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Copa do Mundo da FIFA 2014: o projeto de poder

2 TEM COPA NA POLíTICA: O PROJETO POLíTICO DE BRASIL E AS

3.2 Copa do Mundo da FIFA 2014: o projeto de poder

Como supracitado, o nome é um dos aspectos que diferem os dois eventos em questão; até 1998, a competição era conhecida por Copa do Mundo, seguido do ano e do nome do país; a partir do mundial de 2002, o torneio passou a ser intitulado como: FIFA

World Cup - em português, Copa do Mundo da FIFA. O fato de inserir a sigla da entidade já demonstra como o seu poder se alterou ao longo do tempo e como o mundial se tornou um produto tão importante para ela. A Copa do Mundo tinha um dono, com muitos interesses.

Outro índice disso é o fato de que, ao contrário de 1950, quando o cartaz utilizado foi escolhido a partir de um concurso voltado ao público, em 2014, uma agência publicitária foi a responsável pelo desenvolvimento de toda a marca relacionada à Copa do Mundo de 2014. É importante ressaltar que não se tratava mais de um único cartaz, mas sim de toda uma marca: cartazes, logo, propagandas impressas, digitais, televisivas etc. Tamanha é a importância da publicidade e do marketing nos dias atuais, que houve um evento de apresentação da Marca da Copa do Mundo de 2014, no Rio de Janeiro em janeiro de 2013 (GUEIROS, 2013). A figura 12 abaixo apresenta o cartaz, que se assemelha ao de 1950 por apresentar pés chutando uma bola. A figura 13, o logo da Copa do Mundo do Brasil.

Figura 12 - Poster Oficial Copa do Mundo de 2014

Figura 13 - Logotipo Copa do Mundo de 2014

Fonte: Portal da Copa27 Fonte: FIFA28

As distinções entre 1950 e 2014 se iniciam em pequenos detalhes, mas vão se tornando cada vez maiores. A organização do evento mais recente revela que a Copa do Mundo de Futebol Masculino tornou-se o grande trunfo da FIFA, sua menina dos olhos, uma condição bem diferente da de 1950. A Copa era da FIFA como mostra a figura 14.

27 PORTAL DA COPA DO MUNDO DE 2014. Conheça detalhes do cartaz oficial da Copa do Mundo da FIFA 2014. Disponível em: http://www.copa2014.gov.br/pt-br/noticia/embaixadores-da-copa-do-mundo-da-fifa-

2014-apresentam-cartaz-oficial. Acesso em 20 abril 2018.

28 FEDERAÇÂO INTERNACIONAL DE FUTEBOL (FIFA). FIFA World Cup 2014. Disponível em: https://www.fifa.com/worldcup/archive/brazil2014/index.html. Acesso em 20 abril 2018.

Figura 14 - A Copa do Mundo é da FIFA

Fonte: Estado de São Paulo, Caderno de Esportes, 28 Mar 2012, p.E4

Ao longo do tempo, a relação da FIFA com a Copa do Mundo se consolidou e a entidade passou a explorar todas as possibilidades do evento. As novas exigências e necessidades para a organização da Copa do Mundo são o maior exemplo desse modelo explorátorio empenhado. Se antes as exigências se estabeleciam quanto ao básico para o acontecimento do jogo de futebol no estádio, o atual modelo, por contraposição, exige uma série de requisitos. Devido a essa série de obrigações impostas pelo Padrão FIFA, o Ministério do Esporte elaborou um organograna com todas as areas que seriam afetadas e fariam parte do projeto do mundial. O quadro 6 apresentou as dez principais áreas de intervenção para a Copa de 2014:

Quadro 6 - Exigências FIFA World Cup Brasil 2014

Fonte: Relatório Balanço da Copa do Mundo 2014 – Ministério do Esporte/2014. Elaboração própria.

Importante salientar que, dentro de cada categoria, existia um grande número de exigências específicas, devido ao tamanho do projeto. Para isso, o governo brasileiro organizou um modelo de planejamento dividido em ciclos, como mostra o quadro 7 abaixo:

Quadro 7 - Modelo de Planejamento para Copa do Mundo 2014

Fonte: Adaptado de Relatório Balanço da Copa do Mundo 2014 – Ministério do Esporte/2014.

No Quadro 8 abaixo, observamos os três ciclos de planejamentos descritos de forma detalhada, separados pelos objetos principais e as ações essenciais para sua execução; esse quadro permite evidenciar a natureza do projeto com o qual estamos lidando:

Fonte: Adaptado de Relatório Balanço da Copa do Mundo 2014 – Ministério do Esporte/2014.

Quando observamos todo esse detalhamento e planificação para a execução de todos os objetos ali apresentados, e voltamos às tabelas (página 77) de exigências da Copa de 1950, constatamos o quanto lidamos com eventos distintos e o quanto a proporção, o impacto e o alcance do projeto cresceram.

Diversamente de 1950, quando os estádios eram o ponto central - em realidade, quase que exclusivo de todo o planejamento daquela Copa -, os estádios no projeto de 2014, embora ainda importantes (já que são neles que o evento esportivo realmente se realiza) são o carro chefe de um projeto muito maior que eles. Para a Copa de 2014, o projeto de estádio de futebol engloba não apenas seu interior, mas sim todo o entorno. Apenas para a construção de um estádio Padrão FIFA, existe um manual de requisitos técnicos específicos. O último Manual Técnico Oficial da FIFA de recomendações para construção e/ou reforma de estádios de 2011 tem 217 páginas, divididas em doze itens bem esmiuçados. Abaixo apresentamos esses itens, com exceção de um que se relaciona ao Futsal e ao Futebol de areia. Totalizam-se, então, onze itens que estão inclusos nos Estádios de Futebol de Campo, como por exemplo; localização, questão ambiental, segurança, heliponto, dimensão dos bancos, tipos de gramado, aquecimento, serviços de área VIP, assentos de torcida, área de mídia entre outros (FIFA, 2011).

A FIFA, atualmente, exige no mínimo oito estádios com capacidade para mais de 40 mil assentos - o da abertura e encerramento deve contar com mais de 60 mil; e, ao contrário de 1950, os estádios não deveriam ter alambrado, e conter apenas cadeiras: a arquibancada de cimento está banida do novo modelo.

Tais exigências fortalecem o processo de padronização dos estádios imposto pela FIFA e mantido pelas federações. Esse novo padrão teve início na Inglaterra dos anos 90, amparado numa política de diminuição da violência nos estádios, mas que, ao decorrer dos anos, acabou alinhado a um princípio de mercado que começava a se tornar presente no esporte. O estádio de futebol se tornou, com isso, um equipamento ainda mais complexo,

tornou-se um edifício que passa a agregar uma série de outros serviços, como bares, sala VIP, lojas, entre outros, além de tornar-se um espaço multiuso para além do esporte (SHEARD, 2005 apud NASCIMENTO e BARRETO, 2013, p. 5). Mascarenhas (2013, p. 159) afirma que o:

[...] atual “modelo FIFA” concebe o moderno estádio como equipamento destinado a um público específico, “figurante”, seleto, solvável, disposto a pagar caro por tecnologia, conforto e segurança. Um público “familiar” e “ordeiro”, que vai ao estádio consumir o espetáculo e não buscar tradicionais formas de protagonismo que não interessam ao novo modelo hegemônico.

Quanto à localização dos estádios em 2014, apesar de não haver a necessidade, o Brasil optou por escolher doze sedes - a FIFA aceitava o número de dez, que era o planejado inicialmente. Porém, devido ao interesse do governo federal, dos governos estaduais e municipais em receberem os investimentos federais e privados, o projeto de estádios foi ampliado. Lourenço (2014) afirma que, em questão de estádios, o Brasil apresenta três características importantes, que ajudam a compreender esse aumento nas sedes da Copa:

[...]a tradição política brasileira de investimento governamental na construção das praças esportivas, sejam elas públicas ou privadas, a tardia preocupação com a adequação das instalações dos estádios, segurança, conforto e infraestrutura de acesso e consumo; e ainda o oportunismo de diversos atores envolvidos no (super) faturamento de obras (LOURENÇO, 2014, p. 139).

Se, em 1950, o gigantismo era concentrado no Maracanã, em 2014, toda nova escolha, decisão, cada passo na execução do projeto da Copa do Mundo de 2014 era de alguma forma promovido com publicidade: existia uma necessidade constante de promoção do evento. As doze cidades sedes da Copa foram reveladas em 31 de maio de 2009, no 59º Congresso Anual da FIFA em Nassau, nas Bahamas (FIFA CONFIRMA..., 2009). O anúncio foi realizado cinco anos antes do mundial – isso se contrapõe ao processo de 1950, em que as sedes foram sendo escolhidas ao decorrer da preparação. Além disso, em 2014, havia todo um processo de candidatura das sedes, que se iniciou com vinte e duas cidades; ao final, dezessete foram para a eleição, na qual doze foram escolhidas; seis delas eram as mesmas da Copa de 1950: Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Recife e Belo Horizonte, com a adição de Cuiabá, Manaus, Salvador, Fortaleza, Natal e Brasília. Entre os estádios, apenas o Maracanã estaria presente novamente. Foi levado em conta o projeto apresentado por cada cidade; no entanto, aparentemente cidades como Amazonas e Cuiabá, que não apresentam uma forte cultura do futebol, foram bonificadas por serem regiões importantes para o turismo

nacional: a Amazônia e o Pantanal, respectivamente. Brasília, por sua vez, ganhou um dos maiores estádios por ser a capital do país, mesmo sem ter um grande time.

Dos doze estádios utilizados, cinco foram construídos especialmente para a Copa de 2014 (Arena da Amazônia, Arena Pantanal, Arena Corinthians, Arena das Dunas, Arena Pernambuco). Mané Garrincha e a Fonte Nova foram reconstruídos, o primeiro foi parcialmente implodido e o segundo totalmente. Todos os outros passaram por uma série de reformas, que podem ser consideradas muito mais como remodelação do estádio, já que nenhum deles se encaixava nas recomendações completas da FIFA. A importância de os estádios estarem no Padrão FIFA era tão grande que houve um congresso apenas para isso, direcionado às cidades sedes escolhidas (LOUSADA, 2009).

Em 2014, o interesse em construir ou reformar os estádios se apresentou como uma possibilidade de reformulação desses espaços, principalmente os ligados aos clubes profissionais de futebol, tornando-os, assim, em focos de investimentos econômicos. Nesse cenário, o estádio se tornou, sobretudo, uma fonte de receita financeira para os clubes e os espectadores adquiriram como marca principal o caráter de torcedor consumidor. Para as cidades sem uma cultura forte do futebol ou um grande time, por sua vez, a construção do estádio visava os possíveis investimentos que viriam para o estado e para cidade por meio da Copa e apresentava-se como uma nova possibilidade de fortalecer o futebol nessas regiões.

Na tabela 5 abaixo apresentamos os estádios e suas capacidades. Para os estádios que existiam antes da Copa do Mundo, expomos a capacidade antes e depois do evento.

Tabela 5 - Estádios Copa do Mundo de 2014

Estádios Cidade Sede Capacidade

Antes Depois

Arena Amazônia Manaus - 44.480

Arena da Baixada Curitiba 28.000 42.381 Arenas das Dunas Natal - 42.024*

Arena Pantanal Cuiabá - 44.335*

Arena Pernambuco

Recife - 46.000

Beira Rio Porto Alegre 56.000 50.128

Castelão Fortaleza 60.000 63.763

Fonte Nova Salvador 60.000 55.045*

Itaquera São Paulo - 68.000*

Mané Garrincha Brasília 45.400 72.777

Maracanã Rio de Janeiro 89.000 78.639

Mineirão Belo Horizonte 75.000 62.170

Fonte: Relatório Balanço da Copa do Mundo 2014 – Ministério do Esporte/2014. Elaboração própria. *Estádios com assentos removíveis, capacidade aumentada para o mundial.

Assim, estamos lidando com algo completamente distinto daquele evento que foi realizado em 1950, muito pelo caráter econômico e de mercado em que o evento e o próprio futebol se inseriram. Se, na Copa de 50, os números representavam a consolidação do futebol e o novo patamar que esse esporte buscava, em 2014, mais do que nunca os números representam o sucesso e o lucro.

A Copa do Mundo de 2014 atendeu a um público de 3.429.873 milhões (FIFA, 2015), uma média de 53.592 por jogo. Esse foi o segundo maior público das Copas, perdendo apenas para os Estados Unidos em 1994, que recebeu 3.587.538 milhões de telespectadores in loco. O Maracanã continuou sendo o maior representante em termos de público, mas, ao contrário de 50, a diferença foi pequena, já que todos os estádios tinham uma capacidade acima dos 40.000 torcedores e praticamente todos os jogos atingiram capacidade máxima de lotação.

Outra contradição que evidencia o caráter mercadológico da FIFA é quanto à arrecadação do valor do ingressos. Em 1950, a entidade apresentava de forma detalhada como se daria a arrecadação e a distribuição desse dinheiro; em 2014, isso não ocorre, mas a partir desse mundial, a entidade passou a ficar com todo o valor da arrecadação. Até 2010, esse valor era direcionado ao Comitê Organizador Local (CAPELO, 2015). Foram arrecados em 2014 cerca de 476 milhões de dólares (FIFA, 2015), mais de 1,5 bilhões de reais. Os ingressos variavam entre 30 e 1980 reais, com uma média de preço de cerca de 541,87 reais. Observaram-se vinte valores de ingressos diferentes, relacionados à posição do assento no estádio e à fase do jogo.

Outro fator acarretado pelo grande número de estádios foi o acréscimo no número de profissionais dentro do Comitê Organizador, pois cada estádio deveria ter um grupo de responsáveis. No Organograma do Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2014 (COL), formado pela FIFA, observa-se o modelo amplo que se tornou a Copa do Mundo. Se antes não se necessitava de um aporte tão grande de pessoas envolvidas para realização do evento, o atual modelo exige um número cada vez maior. A figura 15 abaixo apresenta todas as divisões de atuação, que têm subdivisões específicas, acrescentando mais mão de obra ao evento. No Brasil, o comitê era formado por mais de 400 pessoas, com formações técnicas em diversas áreas, além das quais havia mais um grande grupo de subordinados. Isso caracteriza o modelo de evento sobre o qual discorremos.

Figura 15 - Comitê Organizador Copa 2014

Fonte: Adaptado de Globo Esporte29.

A partir desse organograma, pode-se observar a organizar específica realizada pelo governo federal junto às sedes da Copa. Foi criado o comitê gestor da Copa (CGCOPA): “Formado por 16 Ministérios e sete órgãos de assessoria da Presidência da República, o Comitê Gestor tem a missão institucional de definir, aprovar e supervisionar todas as ações necessárias à realização da Copa no Brasil em 2014” (MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2011, p.15). Vinculado ao CGCOPA, foi criado o Grupo Executivo da Copa (GECOPA) formado por cinco membros fixos do executivo nacional: Ministério da Casa Civil, Ministério do Esporte, Ministério do Turismo, Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão e o Ministério da Fazenda (MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2011). O objetivo do GECOPA era “coordenar e consolidar as ações, estabelecer metas e monitorar os resultados” (MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2011, p.14). A figura 16 nos apresenta a relação entre os comitês e como eles se direcionam as cidades sedes:

29

COSTA, Felipe. SEDA, Vicente. 2014. Em valor médio de ingressos, ver Brasil em 50% equivalia 7,7% de 2014. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2014/03/em-valor-medio- de-ingressos-ver-brasil-em-50-equivalia-77-de-2014.html. Acesso em 20 out 2018.

Figura 16 - Comitês organizadores da Copa e as cidades sedes

Fonte: Relatório Balanço Copa do Mundo 2014 – Ministério do Esporte/ 2011.

Há tanta necessidade de trabalho numa Copa do Mundo atualmente que a FIFA, nos últimos mundiais, adotou o trabalho voluntário como uma forma de dispor de mão de obra sem tantos gastos. Isso possibilitou a pessoas externas a chance e a experiência de trabalhar em um grande evento esportivo, ainda que se questione esse tipo de atividade para uma entidade tão rica. Uma das principais funções desses voluntários se deu nos estádios e entorno: ficaram responsáveis pela informação e organização do público dentro daquele espaço. O modelo da Copa se ampliou de forma grandiosa, possibilitando diversas formas de exploração.

Essa ampliação chegou também à competição. Desde 1998, a Copa tem trinta e duas seleções participantes, o dobro de competidores oficiais em relação a 1950. As vagas são divididas entre todos os continentes, matematicamente de acordo com o número de países, que competem em um processo de eliminatórias continentais com duração de cerca de dois anos; ou seja, apenas os melhores chegam à Copa do Mundo. Essas vagas são distribuídas da seguinte maneira: treze países da União Europeia, cinco da América do Norte e Central, quatro da América do Sul, quatro da África e quatro da Ásia; duas vagas serão disputadas pela repescagem e uma se reserva para o anfitrião da Copa.

Ao contrário de 1950, dificilmente uma seleção recusaria a participação nesse novo modelo, sobretudo ao considerar-se, num primeiro momento, que, na atualidade, a locomoção entre continentes é cada dia mais fácil, rápida e confortável; contudo, o principal

motivo para a participação em um mundial é que ela atrai benefícios simbólicos e principalmente financeiros: apenas por participar, uma seleção recebe cerca de 8 milhões de dólares (CAPELO, 2014). A FIFA destinou cerca de 576 milhões de dólares em prêmios. As seleções receberam US$1,5 milhão para a preparação pré-mundial e, depois, o valor variava de acordo com a posição ao final da competição. O campeão receberia US$35 milhões; o segundo lugar, US$25 milhões; o terceiro, US$22 milhões, e o quarto, US$20 milhões; do quinto ao oitavo, US$14 milhões; do nono ao décimo sexto, US$9 milhões; e do decimo sétimo ao trigésimo segundo, US$8 milhões.

A Copa de 2014 durou um mês, ocorrendo entre 12 de junho e 13 de julho, com um número total de 64 jogos. Os países foram divididos igualmente em oito grupos de quatro seleções; nesse novo modelo de competição totalmente profissional, não ocorreria de um dos grupos ter menos seleções ou jogar menos jogos, se isso não fosse previamente estabelecido, além de o risco de abandono ou exclusão serem bem menores que em 1950. Em 2014, os 64 jogos foram distribuídos entre os estádios por meio da análise logística - eles não foram escolhidos de forma aleatória; a seleção brasileira jogou em quatro cidades. Ao contrário de 1950, quando os jogos se concentraram no Rio de Janeiro e apenas um ocorreu em São Paulo, em 2014, como a organização foi feita de maneira prévia e independente da seleção, a seleção brasileira acabou não jogando no Maracanã, já que sua única possibilidade era se chegasse a final do mundial, o que não ocorreu.

Contudo, a despeito da análise logística, não há como negar que algumas cidades foram favorecidas: o contexto hierárquico ainda se manteve também em 2014. Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília são alguns dos principais centros do país em termos de economia e política, sendo a última a capital federal. E as três primeiras cidades também se localizam como importantes centros do futebol no país. Essas cidades estiveram presentes em quase todas as fases do mundial.

Na tabela 6 abaixo vemos a distribuição de jogos de acordo com cada estádio:

Tabela 6 - Número de Jogos por Estádio em 2014

Estádios Nº de jogos por

estádio

Arena Amazônia - Manaus 4

Arena da Baixada - Curitiba 4 Arenas das Dunas - Natal 4

Arena Pantanal - Cuiabá 4

Arena Pernambuco - Recife 5 Beira Rio - Porto Alegre 5

Castelão - Fortaleza 6

Fonte Nova - Salvador 6

Itaquera - São Paulo 6

Mané Garrincha - Brasília 7 Maracanã - Rio de Janeiro 7 Mineirão - Belo Horizonte 6

Fonte: 2014 FIFA World Cup Brasil - Technical Report Statistics30. Elaboração própria.

Até aqui conseguimos observar a grande distinção que existe entre os dois mundiais. Contudo, vários outros pontos nos ajudam a visualizar como essas Copas do Mundo foram diferentes; um deles é a organização de um evento pré-teste, a Copa das Confederações, que acontece um ano antes do mundial e reúne o país anfitrião e os campeões continentais em um modelo semelhante à Copa, mas com menos competidores. Essa Copa tem o objetivo de observar a preparação, organização e as estruturas do país para receber o evento maior que seria exatamente um ano depois. A Copa das Confederações é uma Copa do Mundo compacta: ainda que não chegue aos números da mesma, a sua construção e promoção se aproxima muito do principal evento. Eram oito seleções distribuídas em dois grupos de quatro; os jogos foram realizados em seis cidades com estádios prontos para o mundial. Assim como para a Copa do Mundo, houve um evento oficial para o sorteio dos grupos (FONSECA, 2012). Por mais que a Copa das Confederações não tenha o mesmo apelo comercial e competitivo, a FIFA procura manter todas as honras que lhe são permitidas para promover seus produtos.

Isso nos leva a outro ponto extremamente relevante: a FIFA hoje tem a Copa do Mundo como sua galinha dos ovos de ouro; graças à sua capacidade de lucro, ela consegue angariar diversos “parceiros”. Eram vinte e dois patrocinadores da Copa do Mundo de 2014,

30

FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DE FUTEBOL (FIFA). 2014 FIFA World Cup Brasil - Technical

Report Statistics. 2014. Disponível em: <https://www.fifa.com/worldcup/archive/brazil2014/statistics/>. Acesso