A Copa do Mundo sintetiza toda a transformação em geral do futebol ao longo dos anos. Como apontado por Giulianotti (2002), o jogo puramente britânico passa a ser domínio da FIFA. O surgimento da Copa do Mundo viria apenas depois de um “rompimento” temporário com o Comitê Olímpico Internacional9: o mundial seria o ato de independência da
FIFA e o início da batalha pelo controle do esporte (GIGLIO, 2016). A entidade queria os melhores jogadores em campo, para propiciar uma competição com as maiores forças. Entretanto, o COI, carregando seus princípios olímpicos, não abria mão de manter a competição destinada a amadores.
[...] Tendo como suporte a ideia dos princípios olímpicos, foi ressaltado que somente poderiam participar do torneio olímpico de futebol atletas amadores, sendo considerado amador aquele que não recebesse remuneração ou consideração de qualquer espécie a mais do que as despesas necessárias para pagar hotel e viagem, ou aquele que não estivesse registrado como profissional (Giglio, 2014, p. 47).
Iniciava-se um entrave entre COI e FIFA. Foi após o Congresso Olímpico de 1925, depois de uma série de divergências, que a FIFA deu o primeiro passo para a sua “independência”: em 1930, ela conseguiu organizar seu primeiro mundial, ainda com status de amador - mas seria o início da profissionalização. A demarcação de espaço pela entidade se iniciava.
As primeiras Copas do Mundo de Futebol foram de pequeno porte quando comparadas ao que viriam a se tornar, além do fato de sofreram com certas limitações daquele período (dinheiro, logística, deslocamento etc.). Porém, mesmo com as dificuldades, a Copa do Mundo no Uruguai foi um estímulo para que o processo de profissionalização fosse acelerado em vários países, principalmente na América do Sul, pois temiam o êxodo de jogadores para a Europa. A partir de então, os mundiais viriam em sequência, com intervalos de quatro anos. A tabela 1 abaixo apresenta o número de seleções participantes em cada Copa do Mundo; esse número foi aumentando à medida que o Mundial foi se ampliando e ganhando mais força política e econômica:
Tabela 1 - Número de seleções em todas as Copas
ANO SEDE Nº SELEÇÕES
1930 Uruguai 13* 1934 Itália 16 1938 França 15* 1950 Brasil 13* 1954 Suíça 16 1958 Suécia 16 1962 Chile 16 1966 Inglaterra 16 1970 México 16 1974 Alemanha 16 1978 Argentina 16 1982 Espanha 24 1986 México 24 1990 Itália 24 1994 Estados Unidos 24 1998 França 32 2002 Japão-Coreia do Sul 32 2006 Alemanha 32 2010 África do Sul 32 2014 Brasil 32 2018 Rússia 32
Fonte: FIFA10. Elaboração própria. Nota: *Copas que tiveram desistências.
No decorrer dos mundiais, tornava-se cada dia mais presente a participação, a intervenção e o uso do futebol e da Copa do Mundo como instrumento político ou para fazer política. Em 1934, Benito Mussolini usou a Copa na Itália para promover sua ideologia ao mundo e aos próprios italianos, que ainda duvidavam da sua força. Em 1938, Getúlio Vargas dava as primeiras mostras do uso que viria a fazer do futebol durante o seu governo. O projeto iniciado por Vargas se concretizaria, em 1946, quando a FIFA confirmaria o Brasil como a próxima sede do evento. No entanto, para sua decepção, ele não estaria no poder quando a Copa enfim chegasse: o mundial de 1950 aconteceria doze anos depois do último em 1938 - devido à Segunda Guerra Mundial11. A Copa do Mundo de Futebol de 1950 teve
10 FIFA. Formats of the FIFA World Cup final competitions 1930-2010. Disponível em: https://www.fifa.com/mm/document/fifafacts/mcwc/ip-201_04e_fwc_formats_slots_8821.pdf. Acesso em: 20 mar 2017.
11 A história da FIFA ao longo da Segunda Guerra mostra sua relação conflituosa com a política. Em 1934, deu o direito à sede do mundial à Itália do Governo Mussolini, e anos depois suspendeu a Alemanha de qualquer competição organizada pela entidade. Além disso, considerava-se que, talvez, a FIFA desse o direito de sede à Alemanha Nazista em 42, quando Hitler demonstrou interesse. A promoção política se dá de forma dissimulada (BORDIEU, 1983, p. 146-147).
uma importância ímpar: seria a primeira pós-guerra e fora do continente europeu.
Ainda que o capitalismo começasse a se tornar mais presente, é importante salientar que, até os anos 1970, a Copa do Mundo ainda não tinha grandes ambições relacionadas ao lucro: ainda se caracterizava como uma competição “meramente” esportiva. No entanto, esse caráter ia se modificando cada dia mais rápido. As demandas criadas pelo futebol começavam a crescer e a necessidade de ampliar o projeto e o alcance era inevitável.
Na tabela 2 abaixo, conseguimos visualizar esse crescimento exponencial que se estabeleceu no futebol. Ele apresenta os dados relacionados aos números de estádios e expectadores de cada mundial até 2014. Os números nos ajudam a compreender as proporções que esse evento tomou.
Tabela 2 - Número de estádios e espectadores ao longo das Copas
ANO SEDE ESTÁDIOS ESPECTADORES* MÉDIA DE
PUBLICO 1930 Uruguai 3 590.549 32.808 1934 Itália 8 363.000 21.353 1938 França 9 375.700 20.872 1950 Brasil 6 1.045.246 47.511 1954 Suíça** 6 768.607 29.562 1958 Suécia 11 819.810 23.423 1962 Chile 4 893.810 27.912 1966 Inglaterra 8 1.563.135 48.848 1970 México*** 5 1.603.975 50.124 1974 Alemanha 9 1.865.753 49.099 1978 Argentina 6 1.545.791 40.6 1982 Espanha 16 2.109.723 40.679 1986 México**** 12 2.394.031 40.572 1990 Itália 12 2.516.215 46.039 1994 Estados Unidos 9 3.587.538 68.991 1998 França 10 2.785.100 43.517 2002 Japão-Coreia do Sul 20 2.705.197 42.269 2006 Alemanha 12 3.359.439 52.491 2010 África do Sul 10 3.178.856 49.670 2014 Brasil 12 3.429.873 53.592 2018 Rússia 12 3.031.768 47.371
Fonte: FIFA12. Elaboração própria. Notas: *Espectadores in loco
**Com transmissão de televisão ***Com transmissão de televisão a cores e ao vivo
****Início das vendas dos direitos de transmissão
12 FIFA. FIFA World Cup comparative statistics 1982-2014. Disponível em: https://resources.fifa.com/image/upload/comparative-statistics-1982-2010-
Para facilitar a organização continental, a FIFA sancionou a criação das confederações. O número de países que aderiam à entidade crescia continuamente e, a partir daí, as federações continentais começaram a aparecer (GIULIANOTTI, 2002). Em 1966, a FIFA já registrava 130 federações associadas, enquanto que, em 1938, eram apenas 50 (PRONI, 2000). Essa nova organização que a FIFA impôs ao futebol é chamada por Giulianotti (2002) como Nova Pirâmide, um arranjo hierárquico para as entidades que fazem parte da instituição. No entanto, ela não redefiniu as políticas internas segundo as quais os europeus ainda eram os mais influentes, principalmente França e Inglaterra.
Na esteira dessas mudanças, os anos 1970 veriam a eleição do primeiro presidente latino-americano da FIFA, que seria responsável pelo grande salto do futebol e da Copa do Mundo: começava a era “João Havelange”, a maior transformação da competição e a conversão da FIFA em uma das entidades mais influentes e poderosas do mundo todo - a demarcação de território seria incisiva.