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século XXI. São Paulo: Nobel, 1991; HARVEY, David Condição pós-moderna São Paulo: Edições

A REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA BRASILEIRA

2.1 Controle e disciplina: taylorismo brasileiro

O processo de adoção da racionalização do trabalho – com características tayloristas – foi introduzido, no Brasil, a partir da década de 30, após a crise de 1929, com a formação do Instituto de Organização Racional do Trabalho, denominado de IDORT104, em 1931. Este instituto recebeu apoio dos empresários paulistas105, cujas características giravam em torno de aspectos organizacionais e de formação profissional, e os primeiros projetos foram realizados em empresas particulares.

O IDORT foi considerado a primeira instituição de treinamento de empresa no Brasil, e a partir de 1934, dirigiu suas atividades para a administração pública, implantando a Reorganização Administrativa do Governo do Estado – RAGE – em São Paulo106. Em 1941 foi responsável pela estruturação do Centro Ferroviário de Ensino e Seleção Profissional – CFESP, e em 1942, pela criação do Curso de Organização Racional do Trabalho e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI107.

Assim, o IDORT constituira-se não somente na expressão dos princípios defendidos pelas lideranças do empresariado paulista, como também tornou-se importante para a adoção que passaram a denominar de “nova racionalização do trabalho”. Esta racionalização, para Druck (1999, p. 54) teria sido:

[...] um necessário mecanismo de subsunção do trabalhador à fábrica e fundamental para fazer frente à ‘agitação reivindicatória’ ocasionada pela revolução, e indispensável como resposta ao crescimento [...] das lutas de classes.

É possível constatar que o eixo central do debate intensificava as reflexões sobre a adoção das práticas tayloristas no Brasil, inseria-se nas necessidades do setor industrial a fim de possibilitar a eficácia do lucro pela dinâmica racional da produção sobre as relações de trabalho constituídas no espaço fabril. As propostas

104 Estruturou-se, segundo Druck (1999), nos moldes da Taylor Society, dos Estados Unidos e

divulgou o processo racionalista de trabalho, articulando a implementação do taylorismo no Brasil.

105 Dentre os quais um de seus idealizadores, Armando de Sales Oliveira (1887-1945). Ver a este

respeito: DICIONÁRIO HISTÓRICO-BIOGRÁFICO BRASILEIRO PÓS-1930. 2ª ed. Revista e atualizada. Rio de Janeiro: ED FGV, 2001.

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Posteriormente, esse sistema foi implantado nos Estados do Paraná, de Pernambuco e de Goiás.

107 Ver a este respeito: INSTITUTO DE ORGANIZAÇÃO RACIONAL DO TRABALHO. Disponível em:

de regulamentação deste setor tomariam como referência a necessidade de se institucionalizar a racionalização do trabalho por meio de mecanismos organizacionais que objetivassem a normalização da produção, para afirmação de uma indústria asfixiada e dependente da agro-exportação108.

Na década de 30, a expansão industrial ainda se assentava nas bases da produção cafeeira, cujo processo de acumulação do capital foram determinantes, segundo Carmo (1998), para o surgimento da indústria, quando a demanda por alimentos e bens de consumo não duráveis representava um mercado interno em expansão e conseqüentemente, um mercado disponível para novos investimentos, oriundos da acumulação capitalista cafeeira109. O setor industrial cafeeiro teria possibilitado a composição da produção industrial de bens-de-consumo correntes fundamentais para que nos anos 30, durante a Era Vargas (1930-1945) se solidificassem as bases para o aumento da produção de bens-de-capital.

Autores como Tavares (1998) compreendem que a industrialização, no Brasil, não seguiu a trajetória clássica da acumulação de capital, pela via “[...] da acumulação ‘originária’ e posterior transformação da manufatura em grande indústria [...], em decorrência da própria formação do mercado interno” (TAVARES, 1998, p. 125). Esse modelo de industrialização teria gerado uma indústria de bens de consumo e posteriormente uma indústria leve de bens de produção, excluindo-se a indústria pesada no processo de divisão interna do trabalho110.

Estabelecer-se-ia, desse modo, uma interdependência entre café e indústria que firmava o padrão de reprodução do capital, uma vez que a indústria de bens de consumo instalada serviria de sustentáculo à reprodução da capital cafeeiro sob os ângulos da garantia do custo de reprodução da mão-de-obra e de manutenção dos

108 Notadamente do setor cafeeiro que se pontuava entre as necessidades de exportação e os

incentivos do Estado. Ver a esse respeito: MENDONÇA, Sônia. A industrialização brasileira. São Paulo: Moderna, 1995.

109 Ver a esse respeito: CARMO, Paulo Sérgio. História e ética do trabalho no Brasil. São Paulo:

Moderna, 1998.

110 O comércio de café não teria gerado somente a procura da produção industrial. Teria custeado

também grande parte das despesas gerais, econômicas e sociais, necessárias para tornar proveitosa a manufatura nacional, ampliando o mercado interno e o consumo por parte dos trabalhadores assalariados. A esse respeito ver: TAVARES, Maria da Conceição. Acumulação de capital e

padrões de acumulação. Quanto à dimensão deste suporte, enfatiza Tavares (1998, 126):

A indústria de bens de consumo assalariado, uma vez instalada, serve de suporte ao esquema de reprodução global do capital cafeeiro sob dois ângulos. O primeiro é o de garantir o custo de reprodução da mão-de-obra do complexo cafeeiro, mesmo nas etapas de declínio do ciclo do café, quando o poder de compra das exportações vem abaixo e diminui mais que proporcionalmente a capacidade para importar bens de consumo manufaturado. O segundo é o de manter a taxa de acumulação global quando esta começa a cair, ao caírem os preços internos do café, e ao desacelerar-se o ciclo de expansão da fronteira agrícola.

Nessa configuração, o surgimento da indústria no Brasil, fruto do processo de expansão cafeeira e da adoção dos princípios de racionalização pela via institucional111, constituíram-se elementos fundamentais à propagação das idéias tayloristas. Contíguo às teses da racionalização difundidas pelo IDORT, foi estabelecido as escolas de engenharia a partir de 1945, que conforme Druck (1999), centravam-se na formação de engenheiros que compusessem um princípio fundamental da organização taylorista do trabalho – a gerência científica – realizando a mediação entre a tecnologia, o capital e o trabalho112.

Com o apoio financeiro e intelectual do empresariado paulista, as bases para o desenvolvimento do taylorismo no Brasil estariam calcadas sob os princípios da racionalização. Esta primeira fase de difusão do método de organização produtiva enfrentava resistências no mundo do trabalho113. A esse respeito, sinaliza Druck (1999, p. 56) que “junto à repressão policial desencadeada [...] anunciava-se a implementação das leis trabalhistas, que tinham, por objetivo, regulamentar a força de trabalho, assalariada, definindo seu estatuto, seus direitos e deveres, enfim garantindo o seu uso racional”.

A implementação das práticas tayloristas, no Brasil, visava a articulação viabilizada pelo capital com o Estado por meio do estabelecimento de uma

111 Princípios de racionalização e controle do tempo e da produção, baseados no taylorismo, aos

quais filosoficamente se amparava o IDORT.

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Em relação aos contornos desta mediação na formação das bases doutrinais acerca rotinização no pensamento nacional, ver: SALERNO, Mário Sérgio. Da rotinização à flexibilização: ensaio sobre o pensamento brasileiro na organização do trabalho. In: Gestão & Produção, São Carlos: UFSCar- DEP. Jan/abr, 2004, vol 11, n 01, p. 21 – 32.

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Diz respeito ao quadro das lutas operárias diante da repressão policial do Estado quanto às dificuldades de controle sobre as formas de resistência dos trabalhadores.

legislação trabalhista114. A intervenção estatal brasileira seria fundamental à aplicação de práticas tayloristas no Brasil, se houvesse a execução de um projeto de industrialização estruturado no modelo de substituição de importações115.

O processo de industrialização, no Brasil, completou-se com a adoção de uma legislação trabalhista, cujos pressupostos referem a reprodução da força de trabalho e a imposição de limites às práticas trabalhistas dos empresários brasileiros. Esta etapa de implementação teria representara a fase de aplicação de um modelo de práticas de racionalização pautado na demanda industrial e na capacidade do Estado de institucionalizar a disciplina fabril. A esse respeito, reitera Druck (1999, p. 56), este período:

[...] É compreendido não somente como produção industrial propriamente dita, mas como uma etapa de desenvolvimento do capitalismo, cujos pressupostos estão assentados na difusão do trabalho assalariado como norma e referência, na “disciplina fabril” dentro e fora do trabalho (num novo modo de produzir e viver) e no uso racional da ciência (tecnologia) combinada com o uso racional da força de trabalho. Elementos, enfim, indispensáveis para garantir uma nova forma de controle do capital sobre o trabalho.

Os interesses na aplicação das práticas tayloristas na organização do trabalho produtivo nacional teriam como finalidade ampliar os níveis de produtividade e a implementação de estratégias de controle do trabalho por parte do capital. A partir da década de 50, com a entrada das empresas multinacionais no país e com a adoção de um novo modelo econômico proposto pelo Estado, pautado no desenvolvimentismo, é que se pode definir a constituição das forças produtivas “especificamente capitalistas”, segundo Tavares (1998, p. 128), “capazes de afiançar a dominância do capital industrial no processo global de acumulação [...], por meio da introdução da indústria pesada de bens de capital”.

Com a adoção desse modelo econômico, verificou-se a implementação do que se convencionou denominar de fordismo no Brasil. As especificidades da

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A esse respeito ver: DE DECCA, Edgar. O Silêncio dos vencidos. São Paulo: Brasiliense, 1981; SILVA, Sérgio. Expansão cafeeira e origens da indústria no Brasil. São Paulo: Alfa-Omega, 1995; DUTRA, Eliana. O ardil totalitário. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

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Tavares (1998) considera que o conceito substituição de Importações do período de industrialização do pós-guerra, só se fundamenta teoricamente do ponto de vista formal, correspondente a um período do processo de substituição de importações, tendo como referência exclusiva a dinâmica do mercado externo. No estudo em questão, o conceito de “substituição das importações” utilizado no texto, refere-se à influência deste modelo imposto pelo Estado, durante a Era Vargas, na adoção das práticas tayloristas considerando-se a necessidade de aumento da produção para o mercado externo, por meio do controle dos trabalhadores.

formação social e econômica do país indicam que adoção do modelo fordista estruturara-se de forma dependente e incompleta, cujos fundamentos serão analisados a seguir.