Foucault (1999) entende que o controle dos discursos se articula através dos procedimentos de contenção dos poderes do discurso. O autor considera que, a princípio, há três, a serem considerados: a palavra proibida, que é procedimento de exclusão mais forte, pois se associa diretamente à vontade de verdade. Estabelece através do tabu do objeto (não direito de dizer tudo); do ritual da circunstância (não falar tudo em qualquer circunstância); do direito privilegiado (qualquer pessoa não pode falar qualquer coisa). Isso se processa nas regiões da sexualidade e da política. A segunda seria a segregação. Ele esclarece que, desde o período medieval, o discurso do louco é excluído, era simplesmente ―o lugar onde se exercia a separação‖ (FOUCAULT, 1999. p. 11).
Para o referido autor, esses dois primeiros de exclusão se deslocam continuamente devido a contingências históricas, praticadas por meio de pressão e de violência e se articulam em torno do terceiro procedimento de exclusão, a vontade verdade. Para Foucault, (1999), há a oposição verdadeiro/falso, dentro de um discurso há uma vontade de verdade, vontade de saber. Esse procedimento de exclusão é mais dissimulado dentro das relações de poder, uma vez que a exclusão se dá através da sobreposição de uma ―verdade‖ aparentemente útil e necessária. Com efeito, sustenta-se através da coerção que exerce sobre outros discursos, modificando ou até fundamentando a palavra proibida e a segregação.
Foucault (1999) também entende a ―ordem do discurso‖ como uma instância que depende do que ele chama de procedimentos internos de controle e delimitação do discurso. São eles: o comentário, associado à classificação; o autor liga-se à ordenação; as disciplinas, que se referem à distribuição. O comentário controla os discursos permitindo, indefinidamente, o surgimento de novos discursos a partir de discursos anteriores. ―[...] o novo não está no que é dito, mas no acontecimento de sua volta‖ (FOUCAULT. 1999. p. 26). Quanto ao autor, para ele, é um princípio de agrupamento do discurso, unidade e origem de suas significações e não o escritor o enunciador de um texto, ele entende que, enquanto o comentário colabora com o acaso do discurso, o autor limita esse acaso através da identificação de um ―eu‖. Em relação às disciplinas, o autor a concebe como uma unidade que restringe o discurso. Ela fixa limites e estabelece como regras proposições verdadeiras e
falsas. Isso depende do modelo teórico de cada época. Deduz-se que uma verdade de agora poderá se tornar um mito ou vice-versa.
O discurso depende também de grandes procedimentos de sujeição que determinam as condições de funcionamento. O primeiro se refere aos rituais da palavra. Esses rituais dizem respeito aos discursos religiosos, judiciários, terapêuticos e político. O papel deles é qualificar o sujeito, determinando todo seu perfil comportamental. A segunda sujeição do discurso são as sociedades do discurso. Para Foucault (1999), elas são grupos que restringem determinado discurso, fazendo-o circular em um espaço fechado. Outra sujeição refere-se aos grupos doutrinários: ―[...] a pertença doutrinária questiona ao mesmo tempo o enunciado e o sujeito que fala, e um através do outro‖ (FOUCAULT, 1999, p. 42). A última sujeição é das apropriações sociais. O sistema educacional, ao manipular os saberes, tanto pode manter
como modificar a apropriação dos discursos interferindo nas relações de poder. O discurso é, na visão de Foucault, terminantemente associado às relações de poder.
Para este autor, de modo geral, sempre que procede à análise de determinado discurso, a maioria dos analistas tende a acreditar que há nele um conjunto de sentidos subjacente ao discurso. Ele compreende o sentido como algo não construído por um conjunto de relações contínuas predefinidas ao longo da história, mas sim por um conjunto de dispersões descontínuas, inter-relacionado com a instância do enunciado.
Assim Foucault (1999) define discurso como: número limitado de enunciados para os quais podemos definir um conjunto de condições de existência; domínio geral de todos os enunciados; grupo individualizável de enunciados; prática regulamentada, dando conta de certo número de enunciados. Enfim, todas as definições anteriores já parecem sintetizadas na seguinte proposição de Foucault (2008) na sua arqueologia. Lá ele define o discurso como um conjunto de enunciados que se apoiam na mesma formação discursiva.
Para entender a perspectiva da análise do discurso proposta por Foucault, ele expõe quatro princípios importantes. O princípio da Inversão, que é um ―jogo negativo de um recorte e de uma rarefação do discurso‖ (FOUCAULT, 1999. p. 52); o princípio da Descontinuidade, que implica entender como as práticas descontínuas, que se cruzam por vezes, também se ignoram ou se excluem; o princípio da Especificidade, que supera a noção de que o discurso carrega significações prévias; o princípio da Exterioridade, que defende a ideia de que é preciso partir da exterioridade para o interior a fim de melhor analisar os discursos.
Sobre o enunciado, Foucault (2008) entende que ele se apoia sempre em determinado conjunto de signos, mas não constitui uma unidade. Reside nos atos de linguagem, constituindo-se como um acontecimento cujo sentido é inesgotável. Para o autor, o enunciado depende de quatro elementos básicos: o primeiro é a referência a algo identificável, o segundo diz respeito ao fato de existir um sujeito capacitado a dizer algo, o terceiro seria o fato de o enunciado estar associado a outros enunciados, não podendo existir isoladamente; por fim, o quarto elemento básico a ser levado em conta no estudo do enunciado é a materialidade linguística. Foucault (2008) acredita que, ao se apropriar dos quatro elementos básicos citados, apreende-se o enunciado como um acontecimento, associado a um determinado lugar e tempo, que a partir do entrelaçamento de vários enunciados, pertence a uma mesma formação discursiva.
Por considerar de importância fundamental para esta pesquisa e levando em consideração que o controle do discurso está relacionado à disciplinarização da sociedade, no próximo tópico, discute-se sobre a sociedade disciplinar de Foucault. Objetiva-se, com isso, entender a relação existente entre os elementos dessa sociedade e o SAEB.