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4.3.1 – Conversa Existencial

No documento Psicologia clínico-comunitária (páginas 163-166)

realiza-se por meio da fala existencial. o falar de si na conversa Existencial, o escutar-se ao falar para o outro e este, também, escu- tando o fluxo de vida e sinceridade, criam um clima impulsionador de crescimento pessoal. a fala existencial é fala que desvela o sujeito da fala e faz pulsar aquele que escuta.

a conversa Existencial fundamenta-se na obra de carl rogers. ocorre por meio de uma relação de apoio psicológico. a conversa é fala existencial que pode ser vivida em díade, em tríade ou em grupo. neste último, pode acontecer num círculo de diálogo, numa roda de conversa, meios que ajudam o participante a se expressar pela fala. alguns falam de seus problemas com facilidade para todo o grupo, enquanto outros se reservam por vários motivos a falar com uma ou com algumas poucas pessoas.

no Pirambu, a conversa Existencial era a conversa individual, uma relação de ajuda psicológica entre agente externo e morador que participava das atividades comunitárias do movimento liberta- ção. lá, a conversa não se deu de modo sistemático, porém se dava sempre que um morador buscava algum dos colaboradores exter-

nos para compartilhar sua intimidade. Eram diálogos íntimos sobre uso de drogas, briga familiar, dificuldades financeiras e de emprego, inibição, vergonha, conflitos em casa ou com os companheiros, so- lidão, mágoa, medo, etc.

os moradores não tinham muito com quem compartilhar esses momentos, desabafar, chorar e contar suas dificuldades. Falar em grupo, para muitos, era difícil. além disso, a culpa e a deformação religiosa interiorizada, bloqueavam o processo de autodescoberta e renovação existencial, necessitando eles, então, de outra pessoa que pudesse ouvi-los, falar-lhes e que eles pudessem se expressar em uma relação de empatia, autenticidade e aceitação.

a necessidade e o hábito de se conversar individualmente com o profissional de saúde mental, de modo privado, é o que há de mais arraigado em nossa sociedade, porém, a partir da década dos 70, ga- nharam força as práticas grupais em saúde mental. a terapia de gru- po ocupou espaço frente ao atendimento individual, obviamente, sem desconsiderar o papel da atenção psicológica individual, a qual é de grande importância quando no diapasão da terapia breve. Veio mostrar que a atenção em saúde mental pode ser coletiva, sem des- cartar o apoio individual, que também pode realizar-se no próprio grupo, na forma de díade ou de tríade.

a novidade, aqui, é que na terapia pelo Encontro a conversa Existencial se desenvolve principalmente entre moradores, sendo facilitada por dois terapeutas durante aproximadamente 30 ou 40 minutos. morador compartilhar sua existência em dupla com outro morador ainda é um desafio para os terapeutas, mas aos poucos é possível se conseguir tal prática entre os participantes.

a finalidade da conversa Existencial é a compreensão, a escuta ativa e a ajuda psicológica que um morador pode dar a outro em sua busca de apoio individual para ser ouvido, para falar de algo vivido que lhe produz sofrimento. o importante é aproximar por meio de díades ou tríades o morador de outro morador, para que possam juntos exercitar

entre eles a prática do acolhimento e da escuta. isto porque sabemos da importância das relações de ajuda entre os próprios moradores, o apoio informal em geral e, especificamente, em saúde mental.

a prática da conversa Existencial no grupo vem favorecer a que o morador possa expressar suas necessidades individuais silenciadas em um pequeno espaço de relação, como a díade ou a tríade, dentro de um grupo acolhedor e confiável. Que possa descobrir que sua história de vida e de sofrimento pode ser acolhida com respeito e consideração nesse lugar que, aos poucos, passa a ser vivido como um espaço de superação da dor e de estímulo a seu próprio cresci- mento pessoal e comunitário.

a conversa também favorece o aprendizado da escuta e da consi- deração, atitudes importantes para que o participante da terapia pelo Encontro seja mais um na comunidade que pratica a escuta e o apoio psicológico com aqueles, vizinhos ou não, que no dia a dia precisam de alguma palavra de ajuda ou que precisam ser escutados. Esses, de fato, se tornam cuidadores-comunitários em saúde mental.

a conversa Existencial é sistemática, estruturada de forma a que seja um espaço de diálogo compreensivo focalizado numa situação vi- vida pelo próprio morador. Espaço que dá apoio a quem narra ou que possibilita a este perceber que pode se expressar inclusive no grupo e compartilhar com todos os participantes sua existência sofrida. sabe- mos que isso nem sempre é fácil, mas é possível também se conseguir.

na terapia pelo Encontro, a conversa Existencial é vivida no início do processo, contribuindo não apenas para o acolhimento, escuta do outro e elaboração da situação vivida, como também para que ele se encoraje e se expresse cada vez mais pela fala no grupo maior, diminuindo assim a necessidade de procurar a conversa indi- vidual fora do grupo.

Quando a fala existencial ocorre no grupo maior, isso leva a que todo o grupo acompanhe o que está sendo dito pelo participante que se expressa, que fala de si, do seu momento de vida. É um momento

de coragem e de confiança, mesmo sabendo-se que nem todos cui- darão de guardar o sigilo do que foi dito. o que fazer?

sabemos que devemos trabalhar a questão do sigilo, mas não se consegue uma concordância absoluta. alguém poderá falar fora do grupo sobre o que se passou com o morador que revelou seu momen- to existencial. Por outro lado, a grande maioria acolhe, entende a situ- ação de quem fala e guarda sigilo sobre o que foi dito pelo morador.

No documento Psicologia clínico-comunitária (páginas 163-166)