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02. A metáfora

2.4 Convencionalidade e originalidade

No que se refere à convencionalidade e à originalidade de uma metáfora conceptual, fica assentado em Lakoff e Johnson (2003 [1980], p. 151-152) que as metáforas convencionais são, em geral, baseadas nas correlações que os seres humanos percebem em suas experiências.

Em uma cultura industrial, por exemplo, existe uma correlação entre a quantidade de tempo que se leva para realizar uma tarefa e a quantidade de trabalho necessária para realizar essa tarefa.

Explicitam os autores que essa correlação permite que se entenda, metaforicamente, aqueles conceitos de TEMPO e de TRABALHO como RECURSOS, e, consequentemente, que se observe uma similaridade entre eles. Há a destacar que essas correlações não são similaridades: as metáforas conceptuais baseadas em experiências humanas definem conceitos em termos dos quais essas similaridades são percebidas. Assim, as metáforas convencionais complexas podem ser baseadas em similaridades que emergem a partir de metáforas primárias. A metáfora complexa

IDEIAS SÃO ALIMENTOS, por exemplo, sustenta-se sobre as metáforas primárias IDEIAS SÃO OBJETOS e A MENTE É UM RECIPIENTE. Nesse sentido, uma similaridade estrutural entre IDEIAS e

ALIMENTOS é induzida pela metáfora, originando novas similaridades (por exemplo, aquelas de que tanto as ideias quanto os alimentos podem ser engolidos, digeridos e devorados).

Fica assentado em Lakoff e Johnson (2003 [1980], p. 152-153), ainda, que as metáforas originais são, principalmente, complexas, podendo criar similaridades da mesma forma que as metáforas convencionais. Isso significa que as metáforas originais também podem ser baseadas em similaridades que emergem de metáforas primárias. A metáfora conceptual PROBLEMAS SÃO SEDIMENTOS EM UMA SOLUÇÃO QUÍMICA, por exemplo, sustenta-se sobre a metáfora PROBLEMAS SÃO OBJETOS SÓLIDOS, que cria similaridades entre PROBLEMAS e SEDIMENTOS, dado que ambos podem ser identificados e analisados. Complementarmente, PROBLEMAS SÃO SEDIMENTOS EM UMA SOLUÇÃO QUÍMICA cria novas similaridades: problemas podem, a princípio, desaparecer (se dissolver em soluções), e reaparecer.

Partindo daquele conceito de cascata metafórica, Dancygier e Sweetser (2014, p. 59) refinam essa questão, apontando para o fato de que os usos metafóricos originais são elaborações (subcasos) ou combinações composicionais de metáforas convencionais presentes em um nível mais alto da hierarquia. Nesse sentido, os usos metafóricos originais são facilmente compreendidos, dado que as fundações conceptuais são as mesmas daqueles usos metafóricos convencionais. Adicionalmente, dizem as autoras que, devido ao fato de que as metáforas primárias emergem a partir de cenas primárias, a análise daqueles níveis mais altos da hierarquia resulta, provavelmente, em estruturas compartilhadas por diferentes línguas naturais.

Dancygier e Sweetser (2014, p. 35) apontam, ainda, para o fato de que, no que se refere à expressão linguística da metáfora conceptual, o nível de convencionalidade configura-se como um critério totalmente independente do pensamento e da linguagem figurativa. Tomando a expressão linguística guia de estudo como exemplo, as autoras explicitam que a metáfora conceptual subjacente depende do domínio fonte Viagem, pelo qual entende-se que a posse de

um guia facilita o processo de alcançar um determinado destino. Nesse modo de condução, o elemento guia, ao ser projetado naquele domínio alvo Estudar, instancia o significado de que alcançar um nível satisfatório de compreensão e de conhecimento pode ser facilitado pela posse de um texto apropriado, isto é, de um guia de estudo. Entretando, as autoras atentam para o fato de que esse padrão metafórico também pode ser verificado em contextos menos previsíveis, como, por exemplo, em uma das cenas da obra Romeu e Julieta, de Shakespeare, na qual Romeu se refere ao frasco de veneno como condutor amargo e guia repugnante. Uma vez que, em tal passagem, Romeu está prestes a cometer suicídio, entende-se que o veneno constitui o guia que o conduzirá à morte, isto é, ao seu destino metafórico. De um modo geral, o que se deve observar está no fato e que, em ambos esses contextos, o mesmo padrão metafórico explicita duas expressões linguísticas que se diferem amplamente no que diz respeito ao nível de convencionalidade.

03 O símile

O Chapeleiro arregalou os olhos ao ouvir isso; mas tudo o que ele disse foi: – Qual é a relação entre um corvo e uma escrivaninha? [...] E aqui a conversa foi interrompida, ficando o grupo em silêncio por alguns minutos, enquanto Alice meditava sobre as possíveis relações entre corvos e escrivaninhas, que, aliás, não eram muitas. […] – Você já achou a resposta da adivinhação? – perguntou o Chapeleiro para Alice. – Não, eu desisto – respondeu ela. – Qual é a resposta? – Não tenho a menor ideia – disse o Chapeleiro.28

Lewis Carroll Alice no País das Maravilhas (2009, p. 80-83)

3.1 Preliminares

Fica assentado em Israel et al. (2004, p. 123) que o estudo da distinção entre a metáfora linguística e a figura denominada símile, o qual remonta sabidamente a Aristóteles (384-322 a.C.), constitui uma constante da área relacionada à Teoria Retórica. De um modo geral, esse estudo entende a metáfora linguística e o símile como formas alternativas de expressar uma mesma ideia, dado que ele parte, justamente, da distinção entre os usos figurativos das formas X é Y (que expressa uma metáfora linguística) e X é como Y (que expressa um símile). Há a observar que, no entanto, a partir do estabelecimento da metáfora enquanto entidade não inerente à linguagem, mas ao pensamento (LAKOFF; JOHNSON, 2003 [1980]), entende-se que a metáfora linguística e o símile se diferem não apenas quanto à forma, mas, ainda quanto àquela estrutura que é mapeada entre os domínios fonte e alvo. No que diz respeito à forma, está em Israel et al. (2004, p. 129) que, enquanto a metáfora linguística apresenta flexibilidade gramatical quando da sua expressão, o símile exige uma construção comparativa que estabeleça a relação entre os domínios fonte e alvo. Por sua vez, no que diz respeito à estrutura que é mapeada, assentam Dancygier e Sweetser (2014, p. 145) que, em um símile, ela é limitada a apenas um elemento de cada domínio, que, em geral, não estão correlacionados pela experiência humana do cotidiano. Entende-se, assim, que a expressão do símile estabelece a relação entre duas entidades que, em geral, não são comparáveis, por meio de imagens vívidas que sugerem conexões inesperadas entre os dois domínios (ISRAEL et al., 2004, p. 124).

28 Tradução de Nicolau Sevcenko. Texto original (2009, p. 60-63): the Hatter opened his eyes wide on hearing this, but all he said was, “Why is a raven like a writing-desk?” […] and here the conversation dropped, and the party sat silent for a minute, while Alice thought over all she could remember about ravens and writing-desks, which wasn´t much […] “Have you guessed the riddle yet?” the Hatter said, turning to Alice again. “No, I give it up,” Alice replied: “what´s the answer?” “I haven´t the slightest idea,” said the Hatter.