vigia e controle que ocorria dentro de um mesmo grupo (quakers) no século XVIII. Ali, é o fato do indivíduo pertencer ao grupo que fará com que ele possa ser vigiado.