Foto 9- Torot Sherarit Israel
1.2 Dois níveis de narrativas: afirmativas e problemáticas
Os elementos simbólicos da tradição judaica integrados às narrativas de conversão não simbolizam a conversão. Ao contrário, quando eles evocam seus eventuais ancestrais judaicos, os convertidos negam a conversão, tentando assim se integrar às normas da identidade judaica que prevê uma hereditariedade. E quando se referem à narrativa da saída do Egito, por exemplo, constituem-se mais em uma narrativa fundadora do povo judeu no seu conjunto que numa narrativa de conversão que eles invocam, pois de certa maneira, essa narrativa bíblica vem precisamente contar a conversão do povo hebreu à Lei de Moisés, recebida no Sinai. Mesmo no mundo cristão e, sobretudo católico, a narrativa de conversão de São Paulo é também uma narrativa fundadora para o conjunto dos cristãos. Dito de outra forma, “esses empréstimos simbólicos não se estruturam senão em um quadro pré-construído e justificam o processo de invenção da parte daqueles que os produzem”. (TANK- STORPER, 2007).
Como compreender que atores que não se conhecem, que não possuem quase ou nenhum contato entre si e, sobretudo, que possuem percursos de vida díspares, reproduzam, sem nenhum modelo de referência, o mesmo esquema narrativo? Adotaremos nesse trabalho a hipótese de Tank-Storper, por entendê-la como a mais verossímil para aplicação dos dados empíricos coletados. A hipótese de Tank-Storper, é que:
A narrativa de conversão pode ser compreendida segundo dois níveis fundamentais: um nível afirmativo – onde ele justifica o percurso e lhe dá coerência (seria o nível de uma identidade narrativa); e um nível problemático, onde ele se coloca em cena e problematiza as tensões ligadas à conversão. (TANK-STORPER, 2011:38).
Quando Lévi-Strauss (1974) definiu a narrativa mítica não apenas como uma história sagrada, mas como uma narrativa que tem por tarefa específica operar a mediação entre termos irredutivelmente opostos, ele sublinhou que a montagem de uma série de eventos históricos em uma narrativa com um enredo é um instrumento a serviço do pensamento, que permite compreender e apreender uma realidade que não é necessariamente simples e que comporta sua parte de contradição (LÉVI-STRAUSS, 1974: 263-264).
A força da abordagem de Lévi-Strauss está em apreender a narrativa como um sistema e não na sua temporalidade. As literaturas sociológicas e historiográficas
trabalharam as narrativas de conversão se concentrando sobre a decomposição de sequências atreladas ao tempo que a narrativa foi produzida. A mais célebre delas, é aquela de Lofland e Stark (1965), citadas na introdução desse trabalho e enumeradas em sete sequências: 1) a crise; 2) sua formulação religiosa; 3) a busca; 4) um encontro; 5) uma interação; 6) o desengajamento e 7) o engajamento (LOFLAND E STARK, 1965 apud TANK-STORPER, 2007: 39).
Ora, se o caráter eminentemente estereotípico dessas narrativas nos deixa supor que elas inspiram e atualizam as narrativas de conversão preexistentes, ou mesmo contém uma experiência fundadora singular, como o caso da conversão ao Judaísmo, elas devem vir, de uma forma ou de outra, simbolizar e exprimir tensões e fazer mais que simplesmente contar um percurso cronológico onde se sucederam os eventos. Dessa forma, elas devem conter alguns registros de oposição que não podem ser compreendidos senão por uma abordagem global do discurso.
Rachel, uma convertida de Fortaleza, começa sua narrativa dizendo: “eu nunca
me senti à vontade sendo cristã”. Ao terminar ela diz: “agora que eu reli o passado, eu penso que eu sempre fui judia [...] há fortes chances de que minha mãe seja judia”.
Aqui, de uma maneira bastante clara, os dois termos – a dimensão problemática (nunca me senti à vontade) e a dimensão afirmativa (eu penso que sempre fui judia) estão em relação estreita. Essas dimensões se encontram e contribuem tanto para formular a tensão existente (eu sempre me senti estrangeira em minha casa) como para resolver o problema (eu era efetivamente uma estrangeira em minha casa). Observa-se que essa tensão que ela deixa clara e que se resolveria com a conversão, exprime claramente uma tensão que nasce no próprio percurso da conversão – aprendida por meio das leituras e da estereotipia institucional sobre o pertencimento ao Judaísmo: como ela poderia se sentir judia não tendo nascido judia? Acionando o estereótipo da ancestralidade: ela sempre se sentiu judia, pois “tinha uma mãe judia”, e a herança transmitida pelo sangue em suas veias a teria chamado de volta à sua “verdadeira natureza”, fazendo inclusive, com que ela descobrisse essa origem.
Podemos perceber que a problematização e a validação estão iminentemente ligadas. Elas se juntam em dois níveis: a dimensão problemática exprime a falta – a crise; e a dimensão da validação exprime a ordem. É uma dialética complexa na medida em que elas se imiscuem e se embaraçam uma na outra tecendo as conexões que podem ser compreendidas conforme diferentes níveis. (TANK-STORPER, 2007: 40).
Nessa perspectiva, seguir as narrativas como o palco onde se manifestam e são resolvidos os conflitos vividos no processo de conversão, permite postular a autonomia de cada narrativa, cada uma ilustrando as tensões próprias para aquele ou aquela que a produz. O estereótipo não é mais o resultado da hegemonia de um modelo narrativo exemplar que viria a se impor aos convertidos, mas o signo das problemáticas comuns ligadas à conversão. O conjunto de narrativas exprime a tensão entre a identidade do convertido e o modo de transmissão canônica da identidade judaica. É, em grande parte, o que eles se determinam a contar. A recorrência dessa problemática poderia assim justificar a relativa homogeneidade das narrativas, a despeito da ausência de um modelo tradicional e institucional. Mas elas comportam também certas variações que refletem por sua vez a pluralidade de percursos e a pluralidade de problemáticas individuais nascidas de situações familiares ou religiosas particulares.
Essas problemáticas individuais desenham aquilo que são chamados de “motivos” para a conversão; conforme relembra Tank-Storper (2007):
Motivos, porque eles fornecem uma forma a esses percursos. Eles os orientam lhes dão um sentido. Eles nos colocam na pista não das causas da conversão, mas dos seus arranjos. Nesse sentido, a conversão pode aparecer como um ato significante em vista da resolução de conflitos pessoais, familiares ou religiosos. (TANK-STORPER, 2007:40)