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3.2 PARQUE TECNOLÓGICO PORTO DIGITAL – RECIFE/PE

3.2.1 Convergência de Interesses e oportunidades

Apesar de todo apoio e investimento, o sucesso do modelo do Porto Digital não veio pronto, ao contrário, ele se apresenta como resultado de um processo em permanente movimento.

Voltando ao início, na década de 1990, através do estímulo de Programas Federais de apoio ao desenvolvimento do setor de TI, a criação de duas organizações não-governamentais, SOFTEX Recife e Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR), desencadeou um processo de colaboração e criou os primeiros laços formais entre os três setores (DA SILVA, 2008), formando uma rede empresarial com capacidade de diálogo com o institucional (governos e universidades), o que começou a mudar o modo de pensar e operar das empresas: do individual/competitivo para uma semente do coletivo/ colaborativo.

Identificando uma oportunidade, docentes do Centro de Informática da UFPE, criaram o Centro de Estudos Avançados de Recife (CESAR) em 1995. O empreendimento desenvolve

104 Organização com sede nos principais países do mundo que incentiva competitividade e crescimento das empresas associadas.

pesquisa sob demanda do mercado, formando equipes de desenvolvedores que são remunerados por sua contribuição ao projeto. No projeto Porto Digital, o CESAR exerceu a figura elo de ligação entre a universidade e as empresas, possibilitando a interação necessária ao desenvolvimento de inovações.

Em 2000, o projeto Pacto 2 foi criado e implementado pelo governo do estado de Pernambuco. Esse programa era amplo e atingia diversos segmentos. No entanto, as lideranças locais de Recife, conhecendo a vocação da cidade, elaboraram uma proposta ao governo visando desenvolver naquilo que consideravam o maior potencial econômico da região: a indústria de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC).

Este projeto apresentado pelas lideranças locais foi chamado inicialmente de Teleporto do Desenvolvimento da Nova Economia e previa somente um edifício, onde seria instalado o Information Technology Business Center (ITBC). No entanto o governo estadual fez uma contraproposta: o projeto deveria englobar todo bairro Recife Antigo, no Centro Histórico, berço da fundação da cidade. Esta decisão estava baseada em estudos prévios realizados pela Prefeitura de Recife, que demonstravam que a cidade aparecia como um expoente na área da inovação em TIC, com o ambiente propício pela soma de três fatores essenciais: polo de formação de capital humano, concentração de empresas de informática e estrutura vocacional empreendedora (REBELO, 2004).

Foi desta junção de fatores que fez nascer a ideia do Porto Digital, fruto de um ideário governamental que previa o desenvolvimento local por meio de políticas públicas (MARQUES; LEITE, 2005).

O modelo escolhido para o projeto destacava três vertentes: desenvolvimento econômico, através do fortalecimento do núcleo de TIC; revitalização urbana e inclusão social, principalmente no que se refere à Favela do Pilar, localizada no bairro.

O arranjo produtivo local que se originou do projeto inicial continuou em constante diálogo com o setor público. Desta interação foram implementadas novas políticas públicas, especialmente desenhadas, para suportar a evolução do processo bem como a adequação às características das empresas: micro e pequenas empresas com média de 20 funcionários, concentradas (85%) na Região Metropolitana de Recife; que necessitavam de espaços qualificados para desenvolver canais estratégicos para aumentar a geração de negócios competitivos.

As demandas de capacitação dos empreendedores foram atendidas através da Incubadora de Empresas de Base Tecnológica responsável pelo suporte operacional aos empreendedores e também pelas ações de divulgação e incentivo à geração de novos

empreendimentos inovadores. Todas essas ações levaram ao fortalecimento da marca Porto Digital, como sinônimo de um conceito de qualidade.

O projeto original também previa recursos da iniciativa privada, mas, ao final, o maior financiador foi o governo do estado, inicialmente com recursos originários da privatização da Companhia Elétrica de Pernambuco (que somavam R$ 33 milhões), onde R$ 23 milhões que foram investidos em transferência de uso e reforma de edificações. Outros apoiadores incluem o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que destinou R$10 milhões via Governo do Estado para aplicação em projetos de modernização tecnológica (fibra ótica), necessários para substituição e atualização das redes no bairro antigo. Dessa forma os investimentos privados captados chegaram em torno de R$ 11 milhões, sendo que, um milhão foi investido em infraestrutura por empresas de telefonia.

Com esses investimentos, o Porto Digital começou a operar como um parque tecnológico urbano cuja composição contemplava as startups universitárias, as pequenas e médias empresas, representantes, em sua maioria, do setor de TIC, que se inter-relacionam, competindo e cooperando, e suas instituições âncoras, como o Centro de Informática da UFPE, o Núcleo de Gestão do Porto Digital (NGPD) e o Centro de Estudos Avançados (CESAR) juntamente com associações de classe, poder local, entre outros, estabelecendo sinergias e articulando agentes em um mesmo espaço geográfico (IGLIORI, 2001;

MARQUES, 2005).

A criação do Núcleo de Gestão do Porto Digital, como organização não-governamental através de mandato do Governo do Estado para realizar o projeto de concepção e de execução do parque tecnológico foi considerado marco inicial do projeto.

Já no final de 2002, na prestação de contas anual, o relatório da área social, elaborado pela Gerência de Inclusão Social do NGPD105, destacava o impacto local promovido pelo conjunto de projetos envolvendo capacitação em tecnologia da informação, acesso à Internet e empregabilidade para moradores da Comunidade do Pilar, localizada no bairro Recife Antigo.

Um destes projetos combinava a parceria com o Comitê da Democratização da Informática de Pernambuco, para implantação de duas Escolas de Informática e Cidadania (EICs), onde seriam realizadas a capacitação de jovens e adultos da Comunidade. Junto a esta, outra parceria foi realizada, envolvendo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico para execução do Programa para o Futuro, onde os participantes capacitados recebiam oportunidades de emprego no setor TIC em uma rede de ONGs e empresas.

105 Disponível em: http://portodigital.org/arqSite/Anexo_G__Relatorio_de_Inclusao_Social20061009.pdf.

Acessado em 24/06/2019.

Analisando os documentos observamos que esta ação visava fortalecer a vertente de inclusão social do projeto, no sentido de oportunizar a participação dos moradores do bairro no processo de revitalização econômica trazida pelo Parque.

Numa segunda fase, em 2003, outros edifícios foram recuperados e utilizados juntamente com as áreas públicas do bairro para atração de novos empreendedores. Neste momento, dois ativos importantes foram ofertados: espaço urbano qualificado para instalação das empresas e um programa de incentivos fiscais, onde o município oferecia a redução do imposto sobre serviços (ISS) para as empresas de TIC localizadas no bairro (NEVES, 2004).

Em 2004, os números do Porto Digital já impressionavam: com 100 ha de área total (sendo 40% em área portuária), 26 km de fibra ótica instalada e 70 empresas - sendo que 75%

delas do setor de TI e as 25% restantes são empresas de prestação de serviços especializados e órgãos de fomento e oferecendo emprego a cerca de duas mil pessoas, das quais 90%

possuíam nível universitário. O documento “Metas Físicas do Contrato de Gestão (Mar 2004 - Mar 2005)”, aponta que no item “Geração de Recursos Próprios” a meta de R$ 500 mil foi superada em 195,63%, com faturamento final de R$ 1.478.144,67, demonstrando o acerto das decisões do NGPD (SECTMA, 2005)106.

Avançando, observamos que parque seguiu em atividade, porém contando cada vez menos com aporte de recursos públicos não reembolsáveis, de forma que foi necessário buscar a diversificação para manter os índices de manutenção e de crescimento sustentável.

Em 2014, percebendo a clara redução do ritmo de crescimento do parque em relação ao período anterior, partindo de uma taxa média da ordem de 29% ao ano entre 2003-2010, o índice declinou para cerca de 6% entre 2011-2013, chegando-se nesse último ano a 233 empreendimentos instalados. Sinal de que o modelo, baseado apenas em TIC perdia vigor, em virtude da altíssima concorrência no setor, e que novas iniciativas de maior amplitude precisavam ser implementadas.

O então presidente do Porto Digital, Dr. Francisco Saboya, após pesquisas e consultas ao mercado estabeleceu como meta implementar quatro movimentos de diversificação de competências complementares e de redefinição dos limites temáticos do Porto Digital. São eles:

 Ampliação do escopo: além dos negócios baseados em tecnologias de informação passou a contemplar o setor de economia criativa;

106 Disponível em:

http://portodigital.org/arqSite/1Metas_Fsicas_do_Contrato_de_Gestao_SECTMA__Mar_2004_a_Mar_2005200 61009.pdf

 Estruturação de hub de suporte à criação e consolidação de startups;

 Expansão dos próprios limites geográficos do cluster com vias de interiorização;

 Configuração do parque como um Urban Living Lab107 para fomentar uma nova área de especialização voltada para mobilidade e tecnologias urbanas estruturadas em internet das coisas e fabricação digital.

As estratégias para responder aos movimentos de expansão e redefinição de escopo foram108:

 Portomídia: em 2013 a criação de um polo de suporte tecnológico voltado para apoiar negócios nas áreas de games, cine-vídeo de animação, multimídia, design, fotografia e música.

 Jump Brasil: em 2014, estruturação do hub de suporte à criação e consolidação de startups, baseada em mecanismos como aceleradoras, incubadoras e espaços de coworking;

 Armazém da Criatividade: em 2015 a expansão da atuação, via interiorização, buscando conexões com outras cadeias produtivas do estado, iniciando pelo Polo de Moda em Caruaru;

 Porto Leve e L.O.U.CO. – Laboratório de Objetos Urbanos Conectados em 2016 configuração como um Urban Living Lab para fomentar uma nova área de especialização voltada para mobilidade e tecnologias urbanas estruturadas em internet das coisas e fabricação digital.

A busca pela diversificação de perfil e atração de mais profissionais qualificados e empreendedores para a região foi o agente motivador do programa Mulheres em Inovação, Negócios e Artes (M.I.N.A.s) que facilitou a aproximação dos interesses das empreendedoras femininas ao mercado de inovação109.

107 O termo Urban Living Lab tem sido usado como um conceito, que é a realização de testes de novas tecnologias onde Markopoulos e Rauterberg (2000) os reconhece como uma infra-estrutura de pesquisa planejada, que é fundamental para a pesquisa de interação usuário-sistema. Propõe-se que os living labs são novas configurações para organização da inovação, sendo percebido como uma rede que integra inovação aberta e de investigação centrada no usuário por meio de sua interação na chamada co-criação de valor.

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/301692183.

108 Disponível em: http://www.portodigital.org/119/37886-francisco-saboya-apresenta-balanco-dos-11-anos-de-gestao-no-porto-digital. Acessado em 05/01/2019.

109 Disponível em: http://www.portodigital.org/119/37847-porto-digital-lanca-as-minas-programa-de-equidade-de-genero. Acessado em 05/01/2019.