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Foto 9- Torot Sherarit Israel

3.1 As normas para a conversão segundo a Lei Judaica

3.1.5 Conversão liberal/reformista

O movimento reformista é considerado hoje a maior vertente religiosa judaica dos Estados Unidos. Segundo dados do próprio movimento, são 1,5 milhões de membros afiliados em mais de 900 congregações, além de inúmeras comunidades e membros afiliados ao redor do mundo.

O movimento é conhecido como Reform ou Progressive Judaism nos EUA. Em outras partes do mundo, com algumas diferenças ideológicas e históricas, podemos encontrar sob os nomes de Judaísmo liberal, reformista, progressista ou progressivo. No Brasil há diversas comunidades afiliadas ao movimento reformista, concentradas nas regiões Sul e Sudeste do país. A congregação carioca ARI – Associação Religiosa Israelita, e a paulista CIP – Congregação Israelita Paulista, possuem revistas e jornais onde rabinos e participantes da comunidade escrevem defendendo e explicitando seu caráter reformista.32 Essas duas comunidades também apoiam as congregações pesquisadas com recursos, cursos de formação, materiais gráficos e religiosos.

A base teológica do movimento reformista é que, ao mesmo tempo em que os ensinamentos morais que Moisés recebeu no Monte Sinai são eternos, o Judaísmo se caracterizaria por um conjunto de práticas em progresso constante, a serem exploradas e revistas a cada geração. Em suas origens, na segunda metade do século XIX, o

movimento se pautava por serviços religiosos realizados na língua vernácula e no abandono de práticas que, na época, muitos consideravam já irrelevantes, tais como a

kashrut e os serviços religiosos em hebraico. Os valores e práticas deste período — que

perdurou até os anos 1960 — fazem parte do que hoje se convencionou chamar de “Movimento Reformista Clássico”.

O movimento reformista de hoje permanece fiel aos seus princípios originais ao praticar um Judaísmo em constante progresso orientado para a justiça social. Os judeus reformistas aceitam a lei judaica, porém colocam ênfase na autonomia moral dos indivíduos para decidir quais leis têm significado religioso para eles.

Atualmente o estudo da Torá, do Talmud e da Halachá é estimulado como a fonte maior da tradição judaica, cujo foco se centra nas ações sociais e éticas. É neste espírito que vem sendo reintroduzido, ao longo das últimas décadas, um conjunto de práticas, antes consideradas superadas pelos judeus reformistas clássicos, como, por exemplo: a revalorização do hebraico, seja como o idioma compartilhado por Israel, seja nos serviços religiosos; o respeito ao Shabat; o cumprimento, em algum nível, das leis de kashrut; e, o apoio ao sionismo. O retorno às práticas tradicionais vem sendo cada vez mais estimulado pelas instituições educacionais e religiosas do movimento reformista33.

No Canadá, dada sua história e processo de colonização, podemos perceber uma diferença enorme entre as várias comunidades ali instaladas, bem como tem-se muito menos dados estatísticas sobre as comunidades liberais em relação às correntes religiosas mais ortodoxos.

33

http://www.cip.org.br/quem-somos/judaismo-liberal/judaismo-reformista/movimento-reformista- contemporaneo/

(A mais antiga sinagoga reformista do Canadá. A sinagoga Emanu-El-Beth Sholom data de 1882 e hoje é dirigida por uma rabina. Está situada em Westmount, bairro anglófono de Montreal).

Criado na Alemanha no séc. XIX, por Moïse Mendelssohn, em um momento de iluminismo tardio no país, onde as tensões entre os judeus emancipados e o modo de vida das comunidades judaicas tradicionais de então se fizeram mais agudas, hoje, esse movimento é mais bem sucedido nos países americanos como os EUA, Canadá, Brasil e Argentina.

Os princípios fundadores do movimento reformista americano estão estabelecidos na Plataforma de Pittsburgh de 1885. Esses afirmam um engajamento ao monoteísmo, mas rejeitam várias práticas rituais e tradicionais, por serem consideradas um insulto à sensibilidade moderna, como aquelas que regem a alimentação kasher, a pureza sacerdotal e as vestimentas bicromáticas. Eles igualmente rejeitam um retorno a

Sion. (LEVY: 2005)

Em todas as comunidas brasileiras pesquisadas, a doutrina liberal é a prática. Todos os candidatos com os quais conversamos foram convertidos nessa corrente religiosa.

As conversões reformistas não são bem aceitas pela comunidade ortodoxa, ou seja, não são vistas como “válidas” por um determinado número de rabinos. Isso se dá devido a divergências sobre as práticas reformistas e as ortodoxas de interpretar as leis judaicas, seus dogmas e a realização de seus rituais.

A corrente reformista é a mais representativa no Brasil e em nossa pesquisa é o universo por excelência. Os judeus reformistas são os nossos judeus “cotidianos”,

aqueles que não possuem nenhum marcador étnico de identificação. Os homens não usam a kipá fora dos serviços religiosos na sinagoga, homens e mulheres não se vestem de forma diferenciada e geralmente se consideram antes “culturais” que “religiosos”.

As conversões ao judaísmo reformista foram as mais acompanhadas em nossas pesquisas de campo e são as que mais despertam atenção. Elas possuem, em si, uma carga de valores associados à contemporaneidade que instigam e incrementam os estudos sobre a identidade: o voluntarismo dos candidatos em mudar seu destino e romper com seu passado, em detrimento de uma nova religião; e, o agenciamento em busca de uma normatização dessa nova identidade, por meio da conversão, paradoxalmente, optando pela menos normativa das correntes religiosas judaicas.

Os judeus reformistas são os mais suscetíveis à assimilação, ao distanciamento do gueto e das práticas religiosas e a viverem dilemas relativos à “crise na identidade judaica”, pois ao assimilarem muito dos ideais do iluminismo, da democracia, do racionalismo, da modernidade, das globalizações e do processo de ocidentalização das culturas, a vida laica os coloca em uma situação identitária tranquila e, ao mesmo tempo, periclitante, em relação à identidade judaica religiosa.

Sua identidade judaica “extra Torá” é marcada por práticas que priorizam outros aspectos do Judaísmo, como o sionismo, a educação infantil e as antigas tradições judaicas europeias, que servem de pilares e marcadores de fronteiras e garantem a manutenção de sua “judaicidade” hereditária, sem manter o caráter religioso e contemplativo do Judaísmo ortodoxo.

Os ortodoxos não os reconhecem como judeus legítimos, pois os “judeus legítimos” seriam apenas aqueles que praticam a religião judaica sob a orientação ortodoxa34. Algumas seitas ultra-ortodoxas que vivem em Israel e no Canadá35, por exemplo, acham que aqueles judeus que não praticam a religião em todos os seus dogmas, preceitos e interditos, são apóstatas da religião judaica e nem alma possuem.

Outras seitas religiosas, derivadas do movimento ortodoxo como o Beit Chabad, insistem em fazer proselitismo entre os judeus reformistas, na tentativa de arrebanhá-los para a ortodoxia. Esses reformistas estariam “afastados” do verdadeiro Judaísmo e isso só atrasaria a vinda do Messias. No Canadá e nos EUA, é comum ver judeus do Beit

34 Entre as comunidades ortodoxas pesquisadas, a fala dos rabinos pesquisados aponta que a comunidade

de “verdadeiros judeus” é apenas aquela que ele representa. O restante raramente é considerado legítimo e é passível de críticas veladas sobre suas posturas e costumes.

Chabad na rua interpelando judeus laicos e convidando-os a amarrar os tefilim e a

recitar o Shemá.

Os ortodoxos zelosos da Lei acreditam também que a ênfase às tradições festivas e comidas típicas, tão caras aos reformistas como marcadores de uma identidade diferenciada, esvazia o Judaísmo por não serem acompanhadas da prática cotidiana da lei judaica, da contemplação religiosa e da total submissão à Torá.

Por sua vez, os judeus reformistas tendem a se referir aos ortodoxos como anacrônicos, empedernidos, machistas e, politicamente detestáveis, pois eles prejudicariam o Estado de Israel com suas exigências religiosas. Por exemplo, ao contrário de todos os jovens israelenses – homens e mulheres – aos ortodoxos não é cobrado o serviço militar obrigatório36. Alguns mais empedernidos se recusam mesmo a falar o hebraico vernáculo em detrimento do iídiche, deixando apenas as orações para o hebraico bíblico – a língua sagrada e a expressão maior para falar com Deus. Também se organizam em partidos políticos e possuem assentos no Beit Knesset (parlamento israelense) e suas comunidades recebem generosos auxílios do governo. Esses ortodoxos também detêm o poder de negar a realização de casamentos em Israel se o indivíduo não estiver dentro dos critérios por eles considerados condizentes com a Lei Mosaica. O casamento para judeus, naquele país, é exclusivamente religioso. Com relação à imigração judaica para Israel, são os rabinos ortodoxos que define quem é ou não judeu, delegando-se o direito de negar conversões realizadas em outros sítios, e impedindo esses imigrantes de receberem a cidadania israelense.

Essas posturas da ortodoxia, em certa medida, constrangem e envergonham os judeus laicos assimilados e ocidentalizados, devido a suas práticas e valores “ultrapassados” numa modernidade tardia. Para os reformistas, a “judaicidade” é transmitida de forma hereditária e a identidade é transmitida de forma atávica, pouco se importando em seguir as práticas e leis religiosas, sob uma interpretação rígida, como aquela proposta pelos ortodoxos.