1.3. As causas do burnout
1.3.1. Variáveis individuais e burnout
1.3.1.4. Coping e burnout
Coping pode ser traduzido literalmente como “adaptação”, “confronto” ou “resposta”. Consideramos como coping os esforços cognitivos e comportamentais para responder a exigências específicas, internas e/ou externas, que são avaliadas como desgastando ou excedendo os recursos do indivíduo (Folkman et al., 1986; Lazarus, 1993; Lazarus & Folkman,1984). Designam-se geralmente por coping as estratégias para lidar com o stress (Vaz-Serra, 1999), ou seja, são “os esforços cognitivos e comportamentais para lidar com o stress psicológico” (Lazarus, 1993, p.237). O coping não é, assim, um traço de personalidade, mas um estado, um processo, pois refere-se a atitudes, pensamentos e comportamentos que as pessoas assumem em determinados momentos perante situações específicas. Exige um esforço, uma gestão das situações (Pais-Ribeiro, 2001), não sendo uma actividade automática.
A perspectiva actual postula uma interligação entre personalidade e coping, acreditando-se que o coping é fortemente influenciado pelas características do indivíduo, especificamente, pelos traços de personalidade. Crê-se, assim, que existem modos preferidos de coping em função da personalidade, o que aparenta ser uma aproximação à teoria dos
estilos de coping. Cada indivíduo adoptaria uma estratégia de coping preferencial de acordo
com a situação (Truchot, 2004). Defende-se que os indivíduos possuiriam um conjunto de estratégias que manteriam mais ou menos estáveis através do tempo e situações e seria o uso repetido de determinadas estratégias de coping que originaria o estilo de coping (Pais-Ribeiro, 2005). Se o processo de coping funcionar de modo ideal, com efeitos positivos imediatos e a longo prazo, pode falar-se em efeitos adaptativos. É um sistema dinâmico e circular, onde os
resultados podem influenciar as variáveis antecedentes (Pais-Ribeiro, 2005). Lazarus (1993) considera que ambas as abordagens do coping como processo e como estilo são essenciais, já que abordam diferentes ângulos do problema.
A literatura aponta para uma relação entre burnout e coping (Maslach, 1998; Pines & Aronson, 1981; Pinto, 2000; Pinto, Lima & Silva, 2000; Pinto, Silva & Lima, 2005; Schaufeli, 1999; Schaufeli & Buunk, 2003; Schaufeli & Greenglass, 2001; Truchot, 2004; Zamora et al, 2004) e especificamente, o uso de estratégias de coping de controlo ou centradas no problema previne o desenvolvimento do burnout enquanto as estratégias de fuga, evitamento ou centradas na emoção facilitam o seu desenvolvimento (Greenglass & Burke, 2002; Leiter, 1991; Pines & Aronson, 1981; Schaufeli, 1999; Tamayo & Tróccoli, 2002; Zamora et al, 2004). Boyle e colaboradores (1991) verificaram que o coping focado na emoção estava positivamente relacionado com burnout. Para Etzion e Pines (cit. in Tamayo e Tróccoli, 2002) níveis baixos de burnout permitem ao indivíduo enfrentar as situações stressantes de forma activa e directa, enquanto níveis altos podem diminuir a energia para lidar com as situações, levando à adopção de comportamentos passivos e indirectos. Melamed e colaboradores (1999) defendem que o burnout reflecte a incapacidade de lidar adequadamente com agentes stressores crónicos.
As estratégias de coping podem ser orientadas para dois objectivos diferentes: a resolução do problema ou o controlo das emoções que o acompanham. No primeiro caso, o indivíduo orienta os seus esforços para resolver a situação que provocou o stress, enquanto no segundo caso tenta diminuir o estado de tensão emocional suscitado por essa situação (Lazarus, 1993; Lazarus & Folkman, 1984; Truchot, 2004; Vaz-Serra, 1999; Zamora et al, 2004). Entre os mecanismos de coping, várias investigações indicam que o coping de evitamento e de escape, definido por Lazarus e Folkman (1984) está associado à presença global de burnout. De forma mais específica, alguns trabalhos associam este tipo de mecanismo ao cansaço emocional e à despersonalização. Menores níveis de burnout estão associados a estratégias de coping centradas na resolução de problemas, percepção positiva, busca de suporte social e estratégias de auto-controlo. Também, as estratégias de coping activas e directas estão associadas a níveis menores de burnout em relação aos associados às estratégias de coping indirectas (Maslach et al., 2001; Zamora et al., 2004) e especificamente o coping de confronto relaciona-se com a realização pessoal (Maslach et al., 2001). Indivíduos com transtornos emocionais tendem a evitar um confronto activo com os problemas, utilizando sobretudo estratégias para o controlo das emoções (Vaz-Serra, Ramalheira & Firmino, 1988, cit. in Vaz-Serra 1999).
Maslach (1998) problematiza a relação burnout-coping, questionando a direcção da influência, isto é, se o burnout leva à utilização de determinadas estratégias de coping, em detrimento de outras, ou se é a utilização preferencial de determinadas estratégias que leva ao maior ou menor burnout, ou ainda se existe uma terceira variável mediadora desta relação, sugerindo um aprofundamento da investigação nesta matéria. Os vários estudos revelam que os indivíduos com estratégias de coping adequadas costumam sentir que possuem um bom controlo das situações, gostando de enfrentar e resolver activamente os problemas, utilizam mecanismos redutores de estados de tensão que não são lesivos da sua saúde e da sua pessoa, não permitindo que a vida quotidiana seja prejudicada pela interferência de stressores e não têm tendência a responsabilizar-se pelas consequências negativas do stress (Vaz-Serra, 1999). Entre os mecanismos de coping para lidar com o stress profissional de forma efectiva, consideram-se como os mais importantes o apoio das pessoas significativas e a relação com os colegas de trabalho. Efectivamente, o aspecto mais estudado na literatura sobre o tema tem sido o suporte social que é considerado como uma das fontes importantes de resistência ao stress (Kobasa, 1982) desempenhando também um papel tanto preventivo como interventivo no burnout (Boyle et al., 1991; Moreno-Jiménez & Puente, 1999; Pines & Aronson, 1981), do qual falaremos no ponto seguinte. Concluindo, referimos Semmer (1996, cit. in Maslach et al., 2001) que define o perfil típico de um indivíduo sujeito ao burnout como apresentando baixos níveis de “hardiness”, baixa auto-estima, locus de controlo externo e estilo de coping de evitamento.