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4.4.1 – Processo da Sessão

No documento Psicologia clínico-comunitária (páginas 170-173)

numa sessão, o grupo pode dialogar sobre um tema gerador (que é próprio do universo simbólico-valorativo-emocional dos par- ticipantes), depois passar para a expressão de sentimentos negativos e positivos para, logo a seguir, caminhar para a vivência biocêntrica. Em outra sessão, pode começar pela conversa existencial, ir para a vivência e depois para o diálogo-problematizador.

o que define o percurso da sessão em termos de linhas de fa- cilitação é o próprio processo do grupo, o instante. Por exemplo, a fala problematizadora surge frente à necessidade de se compreender uma dada situação social relacionada com o problema de um ou

mais participantes, a qual pode ser questão relacionada com saúde, educação, lazer, segurança, trabalho, respeito social, preconceito, es- tereótipo, ou mesmo a respeito do próprio sofrimento como algo que tem a ver com a sociedade. nesse dialogar pode ocorrer ou ser facilitada a expressão de sentimentos consonantes com algo que o participante está vivendo de modo pessoal ou familiar e que ainda não havia tido a oportunidade ou a confiança para expor. aqui, o processo muda do tema gerador para a fala existencial, o sentimento guardado, o sofrimento do participante ou dos participantes, senti- mento que sai da latência de uma vida silenciada para a sua manifes- tação no convívio acolhedor e compreensivo do grupo. o momento agora passa a ser de conversa Existencial ou de Dramatização

o terapeuta e todo o grupo escutam e acolhem o fluxo de vida sofrida que vem na fala do participante ou da dramatização. Às vezes podem perguntar algo, até problematizar no sentido de trazer para o momento a relação do vivido pessoal com o vivido coletivo, sem in- terpretar ou tentar explicar o que está sendo exposto, numa atitude de aceitação, de empatia e respeito.

É importante que o momento seja propiciador de acolhimento e de transformação do sofrimento em sentimentos de valor pessoal e de poder pessoal para aquele que se expôs e para todo o grupo. Que também favoreça à construção de novos sentidos e da compreen- são de que o sofrimento de um morador perpassa o sofrimento do outro; de que o sofrimento tem muito de coletivo em sua origem e que, portanto, não se pode sofrer isolado.

o sofrimento de cada morador tem, em geral, sua fonte na ide- ologia de submissão e resignação, em sua identidade de oprimido e explorado, em sua condição de sentir-se “pobre”, de aceitar ser “po- bre”, como se não tivesse sua própria riqueza e que a riqueza fosse algo unicamente material. como se não tivesse uma potência de vida.

nessa sessão, por exemplo, o fluxo do sofrimento do participan- te e de todo o grupo precisa seguir progressivamente na direção de

sua transformação em expressão dos sentimentos positivos, fortale- cedores da potência de vida e da saúde dos participantes. transmu- tar o sofrimento em plenitude, em amor, em alegria, em coragem, em vontade, em sentido de vida. Para isso, ao esgotar-se a expressão da dor, após o silêncio que acolhe e fertiliza o instante de empatia e amor, o terapeuta-facilitador pode estimular a vivência biocêntrica, mediante exercícios de Biodança ou de arte-identidade, vivências com dança, pintura, argila, colagem, teatro do oprimido, ou outra.

É importante que, ao final da sessão de duas horas, os participan- tes estejam harmonizados, integrados, alegres, afetivos, mesmo ainda com o sofrimento presente, sentindo a dor que agora flui e tende a desvanecer-se, como também sentido positivamente suas vidas e o próprio grupo. Que percebam que aquele instante vivido valeu para continuar a caminhar com os outros em busca da superação do so- frimento e da construção de sua felicidade individual e comunitária. Em outra sessão pode acontecer de o processo grupal permane- cer só como Diálogo-Problematizador, ou só como conversa Exis- tencial, ou só como Dramatização, ou só como sessão Vivencial de Biodança ou de arte-identidade. Em outra, se mesclam apenas duas dessas linhas de facilitação. o que vai dar o rumo do processo é o momento do grupo, o aqui-e-agora dos participantes, para nós, o estar-aqui, a presença. Para isso, o facilitador precisa manter uma relação sensível e de confiança, autêntica, acreditar na potência do grupo, em sua capacidade de transformação do sofrimento em vida, em vínculo, em potência de vida, em luta solidária.

alguns grupos, dependendo das características dos participantes, requerem um pouco mais de estruturação e etapas mais direcionadas. neles, a tendência é para a facilitação por meio da seguinte sequência: a. chegada dos participantes, formação da roda de boas-vin-

das, fala introdutória do facilitador sobre viver o dia a dia; b. conversa existencial no grupo ou em díades/tríades, para compartilhar o vivido naquela semana, isto é, o que se vi-

veu de bom e de ruim, as alegrias e sofrimentos que o participante carrega, focalização de uma questão existen- cial do morador - a dor principal, ser acolhido pelo outro na forma de escuta e depois por um suave e breve abraço; c. retorno ao grupo, se antes se deu em díades/tríades, para

que no círculo se abra espaço para a expressão de alguma das dores ou sentimentos positivos vividos, facilitar o pro- cesso vivencial e a elaboração, no caso de sofrimento, pelo participante em foco, por meio do teatro do oprimido ou outra dramatização;

d. Problematização do vivido como tema gerador, buscando a relação entre situação individual e situação social do so- frimento da pessoa ou das pessoas, aí considerando a ideo- logia de submissão e resignação, a identidade de oprimido e explorado, o “ser pobre” e a prática comunitária de uns ajudarem aos outros por meio de atividades comunitárias; e. Facilitação de vivências biocêntricas;

f. celebração final e despedida.

o processo grupal pode ocorrer, também, do seguinte modo: a. Formação da roda de boas-vindas e fala do terapeuta; b. conversa Existencial em dupla/tríade;

c. Problematização no grupo de um tema relacionado ao que foi compartilhado na conversa existencial;

d. Facilitação da vivência biocêntrica; e. celebração final e despedida.

No documento Psicologia clínico-comunitária (páginas 170-173)